Meu nome completo é Maria Francisca Cabral de Holanda Mas deixa eu lhe contar essa história
O nome da mãe do meu pai era Denezia Minha mãe esperando pra me descansar
Ela me teve no primeiro de janeiro do dia de ano Quando eu nasci minha vó disse
Essa menina é pra se chamar Diana Isso foi ideia da minha vó
E meu pai deixou esse nome Primeiro Dia de ano Diana
Estava com dona Diana naquela com-versação Ela sentada numa rede de tecido
Enquanto debulhava uma bacia de feijão Eu querendo saber da farinhada
Sentado eu estava no chão
O esposo comandava a produção A família resistia bravamente Em manter a longa tradição
Era gente trabalhando na maior animação O motor funcionava barulhento
Enquanto os homens faziam o serviço braçal As mulheres raspavam a mandioca
E as crianças brincavam com um jumento Naquele imenso quintal
O forno estava quente Era todo mundo suado Era risada para todo lado Tristeza estava bem longe Não se ouvia ninguém calado Foi me dando umas curiosidades E comecei a perguntar
Dona Diana por favor me diga Com que idade na roça
A senhora começou a trabalhar
Eu tinha meus 13 anos
Quando comecei na roça trabalhar Ganhava um dinherim
Para me vestir e me calçar Comecei logo bem cedo
Porque meu pai não tinha para me dar Eu com essa idade
Já arrancava de 6 a 8 cargas de mandioca Botava na casa de farinha
Minha mãe achava que eu não dava conta Proque eu era pequenininha
Era serviço demais
Para quatro trabalhadeira Uma ia buscar água no córrego A outra ia buscar madeira Tinha a que fazia a raspação Já outra botava a goma na peneira
A senhora me contou a história do seu nome E também a idade que começou na roça trabalhar Mas, por favor me esclareça
Como é que a senhora aprendeu A arte de farinhar
Por uma banda eu aprendi junto com o meu pai E por outra banda eu era obrigada a trabalhar Trabalhei por necessidade
Pra ganhar um dinheirim
Proque meu pai, como eu lhe disse Não tinha nada pra mim
Aí apareciam uns serviços Eu não injeitava trabalhar Minha mãe teve 13 filhos Era duro pra ela cuidar Tive cedo que ir pra roça Pro mode poder me sustentar Eu aprendia vendo e fazendo Primeiro na roça de algodão Depois foi a roça de mandioca Rejeitava trabalho não
Eu ia pro algodão
De primeiro era mais unido
Pro mode a gente fazer o serviço um dos outros Se juntava todo mundo da região
Era tanta gente fazendo O serviço de mutirão
Era homi, como as mulhere e as criança Gente de toda qualidade
Não tinha preguiça não Os homi limpava a capoeira
E as muié botava a maniva no chão Se o dono da capoeira adoecesse Aquele serviço empancava não Pois os outro se ajuntava E todo mundo fazia por ele Era aquela animação
Hoje quase todo serviço é pago Aqui na minha família
Ainda não está assim muito não
Proque eu tenho meus filho, meus neto e nora Pra fazer a união
Dona Diana me contou Como aprendeu a farinhar Eu também não me furtei Da farinhada participar E o pouco que aprendi Agora vou repassar
Pode ser grossa ou fina
Pode ser branca ou amarelinha
A goma também é produzida na farinhada Dela se faz grolado beiju e tapioca
Mas para isso tem que ser bem torrada Para começar o processo
Tem que o terreno roçar Jogar a maniva no chão Para começar a plantação Quando o inverno é equilibrado Aumenta a produção
Espera um ano todinho Para se fazer arrancação Quando a mandioca chega Na casa de farinha
É aquela animação
Todos de faca na mão mulheres homens e crianças Tiram a casca até ficar branquinha
No trabalho da raspação
A raiz raspada é colocada no motor Para haver a serração
Ela fica bem picadinha
Até virar uma massa branquinha Que depois vai para a espremação A massa é espremida até goma virar Água e massa no tanque vão se misturar Mexe-se bem até um caldo grosso ficar Depois se coloca o líquido numa rede Para a água da goma separar
