Em 1878, incitado por Émile Zola a colaborar com o periódico francês já que era um bom meio de obter êxito financeiro , Maupassant inicia sua carreira de jornalista.
Ainda que Flaubert, seu padrinho literário, não mostrasse interesse pelo jornalismo enquanto profissão, seu apoio foi significativo para Maupassant, no momento em que este decidiu abandonar seu emprego de funcionário público para se dedicar à carreira jornalística, uma vez que Flaubert já era um autor prestigiado e muito conhecido nos principais veículos de comunicação da época. Maupassant via na imprensa um meio através do qual poderia prosperar na sociedade, bem como participar dos
círculos literários e intelectuais que já havia conhecido por meio de Gustave Flaubert.
Ao alívio e satisfação sentidos por Maupassant quando tomou a decisão de trocar seu posto de funcionário público do Ministério da Marinha pelo de jornalista se uniu a certeza de que o jornalismo era um meio privilegiado para se observar a realidade. O escritor logo observou que esta posição particular sobre a realidade não era implícita ao exercício periodístico, mas que o periodista deveria conquistar este lugar privilegiado através de seu pensamento e, sobretudo, de sua maneira de olhar, como evidenciou em um fragmento de uma carta escrita a Maurice Vaucaire:142
Je crois que pour , il ne faut pas trop raisonner. Mais
il faut regarder beaucoup et songer à ce qu'on a vu. # : tout
est là, et " O . J'entends par voir juste, voir avec ses
propres yeux et non avec ceux des maîtres. L'originalité d'un artiste s'indique d'abord dans les petites choses et non dans les grandes.143
Esta maneira de entender o trabalho do periodista devia&se também à aparição de uma nova figura nos periódicos: o repórter. Com a reportagem, impôs&se aos periodistas um novo comportamento: diferentemente do sedentarismo tradicional dos homens da imprensa, os repórteres deveriam estar presentes nos lugares dos acontecimentos para assim, darem conta da realidade. A principal missão do repórter foi aprender a olhar de forma exata e precisa. Assim, em seis de julho de 1881, Maupassant foi enviado para a África do Norte, como repórter do , para estudar, durante pouco mais
142 A carta em sua quase totalidade se encontra no presente estudo, na seção 3.6 dessa
dissertação.
143MAUPASSANT, Guy de. Disponível em
[http://maupassant.free.fr/corresp/cadre.php?ord=c&num=415] Acesso em 10 de abril de 2008
de um mês, as condições do colono e do nativo e também se informar sobre uma possível insurreição.144 Mas, como ele mesmo evidenciou, a viagem
parece ter significado mais do que apenas um trabalho: « Le voyage est une espèce de porte par ou l’on sort de la réalité comme pour pénétrer dans une réalité inexplicable qui semble un revê. »145
Para Maupassant, o trabalho do escritor e do periodista eram distintos. Entretanto, seus textos publicados em periódicos continham traços de suas obras literárias e de sua experiência enquanto escritor. Assim como suas crônicas e reportagens foram marcadas pelo literário, suas obras de ficção apresentaram vínculo estreito com o jornalismo.
Muitas das idéias e dos personagens apresentados pelo escritor em suas crônicas, freqüentemente publicadas nos diversos periódicos da época, não caíram no esquecimento, uma vez que, na maioria das vezes, tais idéias se repetiam de maneira mais desenvolvida, compondo as tramas de seus contos e novelas, nos quais os personagens reapareciam como protagonistas. Assim, ?. , novela publicada no , entre 6 de abril e 30 de maio de 1885, é considerada uma síntese do que Maupassant já havia publicado em suas crônicas no período de 1881 a 1884.146
De 1876 a 1884, a participação de Maupassant na imprensa foi constante. Dentre os periódicos e revistas com os quais Maupassant colaborava, destacam&se : AC - $
( E ! " " 56 5
144Cf. MONGLOND, + + p. 234. 145MAUPASSANT +
5 $ ) 5 " "
& ( " 7 5 " 5 e
# (
Em apenas cinco anos, desde seu primeiro texto publicado, em 1876
no periódico 5 , até as publicações de suas crônicas
no , em 1881, Maupassant conseguiu se destacar, tanto na
imprensa, quanto nos principais círculos literários de sua época.
A sua boa relação com Zola, a quem foi apresentado por Flaubert,
ajudou&o a entrar para a equipe de redatores de 5 .
