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4. Presentasjon og tolkning av data

4.3. Språk

4.3.6. Inkludering og tilpasset opplæring

Até aqui, nos centramos no exame das práticas festivas desenvolvidas pelas primeiras entidades proletárias nacionais - baseado num diálogo esboçado entre a historiografia sobre o período e alguns elementos gerais de uma “antropologia das festas” - nas quais pudemos testemunhar de que forma a articulação construída entre ideologia política, produção estética e auto-organização do lazer da classe se realizava concretamente nos grandes festivais promovidos pelas associações, ligas e sindicatos de orientação anarquista. No entanto, também vimos a importância assumida pela produção dramatúrgica das dezenas de grupos teatrais formados por trabalhadores, atores principais das festas de propaganda na primeira fase do movimento e igualmente presente nos festivais do período pós-1917. A despeito da escassez de recursos e da dificuldade em atingir o público não ligado aos sindicatos, é de se louvar a capacidade destes grupos em formar uma espécie de “cena teatral” própria, complementada por um público cativo e uma gama variada de autores e peças que buscavam retratar as inúmeras dimensões do universo proletário, e cujo intuito principal era o de utilizar o teatro como forma de traduzir, artística e didaticamente, um ponto de vista revolucionário a respeito da sociedade capitalista.

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Não poderíamos deixar de destacar, igualmente, o protagonismo representado pelos diversos órgãos da imprensa operária enquanto instrumento organizativo da classe, na medida em que eram o principal veículo diário de comunicação entre a massa trabalhadora e os grupos de dirigentes do movimento, que souberam explorar seu potencial “informativo” e “formativo”: como meio de informar a classe a respeito da conjuntura (política, econômica, cultural) na sociedade (e no movimento) em nível nacional e internacional - contrapondo-se às versões apresentadas pela “imprensa burguesa” - e como a forma mais viável de popularizar os artigos dos principais pensadores e lideranças das correntes anarquistas, cuja difusão era fundamental para a garantia da manutenção de sua influência ideológica no interior da classe. Jornais tão populares como A Plebe eram o principal meio de propagandear as inúmeras atividades realizadas pela classe, sobretudo durante as greves, quando desempenhavam funções organizativas primordiais, complementárias às assembléias dos sindicatos. Portanto, não era por acaso que muitos dos festivais proletários – cujo sucesso dependia da divulgação massiva garantida pelos jornais - eram idealizados também com o intuito de gerar recursos financeiros para sustentar os cada vez mais numerosos meios próprios de comunicação escrita.122

A primeira geração do movimento operário brasileiro (e argentino) notabilizou-se, igualmente, pelas heróicas tentativas de desenvolvimento de uma pedadogia libertária aplicada à educação infantil,

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Hardman nos conta que, em Buenos Aires – onde o movimento anarcossindicalista era ainda mais organizado que em São Paulo e dotado de maior relevância política – por volta de 1910, se imprimiam dois jornais diários com uma incrível tiragem de nada menos que 15 mil exemplares cada, com o que se pode deduzir a sua importância para o movimento. Na relação que o personagem “35” tem com os jornais no conto “Primeiro de Maio”, Mario Andrade também nos fornece indícios do protagonismo dos órgãos da imprensa classista na construção do imaginário dos trabalhadores do período (no caso de Mário, pouco mais de uma década após o auge do anarcossindicalismo brasileiro). Por um lado, é obviamente nos jornais que 35 descobre que a cidade está sitiada pela polícia por ordem do governo, temeroso de que os trabalhadores celebrassem o feriado com algum tipo de protesto, como pedia a tradição. Por outro lado, numa narrativa marcada pelos frustrantes desencontros entre o protagonista e seus irmãos proletários, é graças à leitura dos jornais que 35 consegue experimentar uns poucos e breves “encontros imaginários” com a classe. Quando ainda em casa, por exemplo, vê uma notícia que alimenta sua fantasia de participar de um protesto em que tivesse a oportunidade de bater num policial, sabendo que, em lugares tão distantes, gente como ele faria o mesmo (“E os jornais tinham anunciado que se esperava grandes ‘motins’ do Primeiro de Maio, em Paris, em Cuba, no Chile, em Madrid”). Em outra passagem, 35 chega a se comover com a leitura de um artigo que consegue lhe transmitir, intensamente, o orgulho da identidade proletária (“Havia logo um artigo muito bonito, bem pequeno, falando na nobreza do trabalho, nos operários que eram também os ‘operários da nação’, é isso mesmo. O 35 se orgulhou, todo comovido. Se pedissem para ele matar, ele matava roubava, trabalhava grátis, tomado dum sublime desejo de fraternidade, todos os seres juntos, todos bons...”). Em suma, impedido pelo governo de celebrar o seu dia e sem poder contar com o suporte de um sindicato que organizasse a sua categoria – e possibilitasse a elaboração coletiva das experiências individuais, pressuposto da formação de uma “consciência de classe – é nos jornais que 35 encontra, de maneira dispersa, elementos formadores de sua consciência (“Com seus vinte anos fáceis, o 35 sabia, mais da leitura dos jornais que de experiência, que o proletariado era uma classe oprimida”). Certamente, o contexto político no qual transcorre a narrativa sobre 35 é bem distinto daquele vivido nos anos dourados do anarcossindicalismo brasileiro: a ausência das organizações proletárias no conto reflete o momento de recrudescimento da repressão estatal sobre elas, e explica a confusão identitária do protagonista sem nome. A função da imprensa proletária se vê, portanto, prejudicada sem sua base concreta de sustentação: só o jornal não basta para conformar a identidade da classe. Mesmo assim, as leituras dos jornais são capazes de alimentar a imaginação de 35 e de nele produzir alguns lampejos de desalienação e identidade. Vale lembrar, aliás, que o papel que Mário atribui ao periódico em sua narrativa é similar àquele que o antropólogo Benedict Anderson, em obra que já comentamos, atribui aos jornais no processo de formação da comunidade imaginada das “nações” modernas.

