5. METHODOLOGY
5.4 Data Collection
5.4.4 Interviews and Conversations
Na programação do seminário, como vimos anteriormente, os depoimentos de Tatiana Belinky e Ilina Ortega aparecem na abertura das mesas 3 e 4, respectivamente. As duas foram entrevistadas por membros do Grupo Memória Scholem e seus depoimentos foram editados na forma de vídeo e projetados durante o seminário. No livro, esses vídeos aparecem gravados no DVD, que vem encartado no interior da contracapa. Aqui, cabe salientar que além das duas serem fundamentais para a composição da memória que eles pretendem traçar, ao contrário das outras falas, o Grupo Memória Scholem pôde editar a entrevista para a forma vídeo e, portanto, a estratégia de seleção do que deve ser comemorado se dá de forma mais evidente e explícita.
Para analisá-los, temos que levar em conta a importância das duas personagens, pois mobilizou um esforço por parte da organização garantir, de alguma forma, a presença delas no evento e no livro comemorativo. A justificativa aparentemente plausível seria de que as duas, na época, estavam muito idosas e dificilmente participariam de um evento tão extenso. No entanto, somente a questão da idade não explica o esforço tanto de entrevistá-las, quanto de encartar um DVD, que demanda um gasto maior para a produção do livro. Desta maneira, salientamos a necessidade de entender qual a importância das duas para a memória da instituição.
A escolha de Dona Ilina pode ser compreendida por ter formado diversas gerações na escola (foi professora por quinze dos trinta e dois anos de existência da escola), pela importância da professora no cotidiano escolar e na memória dos alunos. Contudo, Belinky265 não trabalhou
em nenhum momento na escola, seus filhos não estudaram lá. A explicação para a sua escolha
265 Tatiana Belinky Gouveia (Petrogrado, atual São Petersburgo, Rússia 1919 - São Paulo SP 2013) foi autora de
histórias e poemas infantis, tradutora e roteirista de televisão. Após viver cerca de nove anos em Riga, Letônia, chega ao Brasil, em setembro de 1929, com os pais e dois irmãos mais novos. Fixam-se em São Paulo. De 1948 a 1951, a convite de uma sociedade beneficente presidida por amigos e com o apoio da prefeitura, Tatiana e o marido Júlio Gouveia (1914 – 1989) adaptam peças infantis e as encenam em apresentações gratuitas em teatros de toda a cidade de São Paulo. O sucesso do projeto resulta em convite da TV Paulista para que o teatro infantil seja levado à televisão. Em texto adaptado por Gouveia, encenam A Pílula Falante e O Casamento de Emília, de Reinações
de Narizinho (1931), de Monteiro Lobato (1882 - 1948). Em 1952, chamado para realizar um programa semanal,
o casal vai para a TV Tupi. Inicialmente eles levam ao ar Fábulas Animadas, adaptações feitas por Tatiana de contos de fadas e histórias fantásticas. Em seguida, criam O Sítio do Picapau Amarelo, série inspirada na obra homônima de Lobato, com cerca de 350 episódios, que entre 1968 e 1969 é montada para a TV Bandeirantes. Dominando os idiomas inglês, russo, alemão e iídiche, passa também a traduzir obras de Anton Tchekhov, irmãos Jacob, Wilhem Grimm, Tolstói, entre outros. Cf. ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Tatiana Belinky. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3917/tatiana-belinky>. Acesso em: 5 mai. 2014.
pode ser remetida à ideia explicita nas orelhas do livro, como uma “importante personalidade ligada à cultura”, especificaria sua ligação pessoal com a escola e, por conseguinte, revelaria a importância da instituição. Na edição do vídeo, por exemplo, seu depoimento é intercalado por imagens da escola e da sua vida pessoal.
