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4. Presentasjon og tolkning av data

4.4. Kartlegging og vurdering

Como pudemos ver, de maneira resumida, o primeiro ciclo da história do movimento operário (e da esquerda) brasileira - que durou cerca de vinte anos – gerou uma quantidade impressionante de ricas experiências organizativas da classe, consideradas em suas dimensões políticas, estéticas e pedagógicas. Quase um século depois, não é fácil apreender a exata dimensão das tarefas assumidas por aqueles primeiros militantes proletários, que, ao se dedicaram ao desafio de instaurar os primeiros sindicatos de trabalhadores do país, depararam-se inevitavelmente com as adversidades típicas das ações pioneiras. Imaginemos, por exemplo, o que significava organizar uma simples greve num país que até pouco mais de dez anos antes baseava a produção de sua riqueza no iníquo trabalho escravo. Naquela época, qualquer reivindicação de aumento salarial, melhoria das condições de trabalho, ou qualquer outro legítimo direito do trabalhador, soava aos ouvidos patronais como algo tão despropositado quanto o questionamento da sagrada instituição da propriedade privada, motivo que explica o padrão brutal de repressão aplicada às greves. Se hoje é quase um senso comum sociológico reconhecer, em nossas formas contemporâneas de sociabilidade, diversos traços culturais herdados de uma tradição escravocrata de quase quatrocentos anos, o que dizer dos primeiros anos de existência das leis que instituíram o “trabalho livre” nestas terras?

Some-se a isso a inevitável ausência de experiência organizativa de uma classe proletária brasileira que apenas começava a se formar. Não por acaso, grande parte da militância operária era estrangeira. Isso se deveu não só ao fato de que italianos e espanhóis compunham uma parte expressiva da mão de obra fabril, mas, sobretudo, porque traziam consigo algo das experiências de luta e de organização que os trabalhadores daqueles países já viviam há algumas décadas. Aliás, é uma grande ironia da história o fato de que as idéias subversivas e anticapitalistas que inspiraram a formação das primeiras entidades proletárias tenham desembarcado em solo brasileiro graças a um plano mirabolante da classe dominante brasileira, que abriu as portas para a imigração européia, obcecada por “branquear” a “demasiadamente negra” população nativa. De modo que, curiosamente, os primeiros capítulos da “luta de classes brasileira” foram, em grande parte, protagonizados por estrangeiros: de um lado, imigrantes europeus anarquistas, do outro, patrões que não raro eram também europeus (os dois principais industriais de São Paulo eram os italianos Rodolfo Crespi e Francesco Matarazzo).

Os desafios postos para a organização da classe eram, portanto, imensos. Os anarquistas precisaram, simplesmente, inaugurar uma tradição, instituindo hábitos de organização e luta onde muito pouco havia até então. Para combater a hiperexploração sofrida na pele diariamente em cada fábrica, para exigir um mínimo de dignidade da condição operária, e, principalmente, para sonhar com transformações radicais do sistema social, era necessário, antes de mais nada, produzir o movimento operário, ou, de certa forma, produzir uma nova cultura (urbana e proletária), que inexistia no país do início do século passado. Como bem resumiu Foot Hardman:

“essa produção cultural, materializada na atividade da imprensa de propaganda anarquista, representa o que chamarei de cultura de resistência, dado seu papel aglutinador buscando manter a integridade ideológica e vivencial do operariado emergente, contra o sistema político dominante e em prol da chamada “emancipação social”. Se existiu uma “política libertária” (oposta à política institucional, vista em seu conjunto como burguesa), esta consistiu basicamente nessas atividades de propaganda: quero dizer que estão imbricados de forma global o sentido cultural e o sentido político da prática anarquista”.125

