5. METHODOLOGY
5.4 Data Collection
5.4.1 Key Informants and Cooperation with Local Actors
A terceira mesa do Simpósio objetiva discutir o papel das artes e contou com três participantes, entre elas Yudith Rosenbaum, que foi aluna do primário; Fanny Abramovich que, além de filha dos fundadores, foi coordenadora do pré-primário e professora de artes e teatro do primário, na década de 1960; e Ester Grispum, aluna do Ginásio entre os anos de 1967 e 1970. A proposta da mesa é discutir a relação entre arte e educação, tendo como pano de fundo a experiência vivida no Scholem.251
Rosenbaum faz uma fala de abertura para as apresentações posteriores. Baseada no texto de Antonio Cândido, O direito à literatura, afirma que a arte cria um equilíbrio social e que “a arte humaniza na medida em que é a superação do caos a partir de uma experiência
251 Descrição no livro no fim de cada fala dos palestrantes: Yudith Rosenbaum é professora de Literatura Brasileira
na USP e psicóloga formada pela PUC/SP. É autora de livros Manuel Bandeira: uma poesia da ausência (Edusp/Imagino, 1993) Metamorfoses do mal: uma leira de Clarice Lispector (Edusp/Fapesp, 1999), Clarice Lispector (Publifolha, 2002), Livro do Psicologo (Companhia das Letrinhas, 20007). Ester Grinspum é artista plástica. Formou-se em Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo. Fez várias exposições individuais e participou de várias coletivas no Brasil e no exterior. Participou da XX Bienal de São Paulo, em 1989. Fanny Abramovich é educadora e escritora. Nunca ocupou nenhum cargo em sua vida. Não defendeu nem mestrado, nem doutorado. Publicou mais de 50 livros dirigidos a professores, adolescentes e crianças.
organizada”.252 Sua fala recupera o cotidiano escolar, em especial as aulas com Fanny, no qual
ela conseguia abstrair a realidade e, assim, ter a “permissão de devanear” e de atribuir aos objetos elementos distintos de sua forma. Conclui, fazendo referência a Candido, que “todos os que passaram pelo Scholem tiveram a oportunidade de sonhar e criar de olhos abertos”. 253
Esther Grispum foi aluna da primeira turma do Ginásio e seu depoimento representa o que significou para ela estudar no Ginásio, apontada como fundamental na sua formação enquanto artista plástica:
Fundamentalmente, acho que esta escola foi o grande eixo formador na minha vida e fez com que eu me tornasse artista plástica e aprofundasse meus conhecimentos na arte.
Fui da primeira turma do ginásio do Scholem. Isso foi muito importante porque era uma experimentação total, os professores iniciavam uma nova forma de lidar com as matérias e com o currículo obrigatório.254
Assim, apresenta a sua trajetória pessoal e como foram importantes tais experiências para a sua formação enquanto artista e exalta a liberdade de criação, que segundo ela, “Foi legal e muito marcante para mim, porque havia liberdade para fazer um trabalho que estava completamente fora de definições”. 255 Sua intervenção também relata algumas das atividades
no Scholem que marcaram muito sua trajetória de estudante, como os estudos de meio:
Era uma coisa maravilhosa, a gente estudava a cidade, o estado, o País, e viajava para alguns lugares com uma preparação anterior. Todas as matérias propunham algo para pesquisar e buscar naqueles lugares. Minha turma naquele ano fez uma viagem para a Bahia. Nessa viagem, nós preparamos uma peça de teatro para mostrar para os alunos de uma escola judaica lá em Salvador. Esta foi outra experiência marcante no Scholem, conduzida pelo professor Antônio Carlos.256
O depoimento de Grispum procura rememorar as práticas pedagógicas que foram estruturantes para a sua formação, como a interdisciplinaridade e os estudos de meio. A liberdade de criação e as experimentações são constantes na sua fala. “Eu estive inserida nesses quatro anos inaugurais vivendo várias experiências fundamentais. Lembro-me bem dessas
252 ROSENBAUM, Yudith. Mesa 3: Linguagens e Educação: o papel das artes. In: CHARNIS, Cristina Catalina
et all. Vanguarda Pedagógica: o legado do Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem. São Paulo: Lettera.doc, 2008. p. 89.
253 Ibidem. p.91.
254 GRINSPUM, Ester. Mesa 3: Linguagens e Educação: o papel das artes. In: CHARNIS, Cristina Catalina et all. Vanguarda Pedagógica: o legado do Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem. São Paulo: Lettera.doc, 2008.
p.92.
