Del III Statens eierskap forvaltet
9.4 Kategori 4 – selskaper med
9.4.9 Kings Bay AS
“A pessoa que faz uma determinada escolha pode não ter de todo consciência desta operação secreta” (Damásio, 2004)
A complexidade do envolvimento desportivo e grande velocidade com que as acções de jogo ocorrem, colocam o jogador numa situação de incerteza, confrontando-o com a presença de várias alternativas na resolução dos princípios e objectivos do jogo, de forma a resolver os problemas que o próprio jogo vai levantando. Ou seja, o basquetebol é caracterizado por uma enorme variabilidade de situações, exigindo do jogador a capacidade de processar um elevado e variado número de informações, num curto espaço de tempo (Rodrigues, 2001). Assim em contextos dinâmicos como o que caracteriza a modalidade do basquetebol, o conceito de consciência nuclear
adquire importância fundamental. Este conceito ajudar-nos-á a perceber porque é que em determinadas situações, na presença de inúmeros detalhes e a grande velocidade acontecimental, o jogador age em determinado sentido em detrimento de outra qualquer opção (Campos, 2007).
“A consciência nuclear constitui ela própria o conhecimento, directo e sem qualquer verniz inferencial, do nosso organismo individual no acto de conhecer e, por sua vez, esse conhecimento nasce do proto-si não consciente no processo de ser modificado. Este imediatismo ainda não inferencial assiste à transição de dados, de padrões neurais e imagens, e, porque estas últimas emergem em plena espontaneidade – nesta que é uma consciência do pertinente instantâneo – não podem ainda considerar-se em pleno jogo semiótico” (Carmelo, 2001, cit. Campos, 2007:9). Assim o treino terá de alguma forma de ser o condicionador deste imediatismo que acontecerá no jogo constituindo-se as imagens e os padrões neurais como os princípios que pretendemos estabelecer na equipa devendo por isso emergir no jogo em “plena espontaneidade”. (Campos, 2007).
Neste sentido, podemos afirmar que nem todas as acções comandadas pelo cérebro são causadas por deliberação. Pelo contrário, é correcto assumir que a maior parte das acções causadas pelo cérebro e que estão a decorrer neste preciso momento não são de todo deliberadas, no fundo, constituem respostas simples, das quais o movimento reflexo é um exemplo (Damásio, 1995). Efectivamente, enquanto algumas intenções resultam de uma deliberação consciente anterior à acção, outras nascem no calor da acção sem que sejam premeditadas. Ou seja, devem distinguir-se dois tipos de intenções: as intenções prévias (saber sobre um saber fazer), conscientes, e as intenções em acto (saber fazer), muitas vezes não conscientes. Nesta direcção afirmamos que muitas das tomadas de decisão do jogador, no calor da acção, não são premeditadas, conscientes (Oliveira, B. et al., 2006).
Exemplificando, um compositor citado por Goleman (2003:111) descreve assim os momentos em que o seu trabalho corre melhor: “As minhas mãos parecem funcionar independentemente de mim e é como se eu nada tivesse a ver com o que se está a passar. Limito-me a ficar ali sentado num estado de espanto e reverência. E a música flúi por si mesma.”
No mesmo sentido, analisemos o seguinte exemplo que nos é trazido por Revoy (2006): “Suponhamos que Simone é uma pianista profissional. Quando dá um concerto, as suas acções são essencialmente automáticas não sendo precedidas nem acompanhadas de intenções conscientes específicas. Podemos pensar que ela não age livremente? É aí que negligenciamos todo o seu trabalho meticuloso de preparação, as horas infindáveis que ela passou para ter estes automatismos”. Ou seja, faz claramente em função de algo, de hábitos adquiridos, ou seja, saberes remetidos para o não consciente. No mesmo sentido Araújo (2008:84) declara: “(…) a verdade é que a improvisação não é nada aleatória, nem caótica. Obedece a regras bem precisas e para ter a qualidade e eficácia necessária, necessita ter por base uma grande experiência anterior.” Por aqui observamos que o processo de treino é o fulcro de tudo, mesmo daquilo que fazemos de forma automática e aparentemente inconsciente (Campos, 2007).