Na intensa atividade de “agitação e propaganda”, em que a “política” e a “cultura” se fundem, encontramos a matriz da concepção organizativa anarquista (abrindo um parênteses: não deixa de ser curioso que, no uso corrente da língua, reproduzido neste trecho citado, recorrentemente separemos os termos “política” e “cultura”, como se a “política” não fosse mais um dos elementos constitutivos da “cultura”. Por outro lado, tendemos a identificar “cultura” mais diretamente como “arte”, em suas várias formas). Não seria exagero dizer que, para a realização do objetivo de produzir uma “cultura de resistência” no interior do proletariado, a organização de um festival era encarada com a mesma seriedade que se organizava uma greve, e a condução de uma assembléia na porta da fábrica não era mais importante do que produzir e apresentar uma peça teatral para os operários. Antes de serem hierarquizadas numa “lista de prioridades”, tais atividades eram vistas como complementares. Mas talvez não seja justo, como faz Hardman, identificar plenamente a “política libertária” dos anarquistas como “atividades de propaganda”, pois, ainda que a produção artística (ou “cultural”) estivesse sempre orientada por legítimos desígnios de propaganda ideológica, ela também era capaz de produzir mais do que belos e didáticos discursos politizadores. As festas e os grandes festivais, por exemplo, não eram somente espaços privilegiados de difusão das obras de arte e propaganda para multidões. Eles sempre foram, potencialmente, como toda atividade festiva, espaços de encontro e de geração de vínculos entre os

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trabalhadores. Neste sentido, a “politização” não advinha somente da propaganda ideológica bem feita, mas também do próprio ato de estabelecer e reforçar os laços entre os indivíduos que compunham a classe.

Em outras palavras, as entidades proletárias não se concebiam meramente como instrumento de organização das lutas da classe por melhorias de suas condições de vida, através de greves e piquetes, pois, uma vez “que o sindicato se define, nessa corrente, ‘como a forma social do movimento revolucionário, destinada a substituir o Estado’, ele deve constituir todo o universo do operário, preenchendo suas necessidades materiais, morais e culturais”.126

Ou seja, o sindicato assumia, enquanto expressão coletiva da classe, a tarefa revolucionária de “formar sujeitos”, no sentido mais profundo da expressão: defendendo sua sobrevivência material (através das lutas reivindicatórias e dos “fundos coletivos” para fins diversos), cultivando valores libertários, como liberdade e justiça (numa sociedade profundamente desigual e conservadora) e garantindo o acesso aos bens culturais, ao mesmo tempo em que incentivava a produção cultural da própria classe.

Evidentemente, o que diferenciava um sindicato anarquista de um “clube esportivo e musical”, ou ainda de uma “associação de bairro” – uma vez que estes também se dedicavam a organizar atividades semelhantes – era o sentido atribuído a tais atividades, pois num sindicato, os esforços em responder às demandas “materiais, morais e culturais” dos trabalhadores eram diretamente relacionados a um projeto político de transformação social, ao contrário de um “clube de bairro”, que encarava suas atividades quase como um fim em si mesmo, preocupados tão somente em animar a vida de seus integrantes, jamais indo muito além da vida do próprio bairro. Ora, estar imbuído de um horizonte revolucionário e de uma perspectiva de transformação do sistema político e econômico vigente significava, para aqueles sindicatos, por exemplo, ter de sustentar uma política de conflito permanente com a classe empresarial, apostar em métodos de luta de “ação direta” e, claro, sofrer as pesadas conseqüências desta opção política.

Como já dissemos anteriormente, é importante relembrar que esta concepção político-organizativa - sensivelmente atenta às necessidades subjetivas da vida cotidiana proletária e talvez menos propensa à burocratização das entidades – jamais foi exclusividade das correntes anarquistas. Ao contrário, até pelo menos o período entre guerras, ela era adotada por praticamente toda a esquerda organizada nos países industriais, fosse sob orientação comunista ou social-democrata, guardadas as devidas especificidades de

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cada nação127. O que havia de comum entre todas elas, e que pudemos aprofundar um pouco no caso brasileiro, era a profunda aspiração de utilizar as organizações de trabalhadores como instrumento privilegiado para a conformação de comunidades proletárias, conscientes de que estas eram um pressuposto fundamental para o fortalecimento da classe, bem como para o sucesso de sua intervenção nos conflitos sociais, porque:

