5.2
Os lemas fundamentais
Nesta seção, apresentamos dois lemas (Lemas 5.3 e 5.4) que são fundamentais para o desenvolvimento do trabalho. Nas provas destes lemas serão utilizados outros dois lemas técnicos (Lemas 5.1 e 5.2).
Os lemas técnicos tratam da existência de certas homotopias relativas entre auto-aplicações da 2-esfera. Para evitar conito com as notações já utilizadas, consideramos a 2-esfera do domínio de uma tal auto-aplicação com decomposição celular S2 = e0∪ e2 e, como antes, a
2-esfera do contra-domínio é considerada com decomposição celular S2= e0 ∗∪ e2∗.
Lema 5.1. Seja f : S2 → S2 uma aplicação celular de grau d 6= 0. Então existem uma
aplicação celular ϕ : S2 → S2 e um ponto a ∈ S2, tais que ϕ ≃ f rel {e0} e #ϕ−1(a) = 1.
Prova: A existência de uma aplicação ϕ homotópica a f satisfazendo #ϕ−1(a) = 1 é bem
conhecida (ver [27] e/ou [6]). O que nos cumpre provar é o fato de tal aplicação poder ser escolhida celular e homotópica a f relativa a {e0}. Vamos dividir a prova em várias etapas.
1a Etapa: Existem uma aplicação celular g : S2 → S2 e um ponto a ∈ S2 tais que g ≃ f
e #g−1(a) = 1. Com efeito: considere a esfera S2 fragmentada em |d| faixas meridionais por
meridianos m1, . . . , m|d|. Seja g : S2 → S2 a aplicação denida de modo que cada meridiano
mi, para 1 ≤ i ≤ |d|, é aplicado homeomorcamente sobre um mesmo meridiano distinguido
m de S2 e cada uma das |d| faixa meridionais reveste uma vez a esfera S2, sempre numa mesma direção, a qual é escolhida, de acordo com a orientação de S2, de modo que g seja
uma aplicação de grau d (e não −d, que é a única outra alternativa para o grau da aplicação gassim construída). A aplicação g pode ser vista como a suspensão de g1 : S1→ S1 denida
por g1(z) = zd e é o recobrimento ramicado canônico de |d| folhas e pontos de ramicação
e0 e −e0, uma vez considerados e0 como o polo sul e −e0 como o polo norte.
f g a 0 * e 0 e - 0 e
Figura 5.1: Auto-aplicações da 2-esfera com grau d
Como f e g têm o mesmo grau, f e g são homotópicas. Além disso, se denimos a = g(−e0), conforme a Figura 5.1, então g−1(a) = {−e0}. O que não podemos garantir de imediato é que a homotopia entre f e g seja relativa a {e0}. Passamos então à próxima etapa.
2a Etapa: Seja H : S2× I → S2 uma homotopia entre f e g, de modo que H(x, 0) = f(x)
termina aqui. Caso contrário, H dene um laço γ = H(e0, · ) : I → S2 com ponto base
γ(0) = H(e0, 0) = f (e0) = e0∗ = g(e0) = H(e0, 1) = γ(1). Sendo S2 simplesmente conexa, este laço é homotópico ao laço γ0 : I → S2 constante em e0∗. Seja Λ : I × I → S2 homotopia
(com pontos nais xados) entre γ e γ0, ou seja, Λ : γ ≃ γ0 rel {e0}.
3a Etapa: Vamos obter a aplicação procurada ϕ : S2 → S2 como sendo o nal de uma
homotopia bH : S2× I → S2, relativa a {e0}, começando em f e obtida através de uma sutil
alteração da homotopia H em uma vizinhança especíca U de e0× I em S2× I. Nesta etapa
da demonstração apenas construiremos a vizinhança U.
