No primeiro momento fomos conhecer o serviço e a equipe responsável pelo grupo de medidas socioeducativas em meio aberto. Repassamos os objetivos da pesquisa e nos colocamos à disposição do serviço para realizarmos ações no grupo de familiares. Aqui conversamos com a coordenadora do serviço, que nos repassou as características do grupo, a forma de abordagem e a quantidade de familiares que participavam do momento. Solicitamos a nossa participação no grupo. Isso surgiu mediante pretensão, inicialmente, de propiciar condições para o estabelecimento de uma interação efetiva entre pesquisadora-equipe de saúde e pesquisado-familiar, favorável ao processo interpessoal indispensável para o procedimento e obtenção das informações, propriamente dito.
Após esse encontro com os coordenadores do grupo, participamos em três momentos do grupo de familiares. No primeiro momento os cuidadores do grupo eram o psicólogo e assistente social do CREAS. Eles trabalhavam a temática diálogo.
Quando chegamos ao primeiro encontro, percebemos uma maioria de mulheres no grupo, fato que comprova que o cuidado é, culturalmente, responsabilidade feminina. Eram mães, esposas, tias e irmãs, em sua maioria, com faces sofridas, de condições financeiras baixas e com baixo nível de instrução.
Ao observar a participação do grupo nas discussões, percebemos que poucos faziam tal ação de forma efetiva. Havia uma centralidade nas falas de alguns. Muitos preferiam o silêncio. Os olhares de algumas permaneciam distantes. O pensamento não permitia que as informações fossem assimiladas.
O cuidador do grupo incitava sempre a discussão, no entanto, os recursos que eram disponibilizados para gerir o grupo resumiam-se à fala. Após isso, fizemos nossa apresentação no grupo, assim como foi apresentada a proposta do estudo a todos. Em seguida, foi a vez de um representante do Ronda do Quarteirão explicar aos pais como era a forma correta de abordagem dos policiais a uma pessoa suspeita. Tal discussão foi solicitada pelo próprio grupo, uma vez que eles não compreendiam ou achavam incorreta a forma como os seus filhos estavam sendo abordados pelos policiais do Ronda do Quarteirão. Nessa discussão,
houve uma participação mais efetiva. Aqui, os familiares se colocaram como vozes atuantes, capazes de demonstrar diversos sentimentos, um que era frequente era a revolta.
Os familiares, em sua maioria, não concordavam com as ações rígidas do Ronda do Quarteirão para com os seus familiares. Nesse momento, percebemos que grupo se tornava mais participativo diante de uma situação em que viam necessidade de ser trabalhado de fato aquilo que eles queriam que fosse trabalhado no grupo. Aquela discussão sanava uma das suas necessidades, logo, permitia mais vozes atuantes e difusão de vozes entre os familiares.
Por vezes, o cuidador do grupo teve que conter as falas e solicitar uma fala por vez. Relembramos que é uma discussão forte para esses familiares, uma vez que os seus parentes estão cumprindo medidas socioeducativas e o poder de polícia é um assunto que permeia, de forma frequentemente, o cotidiano dessas pessoas.
As discussões construídas nesse grupo foram essenciais para que pudéssemos conhecer o perfil daquelas pessoas que se encontravam ali e para estabelecer estratégias para preparar o momento que me tornaria cuidadora do grupo. Após o término do grupo, duas mulheres nos procuraram e teceram comentários, que referenciavam a importância de se debater a temática droga no grupo. Que, como elas, muitas mães estavam passando por problemas oriundos do uso da droga. E que era necessário que houvesse essas discussões em espaços que tinham familiares.
Diante disso, solicitamos aos cuidadores do grupo um dia para que pudéssemos trabalhar a temática: saúde mental dos familiares de usuários de droga. Antes de ir cuidar do grupo, solicitamos uma reunião com o coordenador do grupo para repassar as estratégias de abordagens que íamos utilizar com familiares. Esse momento foi de troca e imersão nas características das pessoas que vivenciavam aquele momento. De posse de algumas informações e estratégia de abordagem, construímos um momento em que pudéssemos explorar as falas de todos os participantes.
E muitas vozes foram pronunciadas, trocamos experiências e informações. Foi possível vivenciar discursos fortes, comoventes, choros e pedidos de ajuda. Ou através das falas ou em olhares contidos. Sorrisos também aconteceram; foram expressões visualizadas nesse grupo. Ao término, pudemos perceber que essa ação permitiu uma proximidade maior com os familiares daquele grupo. Esse grupo permitiu que as autoras se apropriassem de informações necessárias a seu estudo, se vinculassem com os familiares e equipe e pudessem dar uma contrapartida com o serviço. Ao término do mesmo, muitos vieram até as autoras do
estudo, demonstraram a satisfação por aquele momento e ânsia por outros espaços e discussões sobre a temática.
No último encontro, pactuamos a seguinte ação: O coordenador do grupo fazia a avaliação do momento cuidado pelas autoras do estudo e colhia as necessidades de outras temáticas para serem debatidas em outros momentos. Após isso, realizamos as entrevistas com as mulheres que aceitaram participar da pesquisa e aplicamos a técnica de bola de neve ao final de cada entrevista.
Um dos modelos mais utilizados, afirma Fujisawa (2000), é o da entrevista semiestruturada, guiada pelo roteiro de questões, a qual permite uma organização flexível e ampliação dos questionamentos à medida que as informações vão sendo fornecidas pelo entrevistado.