Utilizamos nesta pequena subseção preliminar a prova do Teorema 5.20 a terminologia do livro [28] , mas qualquer outro livro de Topologia Geral pode ser consultado como complemento a sua compreensão.
Sejam X e Y espaços topológicos. Seja q : X → Y uma aplicação sobrejetora. A aplicação qé dita uma aplicação quociente se se verica: um subconjunto U de Y é aberto em Y se, e somente se, q−1(U ) é aberto em X. Se este é caso, ou seja, se q é uma aplicação quociente,
então, para cada y ∈ Y , o subconjunto q−1(y) de X será chamado a bra de q sobre y.
Seja q : X → Y uma aplicação quociente e seja f : X → Z uma aplicação que é constante em cada bra q−1(y). Então f induz uma aplicação f′ : Y → Ztal que f′◦q = f. A aplicação
Seja q : X → Y uma aplicação quociente e seja 1Z : Z → Z a aplicação identidade do
espaço Z. Se Z é localmente compacto, então a aplicação produto q × 1Z : X × Z → Y × Z
é uma aplicação quociente.
Sejam H : X×I → Z uma homotopia e A um subconjunto de X. Diremos que a homotopia Hé constante por níveis em A se, para cada t ∈ I, H(x, t) = H(x′, t)para quaisquer x, x′ ∈ A, ou seja, para cada t ∈ I, a aplicação H(· , t) : X × {t} → Y é constante em A.
Lema 5.21. Seja q : X → Y uma aplicação quociente e sejam f, g : Y → Z aplicações contínuas. Dena aplicações ¯f , ¯g : X → Z pelas composições ¯f = f ◦ qe ¯g = g ◦ q. Então f é homotópica a g se, e somente se, ¯f é homotópica a ¯g por meio de uma homotopia constante por níveis nas bras de q.
Prova: Observe-se inicialmente que, como o intervalo fechado I é localmente compacto, a aplicação produto q × 1I : X × I → Y × I é uma aplicação quociente.
Suponha que seja H : Y × I → Z uma homotopia iniciando em f e terminando em g. Então dena ¯H : X × I → Z por ¯H(x, t) = H(q(x), t). Esta é claramente uma homotopia iniciando em ¯f e terminando em ¯g. Além disso, para cada y ∈ Y , tem-se ¯H(x, t) = H(y, t) para todo x na bra q−1(y), ou seja, ¯H é uma homotopia constante por níveis nas bras de q.
Por outro lado, suponha que seja ¯H : X × I → Z uma homotopia iniciando em ¯f e terminando em ¯g e constante por níveis nas bras de q. Para cada y ∈ Y , escolha de uma vez por todas um elemento xy ∈ X tal que q(xy) = y, ou seja xy ∈ q−1(y). Dena a aplicação
H : Y × I → Z fazendo H(y, t) = ¯H(xy, t). Como ¯H é constante nas bras, a aplicação H
está bem denida. Agora, as aplicações H e ¯H vericam ¯H = H ◦ (q × 1I). Logo, como q × 1I
é uma aplicação quociente e ¯H é contínua, segue-se que H é contínua. Além disso, H satisfaz: H(y, 0) = ¯H(xy, 0) = ¯f (xy) = f (q(xy)) = f (y) e H(y, 1) = ¯H(xy, 1) = ¯g(xy) = g(q(xy)) =
g(y). Portanto, H é uma homotopia iniciando em f e terminando em g. ¥
5.6.2 Prova do Teorema 5.20
Seja KP o 2-complexo modelo induzido por uma presentação P = hx1, . . . , xn| r1, . . . , rmi.
Podemos escrever KP = e0∪ e1x1∪ · · · ∪ e 1 xn∪ e 2 1∪ · · · ∪ e2m. Considere m cópias S2
1, . . . , Sm2 da esfera S2, cada uma com decomposição CW minimal
Si2 = c0i ∪ c2i. Seja ∨mi=1Si2 o bouquet destas m esferas obtido identicando-se as 0-células
c0
1, . . . , c0m a um ponto c0. Então, o espaço ∨mi=1Si2 herda das esferas que o compõem uma
estrutura CW (minimal) da forma
m
_
i=1
Si2= c0∪ c21∪ · · · ∪ c2m.