255 Ibidem. p. 92 256 Ibidem. p. 94-95
inovações, pois foram muito marcantes”257. Inovações essas que conferiram, em sua opinião,
singularidade à escola, em especial por poderem “elaborar nossos trabalhos completamente livres, cada um fazia o que quisesse a partir da experiência vivida. Teve aluno que fechou uma sala e fez uma instalação inteira”.258 Nesse sentido, uma instituição que formou uma artista
renomada na área referenda a proposta educacional voltada para as artes, sendo que ela teve seu interesse aguçado pelas práticas educacionais do Scholem, conferindo legitimidade a comemoração.
Já Fanny Abramovich começa sua reflexão lembrando o seu cotidiano no bairro do Bom Retiro e no ambiente escolar, especialmente as pessoas com que convivia, donas de grande significado para quem compartilhou a vivência no Scholem. Como marca semelhante às outras falas, ela também tenta inserir a experiência dentro da sua formação enquanto educadora.
Nenhum deles era formado em nada, todos eles educadores, sabendo dar a cada criança a confiança que ela pedia e queria. Como minha mãe, Elisa Kauffman Abramovich, que foi grande educadora do Scholem, a referência marcante, e que só tinha primário completo... E não eu, com diploma de pedagogia da USP.259
O elemento que dá coesão à argumentação de Fanny é a exaltação da ausência de titulações obrigatórias para se tornar um educador e uma repugnância aos estudos acadêmicos e às teorias educacionais. Os autodidatas eram muito mais educadores do que ela que tinha seu diploma e título de pedagoga pela Universidade. Também fala especificamente sobre sua experiência enquanto professora de jogos dramáticos para o pré-primário e como professora de teatro e artes plásticas no ensino primário. Sobre isso ela diz:
Algumas professoras do pré, do Scholem, olhavam espantadas, se perguntando e comentando baixinho: ‘No que isso ajuda para a coordenação motora? Isso serve para ensinar o quê, mesmo? Não é muito dispersivo? Repara como falta concentração nas crianças?...’ Eu, surda ao questionamento professoral... Só inventando jogos, mudando situações, acelerando ou devagarando o tempo, seguindo apenas a reação das crianças. Ainda não sabia, mas os olhos das crianças seriam, sempre, a minha bússola.260
257 GRINSPUM, Ester. Mesa 3: Linguagens e Educação: o papel das artes. In: CHARNIS, Cristina Catalina et all. Vanguarda Pedagógica: o legado do Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem. São Paulo: Lettera.doc, 2008.
p. 93.
258 Ibidem. p.92.
259 ABRAMOVICH, Fanny. Mesa 3: Linguagens e Educação: o papel das artes. In: CHARNIS, Cristina Catalina
et all. Vanguarda Pedagógica: o legado do Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem. São Paulo: Lettera.doc, 2008. p. 97. (grifo meu)
Na sua narrativa, ela representa suas aulas como marcadas pelo improviso e pela experimentação. Fica claro que para a autora o educador se forma experimentando novas práticas, a partir da relação professor e aluno, e não se prende em teorias educacionais. Destacamos as divergências levantadas dentro da proposta pedagógica, mas que são apontadas por ela como implicância de quem não entendia práticas distintas das tradicionais. “As reações às minhas aulas poderiam ter sido de espanto, de incredibilidade, de aplauso contido, mas jamais como ameaça de controle, de demissão (como aconteceu comigo no ensino superior), de medida de forças”.261
Por dar aulas de arte ela aponta primeiro que nunca quis formar profissionais da arte, como muitas vezes se configuram as aulas dessa disciplina atualmente. A arte era pensada como forma de exercitar a criatividade das crianças e expandir as suas possibilidades de imaginação. Nesse sentido,
Nunca os jogos eram vividos como uma maratona, com vencedor, segundo classificado ou prêmio de consolação. Nunca comparação de resultados. Nunca se valorizou o talento, ou se disse “fulano tem jeito para ser artista” ou “se quiser pode seguir carreira” e que tais. Minha opinião simplesmente não interessava, tanto que nunca foi dada. Ria, sorria, vibrava como os outros. Importante a opinião de quem participou do mesmo grupo, de quem assistiu o que ele fez, se ele ficou contente, satisfeito com ele mesmo naquele jogo. O resto, irrelevâncias...262
Aponta que nunca quis substituir a mãe na direção da escola e que as parcerias que estabeleceu com ex-alunos foram sempre “inspiração” para suas práticas profissionais, sendo ela muito mais apegada à relação com os alunos do que às teorias educacionais. Recorda as práticas artísticas que tentava desenvolver com cada série e, nesse sentido, mais uma vez a autora pretende afirmar que as teorias educacionais foram inúteis perto da intuição e do espaço de experiência que tinha no convívio com as crianças. “Ir propondo, facilitando, possibilitando a expressão, não interferindo”.
