3. Statsbudsjettet for 2011
3.2 Gjennomgang av forslaget til statsbudsjettet for 2011 etter den vedtatte
3.2.15 Rammeområde 15 (Helse), under helse- og omsorgskomiteen
3.2.15.2 Komiteens merknader
No sentido de conseguir responder às hipóteses de trabalho apresentadas no capítulo anterior tornou-se evidente que seria necessário conjugar diferentes métodos de recolha e análise da informação assentes em abordagens quantitativas e qualitativas.
Como referimos no texto introdutório deste trabalho, não existem muitos estudos realizados em Portugal sobre a integração do conceito de eficiência energética nas práticas
quotidianas das famílias, particularmente se considerarmos a abordagem aqui seguida. Neste trabalho procuramos contornar a tendência de olhar para as supostas barreiras que dificultam ou as estratégias que podem facilitar as alterações nas práticas de uso de energia por parte das famílias, optando antes por nos centrarmos na construção social do consumo de energia e por explorar de que forma as necessidades de energia das famílias são definidas socialmente e estão incorporadas em sistemas sócio-técnicos onde se interligam tecnologias, códigos e padrões, práticas sociais e expectativas partilhadas de normalidade (Shove, 2003). Para tal, a conjugação de métodos revelou-se fundamental, particularmente um forte enfoque em métodos qualitativos. Uma abordagem metodológica de base qualitativa tem a vantagem de apresentar uma maior capacidade para abarcar a diversidade da realidade social, particularmente quando estamos a analisar percepções e perspectivas sobre temas que implicam mediação ou quando se procuram explorar dimensões que não surgem de forma evidente para os sujeitos em análise.
É reconhecido que o consumo de energia não apresenta um valor em si, mas antes ganha relevo através dos serviços em que toma forma, satisfazendo necessidades, sejam elas rotineiras ou distintivas. Neste sentido, trata-se de um consumo que adquire sentido quando é mediado por infra-estruturas e equipamentos e surge na forma de serviços prestados. Uma vez que o enfoque desta pesquisa incide mais sobre as rotinas (ainda que também estas encerrem elementos distintivos) torna-se ainda mais premente integrar métodos de recolha de informação que permitam captar as subtilezas e a arquitectura subjacente à estruturação de práticas que implicam o uso de energia e que são, com frequência, assumidas de forma quase mecânica e cumprindo funções de conforto, conveniência e de resolução prática de desafios quotidianos.
Da mesma forma, procurar compreender a inter-relação entre agência e estrutura na formação, manutenção ou alteração das práticas quotidianas implica procurar aceder a elementos intersticiais que estruturam o nexo da prática e aos factores que podem alterar a forma como esta é integrada no quotidiano das famílias, algo que dificilmente pode ser transposto através de perguntas fechadas, mesmo que estas possam resultar de um trabalho qualitativo prévio de recolha de informação. Desde logo, porque a complexidade inerente não está propriamente acessível, enquanto tal, ao próprio a quem se pede que opine sobre o tema. A relação entre agência e estrutura não tende a ser o enfoque quando se reflecte sobre práticas quotidianas, pelo que recorrer ao discurso dos entrevistados permite-nos aceder a dimensões desta relação que, muitas vezes, não se apresentam de forma óbvia aos próprios e que requerem um trabalho de interpretação por parte do investigador. A relevância que o processo de socialização pode desempenhar na forma como a energia é integrada, por vezes várias décadas mais tarde, no quotidiano das famílias (Moussaoui, 2009; Gram-Hanssen, 2008; Carlsson-Kanyana et al, 2005) parece-nos ser um
bom exemplo de um factor que só muito dificilmente consegue ser captado por métodos quantitativos. Aliás, uma passagem pelos principais estudos realizados sobre práticas que implicam o uso da energia aponta, de forma inequívoca, para a relevância dos métodos qualitativos que surgem como os mais frequentemente usados para procurar compreender este fenómeno em toda a sua complexidade e riqueza.
Não queremos com isto dizer que os métodos quantitativos não podem desempenhar um papel relevante. Tendo em consideração que eles foram integrados nos métodos de recolha de dados da presente pesquisa, seria um contrasenso afirmá-lo. A perspectiva aqui defendida é antes a de que cada técnica de recolha de dados possui vantagens e desvantagens, podendo adaptar-se melhor a uns casos do que a outros (Bryman, 2004: 451-454) pelo que, “só a multiplicidade de fontes empíricas, cada uma com a validade que lhe é própria, pode devolver a multidimensionalidade das relações sociais” (Ferreira, 1986: 195).
Tendo esta perspectiva como base de trabalho, procurou-se conjugar diferentes métodos e técnicas, tirando partido das vantagens de cada um, no sentido de obter dados que permitam avançar no conhecimento sobre a construção social do uso da energia e a integração do conceito de eficiência energética nas práticas quotidianas das famílias.
