VIDEO GAME EXPECTATIONS
4.2.2 Key feature II: Understanding and overall experience
I.F. - Quando se deu o meu regresso a Portugal, o Prof. Vítor Fontes foi ju b ila d o por
limite de idade, veio a falecer em 1979 e a Dra Irene Leite da Costa ficou à frente do Instituto. Não podemos esquecer que Vítor Fontes tinha contactos com grandes nomes da com unidade científica. Organizou o 1c Congresso de Saúde Mental, a
1
fi Escola de Pais que funcionou no Instituto.Regressei ao-. IAACF em 1966 e fui dar aulas de Reeducação da Linguagem e Psicopedagogia da Leitura. Já no outro modelo de Curso, todos os anos tínham os de fazer o nosso projecto curricular das cadeiras para o Ministério, para serem aprovadas. N unca tive censura nas aulas. A única censura que tive foi porque no sumário referi Freinet. Foi-m e dito que não podia falar na Pedagogia Cooperativa, a directora, a Dra Maria Irene Leite da Costa disse-me: você está em Portugal, não está em França. Para mim o IAACF foi um grande choque. Vinha com outra abertura. Estive anos fora e a pouco e pouco fui caindo na realidade. Fui aprendendo a não dizer a verdade completa. Sempre falei de tudo nas m inhas aulas, só que não escrevia no sumário.
C ontributos para a História d o Instituto António Aurélio da Costa F e rre ira
Eu tinha pedido ao Dr. Sérgio Niza para ir lá falar, a partir daí comecei a aprender a omitir. Tinha lá uma aluna que o marido era da PIDE, sem que eu soubesse. Aprendi a torn ear algumas questões.
Q. - Nos finais dos anos 60, princípios de 70, qúal o papel das consultas no IAACF?
I.F. - Podemos afirmar que houve uma diminuição no volume das consultas. Aparecem outras
valências: o Centro de Saúde Mental Infantil, o COOMP, A- da- Beja, tudo nos princípios dos anos 70. Vieram certos “ fum os” do que estava a acontecer em França e Espanha e o IAACF deixa de ter um papel tão centralizador .
Q. - No IAACF mantinha-se o funcionamento das classes especiais?
I.F. - Sim, havia classes especiais na Madeira e Açores, Algarve, Setúbal, Cascais, alargavam -
se em Lisboa, Coimbra, Porto, Viana do Castelo e Barreiro. O IAACF continuava com as mesmas obrigações para com as classes especiais ao nível do fornecimento de material, o pessoal do IAACF não aumentava e estava a cargo dos técnicos a orientação pedagógica dessas classes. Apoiei as classes de Lisboa e Barreiro, tinha as aulas no IAACF, tinha de d a r orientações por escrito às cartas onde me eram solicitadas orientações e até por telefone, porque não havia verbas para deslocações.
Q. - Pode agora indicar as grandes mudanças que ocorrem com o modelo do Curso de 3 anos?
I.F. - Saíram mais formandos do IAACF nessa época. O curso de 3 anos só ocorre após o 25 de Abril, com Prof. Albano Estrela. Até aí o Curso foi sempre de t ano, A Dra Inês Sim- Sim fez a transição para a ESE. O Prof. Albano Estrela com eça a exercer funções no IAACF em 1975, vindo do INEF, formando um grupo de trabalho que fez avançar o Curso para 3 anos.
Ocorre a emergência da Pedagogia da Sociologia da Educação, neste curso.
Q. - Gostava que nos esclarecesse melhor sobre o processo de transição para a ESE?
I.F. - No edifício do IAACF ocorreu a transição. Foram convidados os professores que estavam
a leccionar no Instituto. Eu ainda terminei um Curso do Instituto e iniciei um Curso da ESE, depois o Curso passou de 3 para 2 anos, diminuiu o plano de estudos, contracção do número de horas das cadeiras e o número de horas práticas diminuiu. Os form andos do IAACF tiveram de efectuar cursos na ESE para terem equivalência à sua especialização.