Isso tudo aconteceu porque foi no Scholem. No Vera Cruz, no Lourenço Castanho ou em qualquer outra escola de ponta da época, jamais teria acontecido. Eu teria que fazer projetos explicando, segundo Montessori, Makarenko, Freinet, Piaget ou qualquer outro teórico disponível, sobre a possibilidade remota de relacionar estes elementos nas coordenadas x e y, na faixa etária adequada, e incentivada a repetir a mesmice conhecida e consagrada. Testar e provar teoricamente. Sem correr nenhum risco. No
261 ABRAMOVICH, Fanny. Mesa 3: Linguagens e Educação: o papel das artes. In: CHARNIS, Cristina Catalina
et all. Vanguarda Pedagógica: o legado do Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem. São Paulo: Lettera.doc, 2008. p. 104.
Scholem, a audácia era valorizada. No Scholem, a relação com as crianças era valorizada.263
E para ela isso é que conferia identidade às práticas pedagógicas do Scholem, como avessas a teorizações e abertas à experimentação, criando diálogo com os ex-alunos, como lembrança dos momentos compartilhados no cotidiano escolar, atribuindo-lhes sentido.
Com quem aprendi a dar aulas de arte? Com meus alunos, com os olhinhos deles. Com meus chamados professores da USP, da “Oropa”, França e Bahia, não aprendi coisíssima nenhuma minimamente útil. Mas com vocês, com olhinhos de aprovação, com olhinhos de quero mais, com olhinhos movidos pelo espanto dos “uaii”. Com os suspiros, os envolvimentos, os freios. Com o tédio, o silêncio, o descontentamento. Pistas importantes, aparecendo com mais ou menos intensidade. [...] Inventei muitos jogos, adaptei alguns, mas quem peneirou os que eram lúdicos, espontâneos, desafiantes, ousados, estimulantes e muito gostosos etc. foram vocês. Os alunos.264
Ao ressaltar o perfil experimental, não ligado a teorias, mas sim à prática da improvisação e da invenção individual como marca dessa Vanguarda, que pautava as artes e os jogos associados ao ensino primário, deixa claro que, para ela, a audácia e a relação com as crianças deveria ser priorizada.
Algo muito semelhante acontece com o livro sobre o Scholem, como vimos nas outras falas, a exaltação de práticas experimentais e a marca do improviso, nas quais se ensaiam métodos inovadores de ensino. O papel das artes vem para referendar a primeira acepção de vanguarda, ou seja, um lugar em que, a partir dos ideais libertários, germinou uma concepção educacional única, onde tudo que se fazia era na prática. Com depoimentos mais centrados nas vivências de cada uma das depoentes, o que se comemora é o reencontro, compartilhando elementos comuns às suas memórias, como um registro de sua memória coletiva afetiva. O Scholem, além de impulsionar a carreira de importantes artistas, ainda fez com que os alunos aprendessem a apreciar a obra de arte, em todos os seus vieses.
Essa mesa, tem uma marca mais descritiva do cotidiano escolar e da importância desses momentos para a formação de cada uma delas. Ressaltam-se as práticas artísticas que se davam nesse cotidiano: teatro, pintura, jogos incentivadores para a imaginação das crianças.
A cultura iidichista, o ensino do iídiche por meio das artes (teatro, literatura) e da cultura judaica, que aparecem em Sendacz como essenciais àquela experiência de ensino do Scholem,
263 Ibidem. p.103. (grifo meu)
264 ABRAMOVICH, Fanny. Mesa 3: Linguagens e Educação: o papel das artes. In: CHARNIS, Cristina Catalina
et all. Vanguarda Pedagógica: o legado do Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem. São Paulo: Lettera.doc, 2008. p.105.
sequer são mencionados nas memórias que constituem o livro. Contudo, aparecem no DVD com o depoimento de Dona Ilina, professora de música, como veremos a seguir.