Bourdieu adota a epistemologia de Gaston Bachelard quanto na sua crítica à epistemologia clássica. Para Bachelard, a ciência não se constituiu como um todo de verdades positivas, desenvolvendo-se como uma soma de verdades que excluiriam o falso. Ao contrário, o conhecimento se baseia na ação da razão por retificações, criando erros continuamente retificáveis.
O desenvolvimento da ciência, para ele, foge das relações temporais e dos enunciados abstratos. O espaço da produção da ciência – o campo científico – é um campo social como outro qualquer, construído por relações de força, disputas e estratégias que visam a beneficiar interesses específicos dos participantes deste campo. Para ele, o objeto da disputa é a posse exclusiva da autoridade científica, ou seja, de uma condição em que é reconhecida a capacidade de produzir ciência, capacidade que lhe fornece um poder social.
Sua ideia de condicionamento vai mais longe. Os julgamentos sobre a capacidade científica de qualquer pesquisador dependem, basicamente, da posição por ele ocupada nas hierarquias constituídas do campo científico. As práticas do campo científico estão orientadas para a aquisição de autoridade científica.
Na sua perspectiva, as práticas sociais se dão dentro dos campos e são definidas e estruturadas a partir de posições de poder e de troca simbólicas, que independem dos ocupantes das posições. O campo é o palco do sistema de relações que constitui a estrutura social.
Para ele, o empirismo e o formalismo reduzem o fato científico a uma comprovação. Quando o fato científico se conquista, constrói e comprova na luta dos
campos.
Como observou Ferreira e Brito (s/ano),
[...] a sociologia do conhecimento (para Bourdieu) deve investigar as condições sociais do processo de construção do fato científico, que não pode ser compreendido em toda sua extensão se explicado apenas como uma aventura personalizada. É necessário localizar os produtores do campo social de onde se extraem as referências de um certo padrão de cientificidade a ser seguido (FERREIRA E BRITO, s/ano, p. 139).
Podemos perceber que, a partir de sua visão de um argumento sociológico que aponta para a natureza relacional de todo conhecimento, ele vai criticar fortemente a idéia de uma distinção entre conhecimento natural e sócio-histórico. Também para Bourdieu (1996), a objetividade do investigado não depende de sua boa vontade, de seu esforço pessoal, de desprendimento e de determinações que caracterizam a situação social dos intelectuais. Os famosos “intelectuais desenraizados” de Karl Mannheim (s/ano) que ascendiam por este esforço ao espaço do conhecimento, para Bourdieu não passariam de um grande equívoco.
A condição para uma sociologia do conhecimento, em Bourdieu (op. cit.), está muito mais relacionada à construção do campo intelectual, como um todo, à capacidade de objetivar o que está em jogo e às estratégias correspondentes, não tomando como objeto apenas as estratégias dos adversários, mas o jogo com todas suas lutas.
O mais perigoso, para este autor, é a facilidade de se pensar o mundo de forma substancialista e realista. Neste momento, ele se afasta fortemente das ideias fenomenológicas da epistemologia de Bachelard, que considera estes “processos abstratos e de pouca valia”.
Ao analisar o campo intelectual, critica também as tradicionais formas de interpretação dos fatos culturais, que priorizam a obra ou a tornam simples reflexo do ambiente social. Para ele, é necessário construir:
[...] a estrutura de relações objetivas entre as posições que os agentes ocupam no sistema social. Essas posições determinam a significação e função das práticas e das obras, e também, as posições que os agentes ocupam no campo cultural mais amplo. (BOURDIEU,1996).
Para atingir estes objetivos teóricos metodológicos Bourdieu desenvolve uma teoria social praxiológica centrada no conceito de habitus. Bourdieu recuperou e retrabalhou esta noção filosófica antiga originária do pensamento de Aristóteles e que havia sido utilizada de forma parcimoniosa por Durkheim,Mauss,Panofsky e Elias27.