inspiradas pelas idéias do filósofo, educador e ilustre personagem do anarquismo espanhol Francisco Ferrer. Aos poucos, foram sendo fundadas algumas das chamadas “escolas livres”, com o objetivo de promover as condições para uma prática pedagógica inovadora - que fomentasse a formação do pensamento crítico e científico desde a mais tenra infância, numa época em que a Igreja Católica ainda possuía hegemonia sobre o sistema de ensino. Tais iniciativas se alimentavam de um espírito comum, o qual podia ser resumido no anúncio da fundação de uma destas escolas, em 1902, na cidade de Buenos Aires:

“Trata-se da implantação de uma escola libertária, que será o primeiro baluarte levantado contra o envenenador ensino oficial e religioso, destinando-se a proporcionar aos filhos dos trabalhadores uma educação livre, racionalista, purgada de toda infecção patrioteira e religiosa...Nesta escola ensinar-se-á aos alunos de ambos os sexos conforme os mais aperfeiçoados sistemas pedagógicos e com a mais escrupuosa verdade científica”.123

Percebendo a escola como um dos “aparelhos ideológicos do Estado”, cuja função primordial é a de adaptar os indivíduos à ordem social, podando desde cedo qualquer tipo de arroubo de contestação do status quo, os anarquistas se esforçaram por travar uma batalha ideológica no campo da educação. No Brasil, há notícia da existência de escolas em diversas cidades durante a década de 10 (São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Porto Alegre, Belém, Bauru, Franca, Sorocaba, entre outras), das quais as mais famosas foram as Escolas Modernas do Brás e do Belenzinho, em São Paulo, mantidas precariamente durante cerca de seis anos (1913-19). Como de resto sucedeu com todas as iniciativas organizadas pela militância anarcossindicalista (incluindo-se aí tentativas fracassadas de fundar “universidades populares”), estas escolas não sobreviveram à brutal repressão e ao refluxo do movimento nos anos 20124. Mesmo assim, o curto período de suas atividades foi suficiente para garantir às “escolas livres” um lugar de destaque na história da pedagogia brasileira, como as primeiras experiências radicais em educação

123 Jornal La Protesta Humana, edição de 9/08/1902. H. CAMPO. Los anarquistas. Buenos Aires, Centro Editor de América Latina, 1971. apud HARDMAN, op. cit., p. 79.

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A perseguição à experiência das “escolas livres”, empreendida pela classe dominante por meio do aparelho estatal, chegou ao cúmulo de decretar oficialmente o fechamento das escolas mediante sentença proferida pelo Supremo Tribunal Federal (apesar de dois ministros terem votado contra). Uma raivosa matéria publicada do jornal paulistano “A

Gazeta do Povo” deixa transparecer o medo da elite católica e reacionária diante de mais este “atentado contra a

moral e os bons costumes”: “todo mundo já sabe que em São Paulo trata-se de fundar uns institutos para a corrupção

do operário, nos moldes da Escola Moderna de Barcelona, o ninho de anarquismo de onde saíram os piores bandidos prontos a impôr suas idéias, custasse embora o que custou. Ora, uma tal casa de perversão do povo vai constituir um perigo máximo para São Paulo. E é preciso acrescentar que não somos só nós os católicos que ficaremos expostos à sanha dos irresponsáveis que saíssem da Escola Moderna”

infantil, desde então servindo como referência e inspiração para as inúmeras gerações de educadores que lhe sucederam.