Seja ω : KP → ∨mi=1Si2 a aplicação celular canônica que identica todo o 1-esqueleto KP1
5.6 Condição necessária e suciente para se ter µ(f) = 0 79
aplicação restrita ω|e¯2
i é idêntica a ωi|¯e2i : K → S
2
i, onde esta última é denida como na Seção
5.1. Além disso, para cada 1 ≤ i ≤ m, a aplicação ω aplica o interior da 2-célula e2
i de KP
homeomorcamente sobre o interior da 2-célula c2
i de ∨mi=1Si2.
Dada uma aplicação celular f : KP → S2 e considerada a esfera S2, contra-domínio de f,
com decomposição CW minimal S2= e0
∗∪ e2∗, existe uma aplicação celular f∨ : ∨mi=1Si2 → S2
tal que f = f∨◦ ω. De fato, para cada z ∈ ∨m
i=1Si2, z 6= c0, existe um, e apenas um, índice
i(z) ∈ {1, . . . , m}, tal que z ∈ c2i(z). Sendo assim, a pré-imagem de z por ω consiste de um único ponto y(z), o qual está contido no interior de e2
i(z). Dena f∨ : ∨mi=1Si2 → S2 fazendo:
f∨(z) = (
f (y(z)) se y 6= c0
e0∗ se y = c0 .
É fácil ver que f∨ está bem denida e é celular. Além disso, por construção, f = f∨◦ ω.
Para cada 1 ≤ i ≤ m, denote por f∨
i a restrição de f∨ à esfera Si2, ou seja,
fi∨ = f∨|Si2 : Si2→ S2.
Cada tal aplicação, por ser aplicação entre esferas, possui um grau bem determinado deg(f∨ i ).
Sejam f1, . . . , fm as aplicações que constituem a fatoração celular de f, conforma a Seção
5.1. (Cada fi : Si2 → S2 é tal que f|e¯i2 = fi ◦ ωi|e¯2i). Então, é fácil ver que, a menos da
inclusão de S2
i em ∨mi=1Si2, a aplicação fi∨ é idêntica a fi. Logo, para cada 1 ≤ i ≤ m, tem-se
deg(fi) = deg(fi∨). Portanto
−→
deg(f ) = (deg(f1∨), . . . , deg(fm∨))T.
Para cada 1 ≤ i ≤ m, considere a aplicação característica χi : Di2 → KP da 2-célula e2i.
Dena a aplicação χ =`m
i=1χi :`mi=1D2i → K, do coproduto (ou soma topológica)
`m
i=1D2i,
como sendo a aplicação χi na i-ésima componente de`mi=1Di2.
Tal aplicação pode não ser sobrejetora. Não obstante, por conta da estrutura do complexo modelo KP, a aplicação χ aplica`mi=1D2i sobrejetivamente em KPh2i, onde KPh2ié o menor
subcomplexo de KP contendo todas as suas 2-células, ou seja, contendo e21, . . . , e2m. (Conra a
denição no parágrafo que antecede a Proposição 3.19). Então, pela Proposição 3.19, podemos supor que χ é sobrejetora e, portanto, uma aplicação quociente.
Observe-se que χ possui as seguintes propriedades: (i) Para cada b no interior da 2-célula e2
i, a bra χ−1(b) é constituída de um ponto do
interior do disco D2 i;
(ii) Para cada b no interior de e1
xj, a bra χ
−1(b) é um conjunto de Pm
i=1¯δij pontos
contido no coproduto `m
i=1∂Di2, de modo que há sempre ¯δij pontos no bordo ∂Di2, onde
¯
δij =Pkλ=1i |δ(λ)ij |.
(iii) A bra χ−1(e0) de χ sobre a 0-célula e0 de K é um subconjunto do coproduto
`m
i=1∂Di2 de cardinalidade nita igual a ρ :=
P
i,j¯δij, de modo que há sempre ρi :=Pnj=1δ¯ij
pontos em ∂D2
Seja p ∈ S1
i um ponto da bra χ−1i (e0). Seja τ o arco de comprimento 2π/ρi que inicia
em p e segue no sentido anti-horário. Se este arco é aplicado por χi sobre e1xj, então chame-o
de γxj
i1 e dena a xj
i1 = p, e chame o seu outro extremo de a xj
i2. Repita este processo agora para
axj
i2 no lugar de p. Proceda iterativamente até percorrer toda a S1.
