Buscou-se, ao longo das sessões, fazer as interpretações sobre as falas do coletivo como forma de preservar o indivíduo; porém, algumas questões foram pontuais, pelo fato de o sujeito ocupar uma função de gestão na Associação e a forma desta administração ser uma questão central para o sofrimento dos catadores.
Havia certo medo da clínica-pesquisadora em desnudar durante as sessões, o sofrimento da ocupação de catador, uma vez que este público já sofre com a exclusão do mundo do trabalho e da sociedade em geral. Porém, percebeu-se que buscar o elo entre sofrimento e trabalho, desmontando as defesas, foi um caminho necessário para a mobilização subjetiva acontecer.
Os catadores afirmaram que a catação os curou de doenças do corpo e da mente, muitos relacionaram a forma de vida que tinham antes do início dessa atividade (doentes, sem trabalho, sem dinheiro, sem comida) com o momento atual (têm um trabalho, tem dinheiro todo dia, planejam seu horário, não têm patrão, não têm controle de chefias).
Observa-se que ao trabalharem com a catação, recolhendo, triando e aproveitando o que os outros não querem mais, estão reciclando a própria saúde, porém não sem sofrimento. Falaram sobre a vergonha que os filhos sentem da ocupação deles “Eles [os filhos] acham
que a reciclagem é o pior trabalho do mundo. (...) Eles [os filhos] não querem, mas eu faço tudo por causa deles me dar muito prazer, o meu serviço é esse” (Transcrição da 3a
Sessão, 03 mar 2012). Há vivências de sofrimento com a discriminação das pessoas que acham que todo catador é alcoolista, drogado e morador de rua. “(...) Eu há cinco anos atrás eu tinha um
problema muito sério de saúde e a reciclagem me curou, porque eu ficava naquela mente, daquele problema, daquela doença que ficava dentro de mim (...) Eu vivia com uma depressão danada e aquela revolta em mim. (...) Então a reciclagem pra mim eu me orgulho muito eu acho que, eu me sinto bem na reciclagem, porque antes eu era um cozinheiro de forno e fogão, confeiteiro, trabalhei 30 anos pros outros e hoje eu sou patrão de mim mesmo,
Ghizoni, L. D. (2013) 151 eu me orgulho do trabalho que eu faço. (...) Muitos catadores não falam, não é um nem dois muitos catadores, não é um e nem dois, é o apelido de catador é pé inchado, estou mentindo? Não, é verdade” (Transcrição da 3a
Sessão, 03 mar 2012).
Escutar esta relação de prazer-sofrimento com a ocupação mostrou que é possível trabalhar e ser feliz, mesmo diante da sujeira, do descontentamento familiar, da desaprovação da sociedade, da invisibilidade. Os catadores conseguem atrelar prazer a saúde. “Porque
aprendi a catar, aprendi a sobreviver. (...) Tá no sangue. (...) Não é questão de gostar ou não, é um trabalho como qualquer outro, todo trabalho que você se dedica vai em frente e veja bem, a partir da reciclagem comecei a ver pessoas que realmente eram verdadeiras, catador, seja pessoas que dão reciclagem, pessoas que não dão reciclagem, pessoas que olham torto, pessoas que olham bem, como já passei por pessoas (...) que olham com cara de asco, de nojo, ‘Ah, fedido ali’; é o fedido mas o meu dinheiro tá no bolso, eu garanto que aquele que está falando fedido não tem um tostão” (Transcrição da 3a
Sessão, 03 mar 2012). O gosto pela ocupação de catador foi ponto de discussão em algumas supervisões, pois parecia difícil para as clínicas-pesquisadoras admitirem que aquele trabalho, mesmo precário, sujo, cansativo, com pouquíssima remuneração, e desgastante, pudesse ser bom. Em alguns momentos, as clínicas cogitaram o porquê de eles não buscarem outra ocupação, tais como: empregada doméstica, cortador de grama, auxiliar de serviços gerais. Naquele momento, interpretava-se como uma falta de opção dos catadores, mas, depois, compreendeu-se que ser catador, mesmo frente às adversidades, era algo que trazia identidade a eles, satisfação por dizerem que têm uma ocupação reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, uma ocupação com apoio da Presidência da República, que fazem parte de um grupo que tem um movimento nacional que os convoca para congressos por todo o País para debaterem o lugar deles na sociedade. E isto os faz perceberem que o mundo é bem maior que o da Associação: “(...) esse nosso serviço é um serviço social, é mais que social,
nós limpamos a cidade nós trabalhamos de graça, e eles não veem isso, porque dinheiro vem, porque o que custa não vem dinheiro pra saúde ‘não vem dinheiro de não sei o quê’ e o dinheiro já vem, o presidente Lula [embora a presidente seja Dilma há 1 ano] já deu o decreto desse dinheiro, todos os anos vinha aquela quantidade para o meio ambiente agora eu não sei onde é que esse dinheiro se enfia” (Transcrição da 2a Sessão, 25 fev 2012).
Analisa-se que os comentários dos catadores sobre o que veem acontecer em termos políticos na cidade de Palmas-TO, os faz perceber que a ASCAMPA não é reconhecida, portanto, há necessidade de luta do coletivo para esta conquista de visibilidade: “O colégio
Ghizoni, L. D. (2013) 152 quadra [de esportes] que tão fazendo lá dentro, foi doada, a Associação não tem esse direito de ganhar? É porque não querem ajudar a gente, eles não querem, ali foi doado, não foi nada comprado” (Transcrição da 2a
sessão, 25 fev 2012).
