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«BE THE CHANGE YOU WANT TO SEE»

In document Betwixt & Between 2013 (sider 134-147)

Como evidenciado anteriormente, o Positivismo de Augusto Comte, o Evolucionismo de Charles Darwin e, principalmente, o Determinismo de Hypolyte Taine animaram os escritores do final do século XIX. A partir de então, começou a surgir um número notório de textos em prosa caracterizados pela exposição do psicológico das personagens diante de inúmeras situações.

Esse tipo de romance experimental surgiu com Zola, que apontou soluções sociais por meio de exposições baseadas na vida das camadas sociais menos favorecidas e também enfatizou as reflexões a partir de teorias biológicas e filosóficas. Na técnica, a escrita de Zola foi marcada por um método narrativo objetivo, imparcial e pelo acentuado cuidado na descrição. No caso de Zola, ressalta&se ainda a importância dada à realização de documentação de fundo histórico. Apesar da semelhança de método, há algumas diferenças que percorrem a escrita de Zola e Maupassant, conforme veremos a seguir.

Tendo em vista a freqüente associação da estética naturalista a Zola, ao grupo de Médan e aos seus princípios científicos, David Baguley, em

(1995), procurou evitar certa tradição crítica que interpreta os textos naturalistas como meros “documentos humanos”, seguindo, portanto, radicalmente a proposta de Zola do

.219

Segundo Baguley, os escritores que freqüentavam habitualmente as reuniões em Médan não constituíam de fato, um grupo coeso, exceto Paul Alexis – amigo de Zola desde 1869 e tido como o mais fiel de seus discípulos. Os escritores em torno de Zola não compartilhavam plenamente a doutrina do .220 Apesar da falta de consenso estético entre Paul Alexis, Henry

Céard, J.&K. Huysmans, Léon Hennique, Maupassant e Zola, nota&se, a partir do prefácio escrito por Maupassant ao volume das 3 5 (5 , que havia uma idéia em comum:

Les nouvelles qui suivent ont été publiées, les unes en France, les autres à l'étranger. Elles nous ont paru procéder d'une

idée unique, avoir une même philosophie. Nous les

réunissons.

Nous nous attendons à toutes les attaques, à la mauvaise foi et à l'ignorance dont la critique courante nous a déjà donné

tant de preuves. Notre seul souci a été d'affirmer

publiquement nos véritables amitiés, et, en même temps, nos tendances littéraires.221

Assim, a obra coletiva 3 5 (5 foi publicada em 1880

apresentando como projeto comum, o seguinte:

[...] tratava&se de, quase dez anos após o fim da guerra,

desmistificar o fato histórico, através da “terapêutica

naturalista da verdade”, pois o exército francês era

219Cf. BAGULEY, & " + . Paris: Nathan, 1995, p. 6. 220Cf. 7 p. 22.

romanticamente incensado por uma certa literatura patriótica e revanchista que se propagou após o fim da guerra, da qual a

França saiu perdedora.222

Primando por demonstrar e analisar alguns textos da ficção naturalista, Baguley propõe uma divisão do naturalismo em dois

subgêneros: o % e o , . O primeiro,

utilisa características da tragédia clássica, como a predestinação do protagonista ao sofrimento, desencadeando uma série de acontecimentos que obedecem a uma certa estrutura narrativa e encaminham o personagem para a queda final. Quanto ao segundo subgênero, diferentemente do primeiro, explora o tédio e o desinteresse pela vida, através de um texto repetitivo e monótono. A estagnação é atingida através de uma narrativa linear, que não provoca expectativas.

Levando&se em conta os dois subgêneros propostos por Baguley, pode& se afirmar que a estética naturalista de Maupassant se aproxima do naturalismo da desilusão. O estudioso propõe como exemplo de obra de Maupassant, seu primeiro romance 8 " (1883), através do qual se torna evidente a indiferença de Maupassant face aos acontecimentos históricos da época. O romance se situa no início do século XIX, contudo, em nenhum momento Maupassant faz alusão à Restauração e à Monarquia de Julho. Há apenas a preocupação com as perturbações da vida cotidiana de Jeanne, a protagonista. O romance é marcado por momentos alternados de ilusões e

desilusões, esperanças e sonhos, crises, decepções e desastres, evidenciando a insignificância da vida humana.223

