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A técnica do grupo focal está sendo amplamente utilizada nos últimos anos (MORGAN, 1998; CRUZ NETO et al, 2002). Os autores trazem que a técnica é utilizada desde a década de 20, tendo sua primeira funcionalidade aplicada para o desenvolvimento de questionários de pesquisas de opinião, resgatando procedimentos clássicos das ciências sociais, das áreas de psicologia e serviço social. Entre as décadas de 40 e 70, o uso foi impulsionado principalmente pela pesquisa de mercado. E, finalmente, dos anos 80 até os dias atuais, têm sido aplicada com maior frequência no desenvolvimento de pesquisas em saúde, relativas à educação em saúde e à implementação ou avaliação de programas.

De acordo com Meier e Kudlowies (2003, p. 395), o grupo focal pode ser definido como “um conjunto de pessoas, ligadas entre si por constante de tempo e espaço, articuladas por sua mútua representação interna, que se propõe explícita ou implicitamente uma tarefa, que constitui sua finalidade”. É um grupo constituído por pessoas que se ligam com um objetivo definido, delineado por um pesquisador, o qual pode ser o próprio mediador do grupo.

Para Morgan (1996), há três perspectivas no uso do grupo focal, cuja diferença está na centralidade da técnica para responder ao problema da pesquisa. Existe o grupo focal autosuficiente, utilizado como principal fonte de dados; o grupo focal utilizado como fonte preliminar de dados; e a perspectiva que considera a técnica útil para subsidiar outros métodos. Neste trabalho, foi adotada essa última perspectiva, em que o grupo focal foi combinado às entrevistas e aos dados obtidos com a pesquisa documental, com o objetivo de triangulação. Dessa forma, vimos a possibilidade de chegar a conclusões similares ou complementares partindo de um único objeto de estudo complexo.

O grupo focal é uma importante técnica da pesquisa social e, assim como outras, sua escolha deve estar condicionada à orientação teórico-metodológica da investigação, do seu objeto e da consequente necessidade de obtenção de dados da natureza que essa técnica pode propiciar. Neste estudo, realizamos o grupo focal com os representantes das entidades organizadas, entendidas aqui como as associações e organizações não governamentais que compõem a Rede de Desenvolvimento Sustentável do Grande Bom Jardim – Rede DLIS.

No processo de inserção de campo no GBJ, soubemos que os representantes dessa rede, constituída por 36 entidades (CDVHS, 2008), encontravam-se periodicamente num sábado de cada mês. Conversamos com uma representante articuladora desses encontros e pedimos autorização para comparecer a um deles, falar da nossa pesquisa e pedir anuência do grupo para participar.

O grupo aceitou nossa presença, como pesquisadora, e passamos seis meses indo a esses encontros, com a intenção de compreender, pelo menos em parte, os processos das redes sociais e comunitárias no local; e também com a intenção de construir vínculos que tornassem possível a efetivação de um grupo focal, pois percebemos que os participantes da Rede DLIS são pessoas muito ocupadas que sacrificam outras atividades para atuar no movimento comunitário através desses encontros aos sábados e de atividades, ao longo da semana, para cumprir os encaminhamentos.

A partir desses encontros, tivemos elementos para selecionar quinze entidades, com base nos critérios de maior frequência do representante da entidade a essas reuniões; na data de criação das entidades, com priorização das que existiam há mais tempo; e na localização das entidades por bairros, pois os cinco bairros deveriam estar representados no grupo focal. Do bairro Granja Portugal, havia menos entidades comparecendo às reuniões no período em que estivemos. Então, entramos em contato com seus representantes para explicar a realização da pesquisa e convidá-los para a participação no grupo focal e, mesmo sem e a convivência das reuniões, foi garantida a representação de entidades desse bairro.