O conceito foi delineado para superar a oposição clássica do pensamento social entre subjetivismo e objetivismo. “O habitus é uma nação mediadora que ajuda a romper coma dualidade do senso comum entre individuo e sociedade ao captar “a interiorização da exterioridade e a exteriorização da interioridade”, ou seja, o modo com a sociedade se torna depositada nas pessoas sob forma de disposições duráveis, ou capacidades treinadas e propensões estruturadas para pensar, sentir e agir de modos determinados, que então os guiam nas suas respostas criativas aos constrangimentos e solicitações do seu meio social existente (WACQUANT, 2004, p.1).
Embora seja apresentado como um sistema durável Bourdieu tomou cuidado de mostrá-lo modificável, a partir das disposições práticas de condutas e de esquemas de percepção e classificação através dos habitus os agentes engendram suas ações e representações de ações no mundo social. Há também a concepção de um espaço estruturado de relações objetivas de poder entre indivíduos ou grupo, situados em posições desigualmente estabelecidas de acordo com a distribuição de capital operante nas relações de força material e simbólica.
Há inúmeras ressalvas quanto a possibilidade de aplicar o conceito de
habitus a uma multiplicidade de universos de atuação de acordo com as afinidades
estruturais de cada período histórico, o conceito chave de Bourdieu vem
27
Sobre a gênese de Habitus ver texto de Loic Wacquant. Esclarecer o Habitus. In: International Enciclopédia of Economic Sociology. Milam Zafirovski Editora: Londres-Routledge, 2004.
demonstrando que o peso das marcas determinantes que tais condições imprimem na personalidade socialmente constituída dos agentes, marcas que se corporificam em habitus de classe, e acabam por dar na sua operacionalidade um padrão determinista, ou neo objetivista, o que acarreta alguns problemas, dos quais dois deles dizem respeito muito diretamente ao objeto desta pesquisa.
São eles:
1. A capacidade de antecipação prática de probabilidades prospectivas de “sucesso” ou “fracasso” em empreendimentos diversos que é resultado de uma tendência à submissão das necessidades subjetivas dos agentes às suas probabilidades objetivas cria um determinismo que mesmo diante das amplas explicações de Bourdieu de que estas propriedades regularmente e estatisticamente observadas das práticas sociais de qualquer classe que seriam originarias do processo de sociogênese do habitus de uma determinada categoria social, trouxeram um ranço determinista duramente criticado por diversos sociólogos (Ver especificamente Bernard Lahire, O homem plural).
2. Embora Bourdieu com habitus tenha argumentado que esta concepção disposicional de agencia tenha reabilitado a distinção dualista entre “potencia” e “ato” o secreto horror do mestre francês à idéia de criador reduziu a possibilidade do sistema de disposições ser avaliado em função da potencia e não somente dos atos. Especificamente, isto ocorre na sua visão neo-objetivista do artista e do fenômeno estético que se localizam as criticas.
Deve-se argumentar em favor de Bourdieu que ele na sua última e rememorativa opus filosófica meditações pascalianas tenha dito que somente leituras teoricistas da sua obra tomariam o habitus como uma “espécie de principio monolítico”; o fato do habitus poder falhar e ter “momentos críticos de perplexidade e discrepância (Bourdieu 2000:191) quando é incapaz de gerar praticas conforme os meios, constitui um dos princípios impulsionadores de mudança econômica e inovação social (Wacquant,2004,p5).
De qualquer forma a teorização e implantações de leituras a partir da noção dos “agentes plurais” de Lahire (Lahrie, 2002), a possibilidade de se realizar interpretações micro-sociologicas, os tais perfis sociais aos quais já me referi, e a abertura para uma visão mais complexa e nuançada da obra de arte e do artista com criador de potencias que geram crenças novas que permanecem no tempo ( a volta da noção weberiana de profeta que vou defender num próximo momento) são
algumas das principais questões que animam este projeto a partir de uma leitura estimulante do legado sócio-analítico do chamado “mestre do Béarn”.