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KJØNNSFORSKJELLER

KAPITTEL 3. PRESENTASJON AV DATA OG METODE

4.3 M ULIGE SAMMENHENGER MELLOM SIVILSTAND OG PLANLAGT TIDLIGPENSJON

4.3.4 KJØNNSFORSKJELLER

1. O pensamento indomável

N

o início de nosso trabalho2 com a obra de Sade, o primeiro obstáculo encontrado foi

tentar apreender num todo uma diversidade de argumentos, de posições filosóficas e de pontos de vista sobre o mundo. Logo percebemos que, dentro dos estudos sadianos, é até um fato bastante difundido que as teorias do marquês não formam uma totalidade precisa, coerente e sem contradição interna. Maurice Blanchot, por exemplo, interroga-se: “Onde está a ordem nesse sistema, onde ele começa, onde ele termina?”3. Para ele, a constatação de que

1 “Quelle que soit la légitimité philosophique de toutes les interprétations de Sade qui se sont réclamées de Hegel, de Nietzsche ou d'autres, le recours à des systèmes qui mettent la pensée en mouvement servait à dépasser la simple réaction de rejet et à prendre au sérieux le contenu des œuvres de Sade. Ce type d'approche obligeait à distinguer les scènes et les dissertations, elle individualisait les libertins qui sont loin

de tous tenir le même discours” (Michel Delon, “Introduction”, in Sade, Œuvres I, Paris: Gallimard/Pléiade,

1990, p. XLV), (itálico nosso).

2 Tais foram os entraves encontrados no mestrado {O sistema filosófico do Marquês de Sade: estudo da

elaboração do sistema filosófico do Marquês de Sade a partir das filosofias iluminista e libertina da França no século XVIII, Orientador: Luiz Roberto Monzani, Dissertação (mestrado) – Unicamp, IFCH, Campinas,

SP, [s.n.], 2006}. Ao chamar a dissertação de O sistema filosófico..., frisamos que a palavra “sistema” seria entendida apenas como o conjunto de ideias do autor e não como um sistema no sentido rigoroso do termo. Não obstante, os problemas gerados pelas contradições entre os discursos dos personagens tornaram espinhosa e confusa a empreitada de expor a totalidade dos argumentos do marquês.

os princípios do escritor não formam um conjunto sólido é a primeira singularidade de sua obra e, em vista disso, confessa: “Na verdade, as contradições são abundantes”4.

Pierre Klossowski tampouco deixa de notar tal característica, declarando que os personagens de Sade especulam acerca de vários sistemas desenvolvidos na época sem se preocuparem com as contradições. Ele propõe que Sade entende a razão como uma forma de paixão, sempre inspirada pelo temperamento do libertino:

“[...] Sade depende, em relação aos sistemas filosóficos por meio dos quais seus personagens especulam, do racionalismo de Voltaire e dos enciclopedistas e do materialismo de d'Holbach e de La Mettrie. De resto, seus personagens tem uma perfeita desenvoltura para passar de um sistema a outro conforme suas paixões, sem se preocuparem com as contradições. Sade quer mostrar, assim, que é o

temperamento que inspira a escolha de uma filosofia e que a razão que invocam os

filósofos de seu tempo é, ela própria, somente uma forma de paixão”5.

De forma ainda mais crítica, Georges Bataille6 observa que os discursos dos heróis de

Sade, embora correspondam ao pensamento do escritor, não são coerentes entre si. Apesar de todos sustentarem o valor soberano do excesso e do crime, apresentam, a respeito de outros temas, pontos de vista divergentes. Por isso, ele acredita que as dissertações são inverossímeis: elas não se encaixam na fala de verdadeiros carrascos, que seriam silenciosos na vida real. Para Bataille, as falas são do próprio Sade, que utilizou o recurso literário para se expressar ao mundo. Contudo, sendo um homem de posições paradoxais, ele jamais se esforçou para conduzi-las à coerência do discurso.

Annie Le Brun não relaciona diretamente os enunciados dos personagens ao autor como o faz Bataille, mas também aponta posições contraditórias nos discursos dos devassos:

“[...] esses personagens, em nome da razão, não deixam de justificar por uma grande abundância de desenvolvimentos teóricos, uns mais lógicos que os outros, as posições mais contraditórias. [...] Seus personagens sim, mas não ele, que joga com as contradições deles, suscita-as, provoca-as para estabelecer de alguma forma a ausência de fundamento da razão e denunciar implicitamente sua pretensão à

Lautréamont et Sade, Paris: Éditions de Minuit, 1949, p. 19).

4 “À la vérité, les contradictions abondent” (id., ibid., p. 31).

5 “[...] Sade dépend, quant aux systèmes philosophiques au moyen desquels ses personnages spéculent, du rationalisme de Voltaire et des Encyclopédistes et du matérialisme de d'Holbach et de la Mettrie. Ses personnages ont du reste une parfaite aisance à passer d'un système à l'autre au gré de leurs passions sans guère se soucier des contradictions. Sade veut montrer ainsi que c'est le tempérament qui inspire le choix d'une philosophie et que la raison elle-même qu'invoquent les philosophes de son temps n'est encore qu'une forme de la passion” (Pierre Klossowski, Sade mon prochain, Paris: Éditions du Seuil, 1967, pp. 91-92), (itálicos do autor).

