“O que importa na vida não é o ponto de partida, mas a caminhada.” Cora Coralina
O objetivo deste Capítulo3 é apresentar a psicodinâmica do trabalho francesa, que vem sendo replicada no Brasil desde o final dos anos 80, contrastando-a com os estudos que citam esta base teórica e metodológica, mas que sofreram adaptações, ao longo dos anos. Encontrou-se 18 estudos replicados e 19 com adaptações. A partir destes dados, põe-se em debate a Clínica Psicodinâmica do Trabalho brasileira, com foco na escuta clínica do sofrimento.
A Psicodinâmica do Trabalho é uma abordagem científica desenvolvida por Christophe Dejours na França nos anos 1980. Inicialmente, é construída com referenciais teóricos da psicopatologia, evoluindo para uma construção própria em função do avanço das pesquisas e tornando-se uma abordagem autônoma com objeto, princípios, conceitos e métodos particulares (Mendes, 2007).
A transição da Psicopatologia para a Psicodinâmica do Trabalho aconteceu em 1993. Justifica-se a mudança pela proporção que a área tomou e, sobretudo, por seu objeto ser a normalidade, a saúde e não mais a doença; embora o foco continuasse sendo o sofrimento no trabalho, abriu-se espaço para o prazer (Lhuilier, 2011).
A Psicodinâmica do Trabalho é um referencial do campo da saúde mental e do trabalho que tem sido muito utilizado e tem oferecido grande contribuição às pesquisas e intervenções nesta área no Brasil (Mendes, Lima & Facas, 2007). Encontrou-se estudos com intervenções no segmento dos bancários (Barbarini, 2001; Rossi, 2008; Santos-Junior, Mendes & Araujo, 2009; Martins, 2010), com trabalhadores de hospitais (Sznelwar e Uchida, 2004; Traesel, 2007; Magnus, 2009; Beck, 2010), com trabalhadores vinculados a instituições militares na área da segurança pública (Baierle, 2007; Castro, 2010; Müller, 2012). Percebeu- se um número significativo de estudos com servidores públicos: federais (S. C. Lima, 2010; Diniz & Goes, 2010; Mendes, Alves & França, 2011; Merlo, Dornelles, Bottega & Trentini,
2 Agradecimento especial ao pessoal do Grupo on line da Psicodinâmica, que me enviou as dissertações; à Angela Ferreira
que catalogou a base de dados do SciELO e me disponibilizou prontamente; à Juliana Corgozinho pela ajuda para compor a diferença com a psicoterapia de grupo e, por fim, às amigas Angela Ferreira, Claudia Magnus e Juliana Pinto Corgozinho pela leitura atenta e as boas pontuações para a construção deste Capítulo.
3 Este Capítulo serviu de base para a construção de um artigo intitulado “Uma proposta brasileira para a Clínica
Psicodinâmica do Trabalho”, conjuntamente com Ana Magnólia Mendes e Juliana Pinto Corgozinho, para publicação em livro da Universidade Federal de Rondônia, organizado por Vanderleia Dal Castel Schlindwein, em julho de 2013.
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2012; Silva & Mendes, 2012; A. da S. Ferreira, 2013), estaduais (Magnus, 2009; Garcia, 2011; Medeiros, 2012; Garcia, Lima & Moraes, 2013) e municipais (Bottega, 2009; C. F. Lima, 2011; Rosas, 2012; P. A. M. Lima, 2013).
Diante destes estudos, verifica-se que o trabalho pode ser um gerador de saúde, mas também um desestabilizador patogênico; porém, jamais neutro, e, assim, se confirma a centralidade do trabalho enquanto construtora de identidade, conforme pontua Dejours (2011a).