C ontributos para a História do Instituto A n tó n io A u ré lio da Costa Ferreira
Q. - Recuando um pouco no tempo, pode referir a ligação entre o Instituto e os novos
m ovimentos que vão surgindo ( Associações de Pais, CERCIS)?
I.F. - Havia CERCIS formadas por pais, outras por técnicos, onde funcionavam os estágios dos
form andos e o IAACF dava contrapartidas: apoios, possibilidade de os professores das CERCIS terem acesso a Seminários no Instituto.
O movimento da Escola de Pais no IAACF teve um grande em penham ento- tem áticas diversas nos Ciclos de Conferências, tinham a ver com a relação pais / crianças, a criança na estrutura familiar, outro ciclo foi o desenvolvimento físico e motor, procurava-se dar resposta às interrogações sentidas pelos pais. As situações abordadas pelos pais nas consultas deram origem ao desenvolvimento dessas tem áticas..O s pais das crianças internadas no Instituto' tinham dificuldade em participar.
Q. - Ainda no que respeita ao funcionamento do IAACF, pode explicitar a formação das
classes?
I.F. - A divisão das crianças em classes era feita por níveis de desenvolvim ento, não tinha nada
a ver com áreas curriculares ou académicas, estavam 7,8 ou 9, mas cada uma estava ao seu nível mental, e não propriamente pelos conhecimentos escolares.
Q. - De quem era a competência da certificação escolar das crianças?
I.F. - Os certificados eram assinados pela directora do IAACF, não iam a serviços do Ministério
da Educação, não iam à direcção da escola, embora fizessem exam es oficiais. Um dos elem entos do júri era professor da escola, o professor da classe especial, professor nomeado pela escola onde funcionava a classe especial, até à 3a classe, em bora alguns fossem adm itidos à frequência da 4a classe, quando o professor assim o entendesse.
Q. - Pode dar a sua opinião sobre o aproveitamento das classes especiais?
I.F. - Nessa altura todos os professores de todos os níveis de ensino tinham de fazer um
relatório e eram avaliados por esses resultados. A criança quando podia transitar para a classe seguinte, transitava quando os objectivos do plano fossem atingidos. Era feita uma prova, não se esperava pelo final do ano lectivo. A criança progredia sempre, nunca era reprovada, não era preciso esperar pelo final do ano lectivo. Só no fim da 3a classe é que a criança esperava pelo final do ano lectivo para ser avaliada. Como o ensino era individualizado, muitas vezes podiam-se dar conhecimentos da 4a classe, progressão no ensino, não repetir o já dado, era
C ontributos p ara a História do Instituto A n tó n io A u ré lio da Costa F erreira
extremamente avançado para a época, ainda que fosse segregador. Não havia livro de leitura. Os livros eram construídos até com jornais, versos comprados na Feira da Ladra, letras de fados, textos das crianças. Seguia-se tudo menos o livro, liam-se textos de form a funcional, o que era extremamente inovador.
Q. - Podia transmitir-nos a imagem que guarda do Prof. Vítor Fontes?
I.F. - Era uma pessoa um pouco distante. Exercia o cargo de professor universitário, com grande respeito pela função. Ele próprio andava a aprender, sentava-se frequentem ente na classe da D. M odesta Barrai e observava como ela desempenhava as suas funções.
O Prof. Vítor Fontes dizia-nos que depois éramos capazes de tudo, dava-nos conselhos: “ não se acomode, construa sempre".
A relação com os professores no IAACF era muito distante, mas era o espelho da época, a relação com os alunos era boa, mas as pessoas permaneciam distantes, convencidas da sua sabedoria e eu estava ali para aprender. O Prof. Vítor Fontes era teimoso, não tínhamos férias de Natal, Páscoa e Carnaval, não nos queria atender para pedirmos férias.
Residia no edifício do Instituto, no último andar, embora tivesse casa em Sintra. Andám os sempre a pedir férias. Só no meu curso é que houve férias de Natal. A figura é a do professor de Medicina, não era pessoa acessível. Depois conheci-o melhor. Após a sua aposentação tornou-se mais próximo, eu mudei a minha opinião acerca dele. A distância que eu via não era mais do que o constrangimento na relação com os alunos.