Ao nal deste processo teremos χ−1i (e0) = {ax1
i1, . . . , axi¯δ1i1, . . . , a
xn
i1, . . . , axi¯δnin},
(um conjunto com cardinalidade ρi), e cada ponto p ∈ Si1 que não pertence a χ−1i (e0) está
em um arco γxj
iǫi para algum ǫi = 1, . . . , ρi.
Então, cada arco γxj
iǫicorresponde a uma parcela de uma potência δ
(λ(ǫi))
ij , λ(ǫi) ∈ {1, . . . , ri},
da letra xj na palavra relatora ri. Assim, é fácil ver que a indexação dos arcos γ xj
iǫi pode ser
escolhida de modo que, partindo-se do ponto ax1
i1 ∈ Si1 e percorrendo S1 em sentido anti-
horário, percorremos, ordenadamente os arcos γxj
i1, . . . , γ xj
iρi de acordo com a palavra relatora
ri. (A gura abaixo ilustra esta construção para o caso em que n = 2).
i c 1 1 x e 1 2 x e 1 1 x i g 1 1 x i a 1 2 x i a 2 2 x i a 2 1 x i a 2 1 x i g 1 i S
Figura 5.12: Indexando as bras de χ sobre e0
Agora, vamos associar a cada um dos arcos γxj
iǫi um sinal sgn(γ
xj
iǫi). Um arco γ
xj
iǫi é aplicado
por χi homeomorcamente sobre e1xj. Pois bem, então a imagem χi(γ
xj
iǫi) corresponde a uma
(e apenas uma) parcela de uma parcela da soma δij =Pkλ=1i δ(λ)ij . Denimos sgn(γiǫxji) = +1se
o sinal desta parcela é positivo, e denimos sgn(γxj
iǫi) = −1se o sinal desta parcela é negativo.
Dena F :`m
i=1Di2 → S2 pela composição F = f ◦ χ, e seja Fi= F |D2 i.
Abaixo, um diagrama comutativo que ilustra as construções até então realizadas.
`m 1=1Di2 χ ²² Ω %%K K K K K K K K K K F '' ∨m i=1Si2 f∨ //S2 K ω rr 88r r r r r r r r r f 77
Como o contra-domínio de f : KP → S2 é a esfera, é óbvio que f é livre de raízes se, e
5.6 Condição necessária e suciente para se ter µ(f) = 0 81
é livre de raízes se, e somente se, F é homotópica a aplicação constante, por meio de uma homotopia constante por níveis nas bras de χ.
Suponha que seja ¯H : (`mi=1D2i) × I → S2 uma homotopia iniciando em F e terminando na aplicação κ : `m
i=1D2i → S2, esta última denida como sendo a aplicação constante no
ponto −e0
∗, antípoda da 0-célula e0∗ de S2.
Como (`m
i=1Di2) × I é homeomorfo a
`m
i=1(Di2× I), a aplicação ¯H pode ser considerada
como um coproduto ¯ H = m a i=1 ¯ Hi : m a i=1 (D2i × I) → S2,
onde cada ¯Hi : D2i → S2 é uma homotopia iniciando em Fi e terminando na aplicação
constante em −e0
∗. Denotamos tal aplicação constante por κi : D2i → S2, de modo que κ é
idêntica a aplicação coproduto das aplicação κ′s
i , ou seja, κ =
`m
i=1κi.
Vamos provar que: A homotopia ¯H pode ser escolhida sendo constante por níveis nas bras de χ se, e somente se, o sistema linear diophantino ∆PY =
−→
deg(f ) é compatível. Isto, pelo Lema 5.21, concluirá a prova do teorema.
Suponha que o sistema linear diophantino ∆PY = −→deg(f ) seja compatível. Então é
também compatível o sistema linear diophantino ∆PY = −
−→
deg(f ). Seja o vetor inteiro s = (s1, . . . , sn)T ∈ Zn uma solução deste último sistema.