O quadro teórico de referência da Psicodinâmica do Trabalho, baseado em Dejours (2004a) e Ferreira e Mendes (2003), contempla alguns conceitos centrais que partem da organização do trabalho entre o prescrito e o real. Para efeitos didáticos, podem ser assim apresentados: vivências de sofrimento psíquico no trabalho; vivências de prazer no trabalho; estratégias de mobilização subjetiva (espaço público de discussão, cooperação e inteligência prática) e estratégias defensivas (modos de pensar, sentir e agir individuais e/ou coletivos, conscientes ou não) que têm função de adaptação e proteção para evitar o adoecimento, mas não garantem a saúde. Tais defesas podem ter efeito de alienação, uma armadilha para o adoecimento e para as patologias, como as citadas por Dejours (2008b). Todos estes elementos são permeados pelo reconhecimento no trabalho, que se caracteriza como um caminho para a mobilização subjetiva através de: retribuição moral e simbólica às contribuições para a organização do trabalho (esforço e investimento); julgamento de utilidade e beleza, identidade e sentido no trabalho; conhecer para reconhecer. Não é intenção deste Capítulo aprofundar estes tópicos, uma vez que já se encontram amplamente discutidos nos estudos acima elencados bem como em Mendes, (1994); Medeiros, (2002); Traesel, (2007); Bottega, (2009); Garcia, (2011); J. B. Ferreira, Mendes, S. C. da C. Lima, Facas e Ghizoni (2013) e A. da S. Ferreira, (2013).
Destaca-se, entretanto, que “a mobilização subjetiva é caracterizada pelo movimento do sujeito que viabiliza as capacidades de sentir, pensar e inventar para realizar o trabalho” (J. B. Ferreira et al., 2013, p. 101), assim, ela é composta pelas dimensões indissociáveis: inteligência prática, espaço de discussão, cooperação e reconhecimento (Mendes & Duarte, 2013). Trata-se, portanto, de um tema importante para compreender o movimento que aconteceu com os trabalhadores da Associação de Catadores de Material Reciclável do Centro Norte de Palmas (ASCAMPA) durante a prática Clínica, a ser discutida nesta tese.
Assim, a Psicodinâmica do Trabalho é uma clínica do trabalho, pois ‘investiga’ o sujeito em situação real, concedendo um espaço privilegiado para a fala do trabalhador sobre o seu sofrimento no trabalho, em uma perspectiva mais ontológica do que patológica
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(Lhuilier, 2011). Esta mesma autora ressalta a importância da escuta sobre o esforço do sujeito pela vida, apesar do sofrimento, de seus modos de resistência e de suas defesas.
Como clínica do trabalho, uma das suas características originais e também uma das suas dificuldades é a confrontação das “questões políticas da organização do trabalho, a experiência da injustiça, as múltiplas faces da opressão” (Périlleux, 2013, p. 73). Mas, segundo o autor, mesmo tendo uma vocação para a crítica, a clínica do trabalho não se configura como uma ação política, pois, por mais que ela lute contra injustiças e opressões, não é uma luta direta. Não se pode ter de antemão o tipo de ação que será feita. Mesmo que o clínico deseje uma mudança naquela organização do trabalho, o grupo de trabalhadores pode não estar pronto para vivenciar as deliberações, ou até mesmo para dar conta das deliberações discutidas pelo próprio grupo. Ai, talvez esteja o limite do clínico neste espaço de fala e escuta que a clínica do trabalho proporciona.
Observa-se que Dejours (2005) utiliza a concepção de Habermans sobre o “agir” explicitando uma Clínica Psicodinâmica do Trabalho atenta para a ação, e faz isto para criticar concepções de trabalho restritas a questões objetivas, técnicas e estratégicas, uma vez que nesta abordagem a concepção de trabalho é mais ampla.
Em termos mais teóricos, somos assim conduzidos a admitir que trabalho não pode ser compreendido somente pelas categorias clássicas da produção (poïèsis). Ele implica também categorias teóricas da ação (práxis), onde todos os elos intermediários (visibilidade, confiança, julgamento, reconhecimento, arbitragem, discussão, racionalidade comunicativa) são categorias extraídas da ‘teoria da ação’ (Dejours, 2005, p. 61).