Sabemos que a técnica do grupo focal solicita muitos cuidados nos preparativos para que a realização seja exitosa, dentre eles podem ser citados o recrutamento dos participantes, as características de neutralidade e adequação do local, um roteiro ou guia temático bem sistematizado para construção dos dados, a presença de moderador e observador qualificados. A partir disso, desenvolvemos a estratégia para contribuir com o recrutamento dos participantes, que contou com convites ao longo dos meses em que a pesquisadora esteve em contato, com carta-convite entregue na última reunião da Rede DLIS anterior ao dia em que foi marcado o grupo focal; ligações com antecedência para os que não compareceram a

essa reunião, para informar a data; ligações da pesquisadora para todos os convidados na quinta e sexta feira que antecederam ao sábado marcado para o grupo focal.

A escolha do dia da semana e horário do grupo deram-se a partir da rotina de encontro dos representantes das entidades, que tinham como se organizar melhor aos sábados pela manhã. O local seguiu a mesma lógica, pois a cada mês eles se encontravam numa entidade diferente. Escolhemos aquela que tinha mais infraestrutura para realização do grupo focal, que é a mesma que funciona como a principal referência de aglutinação do grupo, onde são feitas as ligações para relembrar dos encontros, das atividades ao longo do mês, onde ficam os documentos, o som e o material dos processos que desenvolvem.

Quando planejávamos o grupo focal, pensávamos em oferecer um lanche ao final do encontro. No entanto, dentro da rotina de grupo dessas pessoas, há um lanche antes do início da reunião. Oferecemos o lanche adaptado dessa forma, o que foi muito interessante para recepcionar as pessoas que foram chegando paulatinamente e puderam preencher os dados de identificação e conversar sobre o termo de consentimento livre e esclarecido com mais calma.

Para esse momento, contamos com a presença dos dois moradores do Grande Bom Jardim, apoiadores desta pesquisa, acompanhando, alternadamente, a pesquisadora nas visitas de campo realizadas. Nessa situação, eles contribuíram com a estrutura, como organização do lanche, preenchimento dos crachás, responsabilização pelos dois gravadores, dentre outros. A moderação foi feita pela autora deste estudo e a observação foi realizada por uma psicóloga, com experiência na técnica de grupo focal, que esteve com a pesquisadora antes e depois do grupo também, contribuindo desde o planejamento, até a avaliação do processo.

Tivemos como base o que Mazza, Melo e Chiesa (2009) trazem quanto ao número de participantes do grupo focal, que deve ser de seis a quinze integrantes, porém que a determinação da quantidade deve sempre considerar os objetivos do estudo. Convidamos quinze representantes de entidades para o grupo focal, como o número máximo de possíveis participantes, e contamos com a presença de 11 deles.

Além disso, os autores referenciados apontam que o tempo de duração do encontro não deve ultrapassar duas horas, para evitar prejuízo em função do cansaço e desgaste mental, pois este tempo possibilita a discussão das ideias sem levar à exaustão. Fizemos esse acordo no início do grupo focal, no entanto, dentro do processo do grupo, ultrapassamos esse tempo e permanecemos juntos por 2h45 min.

Uma das participantes estava muito cansada de atuar nos movimentos sociais, falando, inicialmente, em tom de revolta por avaliar que as reivindicações do Grande Bom Jardim não são atendidas ao longo das gestões municipal e estadual. Afirmou, no início, que pretendia deixar de participar dos movimentos sociais e isso gerou certa comoção, o que nos levou, como moderadora, à necessidade de abrir um espaço para esse processo. A nosso ver, isso foi importante como dado de pesquisa, pois o que se observa, de fato, é que o Grande Bom Jardim não tem sido priorizado no que tange à implementação de muitas políticas públicas para a região.

Consideramos que isso ocorreu também devido ao fato de os participantes desse grupo ser amigos ou conhecer-se muito bem, o que é apontado por Morgan (1998) como algo desafiador num grupo focal, pois o nível de fatos pressupostos e que permanecem implícitos tende a ser maior que num grupo em que as pessoas não se conhecem. No entanto, dada a inserção dos representantes das entidades organizadas do GBJ no movimento social, não teríamos como formar um grupo focal com estranhos. Diante disso, lidamos com o desafio.