Percebemos assim que durante o jogo, os jogadores são constantemente “chamados” a tomar decisões e quanto mais rapidamente o fizerem tanto melhor, sendo que a velocidade da execução (leia-se intenção) distingue os melhores dos medianos. Se acreditássemos nas imagens tradicionais, o “espírito” deveria transmitir as ideias com uma rapidez que desafiava todas as leis da matéria (Campos, 2007). Mas a verdade é contraditória, pois o cérebro é demasiado lento em relação a certos fenómenos físicos de base. Sendo que o sistema nervoso de todos os organismos vivos, incluindo o homem, propaga sinais eléctricos a uma velocidade inferior à da luz. Isto significa que os sinais neuronais não exploram as ondas
electromagnéticas que provêm das forças fundamentais do mundo físico, sendo esta limitação física, uma herança legada através da evolução das espécies (Changeux, 2002).
Numa partida entre equipas de topo assistimos a movimentos velozes, execuções em que parece que os jogadores adivinham as movimentações dos companheiros e as decisões têm de ser tomadas de forma espontânea e de acordo com o modelo de jogo estabelecido e treinado. Esta avaliação da necessidade de agir tem de ser automática, tão rápida que raramente chega a entrar no consciente (Goleman, 2003). Desta forma decidir bem, implica também decidir de forma expedita, especialmente quando está em jogo o factor tempo (Damásio, 1995), como é o caso do jogo de basquetebol. Ora, a estas exigências contrapõe-se a lentidão de processos cerebrais daí que algo tenha de estar por detrás desta rapidez de decisão que caracteriza o próprio jogo (Campos, 2007).
Forma-se neste contexto, a necessidade de perceber e explicitar os mecanismos que o cérebro usa para solucionar os problemas que o jogo coloca a quem joga, da forma mais veloz possível, isto é, quem decide mais rapidamente é quem apresenta maior capacidade de ajustamento. O conceito antecipação, hábito, bem como a mente emocional apresentam-se, desta forma, imprescindíveis de serem conhecidos e entendidos.
3.5.5. “Pliometria” cerebral
“(…) o hábito leva a que a atenção decisional se circunscreva, fundamentalmente, ao equacionar das nuances particulares de cada situação, o mesmo é dizer à gestão do instante,
do aqui e agora.” (Oliveira et al., 2006:130)
Sendo um dos objectivos do treino contrariar a lentidão fisiológica dos mecanismos cerebrais relacionados com a tomada de decisão, a antecipação adquire neste contexto uma relevância capital (Campos, 2007) Neste sentido, McCrone (2002, cit. Gomes, 2006:37) explica que “toda a hierarquia de processamento cerebral para elaborar uma resposta em plena consciência demora cerca de meio segundo”, o que tendo em conta a velocidade a que decorrem os acontecimentos no jogo, se poderá considerar demasiado tempo. Desta forma esclarece que as acções que decorrem num espaço de tempo mais curto resultam da antecipação. Através dela é possível reduzir o meio segundo da resposta consciente para um quinto de segundo. Segundo o mesmo autor, trata-se de um atalho do cérebro para se antecipar às situações. Contudo, refere que isso só acontece quando já se experimentou a mesma situação e “a gravou como um hábito – como um automatismo” (Gomes, 2006), sendo que podemos assim afirmar, que ao vivenciar quaisquer preocupações relativas ao Modelo de Jogo, estaremos sempre a incidir num processo de aculturação que permitirá ao jogador antecipar o futuro. Existe então, a necessidade de criar hábitos de acordo com aquilo que queremos para que, mesmo a decisão inconsciente vá sempre de encontro aos princípios estabelecidos.
