A crônica narra a vida cotidiana, o tempo vivido. Através dela há a possibilidade de se poder captar o espírito de uma época, mesmo que este seja mediado pelo olhar e pela interpretação do cronista. Considerando&se que a construção de determinada temporalidade é acompanhada de uma subjetividade de seleção e de interpretação, a mediação do texto, nesse caso, permite que os leitores captem mais de perto, através dos olhos do cronista, as particularidades de seu tempo. Pensando nessa relação entre a crônica e o jornal, Massaud Moisés explica que a crônica oscila entre a reportagem e a
70Cf. MAUPASSANT, Guy de. “La Lysistrata moderne”. Disponível em
literatura, entre o relato impessoal de um acontecimento corriqueiro e a recriação do cotidiano por meio da fantasia. Afirma ainda que, no jornal, encontram&se duas categorias de texto lingüístico: os escritos para o jornal e os escritos no jornal. Os primeiros morrem diariamente, os segundos não. No ponto de vista do especialista, a crônica estaria no meio termo entre os dois, já que se move entre “ser no” e “para o”.71
Durante sua carreira literária, Maupassant contribuiu com inúmeros periódicos de sua época, nos quais publicou diversas crônicas. Em mais de duzentos textos escritos regularmente até 188572 e publicados, sobretudo,
nos periódicos e C - , Maupassant expôs suas
idéias acerca de variados assuntos, tanto de cunho literário, quanto político& social.
Segundo o escritor e crítico literário francês Émile Faguet, o autor de 3 6 conhecia pouco dos clássicos das letras francesas e revelava certo desinteresse por assuntos da esfera pública. Em 1893, por exemplo, o crítico escreveu um artigo sobre o escritor (já falecido) que foi publicado no periódico francês " e no qual revela tal julgamento acerca de sua notoriedade:
Nenhum espírito foi menos livresco. Quando ele publicou,
encabeçando , talvez para aumentar o volume,
um curto estudo crítico, ele não provou nada, senão que não havia lido nada. Ele desprezava completamente as discussões
e as dissertações literárias, ou antes, as rejeitava
naturalmente.73
71Cf+ MOISÉS, Massaud. A crônica. In: ___. ' ), % . São Paulo: Cultrix, 1982. 72Cf. ANEXOS.
73« Aucun esprit ne fut moins livresque. Quand il publia en tête de , peut&être
pour grossir le volume, une petite étude critique, il ne prouva rien, sinon qu’il n’avait rien lu. Il méprisait même infiniment les discussions littéraires et les dissertations littéraires, ou
No entanto, em seu livro P " ( (1954), Knud Togeby parece não compartilhar da mesma idéia de Faguet ao aproximar a estética naturalista de Maupassant da estética clássica de escritores como Racine, por exemplo, o que nos leva a crer que a afirmação de Faguet, de que Maupassant nada tinha lido, precisa ser reavaliada:
[...] É o meio e o caráter dos personagens que explicam que eles agem desta ou daquela maneira. Pôde&se dizer que uma obra de Maupassant é construída com a fatalidade lógica de uma tragédia de Racine. [...] Maupassant preza, como os clássicos, o vocabulário central da língua. Ele prefere a palavra exata à palavra imprecisa dos românticos, e ele a
coloca em construções claras e simples. Enfim, se
Maupassant é um clássico pelo seu senso da medida, ele também o é pelo seu aspecto cômico. O romantismo é de uma seriedade quase completa. ─ Não é por acaso que, no prefácio
de , Maupassant cita duas vezes . 5
de Boileau.74
Algumas de suas crônicas, como a primeira, " $ (1876),
D 6 ) Q#7 D (1877) e 6 (1883), são ensaios
sobre os assuntos explicitados nos próprios títulos. A fim de se conhecer um pouco mais dos princípios estéticos de Maupassant, foram selecionadas algumas crônicas.
Em 1886, foi publicada como crônica no periódico a carta escrita por Maupassant, " A . Entre críticas ao Estado,
plutôt y répugnait naturellement. » FAGUET, Émile. Guy de Maupassant. " t. LII, 15 juillet 1893, p. 65&68.