6 Georges Bataille, L'Érotisme, Paris: Éditions de Minuit, 1957, pp. 209-210 e id., La littérature et le mal, Paris: Gallimard, 1972, p. 83.

universalidade”7

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2. A ordem do sistema foge à narração de ficção

Levando em conta as questões levantadas acima, supõe-se que a sensação de “pensamento indomável”8 que a obra do marquês suscita seja o resultado lógico da fusão entre

filosofia e literatura. Em outras palavras, é preciso lembrar de duas coisas: primeiro, Sade expõe suas dissertações dentro de textos literários e não em tratados formais de filosofia; segundo, a ordem sistemática do tratado não cabe à narração de ficção. “Ou seja, a inconstância aí afirmada diz respeito, antes de mais nada, à essência do trabalho ficcional, atividade móvel por excelência, já que ditada pelas leis da imaginação”9, pontua Eliane

Robert Moraes. É por esse motivo que, quando analisamos trechos de obras diversas, tirados de diferentes contextos, pode mesmo parecer que o pensamento sadiano é completamente fragmentário e que o marquês escreveu máximas a esmo, sem nunca pensar em conceder-lhes coerência.

Todavia, a ordem dos seus escritos é muito bem delimitada pelo gênero por ele escolhido como forma de expressão. Como sua obra se vale de uma “diversidade de opções formais ‒ do romance epistolar ao panfleto político, do roman noir aos diálogos filosóficos, e assim por diante ‒”10, é fundamental, antes de mais nada, prestar atenção ao gênero cujo

conteúdo se deseja examinar. Não é conveniente, afirma Delon, estudar uma ideia sem relacioná-la às condições formais nas quais a mesma é expressa. Conforme o contexto no qual está inserida ‒ tratado teórico, ensaio em versos ou romance ‒ e o sujeito que a enuncia ‒ o próprio autor ou um personagem de ficção ‒, ela muda de significação11.

O romance, como é o caso do corpus deste estudo, é justamente reconhecido pela individualização que concede aos personagens12, cujo produto é uma variedade de 7 “[...] ses personnages, au nom de la raison, ne manquent jamais de justifier par une grande abondance de développements théoriques, plus logiques les uns que les autres, les positions les plus contradictoires. [...] Ses personnages oui, mais pas lui, jouant de leurs contradictions, les suscitant, les provocant, pour établir, en quelque sorte, l'absence de fondement de la raison et dénoncer implicitement sa prétention à l'universalité” (Annie Le Brun, Soudain un bloc d'abîme, Sade, Paris: Gallimard, 1986, p. 94).

8 Eliane Robert Moraes, “Apresentação”, in Gabriel Giannattasio, Sade: um anjo negro da modernidade, São Paulo: Imaginário, 2000, p. 12.

9 Id., ibid., p. 11. 10 Id., ibid., pp. 11-12.

11 Michel Delon, L'idée d'énergie au tornant des Lumières (1770-1820), Paris: PUF, 1988, p. 15.

12 Ver Ian Watt, The rise of the novel: studies in Defoe, Richardson and Fielding, London: Pimlico, 2000, pp. 17-18: “the novel is surely distinguished from other genres and from previous forms of fiction by the amount of attention it habitually accords both to the individualisation of its characters and to the detailed presentation of their environment”, (itálicos nossos).

argumentos, de debates e de confrontos. Dentro do romance, portanto, cada ideia tem um enunciador específico, que é cercado por um enredo, por interlocutores, por tempo e espaço precisos. Consequentemente, isolando o discurso de um libertino, estudando-o no seu todo (começo, meio e fim), relacionando suas opiniões às suas características e contextualizando-as face às de seus comparsas e ao gênero literário no qual elas são enunciadas, fica mais fácil encontrar coerência. Delon, aliás, já havia explicitado em 1972 como é importante estudar a obra sadiana sempre em relação ao seu contexto ficcional:

“Algumas das obras primas de Diderot são diálogos nos quais os interlocutores se afrontam sem que jamais o autor se confunda de forma unívoca com um deles. O romance, nesse sentido, é menos o gênero da afirmação que o da investigação e do confronto. É um gênero aberto: ele é propriamente experimental. [...] Portanto, não podemos assimilar a obra romanesca de Sade a uma obra filosófica. [...] Não existe um sistema filosófico explícito em Sade, há vários sistemas que se contradizem ou se completam. [...] Logo, só temos direito de isolar as páginas do romance sob a condição de recolocá-las dentro do funcionamento da totalidade do livro. Igualmente, só temos o direito de isolar as declarações teóricas dos personagens sob a condição de relacioná-las com o seu comportamento dentro da ficção”13

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3. As contradições no romance

Antes de prosseguir, convém enfatizar que não se pretende, aqui, solucionar as contradições da obra de Sade, responsáveis por emprestar um certo fascínio a seus escritos. Como observou Renato Janine Ribeiro: “a desordem é, nele, importante”14. Logo, o intuito

não é sistematizar, mas sim trabalhar o pensamento do marquês dentro do contexto do romance, que ‒ por ser um gênero bem menos rigoroso e com características muito peculiares e mais subjetivas ‒ pode aceitar certos paradoxos, ou mesmo justificá-los, conforme explica Laurent Versini: “A ambiguidade do romance tem razões puramente estéticas”15.

