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Trabalhando a imagem aérea da bacia hidrográfica do Córrego Palmital, em que se evidenciou o seu percurso da nascente à foz, situando algumas referências de identificação do cotidiano do bairro, pode-se perceber entre todos os entrevistados o desejo de entendimento da imagem, bem como a importância dada a cada detalhe de identificação: da igreja; do escritório da Prefeitura; da casa; do conjunto dos prédios; do local de onde a casa foi removida etc. Essa imagem, abrangendo a inserção do bairro na região, facilitou o entendimento do significado da degradação provocada pela ausência de saneamento na cabeceira de um córrego, o que justificou a importância do projeto de saneamento e a qualificação urbana do bairro, inserindo-o no conjunto da cidade. Na segunda imagem, que apresentava o croqui de intervenção nas margens do córrego, esquematizando o denominado “Caminho Verde”, completou-se o conjunto de informações que suscitaram os comentários que seguem.

Figura 15 – Imagem aérea indicando referências da vida cotidiana dos moradores, utilizada como estímulo de percepção nas entrevistas da pesquisa qualitativa. Fonte: Desenhos sob imagem do Google Maps.

• Qual a importância? O que sente?

“Me espantei com o número de remoções que foram necessárias para abrir o espaço do córrego! Ficou bem legal! A natureza já agradece...”.

“Passei pela manhã na área do córrego onde eu morava e vi pássaros por lá. Eles voltaram!”.

“Vai valorizar as nossas casas e a cidade. Vai valorizar também a saúde das crianças”.

“Será um remédio, um calmante para mim, que tenho depressão e não gosto de lugar abafado”.

“O 'Caminho Verde' será o espaço da natureza”.

“Nossa, será possível uma academia a céu aberto? Essa área das nascentes nem aparecia!”.

“Acho lindo, eu adoro a natureza. A ideia de transformar o córrego é ideal, é fantástico, super interessante. Eu acho que onde tem gente, tem que ter verde”.

“Esta praça da nascente e do córrego vai dar certo. Vai surgir alguém que oriente o povo largado e tudo pode funcionar direitinho”.

“Paisagem é um lugar muito verde”.

“Porque demora tanto? [...] Pois é, está tudo parado”.

“Tem que vir logo”.

“O projeto não foi concluído, falta elementos importantes de participação dos moradores”.

Neste ponto da entrevista, quando os diálogos fluíam mais informais, com mais proximidade, as pessoas se soltavam no sentido do imaginário, trazendo opiniões representativas dos seus sentimentos e sonhos. Ficavam atentos às imagens disponibilizadas, destacando que muitos foram pegar seus óculos para enxergarem melhor os detalhes, e comentavam com muito ânimo as possibilidades de organização destes espaços. Outra observação foi a identificação e visão imediata de elementos da natureza, antes ocultos por construção de moradias. Os sentimentos de pertencimento e dignidade afloraram, associados aos sentimentos de participação e inserção na Paisagem do bairro.

• Sugestões de organização e uso

Ao final da entrevista, quando já estavam imbuídos do seu papel de reflexão e exposição de ideias, munidos com as principais informações e concepções do projeto, apresentaram suas opiniões e sugestões para a concretização:

“é um projeto importantíssimo, mas as pessoas precisam entender, o que acho difícil, pois as pessoas não valorizam o que a Prefeitura faz”;

“é possível sim. A gente vê isto em outros lugares. Eu acrescentaria um espaço para uma biblioteca de crianças, que poderia ficar próxima às atividades das mães”;

“o projeto está muito bonito, mas quando será que meus filhos vão brincar neste espaço?”;

“não tenho nada a acrescentar, talvez mais áreas verdes e uns bancos para leitura. Vai acabar sendo um ponto de encontro das pessoas”;

“Gostaria de uma praça igual a que eu tinha na minha cidade, com árvores e flores”;

“Quando se formar os jardins aí, nós temos que ir lá aguar as plantas”.

Esta última observação, em especial, vinda de uma jovem mulher, mãe de dois filhos, que nasceu e se criou no Jardim Margarida, pode demonstrar que a consumação das obras de saneamento e a finalização do paisagismo nos Espaços Livres criados funcionará como um incentivo, um símbolo de pertencimento comum dos moradores, capaz de despertar o envolvimento e a participação imediata, mesmo dos mais incrédulos.

Outra moradora se manifesta perante a oportunidade de cuidado e zelo pelos espaços coletivos do bairro alertando para a identidade e a busca de talentos locais:

“temos que dar espaço para muitos artistas moradores no bairro”.

Sugerem que a Prefeitura faça uma reunião com os moradores para esclarecer o andamento dos trabalhos e recolher opiniões.

Quanto a possíveis problemas com a manutenção da ordem nos espaços públicos, houve a proposta de que, em especial na futura praça das nascentes, seja colocado um portão, com alguém responsável pela ordem. Argumentam que:

Esta observação sugere uma clara demanda por trabalhos educativos que esclareçam a relação entre o público e o privado, nos moldes dos conceitos desenvolvidos pelo pesquisador Eugenio Queiroga, apresentados no capítulo 3 deste documento.

Outras observações mais críticas, refletindo sobre a relação entre serviços públicos e necessidades dos moradores expõe que:

“O saneamento é um atendimento de calamidade pública, embora ainda não concluído. Agora precisa concluir as obras de organização do bairro, incluso o ajardinamento e estruturas das áreas livres”.

Aqui o morador identifica o saneamento como um direito já adquirido, atendendo a necessidade de qualidade de vida na cidade, porém inclui com igual peso e observação, uma valorização do paisagismo local, com a criação e finalização dos Espaços Livres públicos criados e incorporados na dinâmica do bairro. Sugere ainda a montagem e o uso de maquetes tridimensionais como instrumentos didáticos capazes de instruir o povo. É recorrente a opinião de que nestes espaços teriam que ter uma pessoa responsável para instruir o povo, incluindo a necessidade de ações educativas na busca de novas formas de lidar com as populações desprovidas de atendimento cidadão.

Outro entrevistado diz:

“Tem que ser fechado à noite e bem cuidado, dando limites. Tem que ter um líder para organizar os pais das crianças, comprar bolas, fazer uma festa”.

Outros argumentam ser contra colocar portões nas áreas de jardim, pois o mais eficiente é ensinar as pessoas a conviverem com a natureza. Reforçam o caráter público destas áreas e a necessidade de ensinar os moradores a cuidarem desses jardins.

Um entrevistado pondera que,

“se alguém não resgatar esse córrego e seu entorno, as crianças moradoras, no futuro, não vão ter história para contar, só as vivencias ruins de morar em aglomerados e na desorganização”.

“com a regularização dos esgotos, o bairro vai ficar '9,5'. O ser humano precisa da organização. Agora precisa ver se tudo vai ser feito mesmo...”.

Esta última observação evidencia o descrédito que ainda persiste em relação aos provimentos de serviços públicos, manifestado pela desconfiança na execução do projeto apresentado.