74« […] C’est le milieu et le caractère des personnages qui expliquent qu’ils agissent de telle
ou telle manière. On a pu dire qu'une œuvre de Maupassant est construite avec la fatalité logique d’une tragédie de Racine. […] Maupassant s’en tient, comme les classiques, au vocabulaire central de la langue. Il préfère le mot propre au mot imprécis des romantiques, et il le place dans des constructions claires et simples. Enfin, si Maupassant est un classique par son sens de mesure, il l’est aussi par son comique. Le romantisme est d’un sérieux presque complet. – Ce n’est pas par hasard que, dans la préface de
Maupassant cite à deux reprises A 5 de Boileau. » TOGEBY, Knud. A " ( . Paris: PUF, 1954, p. 27.
« L’État est toujours le même sot impuissant et autoritaire »75, e algumas
lembranças de Étretat – cidade normanda cuja paisagem ele viu ser retratada por pintores como Monet, Corot e Courbet &, o autor oferece aos seus leitores uma compreensão de arte que aproxima efeitos pictóricos e técnicas que procura empregar em literatura. Na verdade, ele não chega a teorizá&los, mas já faz menção à , do verdadeiro, o efeito realista necessário à sua concepção de arte, que ele definiria em , escrito em 1887. Tal efeito, segundo Maupassant, só é alcançado a partir de uma apurada observação dos mais imperceptíveis tons, modulações de luz, cores e harmonias que o olhar do artista revela. Essa acuidade visual, por meio da qual Maupassant retratou suas personagens e paisagens, era seu desejo maior.
Ávido de visão, o autor mostra nesta crônica ter grande prazer em apreender tudo ao seu redor: « Mes yeux ouverts, à la façon d’une bouche affamée, dévorent la terre et le ciel. Oui, j’ai la sensation nette et profonde de manger le monde avec mon regard, et de digérer les couleurs comme on digère les viandes et les fruits. »76 Seus textos parecem, portanto, ser o meio
através do qual Maupassant, com seu olhar atento às ações e atitudes humanas – sob a forma de representações do realismo – conseguiria saciar essa avidez.
Em $ , crônica publicada em 7 de outubro de 1883, no
periódico , com a intenção de homenagear o escritor russo e amigo
75 MAUPASSANT, Guy de. " A + In :___. R " ' D
( . Paris : 1930, t.2, p. 84.
Turgueniev, morto naquele ano, Maupassant defende uma idéia sobre a qual o estudioso e historiador francês de origem búlgara, Tzvetan Todorov, voltaria a refletir: a de que a literatura fantástica caminhava rumo ao desaparecimento. Maupassant explica os limites do gênero através de uma compreensão do homem de seu tempo no que diz respeito aos eventos antes apenas inexplorados:
[...] Nous avons rejeté le mystérieux qui n’est plus pour nous que l’inexploré. Dans vingt ans, la peur de l’irréel n’existera plus même dans le peuple des champs. Il semble que la Création ait pris un autre aspect, une autre figure, une autre signification qu’autrefois. De là va certainement résulter la fin de la littérature fantastique.77
Além dos contos fantásticos de Turgueniev, Maupassant menciona ainda, como exemplos do gênero, as histórias de Hoffmann e Pöe. O medo e o mistério provocados pelo sobrenatural permeiam a obra de Maupassant desde os seus primeiros escritos, dentre os quais destaco as duas versões do conto intitulado , que trazem datas próximas à desta crônica, 1882 e 1884, o que demonstra que antes de sua doença o autor já estava envolvido com as narrativas fantásticas e já procurava inseri&las na corrente desse gênero literário, como acredita Marie&Claire Bancquart.
Em diversas crônicas, Maupassant também valoriza o diálogo como uma arte que, para ele, também estava prestes a desaparecer. Em
, crônica publicada em , em 20 de janeiro de 1882,
Maupassant afirma: « il n’y a plus de causeurs, à part quatre ou cinq, peut& être ; et ceux&là même, ne trouvant jamais personne qui leur tienne tête à
77MAUPASSANT, Guy de. Le fantastique. Disponível em
[http://www.maupassantiana.fr/Oeuvre/ChrLeFantastique.html] Acesso em 10 de agosto 2008.
cette charmante mais difficile escrime, deviennent peu à peu des monologueurs. »78 Em 6 , crônica publicada em 1883, no periódico
, Maupassant discorre sobre a perda do hábito da conversação:
Or il serait cent millions de fois plus intéressant d'entendre un charcutier parler saucisse avec compétence que d'écouter les messieurs corrects et les femmes du monde en visite ouvrir leur robinet à banalités sur les seules choses grandes et belles qui soient.