A prática desta ação é pontuada por Garcia (2011) na clínica do trabalho e da ação realizada com trabalhadores do Tribunal de Justiça do Amazonas, pois este agir comunicacional “abrange o espaço da fala e da escuta que possibilita a criação de um sentido comum do trabalho e impulsiona a transformação da organização do trabalho” (Garcia, 2011, p. 40). A prática da psicodinâmica do trabalho leva os trabalhadores a construírem soluções coletivamente quando são ouvidos e se ouvem.
Mendes e Araujo (2012), que denominam esta prática de Clínica Psicodinâmica do Trabalho, têm como objeto a escuta clínica do sofrimento e a relação entre o trabalho e o trabalhar como eixo central da constituição do sujeito. “Trabalhar é preencher a lacuna entre o prescrito e o real, e essa experiência é constitutiva da subjetividade do sujeito, tendo o trabalho uma posição central na constituição” (Mendes & Duarte, 2013, p. 15). O trabalho é entendido aqui como uma atividade desenvolvida pelos sujeitos para enfrentar o que não é
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prescrito pela organização do trabalho, o que não está regulamentado, escrito, mas que necessita da inventividade e criatividade do trabalhador para realizar o seu fazer. Assim, o trabalho é central, constituidor do sujeito e dos seus vínculos sociais (Lhuilier, 2011).
Trabalhar é preencher a lacuna existente entre o prescrito e o efetivo. [...] o trabalho se define como aquilo que o sujeito deve acrescentar às prescrições para atingir os objetivos que lhes são confiados; ou ainda o que ele deve dar de si mesmo para fazer frente ao que não funciona quando ele segue escrupulosamente a execução das prescrições (Dejours, 2012a, p. 38)
Tanto Dejours (2005) quanto Mendes e Araujo (2012) compartilham a visão de que trabalho é o que implica o trabalhar, ou seja, o engajamento do sujeito, seus gestos, seu saber fazer, a mobilização da sua inteligência, sua capacidade de refletir, de interpretar, de tomar decisões diante de situações inesperadas. Neste conjunto de sentir, pensar e inventar que o trabalho e, consequentemente, o trabalhar são definidos em psicodinâmica do trabalho, não se limitando às definições associadas a relações salariais ou empregatícias.
Neste contexto, o foco de análise é a organização do trabalho nas diversas dimensões, visíveis e invisíveis, prescritas, afetivas, políticas e éticas (Mendes & Araujo, 2011; 2012). Assim, a organização do trabalho vem sendo especificada pela Psicodinâmica do Trabalho como o local onde todas as pressões sobre o trabalhador aparecem. Conceitua-se a organização do trabalho pelo contraste percebido entre as condições de trabalho sob dois aspectos: a divisão do trabalho (divisão de tarefas entre os trabalhadores, como o trabalho é executado de modo prescrito) e a divisão dos homens (repartem-se responsabilidades, hierarquia, modalidades de comando, relações de poder e controle). A primeira evoca o sentimento e o interesse pelo trabalho enquanto a segunda provoca relações e mobiliza investimentos afetivos, tais como amizade, solidariedade, cooperação e confiança. (Dejours, Dessors & Desriaux, 1993; Dejours, Abdoucheli & Jayet, 1994).
Autores brasileiros tais como M. C. Ferreira & Mendes (2003); Mendes (2008) e Facas (2009) seguem nesta mesma linha e definem a organização do trabalho como uma representação relativa à natureza e à divisão de tarefas, normas, controles e ritmos de trabalho. Para A. da S. Ferreira (2013), o momento atual é de ver a organização do trabalho como o resultado das relações intersubjetivas e sociais dos trabalhadores com a organização da qual faz parte.
