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Alterações na concentração de gases de efeito estufa são, em grande medida, devidas às emissões das pessoas e suas atividades, assim como as taxas de mudanças atmosféricas dependem da velocidade e natureza do crescimento econômico, do comportamento reprodutivo das pessoas e do tamanho da população no futuro, das tecnologias escolhidas, da cultura de consumo, das formas de lazer e assim por diante (YEARLEY, 2009; p. 401).

O entendimento social sobre as mudanças climáticas é fundamental à medida que nos ajuda a compreender de que forma as ações sociais impactam nas mudanças do clima, como suas alterações são compreendidas pela sociedade, quais medidas podem ser tomadas frente a esse fenômeno e qual a propensão de determinados grupos sociais para intervir. Partindo da premissa de que o conhecimento climático e suas percepções associadas são poderosos determinantes da ação política (LAHSEN, 2010), faz-se ainda mais importante apresentar de que forma a sociedade atual reconhece e compreende as mudanças climáticas.

Quando o tema são as mudanças climáticas, pesquisas de opinião apontam para um possível processo de consciência coletiva das causas do fenômeno, em que, por exemplo, 75% da sociedade brasileira atribuem à responsabilidade das ações humanas as alterações no clima do planeta (INSTITUTO AKATU, 2007). Ainda no caso brasileiro é possível identificar a incorporação do tema na agenda dos diversos setores da sociedade, em que atores sociais como mídia, governo, sociedade civil, universidades, organizações não governamentais e setor privado consideram o tema como uma das questões mais importantes e estratégicas do nosso tempo (ISER, 2008). Mesmo que nem todos estejam envolvidos igualmente na tarefa de encontrar soluções alternativas para as mudanças climáticas, esta problemática estabelecida é

considerada hoje como um dos temas globais prioritários (UNDP, 2009). Porém, nem sempre a problemática das mudanças climáticas foi reconhecida como tal.

Hannigan (1995) sugere que há muitos anos se previa o aquecimento global, quando se falava em gases de efeito estufa e seus potencias impactos ao planeta, mas que o mesmo só foi considerado como uma problemática a partir dos anos 1980. Para Hulme (2009) a origem do discurso sobre os possíveis impactos das mudanças climáticas pode ser identificada no berço do despertar social para problemas ambientais, embora a história do clima e sua relação com a sociedade tenha sido contada já no século XVIII.

Hannigan (1995) apresenta a identificação dos chamados “problemas ambientais” a partir de sua construção social. Determinado tema (“exigência”), para ser socialmente reconhecido, deve ser trazido à tona por diferentes formuladores, que vão ter papéis fundamentais no processo de lançamento e aceitação das exigências. É necessária, portanto, a construção de “frames” que transformam uma situação social em problema ambiental, podendo acarretar na mobilização de atores e no estabelecimento de novas estratégias para solucioná-lo (SNOW et al., 1986; BENFORD & SNOW, 2000).

São algumas as instituições e acontecimentos responsáveis por influenciar a difusão e reconhecimento da temática das mudanças climáticas como problema social.

As instituições científicas exercem papel fundamental no processo, que vai além da produção do saber e do conhecimento científico. As mesmas são responsáveis pela difusão de informações técnicas-científicas que servem como subsídio aos tomadores de decisão e à formulação de políticas públicas (LAHSEN, 2009). Mas a produção da ciência a respeito do conhecimento climático também vai ser responsável por pautar os meios de comunicação e as organizações não-governamentais, que processarão estas informações diferentemente, retransmitindo-as para o grande público.

Ainda que parte da academia e de seus pesquisadores busque produzir uma ciência neutra, imparcial, objetiva e autônoma (SCHOR, 2005), é central o papel que cumprem como fornecedores de informações relevante, em que siglas como IPCC, LBA, INPE24, já não podem mais ser ignoradas quando o assunto diz respeito às mudanças climáticas.

De forma bastante ilustrativa, o projeto de pesquisa internacional em andamento “Comparing Climate Change Policy Networks” (COMPON)25 apresenta, ilustrado no Gráfico

24 IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change, LBA – Programa de Grande Escala da Biosfera- Atmosfera na Amazônia e INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

3.1, a relação que se estabelece entre a publicação de relatórios técnico-científicos do IPCC e a resposta de diferentes mídias, em diversos países do mundo.