Pois bem, seja V uma vizinhança fechada do ponto e0 em S2, contida no hemisfério sul de
S2 e homeomorfa a I × I, de tal modo que −e0 ∈ V/ . A menos de homeomorsmo, podemos considerar H|V×I como sendo uma aplicação de I ×I ×I em S2. Como alteraremos H somente
em um subconjunto de V ×I, esta identicação não prejudica nossa demonstração, outrossim, facilitará a construção da homotopia bH desejada.
De agora em diante, apesar de mantermos as notações originais, entendemos H|V×I como
aplicação de I × I × I em S2. Por simplicidade de notação, escrevemos e0
t para denotar o
ponto (e0, t)de V × I.
Sejam ε e δ dois números reais positivos escolhidos de tal modo que a bola fechada ¯Bρ(e00)
esteja inteiramente contida no interior de V × 0, onde ρ = ε + δ.
Seja U o tronco de cilindro ¯Bρ(e00) × I contido em V × I e seja C o cone contido em U,
cuja base é a bola fechada ¯Bε(e01) e cujo vértice é o ponto e00.
Por m, vamos escrever ∂U e ∂C para denotar a fronteira topológica de U e de C, respec- tivamente, em V × I. Ainda mais, vamos denotar W = U \ (C \ ∂C). Note que W ∪ C = U e W ∩ C = ∂C. (Veja a Figura 5.2). 1 ´ V 0 ´ V 0 0 e 0 1 e e d U C W
Figura 5.2: Construção de vizinhança para e0× I.
4a Etapa: Denição de bH restrita a (S2× I) \ U.
Para cada ponto (x, t) ∈ (S2× I) \ U, denimos, simplesmente, bH(x, t) = H(x, t).
5a Etapa: Denição de bH restrita a W .
Para cada número real t ∈ I, considere a secção Vt= V × tde V × I. Sua intersecção Ut
com U é composta por duas bolas fechadas com centro em e0
5.2 Os lemas fundamentais 61
indicado na Figura 5.3. Além disso, Wt é o anel (fechado) delimitado por estas duas bolas
fechadas. te (1 d + -t e) t Px x Qt t V ´ Wt t0 e Figura 5.3: A secção Vt= V × t.
Para cada ponto (x, t) ∈ Wt, existe um único segmento de reta [(x, t), e0t]ligando (x, t) ao
ponto e0
t. Este segmento encontra a fronteira da bola fechada ¯Btε(e0t) × tem um único ponto
Qx
t. O prolongamento deste segmento até o bordo da bola fechada ¯Btρ(e0t) × t, determina
sobre este um único ponto Px
t tal que [Ptx, Qxt] contém (x, t) e [Ptx, Qxt] ∧ [Qxt, e0t] = [Ptx, e0t],
onde ∧ indica concatenação de caminhos. Existe, então, um único número real λ(x) ∈ [0, 1] tal que
(x, t) = Ptx+ λ(x)−−−→PtxQxt.
Agora, como ¯Bρ(e0t) e ¯Btε(e0t) são bolas redondas concêntricas, existe um número real
não negativo m(t) (que depende apenas de t e não de x) tal que m(t)−−−−→PtxQtx=−−−→Ptxe0t.
Observe que m(0) = 1, m(1) = ρ/δ e m(t) varia linearmente em t, para t ∈ I. Denimos b H(x, t) = bH(Ptx+ λ(x) −−−→ PtxQxt) = H(Ptx+ m(t)λ(x) −−−→ PtxQxt). Note-se que:
(a) bH aplica o segmento [Px
t, Qxt]em H([Ptx, e0t]).
(b) Se (x, t) ∈ ∂ ¯Btε(e0t) ⊂ ∂C, então (x, t) = Qxt, λ(x) = 1 e bH(x, t) = H(Ptx +
m(t)−−−→PtxQxt) = H(e0t) = γ(t).
(c) Se (x, t) ∈ ∂U, então (x, t) = Px
t , donde λ(x) = 0 e bH(x, t) = H(Ptx) = H(x, t). Isto
mostra que bH é uma extensão de bH|(S2×I)\U.