Contributos para a História do Instituto A ntónio A urélio da Costa F erreira
ENTREVISTA 2
E n tre v is ta d a : Ana Maria Bénard da Costa
F u n ção : Chefe da Divisão do Ensino Especial/ Directora de Serviços do Instituto de inovação Educacional
D ata da e n tre v is ta : Fevereiro 2000
Questão (Q.) - Pode fazer-nos um breve relato da sua experiência profissional e das etapas da
Educação Especial em Portugal?
Ana Maria Bénard da Costa (A.M.B.C.) - O meu percurso iniciou-se num colégio particular,
depois fui educadora no Centro Hellen Keller, onde igualmente fui directora. De seguida fui chefiar o sector de Educação dos Deficientes Visuais em 1965 na Direcção Geral de Assistência, onde permaneci até 1972, no âmbito do Ministério da Saúde e Assistência, Instituto de Assistência aos Menores. Tive a oportunidade de traçar e executar um plano de acção relativo à educação e assistência aos deficientes, de apresentar a proposta de criação de um Centro de Observação que veio a dar origem ao COOMP. Foi im plem entado o sistem a de apoio domiciliário a crianças até aos 3 anos, foram estabelecidos acordos com Hospitais e efectuadas observações clínicas das crianças, a par da dinam ização de cursos de especialização dos professores. Foram organizadas estruturas educativas, visando, nalguns casos, a integração e noutros casos a permanência em estruturas segregadoras. Nessa época, no Ensino Primário era im possível integrar crianças deficientes, a Direcção Geral do Ensino Primário não autorizava. Foram criadas a esse nível escolas especiais, colégios que abrangiam os Açores e Madeira. Ao nível do Ensino Preparatório e Secundário com eçou a fazer-se a integração de crianças deficientes visuais com professores de apoio, a par da produção de livros escolares e m ateriais educativos em Braille.
Em 1973 fui nomeada para chefiar a Divisão de Ensino Especial na altura da Reforma Veiga Simão, fiz um plano em que propus a criação das Equipas de Ensino Especial. Esta estrutura devia intervir nas escolas, no meio e nas famílias. As EEES eram formadas por professores de várias áreas: Deficiência Visual, Auditiva e Motora e tinham uma perspectiva da integração social, escolar e familiar. O trabalho a desenvolver era na Escola, na Família e na Comunidade. Foram formadas sete Equipas em diversas cidades e depois foi crescendo o seu número até à fase de encerramento do IAACF e da passagem para a ESE.
Contributos para a História do Instituto A ntónio Aurélio da Costa F e rre ira
Havia um hiato na formação de professores, nas Equipas de Ensino Especial deviam existir professores especializados. Decorreram Cursos de Especialização na Assistência Social e foram organizados outros na Direcção Geral do Ensino Básico. Estes tinham a duração de ano lectivo e meio e incidiam sobre a Deficiência Mental e Motora. O movimento da integração era crescente pelo que surgem vários concelhos que solicitavam a criação das EEES, daí surge a necessidade de recorrer a professores não especializados. Começaram a organizar-se cursos intensivos de três meses e que eram apoiados por professores especializados.
Houve sempre, no nosso país, carência na formação de professores, ainda hoje há uma percentagem enorme de professores não especializados no terreno. A DEE constituiu-se em Direcção de Serviços e englobou o Ensino Secundário, até 1994, ano em que transitei para o l.l.E.
Neste sen/iço propus im plem entar um projecto de investigação, ao nível d o
1
desenvolvimento de Currículos Funcionais para jovens com Deficiência Mental. Depois iniciei o projecto das Escolas Inclusivas, em ligação com a UNESCO, que se encontra-actualm ente numa segunda fase de desenvolvimento. Na primeira fase foi a divulgação do Projecto, nesta é a concretização de trabalho directo com as Escolas que procuram m udar as suas práticas para se tomarem Escolas Inclusivas. O projecto continua a ser divulgado através dos Centros de Formação de Escolas, em síntese, trata-se de Projectos de Investigação- Acção em Escolas.Q. - Pode referir as correntes que influenciaram o seu trabalho na DEE, o que é que trouxe
para Portugal de inovador?