Vamos construir uma homotopia ¯H : (`mi=1Di2) × I → S2, constante por níveis nas bras de χ, iniciando em F e terminando em κ. Começamos exigindo que, a menos das devidas identicações, ¯H(· , 0) seja F e ¯H(· , 1) seja κ. Agora vamos construir ¯H no bordo
`m
i=1∂(D2i × I)de
`m
i=1(D2i × I). A esta aplicação, ou seja, a ¯H restrita a ∂((
`m
i=1D2i) × I)
vamos chamar simplesmente H. E mantendo nossas notações, escrevemos Hi para denotar a
restrição de H a ∂(D2
i × I), de modo que H é então a aplicação coproduto
`m
i=1Hi.
Primeiro observe-se que o fato de ser f uma aplicação celular implica que cada aplicação Fi é constante igual a e0∗ no bordo Si1 = ∂Di2. Logo, cada aplicação ¯Hi é constante igual a e0∗
em S1 i × 0.
Selecione um meridiano distinguido M na esfera S2 e dena H sobre cada segmento p × I,
p ∈ χ−1(e0), como sendo um homeomorsmo de p × I sobre M. Para cada 1 ≤ j ≤ n, sejam q±sj : S
2 → S2 o revestimento ramicado canônico a |s j|
folhas, com dois pontos de ramicação e0
∗ e −e0∗, tais que deg(q±sj) = ±sj. Considere ainda
que q±sj xe pontualmente o meridiano distinguido M (isto é claramente possível).
Seja γxj
ǫi um arco (fechado) arbitrário delimitado pela partição χ
−1(e0) ∩ S1
i = χ−1i (e0),
de modo que a imagem de γxj
ǫi por χ é e1xj e ǫi é um índice no conjunto {1, . . . , ρi}.
Então o subconjunto γxj
ǫi × I da esfera ∂(D
2
i × I) é homeomorfo a I × I. Além disso, o
índice ǫi ∈ {1, . . . , ρi} corresponde a uma (e apenas uma) parcela de uma parcela da soma
δij =Pkλ=1i δij(λ), e o sinal de tal parcela é igual ao sinal sgn(γ xj
Isto mostra que ρi X ǫi=1 sgn(γxj ǫi) = δij,
e portanto, como (s1, . . . , sn)T é solução do sistema ∆Y = −
−→
deg(f ), segue-se que
n X j=1 ρi X ǫi=1 sgn(γxj ǫi)sj = δi1s1+ · · · + δinsn= − deg(fi). Seja Γxj ǫi : γ xj ǫi × I → S
2 a aplicação quociente que identica γxj
ǫi × 0 ao ponto e
0
∗, identica
γxj
ǫi × 1ao ponto −e0∗, e identica as duas componentes (dois segmentos) de ∂(γ xj ǫi) × I sobre o meridiano distinguido M. Dena H|γxj ǫi×I : γ xj
ǫi × I → S2 como sendo a composição
H|γxj
ǫi×I = qsgn(γǫixj)sj◦ Γ
xj
ǫi.
Para cada 1 ≤ i ≤ m, as aplicações Fi, κi e H|γxj
ǫi×I, para 1 ≤ j ≤ n e ǫi = 1, . . . , ρi,
dão juntas uma aplicação contínua Hi : ∂(Di2× I) → S2, que é a aplicação Fi em Di2× 0, é
a aplicação constante κi em Di2× 1, e em cada γ xj
ǫi × I é tal que reveste com o disco γ
xj
ǫi × I
a esfera S2 exatamente |s
j|vezes, no sentido igual ou oposto ao induzido pela orientação de
S2, dependendo de ser o sinal sgn(γxj
ǫi) positivo ou negativo, respectivamente.