Conhecer a trajetória dos catadores, como eles chegaram a ser catadores, foi importante neste processo de interpretação sobre o sofrimento, pois todos relatavam estar em condição melhor do que antes. “O médico proibiu de eu trabalhar, ser burro de carga dos
outros eu falei então: ‘Bom então o senhor divide o seu salário, que eu tenho filhos pra dar de comer, tem a despesa da casa pra mim ficar de repouso durante quatro meses’. (...) Foi onde eu conheci, eu já estava antes [catava individualmente] mas só que eu não tinha entrado em associação nenhuma, aí ele me chamou pra fazer parte, eu fui e gostei da experiência e estou até hoje e tá no sangue” (Transcrição da 3a Sessão, 03 mar 2012).
Os catadores vinculados à ASCAMPA trabalharam anteriormente como: empregadas domésticas, passadeiras, agricultoras(es), moradores do trecho (viver de cidade em cidade sobrevivendo da catação de latinhas), cozinheiros, carregadores de caminhão (chapa, estivador) e pedreiro. Observa-se em comum a precarização das ocupações, sem vínculos empregatícios estáveis; porém, todos têm em comum terem optado por morar em Palmas, uma cidade nova, em busca de oportunidades. “Eu tenho segundo grau, mas eu optei por esse
trabalho, porque desde os dez anos eu trabalhava como doméstica então a gente não pode ficar o tempo todo no lugar só diretamente tem de mudar de setor. Então eu me sinto privilegiada. (...) Eu sou pedreiro e sou muito mais de trabalhar catando do que trabalhar na colher. (...) Eu sempre trabalhei de doméstica, não encontrava forças nem pra lavar roupa, nem passar, nem fazer nada, (...) eu tava cansada das portas pra procurando serviço. (...) Eu mesmo alcoólatra eu vivia nas cachaças através das latinhas que pegava eu não pedi como muitos fazem ai, catava as minhas latinhas, eu aprendi fazer reciclagem por causa de álcool, falta de dinheiro no bolso” (Transcrição da 3a
Sessão, 03 mar 2012).
Interpreta-se que o sofrimento também advém da comparação com a ocupação de catadores de outros estados da federação: “Tem algumas cidades que o catador tem respeito,
não é todas, tem muitas cidades que o catador tem respeito, só aqui que não tem, você vem trabalhando certinho e os caras chegam agredindo não quer ouvir a gente, será que só a razão é a deles?” (Transcrição da 2a
Sessão, 25 fev 2012)
Observa-se que a forma de catação é livre, cada catador faz do se jeito, não há horário para tal, e isso faz com que relatem que mesmo passeando, com roupas melhores, não hesitam quando veem um objeto nas lixeiras ou ruas da cidade e vão juntando. “O dia que a
Ghizoni, L. D. (2013) 153 (...) se eu vou elegante ou se eu não estou elegante, eu não estou nem aí se chama de lixeira que for, importante eu estou catando honesto não estou matando, não estou roubando, não estou me prostituindo, não estou vendendo drogas, não estou fazendo nada de errado, estou ganhando do meu suor. Os meus filhos gostando ou não gostando” (Transcrição da 3a
Sessão, 03 mar 2012).
Nas sessões iniciais, interpretava-se com muita angústia a dificuldade dos catadores colocarem as ideias em prática. Ao serem indagados, pois sabiam o que fazer e não faziam, respondiam: “Não fizemos ainda nada, é que a gente tem que sentar, não conversamos ainda
nada” (Transcrição da 2a
Sessão, 25 fev 2012). Percebia-se com a ajuda da supervisão que se precisava de tempo, havia a necessidade de desmontar o sistema defensivo que os deixava inertes, por serem fracos, poucos, desarticulados e pequenos diante da sociedade, para reconstruir este sistema, deslocando-o. Era papel das clínicas pesquisadoras enfatizar, naquele momento, o elo entre o sofrimento e o trabalho. A forma como estavam se organizando e atuando estava provocando sofrimento; portanto, era necessária uma mudança, coletiva, sobre a organização do trabalho, no caso da gestão da ASCAMPA.
Pela inexperiência da clínica-pesquisadora com a escuta clínica, fazer as interpretações durante as sessões era difícil. Havia uma grande tendência à racionalização, a querer se envolver com a ação participativa, a provocar o agir: “E o que é possível a gente
fazer diante disso que vocês estão me dizendo aqui, cada um que está nesse grupo aqui pode fazer pra mudar essa situação, como já foi falado, dessa pressão, dessa fiscalização; essa angústia que se tem desse mal estar de só receber pressão, pressão, pressão e não ter ajuda de lugar nenhum; a falta de união dos catadores, o que a gente pode fazer nesse meio tempo pra que vocês fiquem melhor?” (Transcrição da 2a
Sessão, 25 fev 2012).
Assim, foram imprescindíveis as supervisões com o Coletivo de clínicos após cada sessão, com pontuações sobre a condução da sessão, ao se fazer a leitura das transcrições e a análise dos diários de campo. Para que juntos, o Coletivo de clínicos fizesse as interpretações e decidisse sobre o conteúdo do memorial, que por sua vez, daria o tom da sessão.