Quando você começa a trabalhar com a reciclagem, você tem chance de olhar com os dois olhos: com os olhos humanos, de sobrevivência e com os olhos de salvar o planeta.
Sérgio Luís, presidente da Coopere.
Uma das plataformas de luta do Movimento Nacional dos Catadores é o reconhecimento de sua atividade como serviço ambiental prestado à sociedade. Na onda dos debates em torno das questões climáticas e outras de alcance global, os catadores têm se esforçado para fazer deste reconhecimento algo não apenas pró-forma, mas revertido em remuneração. O já citado PSAU – Pagamento por Serviços Ambientais Urbanos – é a proposta de criação de um sistema de remuneração dos catadores pelos serviços ambientais prestados. Municípios como Diadema, na Grande São Paulo, e Londrina, no noroeste do Paraná, já remuneram seus catadores e a avaliação de seus programas de coleta seletiva inclusiva é bastante positiva. A iniciativa do PSAU está articulada a uma série de ações do governo federal para a implantação da coleta seletiva com inclusão de catadores, conforme já exposto no capítulo II.
A projeção dos catadores como novos atores sociais é muito importante por causa da histórica invisibilidade e conotação negativa de seu trabalho. Essa “virada de mesa”, no entanto, não pode ser descontextualizada. Ela está inserida em um momento político muito propício, em que ações do governo federal iniciadas pelo presidente Lula ainda em seu primeiro mandato (2003-2006), bem como crescentes preocupação e engajamento da sociedade nas questões ambientais, geram o pano de fundo para que os catadores possam ser vistos e ouvidos.
Em um contexto macro, podemos dizer que a ascensão de novos atores sociais surge em meio à crise dos “Estados-nações modernos”. Trevisol (2007) explica que a política global constitui-se e estrutura-se a partir de um leque variado de atores e dimensões, não mais apenas dos governos estatais. Para o autor, os atores da emergente sociedade civil global denunciam e questionam as assimetrias de poder que prevalecem na sociedade e tentam preencher a ausência e a ineficácia dos governos na busca de soluções para os problemas contemporâneos, locais e globais (p. 111-112). Fazendo uma leitura do pensador alemão Ulrich Beck, Trevisol fala de uma profunda transformação nas formas de se fazer política, agora de baixo para cima, pelo despertar do que Beck chama de “subpolítica” (TREVISOL, 2007, p. 113). Inseridos nessa dinâmica, os catadores também emergem como atores sociais relevantes, duplamente contemplados: pela questão social, importante agenda do Governo Federal nos últimos anos, e pela questão ambiental, debatida globalmente em vários setores da sociedade. Como atores
importantes que são no novo cenário brasileiro, os catadores ligados ao MNCR têm buscado exercer seu papel de protagonistas na história, o que pode ser considerado um feito inédito, visto serem pessoas marcadas por processos históricos de exclusão, rebaixamento e humilhação social.
Muito embora boa parte das discussões nesse sentido seja ainda privilégio de alguns catadores mais ligados à cúpula do Movimento, vale destacar os grandes avanços conquistados por essa categoria. Talvez a mudança no discurso sobre os catadores e o fortalecimento de sua identidade profissional possam ser citados como os principais ganhos.
Mesmo um pouco afastados das atividades e performances do MNCR, os catadores da Coopere sentem esta mudança no discurso e o incorporam em seu cotidiano. Tanto nas entrevistas quando em outras ocasiões em que pude acompanhá-los, eles demonstraram possuir uma visão complexa sobre os problemas ambientais e um compromisso com o futuro das próximas gerações.
Eu: O senhor acha a reciclagem que tem um objetivo maior por trás, uma luta política?
Waldir: Eu acho que tem uma necessidade iminente, A Terra tá agonizando. Vê nos lixões aquele gás de metano saindo, pegando fogo, a gente fica bobo... A Terra tá se transformando. [...] E vão jogar toda essa imundície em cima da nossa descendência, porque nós não vamos chegar a ver isso talvez. Então eu acho que a Terra tá agonizando, o clima tá mudando, tudo tá sendo prejudicado e é uma necessidade pra todo mundo. Não é só uma ideia de um idealista, é uma necessidade.