13 “Certaines des œuvres maîtresses de Diderot sont des dialogues où les interlocuteurs s'affrontent sans que jamais l'auteur ne se confonde de façon univoque avec l'un d'eux. Le roman, dans ce sens, est moins le genre de l'affirmation que celui de la recherche et de la confrontation. C'est un genre ouvert : il est proprement expérimental. [...] On ne peut donc pas assimiler l'œuvre romanesque de Sade à une œuvre philosophique. [...] Il n'existe pas un système philosophique explicite chez Sade, il en existe plusieurs qui se contredisent ou se complètent. [...] Nous n'avons donc droit d'isoler des pages de roman qu'à la condition de les replacer dans le fonctionnement d'ensemble du livre. [...] Nous n'avons également – et c'est une seconde précaution à prendre – le droit d'isoler les déclarations théoriques des personnages qu'à la condition de mettre en regard leur comportement dans la fiction” (Michel Delon, “Sade, maître d'agression”, in Europe 50e année, nº 522,

Sade, Paris: Europe et Les Éditeurs Français Réunis, octobre/1972, p. 125).

14 Renato Janine Ribeiro, “Apresentação”, in Eliane Robert Moraes, A Felicidade Libertina, Rio de Janeiro: Imago, 1994, p. 11.

15 “L'ambiguité du roman tient à des raisons purement esthéthiques” (Laurent Versini, Laclos et la tradition:

Tal argumento pode ser comprovado por meio do protagonista das Lettres Persanes (1721) de Montesquieu. Jean Starobinski16 explica que Usbek assume duas funções

contraditórias: observador das instituições ocidentais em busca do conhecimento racional e possuidor de cinco mulheres e sete eunucos. O gosto intelectual do herói se opõe portanto ao seu tirânico comportamento privado17. A estadia em Paris mostra ao visitante persa o precário

fundamento do domínio absoluto do rei e do papa. Entretanto, em momento algum Usbek questiona o próprio despotismo, exercido sobre seus instrumentos de dominação (os eunucos) ou seus bens mais preciosos (o harém)18.

Saint-Fond, por exemplo, é um personagem de Sade que também tem funções contraditórias. Por um lado, suas máximas são tão exageradas que escondem duras denúncias, quer do despotismo ministerial, da ostentação e dos privilégios da nobreza; quer da moral jacobina e de seus abusos durante o Terror. Por outro lado, elas sustentam argumentos sem nenhuma pretensão implícita de crítica, como a desigualdade natural e o despotismo inerente ao homem e às paixões. O herói é todo construído em cima desse jogo entre falas que ocultam um ataque e falas sem intenção de denunciar. A própria teologia do Ser supremo em maldade mostra as antíteses desse duplo Saint-Fond: desmistificador do culto ao Ser supremo de Robespierre ao mesmo tempo que perpetuador das fantasias que adulam seu próprio ego. Juliette, igualmente, cultiva posições paradoxais: ensina como fazer um governo republicano, mas elogia as paixões despóticas; celebra a apatia e o estoicismo, mas entrega-se ao entusiasmo e ao amor. O “nomadismo”19 do pensamento sadiano corresponde ao imenso

trabalho de reflexão teórica do autor dentro do mundo da ficção:

“Sade jamais escreveu tratado nem sistematizou seu pensamento. Sem dúvida, as dissertações e os discursos que ele coloca na boca de seus personagens não são nem mesmo redutíveis a uma ‘ordem metódica’ que pudesse constituir um ‘tratado completo’ do ateísmo e do imoralismo. A impaciência do homem pronto ao martírio por suas ideias e a necessidade de incarná-las sensualmente nas figuras e nas cenas conduzem-no além do rigor da argumentação. Sade tem gosto pelas ideias e pela disputa, mas a reflexão teórica só tem sentido para ele se estiver dentro de uma dialética do abstrato e do concreto, do discurso e do desejo. Ele não teme se repetir nem se contradizer”20

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16 Jean Starobinski, “Préface”, in Montesquieu, Lettres persanes, édition établie et présentée par Jean Starobinski, Paris: Gallimard, 1793, p. 26.

17 Id., ibid., p. 27. 18 Id., ibid., p. 28.

19 Moraes, “Apresentação”, op. cit., p. 12.

20 “Jamais Sade n'a composé de traité ni systématisé sa pensée. Les dissertations et discours qu'il place dans la bouche de ses personnages ne sont sans doute pas même réductibles à un ‘ordre méthodique’ qui pourrait constituer un ‘traité complet’ de l'athéisme et de l'immoralisme. L'impatience de l'homme prêt au martyre pour ses idées et le besoin de les incarner sensuellement dans des figures et dans des scènes l'emportent sur la rigueur de l'argumentation. Sade a le goût des idées et de la dispute, mais la réflexion théorique n'a de sens