O próximo passo é o de apresentar com maior pormenor as diferentes técnicas usadas, explicitando o seu enquadramento nos objectivos desta investigação e o seu contributo para a análise das diferentes dimensões de análise identificadas.
Como ponto comum a duas das técnicas que serão abordadas de seguida, é relevante sublinhar que, no que concerne à recolha de informação junto de inquiridos e entrevistados, foram tidos em consideração aspectos éticos, hoje considerados incontornáveis em qualquer pesquisa. Desde logo a participação foi voluntária tendo-se obtido o consentimento informado por parte de todos os participantes, ainda que não se tenha avançado para uma confirmação escrita desse mesmo consentimento. Considerou-se que o contexto da pesquisa, onde não existia qualquer obrigatoriedade de participação em qualquer dos momentos e onde as famílias já se tinham inscrito voluntariamente no projecto onde esta pesquisa se enquadrou, dispensava a existência de comprovação documental da aceitação. Em qualquer dos casos e não obstante vários dos especialistas em energia entrevistados terem demonstrado total abertura para a identificação dos seus testemunhos, optámos por garantir o anonimato de todos quantos participaram nesta pesquisa. Consideramos que a identificação dos intervenientes no estudo não apresentaria qualquer mais-valia para a análise, tendo-se optado antes pelo enquadramento em categorias, quando tal fazia sentido, ou pela identificação de forma simples em todos os restantes casos.
Podemos afirmar que a técnica da entrevista semi-estruturada foi o método de recolha de informação por excelência deste projecto. Foi utilizada como método principal desde o
primeiro momento, mas perante a possibilidade de a conjugar com uma recolha de dados mais extensiva e junto de uma amostra mais alargada, foi tomada a decisão de avançar também com um inquérito por questionário.
A oportunidade de aplicar um método mais extensivo a uma das componentes do estudo – as famílias – surgiu por o momento em que esta investigação estava a começar a ir para o terreno coincidir com o início da campanha de visita às famílias, levada a cabo no âmbito do Projecto Ecofamílias apresentado anteriormente. Tendo sido demonstrada disponibilidade por parte da equipa do projecto para integrar questões de cariz sociológico na sua matriz de recolha de dados, por considerarem que poderia ser uma mais-valia para o mesmo, tomámos a decisão de avançar com a construção do instrumento que permitiria essa recolha. Devido a este contexto, houve necessidade de construir o instrumento de recolha de dados num período muito curto, não tendo sido possível realizar entrevistas exploratórias que pudessem servir de base à elaboração do inquérito. Em alternativa, optámos por recorrer à bibliografia sobre o tema e a exemplos de inquéritos aplicados noutros contextos sobre temas relacionados com a energia e com as práticas das famílias nesta área que foram posteriormente integrados em estreita articulação com os objectivos propostos para o presente trabalho.
Pese embora o reconhecimento de que estas não são as condições ideais para o desenvolvimento de um instrumento de recolha de dados desta natureza que, pela sua estrutura tendencialmente mais restritiva das opções de resposta, torna ainda mais relevante um trabalho prévio que permita evitar enviusamentos nas opções facultadas e mesmo nas questões colocadas ou na forma como são colocadas (Ferreira, 1986: 182,183), considerou-se que era uma oportunidade que deveria ser aproveitada. Esta oportunidade pareceu-nos interessante, não apenas pelas possibilidades que abria para o presente projecto, mas também por ser uma oportunidade de trabalhar de forma interdisciplinar, contribuindo com um olhar sociológico para um projecto onde predominava a abordagem técnica. Perante esta oportunidade, optou-se por avançar para a recolha de dados a dois níveis: através de inquérito por questionário e por entrevista semi-estruturada.
A aplicação do inquérito foi levada a cabo pelos diferentes elementos da equipa do projecto Ecofamílias, optando-se por uma aplicação indirecta, sendo o inquiridor o responsável por apresentar as questões e assinalar as respostas. Neste contexto, a aplicação do inquérito não foi realizada pela responsável por esta investigação, tendo esta sido responsável pela elaboração da estrutura do instrumento, pela formação dos inquiridores e por todo o tratamento dos dados recolhidos. O guião do inquérito aplicado consta do anexo B desta tese. A análise dos dados recolhidos foi realizada através do programa informático SPSS.
Outra das técnicas usadas no processo de recolha de dados e já referida atrás foi a entrevista semi-estruturada, que se assumiu como o método preferencial de recolha de informação. Este método foi usado para recolher a informação junto das famílias, bem como junto dos especialistas na área da energia. Tendo em atenção que no caso destes últimos se privilegiaram enquadramentos profissionais diversos, a estrutura da entrevista foi alargada no sentido de incluir questões específicas, pelo que durante a sua aplicação era feita uma selecção das questões a colocar. O guião da entrevista aos especialistas na área da energia disponibilizado no anexo B resulta de uma compilação das diferentes questões integradas.
