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Demotivasjon  (amotivation)

2   TEORI

2.1   M OTIVASJON

2.1.6   Demotivasjon  (amotivation)

Importante abordar esse tema a partir de Sigerist (1996), quem primeiro utilizou a expressão “promoção da saúde” para fazer referência às ações do Estado e às ações baseadas em educação sanitária visando a melhoria das condições de vida. Na apresentação da edição brasileira de seu livro Civilização e Doença, tem-se que ele foi também o precursor do atual conceito de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), quando afirmou que:

Saúde é, por conseguinte, não simplesmente a ausência de doença, ela tem alguma coisa positiva, uma prazerosa atitude ante a vida e uma aceitação jovial das responsabilidades que a vida coloca para o indivíduo (SIGERIST, 1941, p. 100 apud SIGERIST, 2011, p. XXVI).

Sua forma de compreender a saúde o levou a reordenar as funções da medicina em: promoção da saúde, prevenção de enfermidades, cura e reabilitação, esta última no sentido de reintegrar o paciente à sociedade como membro útil. De acordo com Andrade (2006), a proposição dessa visão integral da medicina foi fruto do debate acadêmico e político europeu sobre a determinação social do processo saúde-doença no séc. XIX, o qual gerou a Medicina Social e influenciou o paradigma da Promoção da Saúde.

O desenvolvimento do conceito de promoção da saúde ganhou força com mudanças no setor saúde na década de 1970, a partir de crises de custos e de paradigmas, as quais intensificaram o debate sobre a determinação social e econômica da saúde e levaram ao desenvolvimento de um enfoque, caracterizado por Czeresnia (2003) e Buss (2003), como político e técnico em torno do processo saúde-doença- cuidado.

O moderno movimento de promoção à saúde tem suas origens divulgadas no “Informe Lalonde”, produzido no Canadá em 1974 e que, por sua vez, é trazido por Andrade e Barreto (2002) como fruto de repercussões de trabalhos desenvolvidos há mais de um século, como o de McKeown e Lowe (1989). Esses estudiosos analisaram as relações envolvidas na mortalidade da população inglesa desde 1840 e constataram que os fatores que mais contribuíram para a melhoria da qualidade de vida dessa população foram o desenvolvimento econômico e uma melhor qualidade da nutrição.

O Informe Lalonde contou com essas motivações, econômica e técnica, mas também com motivação política para enfrentar os aumentos do custo da saúde. Seu embasamento está no conceito de ‘campo da saúde’, com o reconhecimento de que múltiplos fatores determinam o processo saúde-doença. Esse conceito traz que as condições de saúde dependem de quatro conjunto de fatores: a) o patrimônio biológico; b) as condições sociais, econômicas e sociais nas quais o homem vive; c) o estilo de vida adotado; d) a organização dos serviços de saúde. (BUSS, 2003; LALONDE, 1974).

Temos que o informe Lalonde trouxe as bases para a construção de um novo paradigma, formalizado na Conferência Internacional de Cuidados Primários de Saúde, na cidade de Alma- Ata no Cazaquistão, em 1978. A proposta foi de “Saúde para Todos no Ano 2000” e a “Estratégia de Atenção Primária de Saúde”. Esse marco de discussão da atenção primária no mundo passou a reorientar os serviços de saúde, estimulando estratégias de promoção da saúde no âmbito local e reconhecendo os limites de um modelo eminentemente biomédico (MACDONALD, 1998; BRASIL, 2002; ANDRADE et al, 2011).

Ressaltamos também a Conferência Internacional de Promoção da Saúde de Ottawa – Canadá, em 1986, como um marco de referência desse contexto. Foi sistematizada pela Organização Mundial de Saúde - OMS e pelo governo canadense, contou com representação de muitos países do mundo e aprovou a Carta de Ottawa, considerada um dos documentos mais importantes no campo da promoção da saúde, pois sedimentou suas bases doutrinárias e abriu caminho para que se avançasse do discurso para a ação (RESTREPO, 2001b). Dentre os principais elementos do movimento pela promoção da saúde, teve-se: a) integração da saúde como parte de políticas públicas; b) participação comunitária na gestão do sistema de saúde; c) reorientação nos sistemas de saúde; d) mudanças nos estilos de vida (PAIM e ALMEIDA-FILHO, 2000).

Esse enfoque despertou muitas críticas, apesar do avanço que trouxe. As críticas basearam-se no incentivo a mudanças no estilo de vida, com foco na ação individual. Seria necessário evidenciar também os aspectos sociais, políticos e econômicos para que o indivíduo não ficasse responsabilizado de forma solitária por todos os aspectos de sua saúde.

Além da 1ª Conferência Internacional de Promoção da Saúde e a já mencionada Carta de Ottawa, vários documentos e conferências referenciaram o movimento de promoção da saúde, dentre eles: a) a 2ª Conferência Internacional, na Austrália-1988, e a declaração de Adelaide sobre políticas públicas saudáveis; b) a 3ª Conferência Internacional, na Suécia- 1991, e a declaração de Sundsval sobre ambientes favoráveis à saúde. As três primeiras conferências e toda a produção que se agrega a elas formam as bases do movimento de

promoção da saúde. Segundo Andrade et al (2011), outros documentos também se destacaram, como o “Black Report”, de 1980, um relatório sobre as desigualdades em saúde na Inglaterra que demonstrou a relação entre raça, saúde e qualidade de vida, o qual trouxe elementos que fundamentaram os debates sobre o tema.

No campo das conceituações e intervenções, a promoção da saúde esteve associada fortemente às mudanças de comportamento individual e bem menos a estratégias políticas populacionais. A proposta foca o estilo de vida, com apropriação do que é considerado positivo para a saúde, e regulação para modificar o que é considerado risco para o indivíduo e para a coletividade, como o ato de fumar ou o sedentarismo. Atualmente, a proposta das atividades de promoção da saúde estão mais voltadas ao coletivo de indivíduos e ao ambiente, por meio de políticas públicas e de ambientes favoráveis ao desenvolvimento da saúde e do reforço da capacidade dos indivíduos e das comunidades.

Para Carvalho e Buss (2012), as ideias do movimento da promoção da saúde na América Latina depararam-se com uma realidade de pobreza e desigualdade que direcionou o foco para questões estruturais e para processos comunitários voltados para mudanças sociais, o qual levou o último autor mencionado a cunhar, em 2003, o termo ‘promoção da saúde radical’. Nesse contexto e com criticidade ao modelo médico hegemônico, desenvolveu-se um campo teórico-pratico no Brasil, o campo da Saúde Coletiva. Este, por sua vez, plasmou o programa da Reforma Sanitária Brasileira que teve como proposição e alcance legal concretos, a partir da Constituição Federal de 1988, a saúde como direito de todos e dever do Estado.

Apesar da Reforma em curso, muito ainda precisa ser realizado para o alcance da saúde numa perspectiva ampla no Brasil. A compreensão de que a promoção da saúde traz uma visão sobre a saúde e a doença, a qual rompe com a hegemonia do modelo biomédico, pode indicar um caminho. As ações para promoção da saúde precisam ser intensificadas no cotidiano, nos serviços de saúde, na facilitação para que as pessoas desenvolvam suas autonomias diante de seus próprios processos de saúde, numa perspectiva de saúde como resultante das condições de vida e de possibilidade de promoção de um desenvolvimento social mais equitativo.