Nesta revista, considerada naturalista e dirigida pelo poeta Catulle Mendès (1841&1909), Maupassant teve a oportunidade de publicar dois textos: o poema . A , em 20 de março de 1876, e um artigo dedicado a Flaubert, em 25 de outubro do mesmo ano, em que prestigia o autor de ( " , como ele mesmo explicita, em uma carta a Maupassant, no mesmo dia da publicação do artigo:
Obrigado pelo seu artigo, meu caro amigo. Você me tratou com um carinho filial. Minha sobrinha está entusiasmada com a sua obra. Ela acha que é o que se escreveu de melhor sobre o
seu tio. Eu penso, mas não ouso dizer.147
Um mês depois, em novembro do mesmo ano, portanto, o escritor
abandonou 5 , ingressando em ! periódico
dirigido por Raoul Duval (1832&1887), no qual Maupassant publicou, entre
outros textos, o artigo 1 A D , em 22 de novembro de
147 « Merci pour votre article, mon cher ami. Vous m’avez traité avec une tendresse filiale.
Ma nièce est enthousiasmée de votre oeuvre. Elle trouve que c’est ce qu’on a écrit de mieux sur son oncle. Moi, je le pense, mais je n’ose pas le dire. » FLAUBERT, Gustave.http://flaubert.univ&rouen.fr/correspondance/conard/lettres/lettres1.html.
1876# e D 6 ) Q#7 D em 17 de janeiro de 1877. Já em 1878, o escritor procurou colaborar regularmente com , mas o jornal publicou apenas um poema, & D , em 19 de março de 1878. Somente dois anos mais tarde, em 1880 portanto, Maupassant passou a contribuir de maneira regular com periódico mais conservador do que ! , fundado em 1868 pelo jornalista Edmond Tarbé des Sablons (1838&1900), em Paris.148 Inicialmente, sob a direção de Edmond
Tarbé, o periódico apresentava uma tendência política centro&esquerdista e tinha publicação cotidiana, sendo considerado como um dos periódicos que mais circulavam na alta sociedade parisiense. Apoiando a existência de um Estado centralizado no interesse do povo a partir de posições políticas esquerdistas, defendia a independência nacional. Algum tempo depois, o jornalista Arthur Meyer (1844&1924) tornou&se proprietário do periódico, fazendo deste o órgão oficial do príncipe imperial, o filho de Napoleão III.149 Com a morte do príncipe, em 1879, Arthur Meyer decide
fundir com ' e ? , a fim de criar um novo
monarquista, conservador e literário da alta sociedade. Novidades sobre a alta sociedade, a vida nos salões parisienses, contos e novelas estavam mais presentes nesse periódico do que a política e as noticias do cotidiano.
Essencialmente lido pela aristocracia e alta burguesia, poderoso politicamente, mais pelo seu público&leitor do que pelo seu engajamento,
chegou a ser mais prestigiado do que o agressivo $ (1825),
148Cf. MONGLOND, + +, p. 29. 149Cf. +
conhecido pelo talento dos redatores Villemot, Aurélien Scholl, Edmond About, Albert Wolff. Em 1929, seria finalmente absorvido por
$ .
Em 1880, Arthur Meyer ofereceu 500 francos por mês a Maupassant para que ele colaborasse com um artigo por semana.150 A colaboração do
autor com este periódico se deu de maneira regular de maio de 1880 até 1887, com a produção de um ou dois artigos por semana, além de crônicas e contos assinados com seu próprio nome. Encontravam&se no periódico os contos de Maupassant cujas histórias remontam ao século XVIII ( , 8 " " , , ( ), os que se referiam à guerra de 1870 ( 6 , X 3 - 66 , D ( , (D 3 " , 8 ), ou cujos temas principais
eram o medo ( , A , AJ ), a felicidade ( A 6 ,
) ou a infelicidade ( , , N"
3 , ( J ).
Talvez se possa afirmar que nesse intervalo de sete anos de intensa
colaboração com , Maupassant tenha vivido uma de suas
experiências mais enriquecedoras como redator, já que nesse período foi enviado como correspondente internacional, pela primeira vez, ao norte da África. Entretanto, sua relação com Arthur Meyer não parece ter sido fácil e a falta de entendimento entre os dois provocou a saída de Maupassant do jornal, no final de 1881.151
150Cf. + 151Cf. +
Ilustração 2
Primeira página do primeiro número do periódico , publicado em 5 de
julho de 1868.152
152Imagem disponível no site Site http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k519137q Acesso
Ainda colaborando com , Maupassant foi aceito em ! " " que, como outros periódicos da época, concorria com a "
, fundada em 1829 por Prosper Mauroy et Ségur&Dupeyron, que tinha como principais colaboradores os escritores franceses Honoré de Balzac, Alfred Vigny, Charles Augustin Sainte&Beuve e George Sand.