Para além da recolha de informação relativa às dimensões de análises explicitadas anteriormente neste capítulo, as entrevistas foram um dos instrumentos principais de recolha de informação para os estudos de caso da iluminação e da climatização.
A análise de conteúdo dos dados recolhidos através das entrevistas foi realizada recorrendo a grelhas de classificação da informação construídas a partir das dimensões de análise previamente definidas, seguindo os métodos tradicionais, não tendo havido recurso a programas estatísticos de tratamento de informação.
No que concerne às entrevistas, parece-nos importante sublinhar que o receio inicial de que o papel desempenhado pela autora deste trabalho numa ONG de ambiente portuguesa, com a exposição pública que tal acarreta, pudesse ser um factor de enviusamento das respostas, não nos parece ter tido fundamento. No âmbito das entrevistas com as famílias foram raras as vezes em que se observou uma associação do papel de dirigente associativo à entrevistadora, e, quando tal aconteceu, somos da opinião que não teve reflexo em termos de retracção por parte dos entrevistados, criando-se um ambiente de comunicação aberta e franca. No caso das entrevistas com os especialistas na área da energia, mesmo quando houve reconhecimento (desde logo porque algumas das entrevistas foram realizadas a especialistas conhecidos através do trabalho associativo) também não nos parece que daí tenha resultado qualquer enviusamento. O facto de se tratar de especialistas com uma longa experiência nas suas áreas de trabalho e especialização parece-nos ser razão suficiente para colocar de parte qualquer receio nesta matéria.
A par com as técnicas usadas para recolher informação em contextos de interacção, fosse com as famílias, fosse com os especialistas na área da energia, foi ainda aplicada a análise de conteúdo a variados documentos relacionados com o enquadramento político e institucional do tema da energia e da eficiência energética. A este nível foram consultados documentos de enquadramento legislativo e político, nomeadamente, documentos estratégicos, regulamentos, directivas-comunitárias, decretos-lei, relatórios de acompanhamento, resoluções e leis, relativas ao contexto da União Europeia e de Portugal. O período de recolha incidiu, essencialmente, sobre as últimas quatro décadas, mas foram
também considerados alguns documentos anteriores à década de 70, sempre que se revelaram interessantes para ajudar a compreender a evolução do tema da energia e da eficiência energética. A perspectiva de alguns dos especialistas entrevistados foi considerada para a análise destes documentos e foi integrada sempre que considerada relevante e enriquecedora.
Como último ponto desta reflexão sobre a metodologia subjacente a esta pesquisa, gostaríamos ainda de abordar brevemente o papel dos valores no desenrolar da pesquisa social. Durante um largo período do desenvolvimento da teoria sociológica (e persistindo hoje ainda entre alguns investigadores) procurou-se aproximar os métodos de pesquisa desta área com o que se julgava ser o procedimento habitual noutras ciências que aqui classificaremos, de forma algo simplista, como ciências naturais, apelando a uma abordagem vazia de valores no que respeita ao delinear de uma pesquisa sociológica. É hoje comummente aceite que a permeabilidade valorativa não ocorre apenas nas ciências sociais, mas antes, em todas as abordagens científicas, sendo esta uma tomada de consciência importante, uma vez que só após o reconhecimento de um possível enviusamento é que se torna possível procurar controlá-lo e, dentro do possível, procurar evitar que marque de forma indelével o decorrer da pesquisa. Este é um tema relevante para o presente estudo, uma vez que a sua autora está envolvida, há mais de uma década, no movimento ambientalista português, pelo que, a área de pesquisa e as suas questões centrais estão ligadas a esse caminho pessoal e, logo, fortemente influenciadas por um conjunto de valores e crenças inerentes a uma intervenção cívica nesta área. Ter este aspecto presente é um primeiro passo para evitar uma influência muito marcada do quadro de valores pessoais sobre os restantes momentos da pesquisa, nomeadamente, no que diz respeito à escolha dos métodos, à formulação da pesquisa e as técnicas de recolha de dados, à análise e interpretação dos mesmos e às conclusões tiradas, momentos onde, é sabido, que os valores dos investigadores não deixam de marcar presença podendo influenciar os resultados de forma mais ou menos marcada (Bryman, 2004: 21,22).
Acreditamos que o caminho desenvolvido até este momento e o que se lhe segue não ficará marcado, de forma negativa, por este percurso pessoal. Contudo, a escolha do tema da energia e do conceito de eficiência energética e o enfoque em correntes teóricas que exploram a complexidade da integração destes temas no quotidiano das famílias integrando uma componente crítica e de alguma contestação às visões dominantes em termos de intervenções políticas e técnicas nesta área, decorre também desse percurso. Ainda assim, acreditamos que o enfoque seguido representa um contributo válido e urgente face a uma realidade que nos demonstra, dia após dia, com maior acuidade, a importância de reduzirmos a pressão exercida sobre os recursos naturais e pode valorizar o papel que,
acreditamos, as ciências sociais e, em particular, a Sociologia pode desempenhar no desenhar de um novo futuro.