A teoria das representações sociais dedica-se à racionalidade das crenças culturais, dos saberes populares, do senso comum e das ideologias dominantes. Todas essas formas de conhecimento possuem uma lógica interna e um grau de pertinência. A ciência moderna procurou depreciar as teorias populares por considerá-las equivocadas, retrógradas e infundadas. Ressaltou a falta de fundamentação teórica e a ausência da verdade em suas proposições. A noção de verdade, historicamente construída, impôs-se como critério de validação das construções científicas e passou a ser utilizada como instrumento de coerção e exclusão das demais formas de saberes.
Conforme Foucault (2004), o discurso verdadeiro se apóia em um sistema institucional e se consolida em uma sociedade que privilegia e reforça a noção de verdade. Ele exerce poder sobre as demais formas de discurso e conhecimento, procurando defini-las e coagindo-as a seguir suas regras. A ciência tenta fragilizar a sabedoria popular e, por isso, busca associá-la ao obscurecimento da verdade e à distorção da realidade. Afirma categoricamente que o senso comum é uma forma de pensamento que conduz à alienação, à
ignorância e à ilusão. Muitos cientistas acreditam na extinção das crenças populares e na supremacia absoluta da ciência moderna.
Moscovici (2004) faz objeção ao postulado da redutibilidade do saber comum, segundo o qual as “teorias” da vida cotidiana e o conhecimento popular devem ser eliminados e substituídos pela ciência. Acredita não ser possível reduzir o pensamento coletivo às construções científicas, já que ambos representam modos distintos de percepção do mundo, formas de raciocínio incompatíveis e irreconciliáveis. Tanto a ciência como o senso comum são diferentes tipos de representação social. O conhecimento científico pode utilizar, embora não admita, elementos, idéias e símbolos provenientes da sabedoria popular a fim de incrementar suas proposições. Por outro lado, as representações coletivas se apropriam de teorias científicas, as modificam e criam novos sistemas de explicação e interpretação. Contudo, não se pode concordar com a hipótese da redução das crenças populares ao pensamento científico, uma vez que possuem lógicas muito distintas.
As representações cotidianas são diferentes das representações científicas, mas não porque suas proposições são ilógicas, seu raciocínio é equivocado ou suas reflexões são irracionais, como se propaga aos quatro cantos. Mas porque o conhecimento popular combina diferentes estruturas de pensamento e diversas formas de raciocínio, o que não pode ser feito pela ciência. A ciência popular, portanto, é uma ciência “híbrida”. Diferentes tipos de conhecimento, diferentes elementos lingüísticos, explicações das mais diversas origens se misturam, sem seguir nenhum critério específico ou regra determinada. Essa condensação de componentes díspares, provenientes de origens distintas, pode criar a impressão de que o senso comum não é criterioso, de que lhe faltam consistência e precisão.
Entretanto, a ciência popular possui sua própria lógica e rigor. Ela não pode ser avaliada e julgada segundo os critérios científicos. A noção de verdade não lhe é adequada. Suas premissas não podem ser verificadas cientificamente. São, pois, inverificáveis e indiscutíveis. O que está em questão não é a veracidade do saber produzido, mas sua aceitação e confirmação no grupo. O conhecimento popular é resultado de uma negociação coletiva. Os sentidos de suas afirmações são negociados entre os indivíduos e avaliados pelos membros da comunidade de acordo com critérios que lhes são próprios, que não incluem o idolatrado monumento da verdade. Por isso, as explicações populares
correspondem a um emaranhado de idéias, imagens e teorias aparentemente contraditórias e incoerentes, que não precisam de provas que as validem. Já são por si válidas, mesmo sem verificações científicas e sem argumentações plausíveis. Como afirma Foucault (2004), o critério da verdade e do erro não é coerente no interior do sistema de discursos populares.
O exterior de uma ciência é mais e menos povoado do que se crê: certamente, há a experiência imediata, os temas imaginários que carregam e reconduzem sem cessar crenças sem memória; mas, talvez, não haja erros em sentido estrito, porque o erro só pode surgir e ser decidido no interior de uma prática definida; em contrapartida, rondam monstros cuja forma muda com a história do saber (Foucault, 2004: 33).
Os monstros que rondam a ciência popular não a desqualificam nem a tornam irracional. As representações, crenças, ritos e religiões, segundo Moscovici (2004), são construções racionais, que possuem legitimidade social. Não se deve considerá-las uma forma de conhecimento obsoleto, primitivo e ilusório. Como sistemas de crenças e de religião tão antigos, imprescindíveis à constituição e manutenção da sociedade, podem ser considerados meras ilusões, distorções do real, formas de pensamento incorretas? As teorias populares não são insignificantes e errôneas, como a ciência apregoou. “Nada é
mais difícil que erradicar a falsa idéia de que as deduções ou explicações que nós extraímos do senso comum são arcaicas, esquemáticas e estereotipadas” (Moscovici,
2004: 210). As acusações científicas ainda exploram a idéia de que as crenças populares não se renovam, são repetitivas e imutáveis. Moscovici (2004) responde às críticas, ressaltando que o saber cotidiano se modifica à medida que a dinâmica social e as condições históricas passam por transformações. Contudo, a ciência continua atacando categoricamente as crenças populares e se autodesigna o conhecimento verdadeiro.
Moscovici busca fragilizar a ditadura da ciência, que impõe suas normas, seus critérios de cientificidade, seus valores, seus dogmas e sua lógica. Questiona, ainda, a supremacia do discurso científico e critica a devoção dirigida à ciência, o deus da sociedade moderna. Para tanto, denuncia os abusos cometidos pela comunidade científica sem, no entanto, desvalorizar a ciência. Reconhece sua importância assim como reforça o valor da
sabedoria popular. As teorias do senso comum são tão importantes quanto as teorias científicas. Elas possuem um valor social considerável, visto que organizam as interações da vida cotidiana. Moscovici esforçou-se para restabelecer e restaurar o pensamento coletivo, tão depreciado pelas autoridades científicas. Mostrou que as representações populares e as construções científicas encontram-se em constante interação, entrecruzam-se no percurso que fazem e transformam-se mutuamente. Uma é influenciada pela outra e extrai dela elementos para compor seu repertório.
As crenças e representações populares constituem a base do conhecimento, sobretudo do conhecimento científico. A ciência utiliza idéias e imagens do senso comum, monstros e fantasmas do conhecimento cotidiano, para elaborar suas proposições e teorias. Do mesmo modo, os saberes construídos nas interações diárias recebem a influência das premissas e crenças científicas. A ciência contribui para a construção e transformação das representações sociais, embora seja uma forma de conhecimento muito distinta. As noções científicas transitam na existência cotidiana das pessoas comuns, aparecem nas conversações informais, atravessam os encontros banais, adquirem novos contornos e significados e se convertem em senso comum. A popularização das teorias científicas gera o desenvolvimento da sabedoria popular e a emergência das representações sociais. As “teorias” cotidianas, por sua vez, asseguram a assimilação e compreensão dos pressupostos da ciência. Portanto, não se deve interditar e segregar o senso comum, considerado fonte fecunda das práticas científicas.