Editado em Paris, fundado e dirigido pela romancista e memorialista republicana Juliette Lamber em 1o de outubro de 1879, era publicado, pela
primeira vez, o periódico francês bimensal ! " " vendida, em 1899, a Pierre&Barthélemy Gheusi, primo distante de Léon Gambetta, advogado e político que contribuiu para a queda do Segundo Império, em favor da República. Juliette Lamber, viúva de Edmond Adam – deputado da esquerda republicana e mais tarde senador –, mantinha um salão literário freqüentado por escritores e políticos da Terceira República como Adolphe Thiers, Eugène Pelletan, Gabriel Hanotaux, Edmond About, Louis Blanc, Alphonse Daudet, Camille Flammarion, Georges Clemenceau, o editor Jules Hetzel, Sully Prudhomme, Émile de Girardin, Gustave Flaubert, Louis de Ronchaud, Gaston Paris, Victor Hugo, Guy de Maupassant, Ivan Tourguéniev e Aurélien Scholl. Dentre os freqüentadores desse cenáculo republicano, expressamente em oposição a Napoleão III, destacava&se a figura de Gambetta. No entanto, com sua ascensão à presidência da Câmara dos Deputados, sua presença nas reuniões realizadas no salão de Juliette Lamber se tornou menos assídua.
O primeiro número do periódico francês esclarecia em seu editorial, K ! , inserido na seção Política e escrito por Juliette Lamber, qual
seria o seu principal propósito. Ao iniciar seu texto com a frase “Cada século tem a sua obra, cada período de século tem a sua tarefa”,153 Juliette Lamber
incita os leitores a participarem, cada vez mais ativa e racionalmente, da realidade social em que se inserem, mostrando que é através de métodos empíricos que a ciência, seja ela social, política ou econômica, se desenvolve. Acreditando na existência de “virtudes hereditárias”154, Juliette Lamber
recorre, ao longo de todo o texto, a alguns intelectuais de épocas passadas que tiveram sua trajetória marcada por grandes descobertas, como o matemático e filósofo grego da escola jônica Tales; o filósofo francês René Descartes; o matemático, físico e astrônomo inglês Isaac Newton; o naturalista e escritor francês Georges Louis Leclerc Buffon e o médico francês, fundador da anatomia geral, Marie François Xavier.
Para a fundadora da revista, era preciso continuar a luta pelos ideais de progresso e patriotismo, sustentada por ela desde 1870. Assim sendo, desejando oferecer aos seus leitores uma revista que veiculasse ideais e opiniões de maneira dinâmica, Juliette Lamber optou por recrutar seus colaboradores em meio a jovens escritores, dentre os quais se destacam Pierre Loti, Alexandre Dumas Filho, Prosper Mérimée e Léon Daudet.155
Além do texto de apresentação escrito por Juliette Lamber, o boletim bibliográfico, presente na seção de estudos e críticas literárias de todas as publicações do periódico, ratifica o propósito da revista de aproximar o seu público&leitor dos principais eventos literários e sócio&políticos da época,
153LA NOUVELLE REVUE+ Tome I, octobre 1879, p. 5. 1547 ., p. 10.
155Cf. informações disponíveis em: [http://www.aei.ca/~anbou/salonfranc.html consultado
uma vez que sempre se anunciavam quais seriam as próximas grandes publicações de obras literárias e científicas bem como quando ocorreriam os próximos eventos. Assim, apresentando um perfil questionador, ! "
" visava alcançar um público interessado em ciências sociais, políticas, históricas e econômicas, setores em franco desenvolvimento durante a Terceira República.
A colaboração de Maupassant com ! " " , não parece corresponder a uma repentina mudança em suas tendências políticas da esquerda para a direita, mas a uma questão de estratégia por parte do autor. Consciente de sua má relação com Arthur Meyer, Maupassant viu em ! " " , uma maneira de garantir um posto de redator. E por se manter em uma posição de neutralidade no que diz respeito à política, evitando se pronunciar contra ou a favor de qualquer tendência, Maupassant parece ter se sentido livre para circular em veículos de publicação de ideologias opostas, conseguindo alcançar bons resultados: colaborar com dois periódicos de prestígio, aumentar sua renda mensal, além de ser recebido nos diferentes círculos intelectuais e ideológicos, em voga na época, como os jantares oferecidos por Catulle Mendès, às vezes presididos por Flaubert; o salão da senhora Adam, no qual sempre estavam presentes muitos cronistas e editorialistas; o salão da princesa Mathilde, que acolhia tanto a nobreza do Império, quanto a do Antigo Regime; o salão do editor Georges Charpentier, onde os principais assuntos eram a literatura e a política de esquerda, entre outros.