Ghizoni, L. D. (2013) 80 desejável, para transformar um trabalho fatigante em um trabalho equilibrante, flexibilizar a organização do trabalho de maneira a deixar ao trabalhador uma maior liberdade para organizar seu modo operatório e para encontrar os gestos que serão capazes de lhe dar prazer, isto é, uma distensão ou uma diminuição da carga psíquica de trabalho (Dejours et al., 1993, p. 104).
Neste contexto, a Clínica Psicodinâmica do Trabalho é um modo de desvelar as mediações que ocorrem entre o sujeito e o real do trabalho. A tradução deste real se dá pela escuta do “clínico” sobre a fala do trabalhador e, assim, pode-se dar visibilidade às situações de trabalho, às vivências dos trabalhadores no seu cotidiano. São pontos importantes da Clínica Psicodinâmica do Trabalho saber como se processa a transformação do sujeito pelo trabalho e como o sujeito se mobiliza para se engajar no trabalho (Mendes, Araújo & Merlo, 2011). Por ser uma clínica, a palavra enquanto linguagem e forma de comunicação é essencial para que o trabalho seja entendido, percebido e ressignificado pelo sujeito. Nessa perspectiva, o trabalho é entendido como uma atividade social que vai sempre exigir um “outro” na relação – trabalhar é viver junto, é compartilhar prazer, sofrimento e defesas (Mendes & Araújo, 2012).
A linguagem, o discurso vivo, o texto sobre o exercício da atividade dos coletivos de trabalho dever ser ‘escutado’ na Clínica Psicodinâmica do Trabalho, pois as formas de reconhecimento, de negação deste, ou os enigmas do real do trabalho permeiam a vida dos sujeitos que se predispõem a falar sobre seus sofrimentos (Dejours & Molinier, 2011).
O trabalhar é carregado de saberes e afetos e implica engajamento do sujeito no “fazer”. Isso provoca o uso da potência criadora e emancipatória do sujeito. Este engajamento do trabalhador é possível com a implementação das estratégias de mobilização subjetiva, que se caracterizam pelos modos de pensar, sentir e agir individual e coletivo dos trabalhadores e fundamentam-se na inteligência prática, no espaço público de discussão e na cooperação. Têm como função emancipar o sujeito, ressignificar o sofrimento, transformar a organização do trabalho em uma fonte de prazer e de saúde (M. C. Ferreira & Mendes, 2003; Dejours & Molinier, 2011; Mendes & Araújo, 2012; J. B. Ferreira et al., 2013).
A inteligência prática caracteriza-se pela inteligência astuciosa, pela engenhosidade, pela inventividade e pelo saber fazer, inovar, mobilizar-se diante do imprevisto (Dejours, 2005). Ela tem raiz no corpo, no conhecimento da tarefa, na habilidade e na intuição dos trabalhadores para fazerem frente à carga de trabalho. É uma inteligência que busca atender aos objetivos da produção criando procedimentos, muitas vezes, mais eficazes do que os prescritos pela organização do trabalho. Assim, trata-se de um recurso para não apenas
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minimizar o sofrimento, mas também transformá-lo em prazer (Dejours, 2004a; Mendes & Facas, 2010; Dejours & Molinier, 2011).
O espaço de discussão é constituído pelo espaço da fala e de expressão coletiva do sofrimento. Caracteriza-se como um lugar no qual as opiniões, eventualmente contraditórias, podem ser livremente formuladas e publicamente declaradas; por acolher opiniões baseadas em diferentes crenças, desejos, valores, posições ideológicas, escolhas éticas, experiência técnica e compartilhamento das ações de resistência; por ser construído pelos trabalhadores de modo coletivo; por ser utilizado para autoexpressão, autenticidade e relação de equidade entre aquele que fala e aquele que escuta (Dejours, 2004a; Mendes & Facas, 2010; Dejours & Molinier, 2011).