A falta de preocupação com a influência dos acontecimentos históricos por parte de Maupassant já demonstra uma das diferenças – talvez a maior delas – entre ele e Zola, para quem a relação do indivíduo com o meio em que se insere é de significativa importância, como o próprio escritor mostrou em A. (1876&1877), narrativa marcada por um naturalismo trágico cujo espaço foi rigorosamente determinado para a permanência dos personagens que ali seriam analisados em diversas situações.224

Comparando&se as duas narrativas, 8 " e A. é possível notar que Zola se apresenta como um escritor voltado para o social, o coletivo, enquanto que Maupassant, para quem os problemas sociais não são significativos, ocupa&se com a psicologia individual. Segundo o crítico literário Knud Togeby, “os romances de Zola revelam conhecimentos sociais muito mais extensos e variados do que os de Maupassant”225, uma vez que

leva ao conhecimento do seu leitor aspectos da vida de diversos segmentos da sociedade:

[Zola] nos introduz no mundo do clero ( 6 A 5

( , 1875), da política (3 D ,

1876), dos operários ( A. , 1876&1877), das cortesãs

(! , 1880), da doméstica ( ? , 1882), do comércio

(. - & , 1883), dos mineiros ( ,

1885), dos camponeses ( , 1888), da finança ( A ,

1891) e do exército ( 5 U , 1892).226

223Cf. BAGULEY, 1995, p. 97&99. 224Cf. 7 , p. 86.

225 « Les romans de Zola révèlent des connaissances sociales beaucoup plus étendues et

variées que celles de Maupassant. » TOGEBY, 1954, p. 49.

226« Il nous introduit dans le monde du clergé (« La faute de l’abbé Mouret » 1875), de la

politique (« Son excellence Eugène Rougon » 1876), des ouvriers (« L’assomoir » 1877), des courtisanes (« Nana » 1880), des domestiques (« Pot&Bouille » 1882), du commerce (« Au

Maupassant também tratou de muitos desses temas em sua obra, no entanto, com um enfoque diferente. Assim, apenas a título de

exemplificação, no conto 3 , publicado em março de 1882,

Maupassant evoca a figura do padre, mas não para analisar o seu papel na sociedade e sim para mostrar seu lado mais sádico: trata&se de um padre violento, austero e cujo fanatismo o leva à demência. Em 1883, em .

- , Maupassant trata da vida de duas famílias de camponeses pobres, os Tuvache e os Vallin. Cada uma dessas famílias compõe&se de oito filhos. Uma senhora que não podia ter filhos decide, então, comprar o filho mais novo da família dos Tuvache, mas não consegue. Assim sendo, propõe a outra família, que aceita. Com o passar dos anos, o jovem Jean, filho dos Vallin, volta de carro para o lugar de onde saiu com a senhora que o comprou e provoca no filho mais novo da outra família uma grande inveja; este diz à mãe que nunca a perdoará por também não o ter vendido.227

Maupassant poderia ter abordado a questão do problema financeiro das famílias, buscando encontrar suas causas, no entanto, procurou enfatizar o lado sórdido daquela família.

Maupassant também apresenta uma estética naturalista diferente da dos irmãos Goncourt, sobretudo no que concerne o assunto de seus textos. Se os Goncourt são conhecidos por tratarem de assuntos corriqueiros que agucem a curiosidade, para Maupassant não é uma questão de curiosidade, mas de realidade:

Bonheur des Dames » 1883), des mineurs (« Germinal » 1885), des paysans (« La terre » 1888), de la finance (« L’argent » 1891) et de l’armée (« La débâcle » 1892). » 7 , p. 50.

Enquanto Maupassant não para de nos pintar a realidade que ele conhece, os Goncourt estão sempre em busca de meios bizarros e de efeitos surpreendentes, hediondos ou até mesmo

patológicos. Maupassant também conhece os estados

patológicos; no entanto, para ele, não se trata de

curiosidades, mas de realidades cruéis.228

Assim como buscavam um efeito surpreendente com os temas escolhidos, os irmãos Goncourt também procuravam obter esse efeito no estilo da escrita, contra o qual Maupassant, adepto de um estilo claro e sem erudições e artificialidades, reagiu de maneira incisiva em seu prefácio a

, como visto anteriormente.

Já em relação à Huysmans, é possível notar uma proximidade das estéticas, sobretudo quando se toma como referência os romances 8 " , de Maupassant, publicado em 1883 e 5 , de Huysmans, publicado em 1881. De acordo com Baguley, ambos são exemplos do que considera ser o naturalismo da desilusão, pois o tédio e o desinteresse pela vida são repetidamente explorados, enfatizando&se uma visão amarga e pessimista da vida.