O depoimento de Tatiana Belinky tem 14 minutos e é dividido em 5 partes: Raízes e Educação; Os livros; O Teatro; A esquerda; e Scholem Aleichem. Nos três tópicos iniciais a edição da entrevista compõe a sua biografia. Tatiana era filha de imigrantes russos que imigraram para o Brasil no final da década de 1920, quando ela tinha dez anos. O vídeo destaca sua vivência com outras línguas, pois ela chegou em São Paulo, alfabetizada em quatro idiomas (russo, letão, alemão) como também entendia muito bem o iídiche, o que explicaria, portanto, seu trabalho como tradutora de obras infantis. Ademais, descreve-se sua aproximação com a obra de Monteiro Lobato e, por conseguinte, a primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo (1952 – 1963) para a televisão, que a consagrou, em parceria com o seu marido Júlio Gouveia. Quando fala do escritor Scholem Aleichem, expõe que seus contos eram uma das suas paixões literárias desde a infância.
Belinky acrescenta suas experiências na Casa do Povo com as apresentações teatrais do Sítio do Pica-Pau Amarelo e a aproximação a partir da qual ela conheceu Elisa Kauffman Abramovich, “sua amiga do coração” e, por conseguinte, “a escolinha Scholem Aleichem”. Retrata a ex-diretora como uma educadora nata, pois não teve formação acadêmica para isso: “A Elisa nasceu educadora, inovadora, quase revolucionária (não falando em política, esse é outro capítulo) na escola, no ensino, e com as crianças ela era uma pessoa maravilhosa, eu gostava dela e me lembro dela sempre, sempre, sempre...” Apesar de seus filhos não terem estudado no Scholem, diz que muitas crianças, inclusive de não judeus, almejavam estudar lá. A escola, segundo Belinky, era muito respeitada e renomada e o legado que deixou para o presente é “a ética, o interesse pela cultura e o humor”.
Sobre sua ligação com o GIBSA, a autora diz que compareceu à escola para contar histórias para diversas classes e foi paraninfa de uma das “turminhas do Scholem”, concomitantemente ao período em que já era famosa pelos programas televisivos. A lembrança da autora está ligada à imagem do Scholem e a sua admiração pelo trabalho de Kauffman tem como objetivo expressar o prestígio que a escola tinha nesse período. Uma pessoa muito admirada pelas crianças, famosa, frequentar a sua escola para contar histórias para a sua turma, ser paraninfa da turma é extremamente valioso para a construção e legitimação da memória dos alunos e da instituição.
O depoimento da autora se encaixa no perfil da mesa 3, em que artistas relembram a ligação da escola com o circuito renomado da arte. Além disso, na edição do vídeo são inúmeras as imagens retiradas do arquivo em que Belinky aparece ao lado de Kauffman, reforçando a imagem de Elisa como personagem central para a construção da identidade da escola.
Já o depoimento de Ilina Ortega tem o perfil de lembranças do cotidiano escolar da mesa 4. O vídeo é pensado como um “recado” da ex-professora aos alunos que estavam presentes no Seminário. Ao contrário do vídeo gravado na entrevista de Belinky, no de Ilina só se ouve o som da voz ao fundo com as imagens da professora durante a entrevista, mescladas com as imagens do arquivo do Scholem, das mais diversas atividades lúdicas, tanto de dança como teatro. A trilha sonora escolhida foram os dois discos nomeados A Escola Canta, produzidos na década de 1960, um em português e outro em iídiche. A professora conta que dava aulas em outra escola renomada da época e foi convidada por Elisa Kauffman para ministrar aulas de música no Scholem. Segundo a professora, suas aulas baseavam-se em atividades como ouvir músicas, tocar, cantar e brincar e cumpriam um papel complementar fundamental para o desenvolvimento das crianças.
Dessa forma, descreve que todos os dias começavam com alguma música tocada por ela e, depois de se acalmarem, os alunos eram encaminhados para suas determinadas salas. Apresenta que suas aulas de música eram pensadas integradas às demais e, por isso, recorda a parceria com outras professoras, sobretudo as de iídiche, por terem conseguido gravar o disco, apesar do seu próprio desconhecimento da língua. Ortega destaca que não se aprendia música na teoria, mas vivenciando-a. E não era para formar profissionais, mas entendendo que é uma parte fundamental para o desenvolvimento do indivíduo. Para aprender, segundo ela, não era necessário talento, uma vez que os alunos deveriam se “deliciar com a música”. Conta também sobre as aulas de música aliadas ao folclore, à cultura brasileira e à judaica.
