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• Quais as características ou a identidade?

Para a maioria não há uma característica ou identidade própria do bairro. Ele é muito parecido com os demais bairros do entorno, sendo que o que parece chamar mais a atenção é o próprio adensamento ou o grande número de casas precárias construídas pelos próprios moradores:

“muitas pessoas morando”;

“até agora, o Margarida está sem cara [risos]”;

“as ruas são praticamente iguais, sem calçadas. Os carros disputam espaço com as pessoas nas ruas”;

“o bairro cresceu muito para cima – de uma casa, hoje construíram 4 ou 5”;

“muitos fizeram suas casas só para vender e não para morar” [...] “acho um certo egoísmo este comércio de casas”.

Referindo-se à falta de zelo e de estética do bairro, uma entrevistada menciona:

“cuidar da casa é já se sentir feliz”.

Menciona também a construção de um banco, forrado em azulejos coloridos, ornamentado com uma trepadeira com flores, como sendo uma boa iniciativa feita por ela, que sente-se bem naquele lugar, compartilhando-o com todos os que passam.

que, inversamente, o espaço provoca transformações no social. Acrescenta que, a maioria dos estudos socioespaciais produzidos nas últimas décadas partem das transformações na estrutura social (particularmente das transformações econômicas) para então deduzir e explicar as transformações do espaço.

Quando o processo da entrevista os levam a refletirem sobre as condições do bairro, criado pela espontaneidade da necessidade de moradias, conseguem fazer uma crítica da necessidade e da ausência de Espaços Livres públicos para circulação e mobilidade – são capazes de indicar a largura das ruas, inexistência de calçadas, ausência de praças e áreas verdes. Conseguem ampliar a análise para a região do entorno do Jardim Margarida, onde se repete as mesmas situações de precariedade e ausência de infraestrutura urbana. A região forma um todo uno, sem identidade ou referências entre os bairros. Mais adiante, quando apresentadas as possibilidades de intervenção dos projetos de saneamento, dizem acreditar que o projeto do “Caminho Verde” poderá dar uma identidade para o bairro Jardim das Margarida.

• Relação com a natureza – córrego e nascentes

Alguns moradores destacam as águas do córrego e das nascentes como características da natureza do bairro, enquanto outros não identificam o espaço ocupado pelo córrego e nem mesmo as nascentes: “até agora não acho nada de natureza no Margarida”.

Uma entrevistada, moradora há mais de 20 anos, explica com certa propriedade poética –, a evolução simbólica capaz de retratar a desconexão dos moradores como o rio e o processo de degradação que deu origem ao “córrego”:

“antigamente, chamávamos a área do córrego de “beira rio”, que virou “córrego” pela sujeira e pelo amontoado de casas – que virou um rio inteiro de casas”.

Procurada uma síntese sobre o que cada entrevistado percebia como natureza, revelaram que:

“natureza são as árvores, praças e pássaros”;

“se as obras do córrego estivessem prontas sim, ele seria natureza”;

“já dá para perceber o ressurgimento de plantas nas margens e o retorno de pássaros onde houve demolição das casas”.

Mencionam como referência de natureza o quintal, que dá fundo para o córrego, mostrando os vários vasos e plantas que aguardam o momento de serem transplantados para as margens.

“muitas crianças e jovens ficam em casa sozinhos, e não identificam a natureza existente no seu próprio bairro de moradia”.

Nas falas de vários entrevistados percebe-se uma contradição em relação aos sentimentos relacionados às águas presentes no bairro. Principalmente para os antigos moradores das áreas das nascentes, o afloramento das águas significa problemas – especialmente na forma de umidade nas paredes e pisos das casas, provocando fragilidade no solo. Não identificam a água como natureza, e sim como inconveniência. Porém, quando surge a oportunidade de um novo local de moradia, como o que ocorreu pelo programa de auxílio aluguel, onde recebem um subsídio e aguardam o término do conjunto habitacional construído para recebê-los, passam a manifestar interesse e prazer na possibilidade do antigo local de moradia se transformar em uma praça cheia de árvores e flores. Chegam a sugerir o uso de aparelhos de ginástica a céu aberto e fontes de água, que nem sempre são lembradas pela estética e pela contemplação, mas para possível utilização da água como alternativa funcional de abastecimento.

