Fundado em 1998, o Núcleo de Produção Artesanal “Rendeiras da Vila de Ponta Negra”, se caracterizando como um espaço de produção informal, onde rendeiras da Vila se reúnem com o intuito de praticar o oficio das rendas.
Com o passar dos anos, tem-se observado uma diminuição no número de mulheres que praticam a arte na Vila de Ponta Negra. Este fato se deve a vários motivos, entre eles o desinteresse das novas gerações em aprender e praticar o ofício, a renda de bilros ser uma atividade praticada predominantemente por pessoas idosas, o elevado tempo de produção e o retorno financeiro ser insuficiente e não garantido. Outra grande questão ligada a esta escassez de rendeiras está ligada ao fato das grandes dificuldades que as rendeiras no referido Núcleo encontram para se inserirem no mercado com peças mais atrativas para o comércio, face à perda do domínio das técnicas de desenhar o molde em que é produzida a renda.
Numa tentativa de devolver a estas rendeiras o domínio do processo e do produto e minimizar os problemas relacionados ao aprendizado da técnica e inserção dos produtos feitos em renda no mercado, esta pesquisa propôs a concepção e implementação de uma metodologia de repasse das técnicas do desenho da renda de bilros, sendo esta possibilitada através da união dos conhecimentos técnicos e científicos dos pesquisadores do projeto com os conhecimentos tácitos das rendeiras.
No momento da focalização da demanda, observamos que esta estava no cerne de duas linhas específicas, uma cultural e outra de inovação. Com a realização da oficina, percebe-se que a Oficina de Desenho contemplou todos os aspectos que estavam relacionados com esta.
Na linha cultural, a etapa de recuperação dos moldes antigos (realizada em forma de exercícios práticos) possibilitou a criação de um acervo tanto para o Núcleo como um acervo pessoal para cada aluna participante da oficina, num processo de capacitação visando a continuidade da arte-ofício.
Na linha de inovação, observou-se que o aprendizado da etapa do desenho dos moldes da renda, a leitura e interpretação dos desenhos contidos nos moldes existentes, a criação de novas padronagens de tramas e de novas peças, possibilitou uma maior diversidade de peças oferecidas ao mercado consumidor, bem como gerou o interesse de novas pessoas em aprender a técnica que se encontra em extinção, além de permitir que as artesãs dominem o processo de criação, de modo que estas não sejam mais apenas executoras das ideias de agentes externos, dominando o processo e o produto. Vale salientar que o processo de inovação sugerido na oficina de desenho, apesar de ter proposto novas modelagens e padronagens, não descaracterizou em nenhum momento a tradicional arte da renda de bilros, mantendo seus pontos e tramas características. Durante a oficina de desenho foram criadas três linhas de produtos distintas: a aplicação de elementos como golas, palas e bolsos em camisas de malha; a elaboração de peças de roupa com nova modelagem (camisas femininas de modelagens diferentes, boleros, coletes e casacos) e também uma linha que contemplou
produtos utilitários (como porta-papel higiênico, capa para botijão de água e barrados em toalhas e panos de prato), diversificando os tipos de produtos oferecidos ao mercado.
Acompanhando o grupo quatro meses após o término da oficina, pudemos observar a continuidade da produção de novos desenhos e o desenvolvimento de novos produtos atendendo aos aspectos de inovação, além de mudanças no Núcleo visto que houve a agregação de novas rendeiras a este. Assim, podemos relacionar a continuidade dos ensinamentos desenvolvidos durante a oficina com objetivo maior do projeto, que está ligado com a promoção da sustentabilidade do Núcleo.
De acordo com Saldanha (2004), a construção da reputação é fundamental no processo de construção social, bem como em todo o processo de pesquisa aqui apresentado. Podemos observar que a aceitação do grupo externo por parte dos integrantes do local de estudo, no caso da presente pesquisa, o Núcleo de Produção Artesanal Rendeiras da Vila, permitiu a construção da reputação de maneira a favorecer a construção social. Neste processo, as articulações entre os grupos fortalecem a construção da reputação.
O conhecimento prévio da situação de trabalho adquirido através das pesquisas bibliográficas e da situação de referência facilitou o processo de construção da reputação. Outro fator facilitador deste processo de entrada do novo grupo foi a construção da reputação feita pela equipe anterior.
A construção da reputação também ocorre com os diversos grupos de foco e é um processo imprescindível em ações em que as questões sociais e culturais têm grande representatividade, como no caso da presente pesquisa. O fato de a equipe anterior ter promovido algumas ações que trouxeram melhorias ao grupo, proporcionou uma maior abertura aos pesquisadores atuais, de maneira a transparecer que as rendeiras acreditaram que também esta equipe poderia contribuir com o Núcleo.
A análise ergonômica, por preconizar e efetivar a construção social e técnica mostrou- se fundamental para a modelagem da Oficina de Desenho, à medida que permitiu tratar da construção de um dispositivo social participativo. Podemos assim, sustentar que a construção e as relações técnicas e sociais que possibilitam a apreensão da realidade são localizadas e contribuem para o desenvolvimento de soluções antropotecnologicamente adequadas e sustentáveis. (SALDANHA et al, 2010).
A importância do desenho pode ser constatada tanto no que se refere à capacitação/formação, inovação de produtos/desenhos, ampliação do acervo de desenhos de renda de bilros, quanto pela satisfação das artesãs em rendar a partir de suas próprias criações. Neste caso, segundo Vidal (2010 – comunicação pessoal) o desenho não é um aspecto geométrico de uma forma impressa que alguém criou. O desenho é um ícone de tradição profunda, quase da ordem de inscrições rupestres, de modo que a criação de novos produtos é uma busca da cultura enraizada. Ainda segundo o autor, a realidade do local estudado se transforma à medida que as intervenções são realizadas. As rendeiras, assim como os pesquisadores, evoluíram com esta experiência, de modo que houve um processo de aprendizado mútuo, no momento da intervenção neste “mundo real”.
Pudemos perceber com esta experiência, a importância da valorização da arte, do oficio e do trabalho que tivemos a oportunidade de desenvolver em parceria com as rendeiras do Núcleo das Rendeiras da Vila de Ponta Negra. A satisfação que vimos em suas faces, ao final desta oficina, transmitiu a certeza de que promovemos além de uma capacitação, a experiência de passarmos por um período intenso, inexplicável e incomparável, onde aprendemos, ensinamos, brincamos, sorrimos. Juntos: rendeiras, pesquisadoras, alunas, instrutoras, amigos.