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De acordo com a teologia da prosperidade, o cristão, por meio da fé, alcançará nesse mundo a felicidade, a saúde física e mental, a prosperidade material, o sucesso profissional e a estabilidade conjugal. Nada lhe faltará. Sua vida será marcada pela abundância. A promessa de satisfação imediata é o bem simbólico mais precioso das igrejas neopentecostais. As mensagens de salvação e redenção da alma e as preocupações apocalípticas e milenaristas são relegadas a segundo plano. O que parece de fato importante é usufruir as riquezas desse mundo. A pobreza é rejeitada, sendo sinônimo de falta de fé e ausência de compromisso com Deus.

Porém, para ser próspero, rico, saudável e feliz, o fiel precisa, além da demonstração de fé, realizar regularmente o pagamento dos dízimos e das ofertas. É necessário dar para receber. De acordo com Bonfatti (2000), o princípio de reciprocidade e troca aparece nos apelos eclesiásticos, quando o assunto é dinheiro. Trata-se de uma espécie de contrato financeiro, que envolve risco material. Quanto maior é o risco financeiro a que se submete o cristão, maiores são as promessas de felicidade, saúde e prosperidade. Algumas denominações neopentecostais, sobretudo a Igreja Universal do Reino de Deus, estimulam os fiéis a fazerem doações de valores altos. Conforme os pregadores da Teologia da Prosperidade, as contribuições são um ato de fé. Quanto maiores forem as ofertas, maior é a demonstração de fé e maiores serão as recompensas. Por isso, quem dá mais provavelmente ganhará mais.

Segundo Campos (1996), a Igreja Universal do Reino de Deus aperfeiçoou suas técnicas e estratégias de arrecadação de recursos financeiros com o intuito de viabilizar seu projeto de expansão e formação de um império religioso14. Por isso, lançou mão de promessas de enriquecimento e ascensão social, vinculadas à doação de verbas, bens, imóveis e objetos de valor. Em seus cultos, os pastores asseguram aos membros que

14 Em matéria especial para o jornal “O Estado de São Paulo”, Carvalho (2006) apresenta a tese de

doutoramento de Maria da Penha Nunes da Rocha, segundo a qual Edir Macedo tornou-se um “poderoso empresário de Comunicação Social”, em virtude do crescimento de seus negócios religiosos e comerciais. A Igreja Universal do Reino de Deus, sua principal fonte de lucro, “(...) se estrutura dentro do modelo

empresarial e organizacional de crescimento, levantamento de recursos, aquisição de propriedade, visão capitalista de prosperidade e disputa de mercado”.

aqueles que fizerem sacrifícios financeiros, ao contribuir com a “obra de Deus”, ficarão surpreendidos com a retribuição divina. O sacrifício do fiel é proporcional às generosas quantias doadas à igreja, que normalmente vão além das suas possibilidades materiais.

Após o pagamento dos dízimos e das ofertas, Deus é obrigado a cumprir sua parte no contrato. Ele se torna devedor e, por isso, é constantemente coagido a pagar a sua dívida. Ao fazer as doações, os fiéis adquirem legitimidade para cobrar de Deus o que lhes deve, exigir seus direitos e reivindicar o cumprimento das promessas divinas. A prática da súplica é substituída pela coerção. “(...) na IURD, não se pede, exige-se porque se pagou

antes” (Bonfatti, 2000: 80).

Na Igreja Bola de Neve, no entanto, o dinheiro não é o mediador simbólico das relações com o sagrado. Mesmo quando faz doações regulares, o cristão não pode exigir nada de Deus. Em vez de coagi-lo, ele deve esperar pacientemente pelo cumprimento das promessas divinas. O dinheiro, portanto, não é moeda de troca espiritual, não é garantia da ação divina. A igreja faz objeção à possibilidade de negociação financeira entre o fiel e Deus. Devem-se fazer doações voluntariamente, visando apenas o crescimento da “obra de Deus”. As bênçãos espirituais não estão atreladas às contribuições materiais. “Temos

muitas obras assistenciais. Quem conhece a igreja sabe que tudo que fizemos e conseguimos foi por amor. (...) Não dê por barganha. Não funciona. Não dê para ficar rico. Isso é mentira. Dê por amor”. 15

Os dízimos e as ofertas fazem parte da concepção teológica da igreja, mas não são considerados a única condição para o fiel ser bem-sucedido. Acredita-se, assim como todas as vertentes do pentecostalismo, que Deus abençoa os dizimistas. Porém, repudia-se a idéia de que quem mais se sacrifica financeiramente, mais recebe. Na Igreja Bola de Neve, os cristãos não são estimulados a negociar com Deus o preço de suas bênçãos. “Deus está

falando para a igreja: ‘Eu abençoarei financeiramente aqueles que fizerem uma aliança com essa obra’. Deus vai prosperar abundantemente aqueles que estiverem de acordo com

15 Discurso do Pastor Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, no dia 25 de novembro de 2004, no momento dos

o propósito dele. (...) Se você se sente constrangido, você não precisa ajudar, pode ficar no seu lugar. Só ajudem aqueles que se sentirem à vontade”. 16

A Igreja Bola de Neve, pois, não adota a Teologia da Prosperidade. Os pastores não fazem apologia à prosperidade financeira e à felicidade terrena. Não há garantias de que todos os cristãos serão prósperos na terra. Preconiza-se a presença de Deus, considerada mais valiosa e digna de atenção do que os desejos materiais dos homens.

“Talvez, você tenha milhares de pedidos. Mas o mais importante é você não sair da presença de Deus, mais importante do que alcançar o que você almeja”. 17 As promessas

materiais aparecem discretamente no quadro de referências da igreja, não suplantando as dádivas espirituais. Nos cultos, constantemente é anunciada e divulgada a alegria espiritual, indispensável para enfrentar as dificuldades da vida cotidiana. O sofrimento não é negado nem valorizado. É parte constitutiva do mundo. A mensagem da salvação, desaparecida do cenário neopentecostal, volta à cena, sendo evocada com freqüência nas cerimônias religiosas. “Esse mundo sempre traz aflição e opressão para nós. (...) A estabilidade só

virá na eternidade. Aqui é lugar de luta, de guerra contra o diabo”. 18