A partir dos estudos de Baguley, foi possível notar que mesmo considerando o romance 8 " de Maupassant, um exemplo do que denominou ser o naturalismo da desilusão, do desencanto, Baguley não excluiu a importância da ironia, tanto nos textos de Maupassant, como nos textos dos outros escritores de Médan. Desse modo, inicia seu capítulo “Nos modos irônicos” afirmando que “os historiadores da literatura associam as origens do realismo (e do naturalismo) às tradições literárias que exploravam

228« Tandis que Maupassant ne cesse de nous peindre la réalité qu’il connaît, les Goncourt

sont toujours à la recherche de milieux bizarres et d’effets surprenants, hideux ou même pathologiques. Maupassant connaît aussi les états pathologiques ; cependant, pour lui il ne s’agit pas de curiosités, mais de réalités cruelles. » TOGEBY, + +, p. 48.

plenamente esses modos irônicos.”229 Tais modos apresentam um aspecto

" e um . Assim, constatada uma presença mais evidente e imediata dos sinais da voz do narrador, as formas verbais podem ser as mais variadas: a ironia verbal como antífrase, a sátira verbal como diatribe, a paródia verbal como pastiche. Ao contrário, no que diz respeito ao outro aspecto, “estas formas tendem a convergir, pois a mesma situação, principalmente nos textos realistas em que o narrador é, como se diz “ausente”, pode ser ao mesmo tempo irônica, satírica e paródica.”230

Segundo Baguley :

É evidente que a sátira e a paródia convêm, portanto, para a

manutenção da ilusão de imparcialidade realista,

preenchendo discretamente as funções retóricas da literatura naturalista. Elas também têm a vantagem, para o escritor naturalista, de conciliar a teoria e a prática, a estética e a pragmática.231

Pensando, por exemplo, em 3 6 nota&se esta conciliação, uma vez que Maupassant lança mão de uma ironia evidente ao analisar a moral idealizada das pessoas “honestas” de Rouen, com suas crenças e princípios, e seus reais comportamentos hipócritas e egoístas, na prática. Em diversas crônicas, Maupassant também lança mão do uso da ironia, sobretudo, quando o assunto gira em torno de políticos, da burguesia de maneira geral e das instituições.

229« On se rappelle que les historiens de la littérature rattachent les origines du réalisme (et

du naturalisme) à des traditions littéraires qui exploitaient pleinement ces modes ironiques. » BAGULEY, 1995, p. 111.

230 « ... ces formes tendent à converger, car la même situation, surtout dans des textes

réalistes où le narrateur est, comme on dit, « absent », peut être à la fois ironique, satirique et parodique.» 7 p. 112.

231 « Il est évident que la satire et la parodie conviennent donc au maintien de l’illusion de

l’impartialité réaliste, tout en remplissant discrètement les fonctions rhétoriques de la littérature naturaliste. Elles ont ainsi l’avantage pour l’écrivain naturaliste de concilier la théorie et la pratique, l’esthétique et la pragmatique. » 7 .

Assim, em 5 crônica publicada em , em 14 de novembro de 1881, um ministro republicano, Paul Bert, é ironizado pelo escritor, por ter desejado impor aos alunos das escolas parisienses, exercícios militares.232 Maupassant também ironiza, em 28 do mesmo mês, e

no mesmo periódico, o fracasso do jornalista, político francês e polemista,

Henri Rochefort, diretor do periódico A7 , no processo

empreendido pelo cônsul da França na Tunísia, Roustan, por difamação.233

Como visto, através de um tom marcado pela ironia e pelo cinismo, e se posicionando face às inúmeras questões do cotidiano, o escritor normando explicitava suas idéias, o seu modo de ver o mundo.

Retomando a idéia defendida por Baguley, de que não houve uma efetiva afinidade estética no grupo de escritores de Médan, Maupassant parece, realmente, ter tido outro motivo para entrar no grupo. Em uma carta destinada ao amigo Robert Pinchon, em fevereiro de 1877, deixa entrever que ao começar a fazer parte do grupo de escritores de Médan, o que buscava, efetivamente, era uma estratégia de entrada no campo literário:

Je fais partie d'un groupe littéraire qui dédaigne la poésie. Ils me serviront de repoussoir ; c'est pas bête : je pousse au naturalisme dans le théâtre et dans le roman, parce que plus on en fera, plus ça emm... et c'est tout bénef pour les autres. Gare la réaction, les amis !...234

232MAUPASSANT, Guy de. 5 . Disponível em

[http://maupassant.free.fr/chroniq/pensees.html]+ Acesso em 15 de julho de 2007.