A cooperação, por sua vez, é constituída pela possibilidade de ação coordenada visando à construção de um produto comum com base na confiança e na solidariedade. É a convergência das contribuições de cada trabalhador e das relações de interdependência. É a integração das diferenças individuais e a articulação dos talentos específicos de cada trabalhador. É a possibilidade de minimizar, contornar erros e falhas para que o desempenho do coletivo alcance resultados superiores à soma dos desempenhos individuais (Dejours, 2004a; Mendes & Facas, 2010; Dejours & Molinier, 2011).
A inteligência prática e a cooperação existindo num espaço coletivo de discussão tendem a favorecer a mobilização subjetiva, pois o trabalhador mobiliza a sua personalidade em função de uma racionalidade subjetiva particular (Dejours & Molinier, 2011).
Acredita-se que para a mobilização subjetiva ser vivenciada é necessário a clínica acontecer. Porém, dada à subjetividade do processo, do clínico e dos participantes, a clínica é uma construção inacabada. Mendes e Araújo (2011; 2012), ao descreverem a Clínica Psicodinâmica do Trabalho através das condições para tal e dos dispositivos clínicos, propõem uma prescrição orientadora da condução clínica e não uma prescrição definidora de procedimentos. Assim, é central o trabalhar do clínico sua mobilização subjetiva neste fazer e sua condição de sujeito sofrente (Ghizoni & Mendes, 2013).
Na Clínica Psicodinâmica do Trabalho, as indagações estão centradas em questões acerca do vínculo social, das articulações e dos vínculos específicos dos sujeitos e de suas relações. O trabalho é um mediador privilegiado e insubstituível entre o inconsciente e o campo social. O foco está nas ações utilizadas pelos trabalhadores para confrontarem a organização do trabalho, que é responsável pelo modo como as estratégias são construídas e desenvolvidas na medida em que oferece ou não espaços para se falar do sofrimento, para o reconhecimento e para a cooperação, assim, favorecendo à saúde ou o adoecimento. A escuta,
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tendo como pressuposto a Psicanálise, privilegia a questão social, pois considera o sujeito do inconsciente a partir do momento em que é instrumentalizado pela palavra. É fundamental aos trabalhadores que participam da clínica a constituição de um coletivo voluntário, sensibilizado, envolvido com as questões de saúde mental, ou que queiram desenvolver esta competência (Mendes, Araújo & Merlo, 2011).
Pontua-se uma diferenciação nos modos de condução e análise entre a Clínica Psicodinâmica do Trabalho, os grupos focais, as entrevistas coletivas ou de grupo, a entrevista individual e as psicoterapias de grupo. A entrevista de grupo, também chamada de discussão de grupo focal, baseia-se em “gerar e analisar a interação entre participantes em vez de perguntar a mesma questão (ou lista de questões) para cada integrante do grupo por vez” (Barbour, 2009, p. 20). Assim, para esta autora, o diferencial do grupo focal é que nesta metodologia garante-se a conversa, a interação dos participantes entre si e não somente com pesquisador/entrevistador/moderador. É importante que ocorra no grupo focal o debate e a diferença de opinião entre os participantes, pois o objetivo “é estimular os participantes a falar e reagir àquilo que outras pessoas no grupo dizem” (Gaskell, 2002, p. 79). No grupo focal tradicional, para Gaskell, as pessoas não devem se conhecer e o moderador pode utilizar recursos como a livre associação, figuras, desenhos, fotografias, dramatizações, tudo com o intuito de estimular a discussão entre os participantes. Nestes casos, a análise dos dados é feita através da codificação de categorias provisórias definidas pelo pesquisador, gerando temas e categorias interconectados (Barbour, 2009).