Croyez&vous qu'ils pensent à ce qu'ils disent, ces gens ? qu'ils fassent l'effort de comprendre ce dont ils s'entretiennent, d'en pénétrer le sens mystérieux ? Non.
Ils répètent tout ce qu'il est d'usage de répéter sur ce sujet. Voilà tout. Aussi je déclare qu'il faut un courage surhumain, une dose de patience à toute épreuve, et une bien sereine indifférence en tout pour aller aujourd'hui dans ce qu'on appelle le monde et subir avec un visage souriant les bavardages ineptes qu'on entend à tout propos.
Quelques salons font exception. Ils sont rares.
Je ne prétends point qu'on doive dégager dans une causerie de dix minutes le sens philosophique du moindre événement, cet « au&delà » de chaque fait raconté, qui élargit jusqu'à l'infini tout sujet qu'on aborde.
Non certes. Mais il faudrait au moins savoir causer avec un peu d'esprit.
Causer avec esprit ? Qu'est&ce que cela ? Causer c'était jadis l'art d'être homme ou femme du monde, l'art de ne paraître jamais ennuyeux, de savoir tout dire avec intérêt, de plaire avec n'importe quoi, de séduire avec rien du tout.
Aujourd'hui on parle, on raconte, on bavarde, on potine, on
cancane ; on ne cause plus, on ne cause jamais.79
Já em D 6 ) Q#7 D , '- e ?6 ,
Maupassant defende os temas naturalistas, mostrando que desde $ ( , de Charles Baudelaire e ( " , de Gustave Flaubert – ambos publicados em 1857 – já se evidenciava a liberdade dos assuntos para a poesia e a prosa:
Il n’y a pas de choses poétiques, comme il n’y a pas de choses qui ne le soient point: car la poésie n’existe en réalité que
78MAUPASSANT, Guy de. Les causeurs. [Disponível em
http://maupassant.free.fr/chroniq/causeurs.html] Acesso em 15 de agosto de 2008.
79MAUPASSANT, Guy de. La finesse. [Disponível em
dans le cerveau de celui qui la voit. Qu’on lise, poUr s’en
convaincre, la merveilleuse « Charogne » de Baudelaire.80
Em A- , crônica publicada em seis de novembro de
1882, no periódico , é possível conhecer um pouco do perfil do literato que, abordando algumas características típicas de cada profissão, defende que a mais desgastante é a do homem de letras: « de toutes les professions, celle qui produit le plus de ravages dans l'organisme cérébral, celle qui trouble le plus les fonctions normales de l'esprit, c'est assurément la profession des lettres ».81 Segundo Maupassant, o homem de letras se
apresenta como ator e espectador de si mesmo e dos outros, possui uma observação minuciosa e certa clarividência de pensamento que acabam se tornando desgastantes para ele mesmo:
S'il [o homem de letras] cause, sa parole semble souvent médisante, uniquement parce que sa pensée est clairvoyante, et qu'il désarticule tous les ressorts cachés des sentiments et des actions des autres.
S'il écrit, il ne peut s'abstenir de jeter en ses livres tout ce qu'il a vu, tout ce qu'il a compris, tout ce qu'il sait ; et cela sans exception pour les parents, les amis ; mettant à nu, avec une impartialité cruelle, les cœurs de ceux qu'il aime et qu'il a aimés, exagérant même, pour grossir l'effet, uniquement préoccupé de son œuvre et nullement de ses affections.
Et s'il aime, s'il aime une femme, il la dissèque comme un cadavre dans un hôpital. Tout ce qu'elle dit, ce qu'elle fait, est
instantanément pesé dans cette délicate balance de
l'observation qu'il porte en lui, et classé à sa valeur
documentaire. Qu'elle se jette à son cou dans un élan
irréfléchi, il jugera le mouvement en raison de son
opportunité, de sa justesse, de sa puissance dramatique, et le condamnera tacitement s'il le sent faux ou mal fait.
Acteur et spectateur de lui&même et des autres, il n'est jamais acteur seulement comme les bonnes gens qui vivent sans malice. Tout autour de lui devient de verre, les cœurs, les actes, les intentions secrètes, et il souffre d'un mal étrange,
80MAUPASSANT, Guy de. D 6 ) Q#7 D . [Disponível em
http://maupassant.free.fr/chroniq/poetes.html] Acesso em 20 de julho de 2008.
