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I NNSPILL TIL VIDERE FORSKNING

KAPITTEL 5. KONKLUSJON

5.5 I NNSPILL TIL VIDERE FORSKNING

No Idée sur les romans51, Sade desenvolve um raciocínio bastante similar ao de

43 Id., ibid..

44 Jacques Chouillet, La Formation des idées esthétiques de Diderot, citado por Matos, A cadeia secreta, op. cit., p. 86.

45 Id., ibid..

46 Matos, ibid., p. 87.

47 “Le cœur humain, qui a été, est et sera toujours le même, est le modèle d'après lequel tu copies” (Denis Diderot, “Éloge de Richardson”, in Œuvres Esthétiques, Paris: Garnier, 1994, p. 40)

48 “O Richardson ! j'oserai dire que l'histoire la plus vraie est pleine de mensonges, et que ton roman est plein de vérités. L'histoire peint quelques individus ; tu peins l'espèce humaine [...]” (id., ibid., pp. 39-40).

49 Chouillet, La Formation des idées esthétiques de Diderot, citado por Matos, A cadeia secreta, op. cit., p. 87. 50 “[...] l'histoire est un mauvais roman ; et que le roman [...] est une bonne histoire” (Diderot, “Éloge”, op. cit.,

p. 40), (itálico nosso).

51 Marquis de Sade, “Idée sur les romans”, in Les crimes de l'amour, Paris: Union Générale d'Éditions, 1971, pp. 23-51.

Diderot. Antes de mais nada, é preciso frisar que o tratado de estética do marquês foi escrito como apresentação dos contos “exotéricos” de Les Crimes de l'amour (1800), logo articula concepções bem menos radicais do que as da Histoire de Juliette. Não obstante, o ensaio teórico explica muito do “modo de ser de la pluma sadiana”52, além de investigar “as raízes do

romance com o objetivo de analisar criticamente a produção literária setecentista”53. Sendo

assim, o texto é de grande “importância para a história da estética romanesca”54.

Como Diderot, Sade também sustenta que o romance deve ser um reflexo fiel do coração do homem. Ele enfatiza que a função primordial do romancista é desvendar a complexidade humana e não glorificar a virtude, que é somente uma das formas pelas quais o coração se expressa. De acordo com ele, é preciso compreender profundamente todas as vicissitudes da natureza do homem, mesmo sob o risco de mostrar seus vícios e, com isso, transgredir as regras das artes. A energia grandiosa da natureza extrapola os obstáculos dos moralistas e os limites da virtude:

“É, pois, a natureza que devemos apreender quando trabalhamos esse gênero. É o coração do homem, a mais singular de suas obras, e de modo nenhum a virtude. Porque a virtude, por mais bela e necessária que seja, é, contudo, somente um dos modos desse coração surpreendente, cujo estudo profundo é tão necessário para o romancista. E porque o romance, espelho fiel desse coração, deve necessariamente dele traçar todas as dobras”55

.

“[...] é preciso convir que, nas novelas que vamos ler, o voo ousado que nós nos permitimos fazer não está sempre de acordo com a severidade das regras da arte. Mas nós esperamos que a extrema verdade dos caracteres talvez compense isso. A natureza, mais bizarra do que a pintura que dela fazem os moralistas, escapa a todo instante das barreiras que a política destes gostaria de lhe impor [...]”56.

Se o trabalho do romancista é “fazer ver o homem, não somente o que ele é, ou o que ele mostra ‒ esse é o dever do historiador ‒, mas tal qual ele pode ser, tal qual podem torná-lo as modificações do vício e todos os abalos das paixões”57, seria inverossímil que todos os 52 María Concepción Pérez, Sade, Madrid: Editorial Sínteses, s.a., p. 62.

53 Eliane Robert Moraes, “Um outro Sade”, in Lições de Sade: ensaios sobre a imaginação libertina, São Paulo: Iluminuras, 2006, p. 35.