233MAUPASSANT, Guy de. '- O . Disponível em [http://maupassant.], na seção

Chroniques. Acesso em 15 de julho de 2007.

234MAUPASSANT, Guy de. Disponível em

[http://maupassant.free.fr/corresp/cadre.php?ord=c&num=61] Acesso em 11 de abril de 2007

Segundo André Vial, foi no início de 1882 a última vez que Maupassant escreveu a palavra “naturalista”.235 Sabendo&se que

Maupassant se consagrou como escritor de contos em 1880, com a publicação de 3 6, na coletânea de novelas naturalistas, o fato de lançar mão do uso da palavra “naturalista” somente até 1882, demonstra certo distanciamento por parte de Maupassant, do rótulo de escritor naturalista que lhe era atribuído, evidenciando que o escritor tinha consciência de que sua estética se diferenciava da dos demais escritores. Contudo, mesmo existindo divergências, Maupassant sabia reconhecer os méritos dos outros colegas de profissão. E é através desse reconhecimento que o escritor nos dá a possibilidade de conhecer um pouco mais de sua estética.

Ao elogiar, como analisado anteriormente, o romance " " de Zola, Maupassant apresenta algumas de suas principais exigências enquanto escritor: suscitar impressões, quando diz a Zola que a paisagem marítima descrita lhe deu “cette illusion d’une chose que j’aurais vue” e estimular sensações, já que afirmou ter tido “la sensation d’un bain

d’humanité”.236 Já ao tecer comentários acerca de 8 A ,

também de Zola, revela outros dois de seus princípios estéticos: a perfeição formal & pois considera ser este romance “le plus parfait de style”237 & e a

235VIAL, 1954, p. 254.

236MAUPASSANT, Guy de. Disponível em

[http://maupassant.free.fr/corresp/cadre.php?ord=c&num=323] Acesso em 13 de maio de 2008

237MAUPASSANT, Guy de. Disponível em

[http://maupassant.free.fr/corresp/cadre.php?ord=c&num=94] Acesso em 21 de agosto de 2007

economia lexical em detrimento da grandeza de sentido – já que afirma que “Cette oeuvre est d’une ligne simple et grande, avec d’adorables pages.”

Empenhado na concretização de uma estética da observação rigorosa, preocupado em afirmar seu procedimento de escrita, Maupassant parece ter apoiado a sua estética em um naturalismo satírico, ora amargo, ora divertido, e às vezes também abrandado pelo sentimento de pena, como ocorre, por exemplo, em relação à protagonista da novela 3 6 que mesmo sendo uma prostituta e, portanto, mal vista socialmente, ao colocar em prática algumas de suas virtudes durante a narrativa, acaba se tornando uma personagem digna da compaixão do leitor. Ou ainda, como acontece com a empregada Rosalie, do seu romance 8 " que, mesmo tendo sido amante de Julien, marido de sua patroa, Jeanne, acaba tendo a cumplicidade do leitor por ter permanecido ao lado da patroa, cuidando dela em todos os momentos de sofrimento, até o fim.

Após uma análise da estética naturalista de Maupassant e da referência a escritores que compunham o grupo de Médan ou que com ele se relacionavam, foi possível observar que ainda que tenha havido certa semelhança – a presença da ironia, a crítica mordaz ao patriotismo vigente na época, uma afinidade de temperamentos &, Maupassant cultivou, com o tempo, uma estética particular, caracterizada não pela documentação escrita, mas por uma acuidade marcadamente visual, observadora. Não se pode, portanto, afirmar que houve uma coesão do grupo naturalista. O que houve, na verdade, foi uma aproximação por admiração e interesse, de

escritores ainda não consagrados, como Maupassant e Céard, por exemplo, e de Zola, já reconhecido e detentor de certo capital simbólico, portanto. Ao se aproximar de Zola, Maupassant buscou, principalmente, reconhecimento no campo literário.

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INVESTIMENTO

GENÉRICO,

UMA

QUESTÃO

DE

In document Betwixt & Between 2013 (sider 134-147)