(A gura abaixo ilustra a construção de Hi para o caso em que Fi : Di2× 0 → S2 é a
aplicação que identica todo o bordo ∂(D2
i × 0) à 0-célula e0∗ de S2.) k 0 *
e
0 * - e 0 i ieg
xj i ieg
xl Fi Hi iFigura 5.13: Esquema da construção das homotopias Hi
Agora, da fórmula Pn j=1
Pρi
ǫi=1sgn(γ
xj
ǫi )sj = − deg(fi), e do fato de ser fi∨ aplicação
de grau deg(fi) e a aplicação constante κi de grau zero, segue-se que a aplicação Hi :
∂(D2
i × I) → S2 é uma aplicação de grau deg(Hi) = 0. Então, Hi estende a uma aplicação
¯
Hi : Di2× I → S2 consistindo de uma homotopia iniciando em Fi e terminando em κi. Além
disso, como cada H|γxj
ǫi×I ca completamente denida pelo sinal sgn(γ
xj
ǫi) e pela j-ésima
coordenada sj da solução (s1, . . . , sn)T do sistema ∆PY = −−→deg(f ), ca claro da construção
5.6 Condição necessária e suciente para se ter µ(f) = 0 83
argumentos e do fato de serem unitárias as bras dos pontos interiores às 2-células de KP que
a aplicação ¯H =`mi=1H¯i:`(D2i × I) → S2 é uma homotopia constante por níveis nas bras
de χ, iniciando em F =`m
i=1Fi e terminando na aplicação constante κ =`mi=1κi.
Agora, suponha que seja ¯H : (`mi=1D2i) × I → S2 uma homotopia constante por níveis nas bras de χ, iniciando em F e terminando na aplicação constante κ :`m
i=1Di2 → S2.
É claro que, salvo as devidas identicações, tem-se ¯H(· , 0) = F e ¯H(· , 1) = κ.
Agora, sendo cada ¯Hi : D2i × I → S2 uma aplicação contínua, devemos ter deg(Hi) = 0,
onde Hi = ¯Hi|∂(D2
i×I), como já vínhamos denotando.
Além disso, cada aplicação ¯Hi é uma homotopia constante por níveis nas bras de χi,
iniciando em Fi e terminando na aplicação constante κi. Sendo assim, e salvo as devidas
identicações, tem-se Hi(· , 0) = Fi e Hi(· , 0) = κi.
Mantendo-se as notações anteriores, de tudo isto se conclui que, para cada i xado, 1 ≤ i ≤ m, existe uma n-upla de números inteiros (si
1, . . . , sin), tal que 0 = deg(Hi) = deg(fi) + n X j=1 ρi X ǫi sgn(γxj ǫi)s j i = deg(fi) + δi1si1+ · · · + δinsin.
Portanto, δi1si1+ · · · + δinsin= − deg(fi), ou seja, a n-upla (si1, . . . , sin)é uma solução inteira
para a equação linear diophantina δi1y1i+ · · · + δinyin= − deg(fi), que é exatamente a i-ésima
equação do sistema ∆PY = −
−→ deg(f ).
Agora, como ¯H = `mi=1H¯i é uma homotopia constante por níveis nas bras de χ =
`m
i=1χi, segue-se que existe uma n-upla de números inteiros (s1, . . . , sn), tal que δi1s1 +
· · · + δinsn = − deg(fi) para todo 1 ≤ i ≤ m. Logo, o vetor inteiro s = (s1, . . . , sn)T é
uma solução inteira para o sistema linear diophantino ∆PY = −
−→
deg(f ). Portanto, o sistema ∆PY =−→deg(f )é compatível.
Isto conclui a prova do Teorema 5.20. ¥
Este teorema que acabamos de demonstrar tem algumas conseqüências importantes. De- dicamos na seqüência uma subseção à apresentação e demonstração de algumas mais interes- santes. Antes, porém, apresentamos alguns exemplos que, embora simples, ilustram bem o resultado do Teorema 5.20.
5.6.3 Alguns exemplos da aplicabilidade do Teorema 5.20
O primeiro exemplo que apresentamos mostra a relação entre o Teorema 5.20 e aqueles da Seção 5.4, quando todos se aplicam.