A entrevista individual ou de profundidade, por sua vez, é “uma conversação que dura aproximadamente entre uma hora e uma hora e meia. Antes da entrevista o pesquisador terá preparado um tópico guia, cobrindo os temas centrais e os problemas de pesquisa” (Gaskell, 2002, p. 82). Gaskell pontua a necessidade de a atenção ser focada na escuta para entender o que está sendo dito bem como de se preservar as pausas para o entrevistado pensar sobre a pergunta. A análise dos dados utilizando esta metodologia é variada (análise de conteúdo clássica, análise de discurso, etc), mas o objetivo é buscar sentido e compreensão sobre as falas, procurando temas com conteúdo comum (Gaskell, 2002).
As psicoterapias de grupo, por sua vez, irão trabalhar questões individuais em grupo como forma de possibilitar identificação e apoio para o enfrentamento do problema pessoal. É um espaço de compartilhamento dos problemas pessoais com o grupo onde o objeto é análise dos sujeitos na sua totalidade. A circulação da palavra dá ao participante a possibilidade de visualizar novas formas de enfrentamento, de ter noção da sua condição de falta (como humano) a partir da identificação, de ter a chance de ser ouvido e ajudado por
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outros. Ao passo que a Clínica Psicodinâmica do Trabalho, ao promover esta circulação da palavra, tem como objeto de análise o sofrimento no trabalho, pois, a partir das falas dos trabalhadores num coletivo, pode-se chegar à mobilização dos sujeitos para enfrentarem as dificuldades e sofrimentos inerentes ao trabalho.
O que se verifica nestas metodologias é que a diferença se dá sobretudo na profundidade da escuta dos conteúdos manifestos e latentes sobre o trabalho e no tempo para as elaborações e perlaborações acontecerem, questão que as entrevistas individuais, grupais ou o grupo focal não abordam (Mendes & Araujo, 2011). O que se faz na Clínica Psicodinâmica do Trabalho é uma escuta clínica de base psicanalítica sobre o sofrimento do trabalhador. Também é importante que fique claro as diferenças entre a clínica social e a
clínica do sujeito, onde serão postos em análise os conteúdos individuais, que podem ter
elementos do trabalho ou não. Esta “revela um conteúdo do coletivo, um sintoma, sendo por isso necessário uma escuta qualificada” (Mendes & Araujo, 2012, p. 134). A princípio, as autoras acreditavam ser necessário uma experiência em clínica para esta ação, mas com a prática Clínica desenvolvida nesta tese, percebeu-se que a inexperiência da clínica- pesquisadora foi amparada pela supervisão do Coletivo de clínicos, pela formação em clínica e pela análise pessoal.
Diante destas diferentes metodologias de escuta, percebeu-se que a semelhança está na análise do material das sessões em Clínica Psicodinâmica do Trabalho, sobretudo nas adaptações encontradas, tem sido muito próxima das análises de conteúdo propostas por Gaskell (2002), como visto anteriormente, mas que diferem no que tange à construção dos diários de campo e memoriais atrelados à supervisão semanal – todos frutos de interpretação, discussão e deliberação de um coletivo, em sua maioria, clínicos-pesquisadores com embasamento na psicanálise.
Estas especificidades teóricas e metodológicas do campo da psicodinâmica do trabalho no Brasil advêm dos 25 anos de estudos nesta abordagem, desde que a obra A
loucura do trabalho, de Christophe Dejours, chegou ao Brasil em 1987. Cita-se também,
como outro marco, a replicação do método da psicodinâmica do trabalho por Mendes em sua dissertação de mestrado, defendida em 1994. Como se observa, trata-se de uma história densa, mas recente. Talvez por isso existam tantos estudos em psicodinâmica do trabalho utilizando somente a teoria, como observaram Merlo e Mendes (2009), ou com tantas adaptações ao método original de Dejours (1992), como pode ser observado mais adiante na Tabela 2.
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Vale ressaltar que, desde o início, os escritos de Dejours mesclavam categorias da Psicologia, da Psicanálise, da Ergonomia e da Sociologia do Trabalho para pensar o papel do trabalho na busca pelo equilíbrio psíquico que os trabalhadores devem estabelecer para se