(d) Na secção V × 0, tem-se W0 = W × 0 = ¯Bρ(e00)e bH(x, 0) = H(x, 0) = f (x)para todo
(x, 0) ∈ W.
6a Etapa: Denição de bH restrita a C.
Cada ponto Q ∈ ∂C determina um único segmento [e0
0, Qx1]contido em ∂C, de modo que
Qx
1 ∈ ¯Bρ(e01) e Q ∈ [e00, Qx1]. Escreva Qxt para denotar o único ponto deste segmento que se
encontra na secção V × t.
Pelo item (b) da 5a Etapa, bH já está denido para cada ponto Qx
t e tem-se bH(Qxt) = γ(t).
Agora, cada ponto (x, t) ∈ C, que não o próprio e0
t, determina um único segmento [Qxt, e0t]
contido em C de modo que (x, t) ∈ [Qx
´ V t x Qt e 1 0 0 0 1x Q e e t 0 e Figura 5.4: O cone C
Seguramente, existe um homeomorsmo linear hx
t aplicando o segmento [Qxt, e0t] sobre o
segmento [(t, 0), (t, 1)] naturalmente contido em I × I. Os homeomorsmos hy
s são idênticos
para quaisquer pontos (y, s) ∈ [Qx
t, e0t]. Denimos, nalmente,
b
H(x, t) = Λ(hxt(x, t)) e H(eb 0t) = e0∗.
Note-se que:
(a) bH é contínua em e0
t, pois Λ(t, s) → e0 quando s → 1 e hxt(x, t) → (t, 1) quando
(x, t) → e0t.
(b) Se (x, t) ∈ ∂C, então (x, t) = Qx
t e bH(x, t) = Λ(hxt(Qxt)) = Λ(t, 0) = γ(t), o que é,
segundo o item (b) acima, compatível com a denição de bH sobre ∂C realizada na 5a etapa. 7a Etapa: Com as construções realizadas nas etapas anteriores, temos denida uma
homotopia bH : S2 × I → S2 começando em f. Seja ϕ : S2 → S2 o nal desta homotopia,
ou seja, ϕ(x) = bH(x, 1). Então bH : f ≃ ϕ rel {e0}, como mostra a etapa anterior. Além
disso, bH difere de H apenas no interior da vizinhança U de e0× I, e tal alteração não afeta a pré-imagem do ponto a, de modo que ϕ−1(a) = {−e0}. Isto conclui a prova.
¥
Lema 5.2. Seja f : S2 → S2 uma aplicação celular de grau zero e seja κ0 : S2 → S2 a
aplicação celular constante em e0
∗. Então f ≃ κ0 rel {e0}.
Prova: Certamente f ≃ κ0. Seja então H : S2× I → S2 uma homotopia começando em
f e terminando na aplicação constante κ0. Se H não é uma homotopia relativa a e0, dena b
H : S2× I → S2 como no lema anterior. Então tem-se bH : f ≃ bH(· , 1) rel {e0}. Agora,
pela construção da bH é fácil checar que bH(x, 1) = e0 para todo x ∈ S2, ou seja bH(· , 1) = κ0. Portanto bH : f ≃ κ0 rel {e0}.
¥ Doravante, escrevemos κ0
∗ : K → S2 para denotar a aplicação celular constante em e0∗.
O lema a seguir mostra que o vetor-grau−→deg(f ) é invariante por homotopias relativas ao 1-esqueleto.
Lema 5.3. Sejam f, g : K → S2 duas aplicações celulares. Se f ≃ g rel K1, então −→deg(f ) =
−→ deg(g).
5.2 Os lemas fundamentais 63
Prova: Seja H : f ≃ g rel K1, ou seja, H : K × I → S2 é uma aplicação contínua vericando
H(x, 0) = f (x)e H(x, 1) = g(x) para todo x ∈ K, e H(x, t) = f(x) = g(x) = e0∗ para todo t ∈ I e todo x ∈ K1.