Assumir para si – por meio da atividade da reciclagem – a responsabilidade por cuidar da Terra e promover melhor qualidade de vida para a cidade também se reflete em atribuir um sentido maior ao seu trabalho. Ser catador é ser um agente ambiental e um educador, à medida que incorpora no seu dia a dia o papel de orientar e alertar as pessoas para a importância da reciclagem e, em patamares um pouco mais avançados no discurso, para as questões de consumo consciente e responsável e a não geração de resíduos. Para o presidente da Coopere, a ideia de estar salvando o planeta por meio da reciclagem é tão forte que ele costuma dizer que o caminhão da coleta seletiva deveria ser considerado como o carro dos bombeiros53, e
que seu trabalho é tão ou mais importante que o de um médico, pois “o médico salva vidas e
53
A comparação com o carro dos bombeiros deve-se ao fato de a Coopere possuir cerca de 600 pontos de coleta de material e, ainda assim, seus caminhões estarem submetidos à diversas restrições de circulação, como o rodízio municipal de veículos, horário reduzido de circulação e outros entraves. Várias ruas da região central são proibidas para os caminhões, ainda que seja para a coleta dos resíduos. Apenas a concessionária conveniada à prefeitura conseguia circular nessa região, por possuir pequenos carrinhos de coleta motorizados. As cooperativas, desta forma, deixavam de acessar o material mais rico produzido na cidade.
eu estou salvando o planeta inteiro”. A consciência ambiental é considerada uma das mais importantes aprendizagens dos catadores no cotidiano da cooperativa.
Eu: E o que as pessoas aprendem trabalhando na reciclagem?
Olinda: Um ponto importante que eu acho que a pessoa aprende é cuidar do meio ambiente. [...] eu acho muito importante que cada pessoa que trabalha aqui, que ela cuide, trate bem todos os materiais recicláveis para que não vá para o meio ambiente, então essa é uma parte importante que o cooperado aprende aqui.
A visão complexa e comprometida com as questões ambientais que os catadores vêm desenvolvendo deve ser valorizada por quem se preocupa com os processos de formação e capacitação. Eles já demonstraram ter grande potencial de transformação social e capacidade de mobilização e articulação, o que pode ser aproveitado para conquistar mais adeptos para uma cultura sustentável.
Dar voz aos catadores é empoderá-los, mas também uma boa oportunidade de promover sensibilização social a partir do seu discurso, visto que os catadores, por estarem na interface entre inclusão social e cuidado com o meio ambiente, trazem questões de abrangência mais ampla54. Percebendo isso, os coordenadores da Coopere citaram nas
entrevistas que a sensibilização ambiental deve começar dos próprios catadores, para que eles sejam os porta-vozes da luta por justiça socioambiental. Eles sugerem que as capacitações tenham sempre como prioridade a valorização do catador como agente ambiental.
Eu: O que uma boa capacitação deveria abordar?
Sérgio: [...] primeiramente deveria capacitar ele sobre meio ambiente, mostrando pra eles como eles estão sendo úteis pro mundo.
A dimensão ambiental do trabalho dos catadores aproxima-se da dimensão política, em especial pela regulamentação da PNRS e todo o debate que ela vem gerando em âmbito nacional. Apesar de ter ficado em discussão durante vinte anos antes de ser sancionada, esta Lei ainda é considerada pelos especialistas como uma incógnita, porque ninguém sabe ainda como colocá-la em prática. Sua maior dificuldade de aplicação é com relação à logística reversa, processo de destinação correta dos resíduos pós-consumo por parte das empresas fabricantes, comerciantes ou importadoras. A LR é de interesse direto dos catadores, que podem se beneficiar dela se conseguirem estabelecer parcerias com o setor produtivo. Essa
54 Um exemplo disto pode ser visto no documentário Lixo Extraordinário, que comoveu expectadores em vários
países e recebeu prêmios em importantes festivais de cinema. No filme é abordado o tema da exclusão, ao mostrar a vida das pessoas que trabalham no lixão, e o grave problema do excesso de lixo, gerado por consumo e desperdício nas sociedades modernas.
questão é bastante complexa e, embora a Lei privilegie os catadores, eles sabem que sua implementação não será efetivada sem que haja muita luta e articulação política.