Gráfico 3.1  Dados comparativos de atenção de mídia à temática de mudanças climáticas, usando dados de 1997 á 2009 (Fonte: Broadbent and COMPON team, 2010)

Ao observar o Gráfico 3.1 acima apresentado, vê-se que Broadbent (2010) e sua equipe de pesquisadores sugerem que a atribuição do Prêmio Nobel da Paz, em 2007, ao IPCC e ao ex-vice-presidente Norte Americano Al Gore também se apresenta como acontecimento importante para o incremento da resposta de mídias em diferentes países. Ambos foram premiados, segundo a The Nobel Price Foundation (2007) por "construir e divulgar um maior conhecimento sobre a mudança climática causada pelo homem e por fixar a base das medidas que são necessárias para resistir a essa crise".

Na ocasião, o ex-vice-presidente foi premiado pela produção do documentário “Uma Verdade Inconveniente”, filme lançado em maio de 2006 nos Estados Unidos e assistido por milhões de pessoas em todo o mundo (NOLAN, 2010). Para Nolan (2010), o filme foi vastamente promovido e adotado como ferramenta educacional e motivacional,

incrementando o conhecimento e a preocupação quanto às mudanças climáticas e a propensão das pessoas para reduzirem a emissão de gases de efeito estufa.

Em uma pesquisa conduzida no Japão, Hiramatsu; Mimura; Sumi (2008) vão além na sua avaliação quanto aos impactos do lançamento do IV Relatório de Avaliação do IPCC (sigla em inglês IV AR IPCC). Os pesquisadores afirmam que desde o lançamento do relatório, a temática de mudanças climáticas passou a ser prioridade nacionalmente, isto é, no Japão, e internacionalmente, sendo responsável pelo incremento no número de pesquisas científicas em mudanças climáticas e aquecimento global, principalmente na área das ciências exatas26.

No Brasil, dois eventos climáticos que assombraram o país e despertaram a atenção de diferentes atores sociais para possíveis consequências das mudanças climáticas foi a passagem do furacão Catarina pelo litoral catarinense e gaúcho, em março de 2004 (ver Imagem 3.1) e a seca de 2005 na Amazônia (ver Imagem 3.2). O primeiro, considerado um fenômeno “raro” pelos cientistas, chamou a atenção das ONGs ambientalistas, de órgãos governamentais, mídia e sociedade brasileira em geral devido ao forte dano que causou durante sua passagem, deixando “dezenas de milhares de pessoas afetadas e causando um prejuízo direto de mais de 200 milhões de reais só em Santa Catarina” (INPE, 2004). Apesar de o fenômeno ter levantado polêmica entre os grupos de cientistas quanto a suas causas e características, pesquisadores concluem que o mesmo “constituiu um importante alerta para a possibilidade de mudanças climáticas ocorrerem na forma de uma mudança no padrão de ocorrência de fenômenos extremos” (DIAS, et. al., 2005).

26 Neste artigo, os pesquisadores sugerem que é preciso incrementar o número de estudos nas áreas das ciências sociais caso exista a intenção de tomar medidas bem sucedidas para combater as mudanças climáticas (HIRAMATSU; MIMURA; SUMI, 2008)

Imagens 3.1 e 3.2 – Imagens Furacão Catarina, ocorrido em março de 2006 na costa catarinense e gaúcha (fonte: IPNE, 2011) e Seca na Amazônia, ocorrida em 2005 (fonte: Greenpeace)

A seca na Amazônia em 2005, classificada por pesquisadores como evento climático “extremo”, também chamou a atenção dos diferentes atores sociais para a problemática das mudanças climáticas e os possíveis impactos ao Bioma Amazônia. Foi considerada a seca mais severa dos últimos 40 anos e a mais intensa dos últimos 100 anos, causando fortes impactos na navegação, agricultura, geração de hidroeletricidade, e afetando de forma direta e indireta a população ribeirinha de grande parte da Amazônia (MARENGO et. al., 2008). Ainda que as causas desta intensa seca tenham em sua origem diversos fenômenos climáticos, esse acontecimento se apresenta como mais um elemento que permitiu aos pesquisadores afirmar que “a Amazônia desempenha um papel importante no ciclo de carbono planetário, e pode ser considerada como uma região de grande risco do ponto de vista das influências das mudanças climáticas” (NOBRE; SAMPAIO; SALAZAR, 2007).