Como toda técnica, apresenta limites e possibilidades. Minayo (2013) destaca a importância do grupo focal para se tratar de questões relacionadas à saúde sob o ângulo social, por dar condições de estudar as representações e relações dos diferenciados grupos de profissionais da área, dos vários processos de trabalho e também da população. Neste estudo, tivemos condições de compor um grupo focal para investigar sobre a saúde da população do GBJ a partir das ideias dos representantes das entidades organizadas.

No planejamento da pesquisa, a intenção era também realizar grupo focal com os trabalhadores da sede da SER V, no entanto, com a inserção em campo, percebemos que a dinâmica de trabalho desses profissionais não facilitaria a composição de um grupo para contribuir com esta pesquisa. Foi preciso ir dezenas de vezes à sede da regional para se conseguir conversar com pelo menos um representante de cada setor, de forma individual.

Houve uma situação em que marcamos quatro vezes para que a conversa acontecesse de fato, o que correspondeu a 200 Km andados pela pesquisadora somente para a realização dessa entrevista, dado que da sua casa para a SER V, ida e volta, são 50 Km. Houve outra em que o setor não autorizou a realização da pesquisa, informando que nós precisaríamos da autorização, por escrito, do prefeito de Fortaleza. Descobrimos que a pessoa responsável pela coordenadoria estava de férias e, quando a procuramos no mês seguinte, recebemos a autorização para conversar com o profissional daquela coordenadoria que trabalhavam na sede da SER V desde a década de 1990. Por fim, para não cansar o leitor, tivemos situações em que nunca encontrávamos o possível participante de um setor e

precisávamos entrevistá-lo por ser o que atendia ao pré-requisito da temporalidade do trabalho na regional. Foram necessárias várias buscas para que nos informassem que ele realizava o trabalho externo e que só passava pela sede da regional no horário de almoço, o que nos levou a, por exemplo, pedir quentinhas junto a alguns profissionais da regional, para almoçar no local e conseguir encontrar o participante “procurado”.

A partir de elementos como esse, adaptamos o uso das técnicas às possibilidades do campo, tendo os objetivos do estudo como foco. Passamos a marcar 2 ou 3 entrevistas no mesmo dia, em horários diferentes, passando o dia inteiro no local. Na maioria das vezes, não conseguíamos realizar todas as entrevistas marcadas porque acontecia algum imprevisto com o participante, mas já não saíamos do Grande Bom Jardim sem realizar nenhuma. Nossa inserção no campo, durou cerca de 1 ano, sendo os primeiros seis meses de aproximação e os últimos seis meses para a aplicação dos instrumentos de pesquisa. Fomos cerca de 50 vezes ao local e andamos cerca de 2.500 km de nossa casa até o Grande Bom Jardim.

Dentro das possibilidades construídas, realizamos um grupo focal com os representantes das entidades, o que avaliamos como suficiente, considerando a pouca disponibilidade de tempo dos mesmos e os diversos dados obtidos no nosso encontro. Quanto aos demais participantes, a entrevista individual mostrou-se como melhor opção para viabilizar o estudo, no tempo proposto. Isso incluiu a realização de entrevistas individuais também com representantes de entidades organizadas, considerados por nós, a partir da inserção no lugar, como informantes-chave privilegiados.

Por fim, importante frisar que os dados obtidos com a realização do grupo focal, considerado aqui como uma unidade, estão circunscritos às interações sociais ocorridas durante a realização deste trabalho, num dado momento de encontro entre subjetividades humanas. Ao mesmo tempo, contamos com o compromisso das pessoas escolhidas como informantes-chave por atenderem a critérios necessários para o caminho rumo à obtenção de respostas da nossa investigação.