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6. Konklusjon

Os etnofaulismos, conforme exemplificamos ao longo desta seção, podem ser divididos em dois grandes grupos, segundo distinções que dizem respeito a quem a injúria se refere. Ao longo da pesquisa, foi possível observar que, uma vez envolvidos grupos étnicos ou sociais, esses figuravam em dois cenários, a saber:

(i) o grupo é alvo de uma injúria, a qual é feita por meio de um item lexical cunhado, especificamente, para servir como ofensa (no português, é o caso de “gambé” para referir-se a um policial ou “gringo” para designar um estrangeiro);

(ii) o grupo étnico ou social em questão não é o alvo da injúria, mas o nome que os designa é utilizado para se referir a qualquer indivíduo (parte desse grupo ou não) de maneira pejorativa (caso de “português”, usado para referir-se a alguém de pouca presteza de raciocínio ou ignorante, ou “xiita”, para designar um indivíduo muito radical nas ideias ou crenças — não necessariamente religiosas ou políticas).

Para (i), o que se verifica, na obra lexicográfica, é a primeira acepção reportada (em muitos casos, a única) já como pejorativa, geralmente, acompanhada de uma marca de uso que indique tal valor. Neste trabalho, denominamos esse tipo de injúria como INJÚRIA ÉTNICA; em (ii), a primeira acepção será o sentido denotativo, ou seja, aquele que se refere à designação do grupo. O sentido conotativo é apresentado em outra acepção que não é a primeira — e que pode ser acompanhada de uma marca de uso — e os chamamos de ETNÔNIMOSINJURIOSOS.

As referências pejorativas “youpin” e “kike” são usadas para se referir a judeus e compõem um exemplo de injúria étnica, em francês e inglês, respectivamente. Por outro lado, referir-se a um indivíduo, que não é da religião judaica, como “juif” ou “jew” — ainda nessas mesmas línguas — é tomar um estereótipo tido como próprio dos judeus (a avareza) para dizer que aquele indivíduo compartilha desse mesmo traço de caráter. Certamente, é a

palavra que, denotativamente, nomeia um povo e que se tornou, conotativamente, uma injúria. “Youpin” e “kike” são injúrias étnicas, portanto, e “juif” e “jew”, etnônimos injuriosos. No português brasileiro, a fim de ilustrar essa diferença, poderíamos citar “cabeça- chata” como uma injúria étnica motivada por um aspecto físico e que se refere aos nortistas; os etnônimos “baiano” e “paraíba”, por sua vez, correspondem a ofensas que podem ser usadas para designar um indivíduo “simples de modos rústicos que ger. mora na roça” (AULETE DIGITAL, s.d., s.v. baiano) ou uma “mulher de aspecto e comportamento masculinos” (HOUAISS, 2009, s.v. paraíba), respectivamente.

Tanto as injúrias étnicas, como os etnônimos injuriosos pautam-se por estereótipos e pré-concepções. O caso de “baiano” parece ter o sentido pejorativo motivado pelos hábitos e à simplicidade de modos desse povo, algo que se associa ao “caipira”. Com efeito, muitos dicionários fazem remissão à entrada “caipira” ao reportar tal acepção. “Paraíba”, por outro lado, parece ter o sentido supracitado associado a uma canção, conforme nos relata a nota etimológica do dicionário Houaiss:

[…] p.metf. valorativa, é atribuído à mulher forte e lutadora da região; no sentido de 'mulher macho', ocorre no baião Paraíba (Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950), cuja letra, referindo-se ao Estado da Paraíba, diz Paraíba masculina, mulher-macho, sim senhor; a partir desses signf. fig. desenvolveram-se novas acp., esp. as pej. (HOUAISS, 2001, s.v. paraíba).