Exemplo 5.22. Seja KP o 2-complexo modelo induzido pela presentação P = hx | xp, xqi,
onde p e q são inteiros arbitrários. Então KP possui duas células 2-dimensionais, digamos e21
e e2
2-célula e2
1 seja aquela colada segunda a palavra relatora xp, e e22seja colada segunda a palavra
relatora xq. Seja f : K
P → S2 uma aplicação celular arbitrária e sejam f1, f2 constituindo a
fatoração celular de f. A matriz diophantina induzida por P é a matriz ∆P = [p q]T. Pelo
Teorema 5.20, a aplicação f é livre de raízes se, e somente se, o sistema linear diophantino " p q # h y i= " deg(f1) deg(f2) #
é compatível, ou seja, possui uma solução inteira. Agora, se s é uma solução inteira deste sistema, então devemos ter deg(f1)/p = s = deg(f2)/q. Segue-se disto que
f é livre de raízes se, e somente se, q deg(f1) = p deg(f2) é inteiro.
Agora, se assumimos que p e q são inteiros primos entre si, então não é difícil checar que KP é homotopicamente equivalente a esfera S2 e ζKP = qe
2
1− pe22 representa um gerador do
grupo de homologia H2(KP) ≈ Z. Pela Seção 5.4, tem-se dH(f) = q deg(f1) − p deg(f2). Pela
Proposição 5.14, f é livre de raízes se, e somente se, q deg(f1) − p deg(f2) = 0.
Mas temos q deg(f1) − p deg(f2) = 0 ⇔ qdeg(f1)−p deg(fpq 2) = 0 ⇔ deg(f1)/p = deg(f2)/q.
Além disso, se q deg(f1) − p deg(f2) = 0, então deg(f1) é múltiplo de p e deg(f2) é múltiplo
de q, já que mdc(p, q) = 1. Portanto,
dH(f ) = 0e, e somente se deg(f1)/p = deg(f2)/q é inteiro.
¤ Observe-se que se p = 2 e q = 3, ou vice-versa, então o complexo KP deste exemplo é
aquele do Exemplo 5.19.
Exemplo 5.23. Seja RP2 o plano projetivo. Então RP2 = K
P, onde P = hx | x2i. Seja
f : RP2 → S2 uma aplicação celular arbitrária e seja f
1 : S12 → S2 fatoração celular de f,
ou seja, f1 é a aplicação celular tal que f = f1◦ ω1, onde ω1 : RP2 → S12 é a aplicação que
identica todo o 1-esqueleto de K em um único ponto, a 0-célula de S2
1. Pelo Teorema 5.20,
f é livre de raízes se, e somente se, o sistema linear diophantino h
2 i h y i=h deg(f1)
i
é compatível. Mas isto claramente ocorre se, e somente se, deg(f1) é um número par.
¤ Este exemplo se generaliza para superfícies fechadas não orientáveis de qualquer gênero.
Exemplo 5.24. Seja Ng a superfície fechada não orientável de gênero g > 1. Então Ng é o
2-complexo modelo induzido pela presentação
5.6 Condição necessária e suciente para se ter µ(f) = 0 85
Seja f : Ng → S2 uma aplicação celular arbitrária e seja f1 : S12 → S2 fatoração celular
da aplicação f. Pelo Teorema 5.20, f é livre de raízes se, e somente se, o sistema linear diophantino h 2 2 · · · 2 i y1 ... y2g = h deg(f1) i
é compatítel. Mas isto claramente ocorre se, e somente se, deg(f1) é um número par.
¤ Para o caso de aplicações celulares de uma superfície fechada orientável na esfera, apre- sentamos o exemplo abaixo.
Exemplo 5.25. Seja Mg a superfície fechada orientável de gênero g ≥ 1. Então Mg é o
2-complexo modelo induzido pela presentação
P = hx1, z1, x2, z2, . . . , xg, zg| x1z1x−11 z1−1x2z2x−12 z2−1· · · xgzgx−1g z−1g i.
Seja f : Mg → S2 uma aplicação celular arbitrária e seja f1 : S12 → S2 fatoração celular da
aplicação f. Note-se que a matriz diophantina ∆P induzida por P é a matriz nula. Portanto,
pelo Teorema 5.20, f é livre de raízes se, e somente, deg(f1) = 0. Em outras palavras,
µ(f ) = 0se, e somente se, µ(f1) = 0. ¤