“como indicou Max Weber, a similaridade de condições e status não asseguram automaticamente uma ação unificada, da mesma forma que a dissimilaridade não leva necessariamente ao conflito. Para que ocorram unidade e conflito, um mero agregado de unidades similares tem que ser transformado antes numa comunidade agindo em uníssono para então poder se opor contra outro grupo apresentado como o “vilão da história” – seja como objeto de comparação invejosa, embora legítima, ou como agente responsável pelas injustiças na distribuição”.128 (grifo nosso)

Retomando aqui um clássico argumento de Max Weber, o filósofo polonês Zygmunt Bauman sustenta que as meras condições de exploração e miséria a que são submetidas a maioria da população nos países capitalistas não são, nem de longe, suficientes para gerar reações coletivas e organizadas contra os agentes que se beneficiam desta exploração. Do mesmo modo que o quase insuportável nível de exploração a que eram submetidos os empregados das primeiras indústrias brasileiras não bastou para que a maioria deles fosse arrebatada por um sentimento de revolta que os incentivasse a procurar se organizar em suas entidades próprias, e isto parecia claro para as lideranças do movimento da época. Por outro lado, tampouco seria suficiente para a construção do movimento se suas associações se limitassem a organizar reuniões para discutir as condições de trabalho nas fábricas, ou mesmo propor as lutas necessárias a fim de diminuir a precariedade de suas condições de vida. Não bastaria porque os indivíduos que fazem parte de um grupo desprovido de um forte sentimento de identidade coletiva não são capazes

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É o que poderemos constatar nos exemplos históricos dos movimentos operários da Alemanha e da Áustria no século passado, no período entre a primeira década e a ascensão de Hitler, na primeira metade dos anos 30. Nestes países, cujos proletariados eram dos mais organizados de toda a Europa, os sindicatos e partidos de esquerda exerceram fortíssima influência ideológica sobre os trabalhadores, através de experiências muito similares a dos anarquistas no Brasil. Naqueles países, contudo, a classe operária era muito mais numerosa e economicamente significativa, o que imprimiu em tais experiências uma dimensão política de muito maior relevância. Em pesquisa bibliográfica inicial, já localizamos algumas obras que tratam do tema. Para o caso alemão, temos a obra de George L. MOSSE. The Nationalization of the Masses - political symbolism and mass movements in Germany from the

Napoleonic Wars through the Third Reich. Ithaca-Londres, Cornell University Press, 1991; cujo enfoque aborda,

inclusive, a apropriação de certas práticas do movimento operário pelos nazista. Para o caso austríaco, temos: Anson Rabinbach (ed.). The Austrian Socialist Experiment 1918-1934, Londres, Boulder Coll, 1985; Helmut Gruber,

Red Vienna. Experiment in Working Class Culture. Oxford University Press, 1991; e também o artigo de

Wolfgang Maderthaner. “Vienne 1880-1938. L'Apocalypse joyeuse", no catálogo do Beaubourg (Paris) organizado

por Jean Clair.

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de se revoltar contra a injustiça que vivem, nem de inspirar solidariedade com o sofrimento do outro. E, apesar do fato de que uma parte importante deste sentimento de identidade coletiva seja despertado no próprio ato de travar coletivamente as ações de confronto típicas da luta de classes (uma greve é uma importantíssima fonte do sentimento de pertença a um coletivo), elas não são suficientes: porque não podemos estar em conflito todo o tempo, porque as lutas desgastam muito, porque somos seres com inúmeras outras necessidades.

Neste sentido, peças teatrais, assembléias, grandes festivais, bandas de música, greves, jornais, revistas e piquetes faziam, todos eles, parte do mesmo repertório dedicado a consolidar uma série de elementos materiais e simbólicos que formassem a base objetiva e subjetiva da existência de uma comunidade proletária, apta a lutar ferozmente pela conquista e reconhecimento de seus direitos e pela defesa de um projeto alternativo de sociedade, mas também interessada em cultivar nos indivíduos os valores morais e estéticos ligados à utopia libertária de um mundo sem exploração.

6) A mística da comunidade nas periferias urbanas: desafios para a mobilização política