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Barriers to learning and knowledge creation

O segundo biografema que Alencar nos apresenta é o papel de leitor de um grupo de familiares e amigos, o que Alencar vai chamar de “ledor”. Depois de uma digressão sobre a importância do seu diretor Januário sobre a formação – ele se indaga se o diretor do colégio teria sido injusto – para responder que este rigor com o tempo “[...] tomava seu real aspecto; e me parecia como golpe rude, mas necessário, que dá têmpera de aço.” (ALENCAR, 1998, p. 25). Ou seja, Alencar quer

deixar claro que suas convicções são fortes, férreas, firmadas a partir de uma formação rigorosa. Um clássico do modelo biográfico e autobiográfico, a premonição da formação de um grande caráter, um caráter de exceção.

Em seguida, o mais importante, o autor inicia uma dualidade que vai organizar todo seu universo biográfico. Toda a existência de Alencar vai ser organizada entre dois polos, a “arte-feminina” e a “política-masculina”. Assim não é por acaso que ao iniciar a narração de sua ligação com a literatura aparece a figura de sua mãe: “Era eu quem lia para minha boa mãe não somente as cartas e os jornais, como os volumes de uma diminuta livraria romântica formada ao gosto de tempo.” (ALENCAR, 1998, p. 26). Também, não é por acaso, que imediatamente ao fazer esta confissão, Alencar é tomado por uma brusca reminiscência masculina com ênfase na ação política, ao falar sobre a rua em que morava. Diz ele:

Morávamos então na rua do Conde número 55. Ali nessa casa preparou-se a grande revolução parlamentar que entregou ao Sr. D. Pedro II o exercício antecipado de suas prerrogativas constitucionais. A propósito desse acontecimento histórico, deixe passar aqui, nesta confidência inteiramente literária, uma observação que me acode e, se escapa agora, talvez não volte nunca mais. (ALENCAR, 1998, p. 27).

Então Alencar narra as reuniões do Club Maiorista35 feitas na sua casa: Uma noite por semana, entravam misteriosamente em nossa casa os altos personagens filiados ao Club Maiorista, de que era presidente o Conselheiro Antonio Carlos e Secretário o Senador Alencar. Celebravam-se os serões em que um aposentado do fundo, fechando-se nessas ocasiões às visitas habituais, a fim de que nem elas nem os curiosos da rua suspeitassem do plano político, vendo iluminada a sala da frente. Enquanto deliberavam os membros do Club, minha boa mãe assistia ao preparo de chocolate com bolinhos, que era costume oferecer aos convidados por volta de nove horas, e eu, ao lado, com impertinência de filho querido, insistia por saber o que ali ia fazer aquela gente. Conforme o humor em que estava minha boa mãe às vezes divertia-se logrando com história a minha curiosidade infantil; outras deixava-me falar às paredes e não se distraía de suas preocupações de dona-de-casa. Até que chegava a hora do chocolate. Vendo partir carregada de tantas guloseimas a bandeja que voltava completamente

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Clube da maioridade, fundado em 1840, presidido pelo político Antonio Carlos Ribeiro de Andrada e José Martiniano de Alencar cujo objetivo era antecipar a maioridade de D. Pedro II.

destroçada, eu, que tinha os convidados na conta de cidadãos respeitáveis, preocupados dos mais graves assuntos, indignava-me ante aquela devastação, e dizia com a mais profunda convicção: – O que estes homens vêm fazer aqui é regalarem-se de chocolate. Essa, a primeira observação de menino em coisas de política, ainda não a desmentiu a experiência do homem. No fundo de todas as evoluções lá está o chocolate, embora sob vários aspectos(ALENCAR, 1998, p. 27).

A criação destes dois pólos – a literatura e a política visa, acima de tudo, demarcar sua visão dos dois campos, símbolos de posições no espaço social: a política é “interesse” em alguma coisa que não é revelado diretamente pelos políticos “o chocolate sob diversas formas”. A política, Alencar vai dar indícios desta visão durante toda a vida, é um campo minado de interesses. A literatura seria o campo das pessoas sinceras, como a mãe e o pai (excepcionalmente na política, mas como vítima, dominado, mártir).

Desta forma, o autor mostra como está organizado o campo de poder: os políticos e sua gama de interesses e ambições comandando tudo, e os literatos, ingênuos, desinteressados, tão sinceros, amorosos e devotados à arte.

Alencar vai ser sempre este homem duplo: o romântico, sonhador extremado, e, por força da virilidade, também um ser político. Por isso ele vai afirmar textualmente à frente: “[...] o único homem novo e quase estranho que nasceu em mim com a virilidade foi o político.” (Ibidem, p. 48).

Todas as biografias vão ressaltar esta duplicidade (real) do literato e do político, enfatizando a denegação financeira do artista. E criando um personagem romântico inteiramente devotado à arte por outra generosidade (construção irreal). Como já vimos anteriormente, Alencar conquistou lucros simbólicos na literatura e lucros reais no comércio com o “bom ladrão” Garnier.

O político já teria uma grande justificativa para ser dominado: é um artista. E o artista teria assim uma grande justificativa para “lutar com unhas e dentes” pelo seu capital simbólico e financeiro: é um político idealista, por isso fracassado.

A ironia deste jogo da política como a máscara da virtude, e da arte como ascetismo forçado, é que Alencar negaria a D. Pedro a grande honra de construir, através de sua grande trama simbólica, o Império da ciência e da cultura, o que lhe

conferiria o título de pai da literatura brasileira. E Alencar sofreria o revés de ser desmascarado como desinteressado politicamente porque ao ser negado o cargo de senador vitalício, demonstrou publicamente seu ódio. Seus algozes, como Nabuco, perspicazes, não deixariam passar em branco estas duas lógicas aparentemente tão óbvias: comer chocolate na política e passar por faquir na literatura.