Nas suas aulas, os instrumentos eram produzidos e inventados pelos alunos, pois tudo que produz som pode ser considerado um aparelho musical. Uma das entrevistadoras questiona Ortega sobre o relaxamento com a música de Beethoven, exatamente sobre o momento destacado por Luedmann.266 Para Ortega, o elemento que distinguiria o Scholem das outras
escolas seria que a “escola queria fazer dos alunos gente e não somente números”. E o grande trunfo das suas aulas seria estarem no limite entre a aula e a brincadeira.
266 Retomando o trecho ““se prestarmos atenção, poderemos ainda ouvir a música que a Dona Ilina tocava ao piano
para as crianças deitadas com os olhos fechados: “Canção para Elisa”, de Bethoven”. LUEDMANN, Cecília. Mesa 2: Fundamentos de uma Vanguarda Pedagógica. In: CHARNIS, Cristina Catalina et all. Vanguarda Pedagógica:
Por fim, para a professora, o que atesta uma boa formação são os alunos que atualmente são músicos importantes, tanto que, não por acaso, o seminário acaba com a apresentação do pianista Daniel Szanfran. De forma semelhante ao que Starobinas afirma no texto de introdução do livro, no qual ela traça a importância da professora para a memória da escola e dos alunos,
Ensinando Música Iídiche e Folclore Brasileiro, investindo na iniciação musical e na concentração das bandinhas e dos corais, Dona Ilina é uma unanimidade entre os alunos, alguns dos quais se destacaram mais tarde como músicos.267
Nesse sentido, sua presença no DVD remonta à expectativa das organizadoras em relação ao evento comemorativo, por um lado como uma figura relevante do mundo artístico que convivia com a escola e referenda seu atestado de vanguarda e, por outro, uma professora que rememora elementos distintivos do cotidiano escolar. Na seleção que os organizadores do vídeo fizeram da entrevista de Ortega retrata-se o cotidiano escolar permeado por diversas atividades que foram significativas tanto na sua atividade profissional, como na vivência com os alunos e a relação com a música. Definem-se claramente nas duas falas que os legados, proporcionados por essa escola, estão nas pessoas formadas nela e também nas que transitaram nesse espaço.
Na seleção da entrevista com a Dona Ilina são marcantes os traços que aparecem na edição e que visam, sobretudo, à comemoração. A forma como os organizadores traçam a narrativa remonta à argumentação elaborada por Sendacz nos textos que analisamos no capítulo 1. Primeiro, a professora dá relevância à integração que as suas aulas musicais estabeleciam com outras disciplinas, em especial, o iídiche, e a sua coesão com a cultura brasileira como, por exemplo, o folclore, ressaltando os elementos que conferem a assimilação dessa comunidade e a sua identidade.
Seu depoimento ressalta a maior parte dos elementos que Sendacz almejava para a educação judaico-progressista brasileira. A “escola de números e não gente” mostra o que é delineado pelo autor como marca da educação burguesa que só forma alunos como números, pessoas individualistas, etc. Assim, a cultura e a arte, sobretudo iidichista, é vivenciada e não, somente, teorizada. Nesse sentido, subentende-se que formou gente que era “educada”, tendo como base a relação que Sendacz estabeleceu entre ensinar e educar.
Outro elemento fundamental é o destaque que a língua iídiche recebe no DVD, enquanto raramente é citada no livro. A lembrança do ensino e do convívio com a língua aparece, muitas
267 STAROBINAS, Lilian. Introdução. In: CHARNIS, Cristina Catalina et all. Vanguarda Pedagógica: o legado do Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem. São Paulo: Lettera.doc, 2008. p.15.
vezes, de forma artificial, semelhante às tentativas de Sendacz ao propor métodos de ensino e a reafirmação da importância do idioma na formação do judeu progressista brasileiro. Tal rememoração, contudo, não é respaldada pela memória coletiva expressa no evento, embora apareça nas expectativas dos organizadores.
Cabe sublinhar, portanto, que essa é a representação que Ortega cria para a sua própria experiência, a partir da sua vivência e da formação que teve dentro da própria escola, sobretudo, assistindo as palestras de formação de Sendacz, reiterando esses princípios que deveriam ser seguidos nas práticas educativas. As suas memórias descrevem um cotidiano escolar mas, sobretudo, derivam também da seleção da memória que tem da sua própria formação dentro da escola como educadora.