54 Id., ibid..

55 “C’est donc la nature qu’il faut saisir quand on travaille ce genre, c’est le cœur de l’homme, le plus singulier de ses ouvrages, et nullement la vertu, parce que la vertu, quelque belle, quelque nécessaire qu’elle soit, n’est pourtant qu’un des modes de ce cœur étonnant dont la profonde étude est si nécessaire du romancier, et que le roman, mirroir fidèle de ce cœur, doit nécessairement en tracer tous les plis” (Sade, “Idée sur les romans”, op. cit., p. 37).

56 “[...] il faut convenir, dans les nouvelles que l'on va lire, le vol hardi que nous nous sommes permis de prendre n'est pas toujours d'accord avec la sévérité des règles de l'art ; mais nous espérons que l'extrême vérité des caractères en dédommagera peut-être. La nature, plus bizarre que les moralistes ne nous la peignent, s'échappe à tout instant des digues que la politique de ceux-ci voudrait lui prescrire [...]” (id., ibid., p. 46).

57 “[...] faire voir l'homme, non pas seulement ce qu'il est, ou ce qu'il se montre, c'est devoir de l'historien, mais tel qu'il peut être, tel que doivent le rendre les modifications du vice, et toutes les secousses des passions”

personagens sustentassem pontos de vista idênticos. Como cada indivíduo, organizado de modo único, é diversamente transformado pelo vício e pelas paixões, é natural que os personagens travem discussões filosóficas. Para que o romancista possa traçar as dobras miúdas do coração humano, seus heróis devem ser construídos para agirem e pensarem de modo particular, por mais insólito que seja. Não basta então simplesmente copiar a realidade, é preciso estudá-la profundamente, elaborá-la e representá-la nos seus aspectos mais imperscrutáveis. É justamente em meio ao jogo da argumentação, mediante o conflito e a complementação das opiniões de seus personagens, que Sade revela um conhecimento precioso e temível acerca da natureza humana. Afinal, como bem nota Laurent Versini: “É uma grande tarefa dar a cada personagem seu estilo [...]. Essa variedade de tons, que passava primeiro por uma prova de autenticidade, torna-se uma virtude artística”58.

Além disso, não podemos esquecer que a discussão filosófica faz parte da técnica de “revisão” e “reescrita”59 de Sade. Sabemos que o marquês tinha o hábito de transcrever em

suas obras várias páginas de filósofos como d'Holbach, Fréret, Voltaire, La Mettrie. Jean Deprun explica que, para incorporar esses empréstimos ao romance, era preciso “dramatizar”, isto é, repartir “entre interlocutores concretos os argumentos e as objeções”60. A apresentação

em cena desses conflitos era então um “procedimento natural”61 para a reformulação de tais

empréstimos, que acabam também por individualizar cada celerado. Saint-Fond, o déspota satânico, apropria-se dos ensinamentos de Maquiavel. Delbène e Clairwil, ateias resolutas, apoderam-se das refutações das crenças religiosas redigidas ou traduzidas por d'Holbach. Noirceuil, o professor que introduz Juliette às torpezas do crime, aproveita as máximas de La Rochefoucauld, as asserções de d'Holbach sobre a natureza e as críticas a este feitas pelo abade Bergier. O papa Pio VI colhe em Buffon as bases para sua dissertação sobre o assassinato. Juliette, por fim, empresta argumentos de La Mettrie, Maquiavel e parafraseia, a seu modo, todos os seus mestres.

(id., ibid., p. 36).

58 “C'est une grande affaire que de donner à chaque personnage son style [...]. Cette varieté des tons, qui passait d'abord pour une preuve d'authenticité, devient une vertu artistique” (Versini, op. cit., p. 274).

59 “[...] la technique de ces emprunts, qui laisse place à la révison et à la « récriture » [...]” (Jean Deprun, “Quand Sade récrit Fréret, Voltaire et d'Holbach”, in Obliques, nº 12-13, Sade, Nyons: Obliques, 1977, p. 263).

60 “[...] il dramatise, au sens propre du terme, c'est-à-dire qu'il répartit entre des interlocuteurs concrets les arguments et les objections [...]” (id., ibid., p. 265).