• Espaços Públicos - encontros sociais; recreação e descanso ao ar livre

Quanto à ausência de Espaços Livres públicos – a começar pelas próprias ruas, que são estreitas e sem espaços para as calçadas, muitas vezes tomadas por cômodos ou moradias –, sentem a ausência, mas não manifestam espontaneamente, pois há uma ética local para a qual, cada frente de casa é do proprietário daquela casa. Em muitas situações se ouve a expressão “minha porta”. Percebe-se uma fragilidade no entendimento dos conceitos de espaço público e espaço privado, desencadeado pela própria situação de aglomeração e densidade das moradias. Em muitos entrevistados surgiu a preocupação com a desorganização dos Espaços Livres públicos do bairro, mas sempre relacionam a solução ao poder público que tem a autoridade de intervenção, como a Prefeitura.

Quando perguntado sobre o lugar que as mulheres utilizam para o lazer e a recreação, responderam que

“só lhe resta ir para as suas portas, tomar um ar, conversar com a vizinha, tomar um café”.

As crianças ficam na rua, brincando no meio dos carros ou fechadas em suas casas, em frente à televisão, que também é a diversão preferida das mulheres durante a noite. Quanto aos idosos, todos os moradores manifestaram uma preocupação ou sensação de desamparo, pois relatam que muitas vezes não conseguem nem colocar uma cadeira para sua mãe ou pai tomarem sol. Vários relatos indicam que o homem idoso acaba utilizando os inúmeros bares como forma de convívio ou distração, ocorrendo muitos casos de alcoolismo nesta faixa etária. Alguns entrevistados mencionaram que costumam fazer caminhadas no acostamento da BR-116, como alternativa para espairecer, mas acham muito barulho e pouco seguro; prefeririam, se houvesse espaço, caminhar no próprio bairro. Outros mencionam um passeio de final de semana no Jardim Zoológico da cidade ou no Shopping Taboão, como última alternativa para distrair as crianças, mas estes são passeios que geram custos muito altos em relação à renda média das famílias.

A carência, no bairro, por Espaços Livres públicos – especialmente os voltados para o lazer de crianças e jovens –, pode ser sintetizada em um fato fotografado na pesquisa de campo, em que a atitude de um grupo de meninos chama a atenção de todos. As crianças, por iniciativa própria, resolveram limpar com suas próprias mãos um terreno abandonado onde se acumulavam entulhos e descartes de materiais de construção, idealizando dois campinhos de futebol, com trave e até uma improvisada rede de gol, feita com material de sucata.

Foto 38 - Crianças improvisando um campo de futebol em área desapropriada pela Prefeitura para construção de um Equipamento Multiuso. Jardim Comunitário. Taboão da Serra, SP. 2014.

Foto 39 - Crianças improvisando um campo de futebol em área desapropriada pela Prefeitura para construção de um Equipamento Multiuso. Jardim Comunitário. Taboão da Serra, SP. 2014.

Nesta situação de aglomeração e degradação apresentada no Jardim Margarida, os entrevistados indicam que os Espaços Livres Públicos como o denominado “Caminho Verde”, podem se tornar um ícone, uma imagem de importância e de capacidade de recuperação e

qualificação ambiental do bairro, desde que seja assumido e feito de forma conjunta pela autoridade de uma gestão pública – no caso a Prefeitura de Taboão da Serra, acompanhada por um efetivo trabalho de educação socioambiental, partindo de conceitos de desenvolvimento urbano e participação cidadã. O processo de aprendizado, deve ser considerado um direito do cidadão, a ser estruturado a partir da especificidade e do cotidiano do bairro, com o estabelecimento de metas de ação e controle que não caiam na armadilha do imediatismo, dissociando o presente do futuro a ser alcançado.