A fim de apresentar outros exemplos de tais conceitos, tomemos, primeiramente, o verbete de “gascão”, do dicionário Aurélio. O sentido primeiro é aquele do indivíduo originário de uma região da França, a Gasconha. Entretanto, como marca o dicionário com a etiqueta “figurado” há um sentido conotativo para esse mesmo item lexical. Uma pessoa que se refere a outra como “gascão” pode estar se referindo ao fato de esta última alardear bravatas que, em realidade, não as realizou. Não parece ser esse um elogio ou mesmo uma simples observação de um indivíduo sobre o outro, sem um valor de julgamento.

gascão [Do fr. gascon.] Adj. 1. De, ou pertencente ou relativo à Gasconha (França). S. m. 2. O natural ou habitante da Gasconha. 3. Gloss. Língua românica (também classificada como dialeto) dessa região; occitânico. 4. Fig. Fanfarrão, parlapatão. (FERREIRA, 2010, s.v. gascão)

Para exemplificar um caso de injúria étnica a partir de seu verbete, no dicionário, veja- se como o dicionário Houaiss define “cabeça-chata”:

cabeça-chata s.2g. (sXX) B 1 pej. indivíduo que nasceu no Nordeste do Brasil, esp. no Estado do Ceará 2 HERP m.q. BOIPEVA (Waglerophis merremii) 3 ICT tubarão costeiro, da fam. dos carcarrinídeos (Carcharhinus leucas), de ampla distribuição nas águas quentes do mundo, atingindo baías e estuários, com cerca de 3,5 m de comprimento, de cor cinza a marrom, olhos pequenos e circulares, fendas branquiais moderadamente longas; são vivíparos e possuem saco placentário; baiacu, cação-baía, cação-do-raso, tubarão-de-água-doce [Sua carne é consumida fresca ou defumada, sua pele us. como couro, suas nadadeiras em sopas e do fígado se extrai óleo; de hábitos costeiros, é um dos mais perigosos tubarões, e responsável por vários ataques.] ⦿ GRAM pl.: cabeças- chatas (HOUAISS, 2009, s.v. cabeça-chata)

Observa-se que a primeira acepção já é aquela pejorativa, devidamente marcada como tal. O dicionário não oferece outras informações, como etiquetas diatópicas ou notas de uso/enciclopédicas que explicariam as origens preconceituosas de tal alcunha.

Entretanto, essa análise pode não ser tão simples como a exemplificada a partir de “gascão”, exigindo informações outras além da ordem das acepções e/ou presença ou ausência de marca de uso; ou ainda, a ausência de todo um sentido no dicionário — como é o caso de “português”, mencionado na seção 1.2.

Tomamos, portanto, o termo cunhado por Roback (1944) como um hiperônimo das categorias que aqui identificamos, já que “etnofaulismo” pode ser utilizado para ambos os casos, uma vez que Roback os elenca, sem fazer distinção, em seu dicionário. Assim, propomos uma subcategorização dos etnofaulismos, ao entender “alusões depreciativas a estrangeiros” como sendo aquelas que também emprestam a palavra que nomeia um grupo estrangeiro — no sentido latino extraneus — e a imagem estereotipada a ele associada como forma de insulto a outros.

Casos como o de “boêmio” e “filisteu”, povos que não recebem mais essa denominação, mostram que a ofensa pode não ser ressentida por aqueles que um dia foram conhecidos por essa denominação. Outro caso semelhante é o de “liliputiano”. Por se tratar de um povo fictício da obra As Viagens de Gulliver, não há como se pensar que um liliputiano possa se ofender por ter a designação que nomeia seu povo utilizada como injúria para designar alguém mesquinho ou medíocre.

Entretanto, ainda que esses povos não existam (mais) e não se ressintam quanto ao fato de que o nome que os designa estar em uso para atribuir-se a alguém uma característica que lhes foi, em algum momento, e por algum motivo, atribuída, cabe aqui reflexão sobre o processo que leva à formação desse tipo de injúria, isto é as motivações de ordem estereotípica e preconceituosa.