Esta experiência de colaborar com jornais de ideologias políticas diferentes se repetiu em 1884, quando Maupassant conciliou o seu cargo de redator no , periódico de tendência política mais próxima da esquerda, com o seu cargo de cronista, no conservador $ . Essa dupla posição na imprensa se prolongou até 1888, ano em que o autor se separou definitivamente dos veículos de publicação de esquerda para colaborar apenas com os de direita. Assim, a partir desse momento, Maupassant conservou seu papel de redator no periódico $ , de Albert Wolf e começou a escrever na ultraconservadora " & ( 156 (na
qual publicou sua última novela, ! ' , em 1890) e no periódico AC - , fundado por Valentin Simond e seu amigo Aurélien Scholl, onde foram publicados seus dez últimos contos. Seu último conto publicado no periódico foi A 5, em sete de abril de 1890. Em seguida, já debilitado pela sífilis, Maupassant se afastou de forma definitiva do jornalismo.
Embora a carreira de jornalista de Maupassant possa parecer a conseqüência de uma mudança política em direção a posturas mais conservadoras, seu fraco compromisso e afiliação com qualquer ideologia aponta para um comportamento calculado e estratégico. Isso é confirmado na seguinte passagem de uma carta de Maupassant a Cattulle Mendès, em 1876:
Par égoïsme, méchanceté ou éclectisme, je veux n'être jamais lié à aucun parti politique, quel qu'il soit, à aucune religion, à aucune
156 " & ( foi fundada em 1829 por Segur&Dupeyron e Mauroy. A partir
de 1831, a revista teve um grande êxito de vendas sob a direção de Buloz, que recebia críticas constantes por sua postura despótica.
secte, à aucune école ; ne jamais entrer dans aucune association professant certaines doctrines, ne m'incliner devant aucun dogme, devant aucune prime et aucun principe, et cela uniquement pour conserver le droit d'en dire du mal. Je veux qu'il me soit permis d'attaquer tous les bons Dieux, et 5 sans qu'on puisse me reprocher d'avoir encensé les uns ou manié la pique dans les autres, ce qui me donne également le droit de me battre pour tous mes amis, quel que soit le drapeau qui les couvre.157
Quanto à hipótese de que Maupassant teria, estrategicamente, optado por colaborar simultaneamente em jornais de esquerda e de direita, esta pode ser reforçada a partir da comparação de dados referentes aos seus salários enquanto funcionário do Ministério da Marinha e das Colônias (de 1872 a 1877) e, em seguida, do Ministério de Instrução pública de Cultos e de Belas Artes (de 1878 a 1882).158
Segundo esses dados, em 1873, no Ministério da Marinha e das Colônias, portanto, Maupassant recebia como salário a quantia de 125 francos por mês, mais uma gratificação anual de 150 francos, somando um total de 1650 francos por ano. Em 1874, ainda nesse Ministério, a soma total dos salários de Maupassant aumentou para 1800 francos. Dois anos mais tarde, em 1876, há um novo aumento, e a soma atinge 2100 francos por ano. Já no Ministério de Instrução pública de Cultos e de Belas Artes, em janeiro de 1879, após um ano de trabalho, Maupassant obteve uma soma anual de 2400 francos, o que mostra que seu salário mensal foi de 200 francos durante esse ano de trabalho.
Ainda que estivesse empregado no Ministério de Instrução pública de Cultos e de Belas Artes, Maupassant decidiu, como visto anteriormente,
157MAUPASSANT, Guy de. Disponível em
[http://maupassant.free.fr/corresp/cadre.php?ord=c&num=58] Acesso em 9 de junho de 2008
começar a colaborar com o periódico , já que financeiramente seria uma atividade que lhe seria rentável. Assim, de 1878 a 1880, Maupassant recebia 60 centavos por linha e em 1880, passa a receber 1 franco. Uma crônica média, portanto, rendia&lhe por volta de 250 a 300 francos, uma soma considerável para a época. Outra importante consideração a ser feita é a de que ao assinar seu contrato com , Maupassant teria pedido, inicialmente, três meses de férias pagas e depois um prolongamento de mais três meses; condições devidamente aceitas.159
Em suma, ao se comparar os salários de Maupassant nos dois Ministérios e no jornal, tem&se que seu salário como jornalista é bem mais elevado do que o de funcionário público, o que parece ser um bom motivo para que o autor colaborasse em qualquer periódico que lhe propiciasse prestígio e um bom salário, fosse qual fosse sua tendência política.
Ao não se posicionar politicamente, o escritor estaria afirmando sua independência, a autonomia de idéias que prezava, o direito de ser contra ou a favor, como revelou na carta a Catulle Mendès.
Ainda que tenha afirmado essa vontade de não&filiação a qualquer partido político, ainda que se saiba que ele realmente contribuiui com periódicos de tendências políticas divergentes ao mesmo tempo, foi possível observar que, na verdade, conforme foi sendo reconhecido no meio literário, Maupassant passou a dedicar&se aos periódicos de tendência conservadora: em 1876, iniciou suas contribuições com o periódico de esquerda
5 passou a publicar nos conservadores
(1880) ! " " (1881), (1882), chegando a contribuir, em 1890, com a ultra&conservadora " & ( .