No mesmo sentido Mário Gomes, (2008) treinador português de basquetebol, declara: “São os hábitos de treino, diariamente repetidos, que garantem um estado de preparação adequado para dar respostas eficazes em competição. A questão será, então: repetir o quê? A resposta: as componentes fundamentais (leia-se princípios de acção) do modelo de jogo.” Neste sentido
estaremos constantemente a promover a criação de uma linguagem de comportamentos comuns entre os jogadores da mesma equipa, que lhes facultará maior facilidade em antecipar diversas acções no decorrer dos inúmeros encontros. No mesmo sentido, Goleman (2006) defende que, o robustecimento dos hábitos se efectua, quanto mais frequentemente uma experiência é repetida, uma vez que consequentemente, mais densa se torna a conectividade neural resultante dessa exercitação. Ou seja, se estamos a repetir uma aprendizagem anterior, existem grandes probabilidades de as vias neuronais se tornarem cada vez mais eficientes (Jensen, 2002).
Grande parte do nosso conhecimento é baseado em hábitos, os quais são caracterizados pela não necessidade de reflexão sobre eles, visto que estes ocorrem predominantemente ao nível do não consciente (Shledrake, 2004 cit. Maciel, 2008). No mesmo sentido Mólenat (2007, cit. Maciel, 2008) sugere que os hábitos são um conjunto de disposições que guiam as nossas escolhas em todos os domínios da nossa existência, as quais se manifestam sem termos de reflectir sobre estas, para efectuar as escolhas ajustadas às circunstâncias.
Goleman (2006) acrescenta que quando o organismo se sente sobre elevada tensão, é a via inferior, caracterizada pela rapidez e automatismo, que assume o controlo das nossas acções, favorecendo deste modo o emergir de hábitos automáticos. Assim para que os comportamentos dos jogadores e da equipa se inscrevem automaticamente no desenvolvimento do projecto de jogo da equipa é necessário criar esses hábitos. Através deles, os comportamentos surgem ao nível do inconsciente, ou seja, resultam da capacidade de antecipação da resposta (Gomes, 2006), pretendendo-se assim desenvolver através do treino esses respectivos hábitos, baseados em princípios de jogo relativos a um determinado jogar, para que os jogadores consigam lidar de forma facilitada com a adversidade contextual caracterizadora do Jogo.
A automatização apresenta assim, enormes vantagens para a acção dos jogadores, visto que para além de lhes permitir gerir problemas de complexidade superiores, lhes permite também aceder a níveis de criatividade superiores, por se tornarem capazes de criar soluções de ordem de complexidade mais elevada, para os problemas que o Jogo lhes vai colocando (Maciel, 2008). Habituar e automatizar torna-se assim fundamental visto se saber, que os recursos mentais dispendidos numa tarefa cognitiva reduzem a quantidade de recursos disponíveis para processarmos outro tipo de informações (Goleman, 2003).
Assim o hábito resulta numa economia neurobiológica, devido ao facto da esfera fundamental deste saber fazer (o hábito) pertencer ao domínio do não consciente, que se adquire na acção, ou seja o treinar. Neste sentido a aprendizagem pela repetição, é um processo de construção do ser capaz de jogar em que o saber adquirido é dominantemente património do não consciente. Sendo assim, o hábito leva a que a solicitação mais complexa da tríade córtex-corpo-acção seja mais salvaguardada, diminuindo significativamente o esforço neurobiológico (Oliveira, B. et al., 2006).
Para reforçar esta ideia McCrone (2002, cit. Gomes, 2006:37) afirma que “quase tudo o que fazemos, fazemos de forma inconsciente. Quando aprendemos algo pela primeira vez, sentimo-nos inseguros e temos consciência de muitos pormenores da acção”. No entanto, com a prática vamos fazê-lo de forma cada vez mais inconsciente. Deste modo, a aprendizagem e exercitação de um comportamento faz com que a sua realização solicite cada vez menos recursos ao cérebro através da adaptação, sendo esse o objectivo do treino, ou seja, criar e desenvolver a adaptação dos jogadores no desenvolvimento de um jogar e portanto, de uma organização colectiva (Gomes, 2006). Desta forma poderemos considerar que existe aprendizagem quando uma célula necessita de menos input de outras célula na vez seguinte em que é activada (Jensen, 2002).
