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3 Økosystemene i Nordsjøen og Skagerrak

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Era uma manhã ensolarada na Passagem Rasa. O chão, ainda molhado, deixava vestígios de que a noturna chuva visitara o pequeno lugar há poucas horas. A bicharada, as árvores, as pessoas do lugar estavam delicadamente contentes. Menos Zé Domingo, que ainda sofria com a matança de plantas que ocorrera na véspera do hoje. O extenso pedaço de terra - lugar onde ele se criara junto com os bichos e plantas - virou cemitério de um dia para outra noite. Muitos dos seus haviam desaparecido.

Zé Domingo me convidou a fazer uma pequena caminhada em um pedaço de terra desmatado que ficava próximo ao aldeamento onde ele morava. No lugar em que habitava há tempos, a mata nativa, agora seriam plantadas mudas de coqueiro em larga escala. O terreno, que pertencia a uma família antiga de agricultores, passou a ser propriedade de um rico comerciante e político da cidade. O homem tinha nas plantações de coqueiro a sua maior fonte de renda.

O velho homem me levou ao local do “arvoricídio” para denunciar a maldade ocorrida. No passado, ele “infanciou” ali por um longo tempo. Naquelas matas, fez amizades com bichos e árvores, e, depois de crescido, fez parcerias com as plantas para tratar enfermidades de doentes que o procuravam. Segundo ele, os vegetais o segredavam como curar pessoas e outros bichos. Ele tinha a mania de conversar com as árvores. Desse modo, aprendera muito através de profícuos diálogos humano-vegetais.

A mata onde fizera morada por muitas décadas, atravessando gerações, foi arrancada pela força de pesada máquina ceifadora. Zé Domingo viu toda a cena. O matador de ferro, controlado por mãos desumanas, arrancava vorazmente as vidas que ali estavam, sem piedade. O velho se esforçava em correr na frente do trator amarelo para salvar o maior número de espécies vegetais. Suas limitadas mãos juntavam árvores crianças, com o sentido de levá-las para casa e plantá-las no seu terreiro, para que nunca lhe faltasse a companhia delas.

Das plantas que proporcionavam curas, como sabia que elas sucumbiriam à brutalidade da máquina - ele extraiu o máximo possível de suas cascas e seivas - no intuito de guardar remédios para as pessoas necessitadas de saúde.

Como um pesadelo que ainda o afligia, ele lembra da tragédia:

Era o trator desmatando atrás e eu correndo na frente desleitando os pés de mangaba que tinha. Eu tirava o leite, mas com aquela coisa não bem satisfeita de fazer aquele trabalho, proque eu sabia que aquela planta iria ser devorada pelo trator.

E eu fazendo aquele trabalho, já no sentido de que aquela planta ia morrer; proque o pé de planta medicinal que a gente vai tirar o leite pra se curar, a gente tira naquela média que ele não sinta muito, pra não deixar ele chegar a morte. E esses pés que eu ia tirando, eles já ia no ponto da morte, pois eu sabia que o trator vinha arrancando.

Da planta eu tirava o leite da mangaba que cura diabetes. Havia muita encomenda de doente pra ele. Ainda hoje eu tiro, mas não mais lá que já acabou essa parte. Porque lá tá desmatado de um jeito que já encostou no rio. Lá não tem mais planta não. Só sobrou as carnaubeiras que ele não pode arrancar. Pois bem, a felicidade é que dentro da área indígena a gente ainda tem alguns pés de planta medicinal; umas moitas numas beiradas de mato perto do córrego ali.

A voz do velho homem perdia a força à medida que lembrava da cena tão destrutiva. O trator ceifou a vida de várias plantas. Por extensão, eliminou a vida de bichos diversos que lá habitavam. Também havia subtraído um pedaço da vida de seu Zé Domingo. Porque as plantas e os bichos faziam parte de sua vida.

Na caminhada pela mata derrubada, ele se mostrava cansado e triste. O filho Manoel Domingos o auxiliava a fazer o triste percurso. As pernas estavam pesadas. Trôpegas eram as passadas. Ele usava uma vara como bengala para não se “estatelar” no chão. Por vezes, teve de parar durante o curto trajeto para recuperar o fôlego. Seu Domingos desfalecia ao mostrar a área desmatada. Parecia envelhecer mais a cada passada, tamanho era o desalento.

Voltamos da caminhada por um trajeto diferente do que fomos. Ele me levou até uma casa de taipa que parecia abandonada. Alguns galináceos circulavam pelo terreno. Havia também diversos pássaros cantando nas árvores em volta da velha construção. Duas redes de corda de tucum estavam armadas entre as árvores.

Zé Domingo escolheu uma das redes e sentou-se. Disse-me que nascera ali e que tinha muitas saudades daquele lugar, apesar de morar em uma outra casa de alvenaria, levantada bem perto de lá. Confessou-me que quase todos os dias ele passava pela antiga casa apenas para alimentar os bichos e recolher os ovos de galinhas que ficavam espalhados pelo quintal. Aproveitava também para visitar o passado. “Ele saiu da casa, mas a casa nunca saiu dele”.

Mostrou-me também um cajueiro antigo, frondoso, conhecido como o tronco velho. Disse-me que ali aconteciam as reuniões de luta e as rodas de torém que varavam a noite. Foi naquele lugar que seu Zé Domingo com-versou comigo e me contou outras histórias que aqui repasso da forma como me foram ditas e feitas...

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