Põe a goma na prensa Com a melhor da intenção Tirar o veneno da massa Para não ter perigo algum De ficar passando mal Na hora da degustação Após tirar a massa da prensa Começa a peneiração
Que é separar a parte grossa da parte fina Para que tudo no final
Vire alimentação
Coloca a massa fina no forno quente Com o rodo mexe para lá e para cá Em constante movimento
Até a massa ficar bem torradinha De forma que se transforme Toda a massa em farinha Agora é só ensacar o produto Guardar no lugar que circule o ar A farinha bem conservada Dura tempo para arruinar
Assim não tem perigo de apodrecer Dá para comer o ano todinho E o que sobrar
Dá até para vender
Da goma se faz beiju e tapioca Comidas bem saudáveis Gostosas de apreciar O importante é comer logo
Para o alimento não estragar Pois comida que leva coco É danada para azedar Meu leitor e minha leitora É hora de saborear
Desejo a todos vocês Um bom paladar Aqui fiz por escrito Como forma de registrar
Uma lembrança para não deixar A farinhada acabar
Mas se quiser aprender a farinhar É bom experimentar
Nos Tremembé ainda tem farinhada Te convido para ir lá
Dona Diana aprendeu a farinhar junto ao pai Porque era obrigada a trabalhar
Para pode algum dinheiro ganhar Ela não rejeitava serviços
A mãe teve 13 filhos Que ela ajudava a cuidar Cedo foi para roça
Para poder a ela e aos irmãos sustentar Aprendeu vendo e fazendo
Trabalhando as vezes em mutirão
Fosse na roça de mandioca ou plantação de algodão Era trabalho que envolvia
Era gente de toda qualidade Todos em ação
Faziam a união
Aqui finalizo os recontes das histórias dos troncos velhos. Chamando a atenção para os modos de aprender-ensinar de cada história. O que compreendo, em síntese, sobre os modos de aprender dos troncos velhos é que estão intimamente ligados à convivência comunitária, principalmente, às relações familiares. Geralmente, inicia-se a aprendizagem a partir dos parentes mais próximos. O aprender a fazer ocorre pela observação de ver outrem fazendo, mesmo que seja de longe, como D. Elita, a artesã das palhas; ou fazendo junto com o outro, como era o caso de D. Bida, a pescadora; ou mesmo elaborando na própria imaginação para só depois fazer, como fazia seu Zé Domingos. Essa perspectiva dialoga com o pensamento de Brandão (1993) sobre as situações de aprendizagem em que se dão fora da escola, onde:
[...] as pessoas do grupo trocam bens materiais entre si ou trocam serviços e significados: na turma de caçada, no barco da pesca, no canto da cozinha da palhoça, na lavoura familiar ou comunitária de mandioca, nos grupos de brincadeiras de meninos e meninas, nas cerimônias religiosas. (BRANDÃO, 1993, p. 18).
Outra possibilidade é a aprendizagem por intermédio da providência divina, como era o caso de D. Maria Bela, a rezadeira e curandeira. Ela já nascera com saberes adquiridos concedidos por Deus, mas necessitaria de desenvolvimento terreno, tendo outra pessoa mais experiente que auxiliasse nesse trabalho.
Ocorre também a aprendizagem através das experiências com os elementos natureza, como é o caso das relações com as plantas, os rios, o mar, o céu, ou mesmo com os encantados que transitam entre céu e a terra. Neste aspecto, a manutenção e a continuidade dos saberes tradicionais depende, sobremaneira, das relações comunitárias e da garantia do território onde se dão tais relações. Dessa forma, a luta pela terra é, sem dúvida, a maior luta de todas para os tremembés, pois a ela está ligada diretamente a existência material e cultural desse povo.
Agora destacarei o que a escola tem feito para dar continuidade aos saberes dos troncos velhos. Ocorrerá a partir de dois momentos vivenciado no campo. O primeiro foi o Seminário do URU da Diversidade dos Saberes Tremembé, e o outro, a VII Assembleia do Povo Tremembé. Ambos acontecidos em 2015 na escola indígena da Passagem Rasa.
6 TRONCOS VELHOS E A ESCOLA