• Memória dos lugares de vida anterior
A maioria dos entrevistados são originários de Minas Gerais, Pernambuco e Bahia. Constatamos que muitos trouxeram suas experiências de vida da área rural, acompanhadas de um sentimento melancólico de migrante, que saiu da sua terra natal por necessidade de trabalho e de subsistência da família. De acordo com um dos entrevistados,
“lá dava para tomar banho de rio [...] Tinha pé de manga, jaca, bananeira... eu subia em árvores [...] Eu não tinha brinquedos comprados, eu brincava com os bichinhos – como lagartas – e andava a cavalo...”.
Os que nasceram no bairro transmitem recordações da infância, com imagens sem beleza e muita desorganização dos espaços:
“era tudo bem precário: ruas de barro, tudo longe, desorganizado, uma bagunça”.
Há um sentimento de tristeza ou nostalgia quando se reportam ao passado, uns por saudades de uma situação mais favorável, outros por não terem tido na infância ou juventude uma situação favorável de moradia e de convívio com o bairro.
A maioria dos entrevistados se surpreenderam, com alguma dificuldade e timidez, pela solicitação do exercício de memória. Mas, todos se mostraram disponíveis e até satisfeitos com
a oportunidade de retornarem, mais criticamente, a momentos importantes de suas vidas, revelando sentimentos de mágoa, felicidade, esperança, tristeza e saudades de um tempo que passou.
• Observações e vivência com a natureza
Entre os entrevistados que migraram, alguns relatam voltarem regularmente para o local de origem, onde exercitam os prazeres sensoriais do contato com a natureza, como banho de rio, caminhadas na grama, colheita de frutos no pé, contemplação de sol e céu azul. Pode-se dizer que na oportunidade da entrevista, transmitiam um sentimento paradoxo entre os “benefícios do campo” e as “virtudes da cidade”.
Os moradores mais antigos do bairro descrevem com emoção um lugar aprazível repleto de bosques de eucalipto, lagoa de água corrente e córrego de água limpa, com peixes, preás e rãs:
“o Margarida lembrava muito da colônia rural de onde vim. Tinha estradinhas, lagoas, galinha e matas. Me sentia muito bem”.
Descreve com emoção a lagoa no fundo do seu terreno, onde podia ver o córrego correndo, com água cristalina:
“a terra ao redor era macia e tremia ao caminhar, com muito capim angola [...] haviam várias nascentes cercadas de matas, com muita taboa, afetivamente chamada quando criança, de “rojão”, pela semelhança com os fogos de artifício”.
Uma moradora da região relata que quando jovem, mesmo antes de morar no bairro, vinha com frequência ao Margarida com seu pai, desfrutar do lugar, que oferecia bosques, água e natureza.
Os relatos de moradores mais antigos indicam que as belezas naturais eram uma das principais características do local, com a presença de muitas águas claras e bosques verdejantes. Entre os entrevistados que moram há mais de 25 anos, encontramos uma moradora que chegou a recolher lixo e cercar o córrego, numa tentativa isolada de preservar a limpeza e qualidade das águas:
“eu cuidava do córrego e Ele reagia [...] Depois foi chegando pessoas querendo terra, e vinham armados”.
Este relato parece demonstrar uma resistência espontânea entre os moradores, no sentido da preservação do córrego como elemento da natureza, que foi agressivamente vencida pela demanda habitacional, quando famílias ocuparam áreas livres públicas, mesmo margens e leitos de córregos, como alternativa para a construção de suas moradias.
Os entrevistados, com até 30 anos de idade, que nasceram no local, relatam que não chegaram a ver o córrego limpo.
A mãe de um dos entrevistados o proibia de brincar na beira do córrego,
“mas era prazeroso. Era o que tinha para brincar[…] o único lugar que tinha espaço para correr”.
Alguns depoimentos de moradores que nasceram no Margarida relatam que
“antigamente as casas eram barracos e o povo foi construindo de tijolo. Vendo assim, agora, está melhor”.
“não tinha esgoto e a água suja ia direto para o córrego, e continua lá”.
Os entrevistados na faixa etária dos 20 a 30 anos relatam observações de uma geração que foi criada no auge da desorganização do bairro. Quando crianças, o ambiente do bairro já se apresentava degradado, com poluição das águas e com barracos construídos em madeira. Comparam a situação de hoje, que apesar de não ser a ideal, configura-se como melhor do que antes, pois as pessoas conseguiram melhorar suas casas internamente.
Outra moradora, com 12 anos de moradia no bairro, declara que não sabia da existência do córrego pois ele estava encoberto com as construções de casas. Só foi possível perceber o córrego com o início da demolição destas casas.
Uma moradora cuja casa estava em área de remoção relata que, ainda que sua casa esteja em cima do córrego, não o enxergava como natureza. Seu contato com o córrego se dava mais pela obrigatoriedade do acesso a sua casa ser através de uma ponte – bastante precária:
“o caminho do córrego era encoberto por um favelão”.
“não havia natureza, meu contato com o córrego era o tempo inteiro, mas, enxergava pouco do córrego”.
O relato tende a transmitir um entendimento do que seria natureza na cidade, mas justifica que a necessidade eminente de morar os levava a não conseguir ver o córrego e não considera-lo como natureza, e sim um "favelão", em que outras pessoas como ela tinham o abrigo de uma casa, apesar de precária. Contudo, com os primeiros resultados das remoções, que evidenciaram e revelaram parte do córrego, a ex-moradora de um local altamente degradado se emociona com os resultados das obras de saneamento que recuperaram as margens e a calha do córrego, iniciando o plantio de uma área de grama.
Foto 35 – Área do Córrego Palmital ocupada por moradias. Trecho de junção entre o Jardim Margarida e o Jardim Comunitário. Taboão da Serra, 2010. São Paulo.
Foto 36 – Moradia ocupando área do leito do Córrego Palmital. Jardim Margarida. Taboão da Serra, São Paulo. 2011.
Foto 37 - Acesso para moradias nas margens do Córrego Palmital. Jardim Margarida. Taboão da Serra. São Paulo, 2011.
• Como conheceu o Jd. Margarida?
Apenas dois entrevistados relatam ter planejado a sua vinda para o Jardim Margarida: um comprou o terreno ainda solteiro com a intenção de organizar uma família; outra veio por ter se casado com um já proprietário, e se orgulha em dizer que a sua festa de casamento foi no Jd. Margarida, mencionando ter fotos que retratam as matas e belezas do lugar.
No geral, a chegada ao Jardim Margarida está relacionada com a possibilidade de compra de terreno ou casa, cujas informações e acessos foram facilitadas por parentes ou amigos já residentes. Nesta situação, não transmitem ter sido uma escolha ou opção do lugar para a moradia da família, e sim uma oportunidade de sair do aluguel e ter a sua propriedade, mesmo que juridicamente ilegal.