Damásio (2003) refere que um exemplo importante de automatismos ou hábitos se observam na execução de aptidões sensório-motoras, como andar de bicicleta ou nadar, das quais não temos consciência dos conhecimentos relacionados com a aquisição dessa aptidão, mas cujo desempenho, através de execuções múltiplas se vai progressivamente aperfeiçoando. Acrescenta ainda que o facto destas aptidões poderem ser adquiridas com pouco ou nenhum exame consciente constitui, uma grande vantagem no desempenho rápido e eficaz de numerosas tarefas quotidianas. Esclarecendo que quando dispensarmos um exame consciente na execução de algumas tarefas se observa a automatização da parte substancial do nosso comportamento, libertando-nos em termos de atenção e tempo, para executar e planear tarefas mais complexas e para criar soluções para os problemas. Assim o treino criará o hábito e depois no jogo, em vez do acto ser pensado, este surge de forma subconsciente e natural (Ilharco & Lourenço, 2007).
Pelo exposto, parece-nos evidente a importância da aquisição de hábitos referentes ao nosso “jogar”, não só para que esse padrão de comportamentos se manifeste com regularidade na competição, mas também para que a atenção dos jogadores passe apenas a ser necessária relativamente às nuances particulares de cada situação, o mesmo é dizer, à gestão do instante, do aqui e agora. Isto resultará em economia de esforço e na maior disponibilidade dos jogadores para encontrarem soluções criativas (Oliveira, B. et al., 2006).
Damásio (2003) corrobora advogando que a automatização tem um grande valor nos desempenhos motores tecnicamente complexos. Ele afirma mesmo que uma parte da técnica de um qualquer virtuoso musical pode permanecer inconsciente, permitindo que este se concentre nos aspectos mais elevados da concepção de uma determinada peça e possa assim orientar a actuação de forma a exprimir certas ideias, defendendo que o mesmo se aplica a um atleta. Assim, pretendemos criar hábitos nos nossos jogadores para que
estes decidam de forma cada vez mais veloz, mas por outro lado não podemos negligenciar que esta automatização se prende com o plano Macro (coordenadas gerais) do Modelo de Jogo, sendo que desta forma se pretende que o plano Micro (do detalhe) apresente maior qualidade. Pretendemos assim que o treino conceba o hábito, e que à posteriori no jogo, em vez do acto ser reflectido, que este desponte de forma subconsciente e instintiva, ou seja, pretendemos desenvolver um saber fazer corpóreo, induzido pela acção e aquisição de hábitos em regime de entendimento, de uma determinada relação mente – hábito (Oliveira, B. et al., 2006).
Desta forma a capacidade de antecipar está fortemente relacionada com os hábitos, ou seja, a nossa capacidade de antecipação em jogo é fruto do conhecimento do modelo de jogo, devido à existência de “um código de leitura de um contexto que é familiarizável” (Frade, 2008). A este respeito, o mesmo autor (2008:XVIII) conclui: “ O hábito é o suporte subconsciente que você tem, é o lado cultural que você tem, é a afinidade com uma forma de jogar que você tem e não exclusivamente ao nível do entendimento, mas ao nível da execução, ao nível da realização, ao nível da prática, ao nível praxiológico que resulta da vivenciação dessa configuração ou desses princípios, (…) que é jogando.”
O treino proporciona assim, um grau de convivência num contexto, que dá vantagem aos jogadores dessa equipa porque lhes permite antecipar códigos de leitura, e é aqui que surge o papel das emoções, sabendo que estas conferem valor às situações que experimentamos (Oliveira, 2008).