81MAUPASSANT, Guy de. P- . [Disponível em
d'une sorte de dédoublement de l'esprit, qui fait de lui un être effroyablement vivant, machiné, compliqué et fatigant pour lui&même.82
Para Maupassant, o exemplo mais preciso desta observação involuntária praticada em relação a si mesmo, em momentos de sofrimento, está em Flaubert. Nessa mesma crônica, Maupassant cita uma carta do mestre em que, a partir do relato da morte do tio de Maupassant, o poeta Alfred de Poitevin, o autor de ( " dá a expressão aguda da sua “douleur clairvoyante”.83
Entre os anos de 1882 e 1891, além de se dedicar aos contos, crônicas, narrativas de viagem e romances, Maupassant também escreveu alguns prefácios a obras de outros escritores.84 Assim, em C "
$ , prefácio de 1885, escrito para a obra póstuma de Flaubert, " 5 - , Maupassant traça o perfil de seu mestre, partindo de uma sucinta biografia, em que se observam seus próprios interesses, como o de contar e pedir histórias:
Sa grande passion, dans son enfance, était de se faire dire des histoires. Il les écoutait immobile, fixant sur le conteur ses grands yeux bleus. Puis il demeurait pendant des heures à songer, un doigt dans la bouche, entièrement absorbé, comme
endormi.85
Maupassant percorre os principais eventos da carreira de Flaubert, documentando com trechos de cartas o processo sofrido com a publicação de ( " , em 1857, até chegar ao estudo da obra que prefacia. O “afilhado literário” de Flaubert acompanhou a redação dessa obra e para ela
827 + 837 +
84Ver ANEXOS.
85MAUPASSANT, Guy de. " $ + Disponível
colheu informações documentais, conforme informações contidas em uma carta de 3 de novembro de 1877, destinada a Flaubert.
Na segunda parte desse estudo, o autor trata da relação de Flaubert com o público, do estilo do mestre e do seu modo dedicado e ímpar de trabalhar. Assim como se observa nas cartas, Maupassant comenta os domingos passados na casa de Flaubert, em Croisset, onde se reuniam diversos escritores e pessoas vinculadas aos meios editoriais, entre eles o próprio Maupassant.
No que diz respeito a este estudo, considera&se que o mais importante desse prefácio reside nas observações acerca das preocupações estéticas de Flaubert, diretamente ouvidas por Maupassant em forma de conselhos e que viriam a constar de um projeto do autor de J . Tais observações convergem para o que o escritor apresentaria, desta vez em prefácio a uma
obra própria, dois anos depois: , que introduz . A
impessoalidade em arte, a necessidade de afastamento, de não moralizar, o ideal de uma arte livre de tendências e ensinamentos, preocupada apenas em retratar as atitudes, e não a psicologia das personagens, aparecem neste artigo atribuídos à arte de Flaubert, o que Maupassant assumiria em sua própria obra, no outro prefácio mencionado.
constitui&se de inúmeras questões literárias já ensaiadas em várias crônicas e cartas anteriores86. Nesse prefácio, Maupassant se coloca
contra os críticos de escola, que definem tema e gênero a figurarem na
86Além da carta a M. Vaucaire (1886) e de “Étude sur Gustave Flaubert” (1884), podem ser
mencionados ”Messieurs de la chronique” (1884), ”Chronique” (1882), ”Les bas&fonds” (1882) e ”Par délà” (1884).
literatura, defendendo uma arte cujo ponto de observação principal é particular. Assim, descrê da possibilidade de se fazer um romance impassível, uma vez que a arte pressupõe certa subjetividade no recorte do real que quer mostrar.
A importância maior desses prefácios, a meu ver, é a de pôr em relação diversos princípios artísticos utilizados por Maupassant, afastando as leituras estritamente naturalistas ou aquelas que o qualificavam como estilista extremado.87 Vemos, por vezes, Maupassant simpático aos
simbolistas, cujo apelo às sensações seria trabalhado por ele, principalmente nas narrativas de viagem. A defesa de uma verossimilhança artística que refuta o extraordinário, que atinja o efeito do real por meio da descrição e da narração de acontecimentos cotidianos, empregando as palavras justas, vem em favor da arte ilusionista do escritor.