Para cada ¯x ∈ S2
i, escolha de uma vez por todas um ponto x ∈ e2i tal que ¯x = ωi(x).
Dena Hi : Si2× I → S2 por Hi(¯x, t) = H(x, t). Pelas denições de ωi e H, a aplicação Hi
está bem denida e é contínua. Além disso, temos
Hi(¯x, 0) = H(x, 0) = f (x) = fi(ωi(x)) = fi(¯x) para todo ¯x ∈ Si2;
Hi(¯x, 1) = H(x, 1) = g(x) = gi(ωi(x)) = gi(¯x)para todo ¯x ∈ Si2;
Hi(c0i, t) = H(x, t) = e0∗ para todo t ∈ I, já que neste caso x ∈ ∂e2i ⊂ K1.
Portanto, Hi : fi ≃ gi rel {c0i}. Segue-se que deg(fi) = deg(gi). Como estes argumentos são
válidos para cada 1 ≤ i ≤ m, isto prova que−→deg(f ) =−→deg(g). ¥
O próximo resultado mostra que a recíproca do lema acima é verdadeira se ao menos uma dentre f e g é uma aplicação constante.
Lema 5.4. Seja f : K → S2 uma aplicação celular. Então f ≃ k0
∗ rel K1 se, e somente se,
−→
deg(f ) = 0.
Prova: Segue do lema anterior que se f ≃ k0
∗ rel K1 então
−→
deg(f ) = 0. Para provar a recíproca, assuma −→deg(f ) = 0 e escreva κ0i : Si2 → S2 para denotar a aplicação constante de S2
i em e0∗ ∈ S2. Como deg(fi) = 0, temos fi ≃ κ0i rel {c0i}, pelo Lema 5.2. Então, seja
Hi : Si2× I → S2 uma homotopia relativa, de modo que Hi(¯x, 0) = fi(¯x)e Hi(¯x, 1) = e0∗ para
todo ¯x ∈ S2
i, e Hi(c0i, t) = e0∗ para todo t ∈ I. Para cada x ∈ K, escolha de uma vez por
todas um índice i(x) ∈ {1, . . . , m} tal que x ∈ e2
i(x). Dena H : K × I → S2 por H(x, t) =
Hi(x)(ωi(x)(x), t). Se um ponto x ∈ K pertence a uma intersecção e2j ∩ e2l de duas 2-células, então x ∈ K1 e ω
j(x) = c0j e ωl(x) = c0l. Assim, a condição Hi(c0i, t) = e0∗ para todo t ∈ I e
todo i ∈ {1, . . . , m} mostra que a aplicação H está bem denida e para cada x ∈ K1 tem-se
H(x, t) = e0
∗ para todo t ∈ I. Além disso, tem-se H(x, 0) = Hi(x)(ωi(x), 0) = fi(ωi(x)) = f (x)
para todo x ∈ K e H(x, 1) = Hi(x)(ωi(x), 1) = κi(ωi(x)) = e0∗ para todo x ∈ K. Portanto,
H : f ≃ k∗0 rel K1. ¥
Note que se a homotopia f ≃ κ0
∗ não é relativa ao 1-esqueleto, então não se pode garantir,
em geral, que−→deg(f ) = 0. Para ilustrar isso, apresentamos o seguinte exemplo:
Exemplo 5.5. Seja K um 2-disco com decomposição celular e0
1∪ e11∪ e21. Seja f : K → S2 a
aplicação canônica que identica o bordo do disco em um único ponto que escolhemos ser a 0-célula e0
∗ de S2. Então, na fatoração celular de f
K −→ Sω1 12 f1
−→ S2
tem-se f1 homotópica a aplicação identidade. Logo deg(f1) = 1. No entanto, como K é
contrátil, f é homotópica a uma aplicação constante. ¤