5. RESULTAT OG DISKUSJON
5.2 K RYSSKORRELASJONSMATCHING
As respostas dos gestores entrevistados tiveram como expressão mais freqüente a relação entre educação do campo e educação urbana, no intuito de utilizar esta como referencial de qualidade e modelo a serem alcançados. Para dois diretores entrevistados, o modelo da cidade era o que deveria ser seguido para educação desenvolvida com as populações campesinas das instituições onde atuam. Concebida desta forma, a Educação do campo ganha outros contornos que não seguem os preceitos defendidos para e por ela, remetendo ao antigo paradigma de educação rural ou educação no campo, que é aquela que somente acontece no espaço rural, desenvolvendo um projeto educacional reflexo do que é construído na cidade, buscando possibilitar aos educandos uma formação que siga valores, preceitos e realidades urbanas, desconsiderando seu contexto, suas vivências, interesses e almejos.
Isto fica melhor explicitado ao se visualizar as falas dos gestores, como percebe- se no trecho abaixo, oriundo da diretora, responsável pelo grupo de 4 escolas aqui denominadas de Escolas Arco-Íris. Esta explicitou não ver a necessidade de haver diferenças entre a educação que acontece na cidade e a do campo, pois a educação é uma só, diferindo apenas no fato de que o aluno da cidade tem ambições de crescer e se desenvolver, ao passo que o do campo teria somente a pretensão de se alfabetizar para continuar ajudando os pais no trabalho rural:
Pra mim, eu acho que a Educação do Campo, ela não tem diferença para a Educação da Zona Urbana não, a Educação é uma só. Na Educação do Campo com o aluno ali por que o aluno da zona rural, ele não tem interesse de estudar para ele ir embora não, por que ele pensa ‘eu vou estudar, eu vou concluir aqui, eu vou aprender a ler e escrever’. A cabecinha deles é essa, ‘eu
vou aprender a ler e a escrever porque eu vou continuar aqui com a minha família’. (Gestora das Escolas Arco-íris.)
Segundo esta gestora, o único elemento diferenciador entre a educação urbana e a do campo é o espaço, o local onde ela acontece, sendo que o aluno da zona rural, por já ter o seu trabalho, não teria interesse, na escola como uma forma de ascensão social, econômica, cultural e intelectual, diferente da visão de seu par urbano:
Então eu acho que a educação lá do aluno da Zona Rural, ele é diferenciado nesta parte de o aluno estar ali já convivendo com o campo, com o trabalho dele. Ele não tem muita ambição igual ao aluno aqui da zona urbana tem não. Aqui da zona urbana ele quer estudar porque ele quer crescer, por que ele quer ir embora, arrumar um emprego melhor, pra ele fazer a faculdade dele e o de lá (do campo), ele já não pensa assim. (Gestora das escolas Arco- íris)
Neste cenário, a entrevistada coloca que o papel do gestor da zona urbana que vai trabalhar na zona rural é justamente levar até este educando uma perspectiva de melhoria e de crescimento de vida:
Nós que temos que levar esta educação para ele, dele crescer, que é igual, não pode ser diferente que a Educação é uma só, a Cultura é uma só, você tem que buscar conhecimento a nível geral. E agente tem que levar para ele, para a família dele por que é todo mundo carente, a maioria chacareiros.
(Gestora das escolas Arco-íris)
Neste contexto, para a entrevistada, o gestor escolar de instituições do campo deve ser um educador da cidade, bem preparado e pronto para aprender a lidar com as demandas e especificidades da comunidade onde se localiza a escola. Sua função primordial é levar a educação a este povo, não havendo diferenças se é construída na cidade ou no campo, diante do fato de que educação é uma só, tendo que se preocupar apenas em respeitar as características regionais da localidade. Ou seja, a questão não é a educação que é construída, mas sim o local onde ela acontece.
O gestor tem que ser aquela pessoa preparada para ir ali sem infringir a cultura daquele aluno que está ali. Mas assim, a educação é a mesma, é claro. A mesma que você emprega na zona urbana você emprega aqui. Mas aqui tem o diferencial porque você tem que respeitar o regionalismo de cada um, as suas diferenças, porque o calendário lá é outro, em época de plantio o aluno dificilmente vai. Este profissional tem que buscar educar de uma maneira assim, mais ampla, mais global sabe? (Gestora das escolas Arco-íris)
Esta posição se mostra presente também na fala do gestor da Escola Vermelha, que diz ter confirmado sua visão de escola do campo como aquela que é atrasada, sem recursos e com inúmeras dificuldades para o ensino, após assumir a direção da instituição onde trabalha. Para ele, a educação da cidade deve ser o referencial para as práticas desenvolvidas nas escolas do campo, almejando possibilitar aos educandos oportunidades de vida que não terão no campo. No entanto, ele afirma que aprendeu que a comunidade escolar do campo é diferente do que imaginava. Trata-se de pessoas esforçadas, dedicadas, inteligentes e que buscam a escola no intuito de ter um desenvolvimento pleno de suas vidas, por isso a necessidade de trazer a elas a mesma educação que teriam se estivessem na zona urbana.
Hoje a educação do campo, antes e eu acredito que até hoje continua da mesma forma, os alunos estão excluídos, justamente por quê? Porque continuam habituados a zona rural, ou seja, do campo. Então eles continuam excluídos logicamente quanto a cidade. Nossa visão aqui é diferenciada, porquê que é diferenciada? Porque aluno da zona rural ou da cidade, capacidades iguais, não há capacidades diferentes. Então o tratamento da zona do campo quanto a cidade é esse, o aluno da cidade tem mais oportunidades e na zona rural nós não temos tantos oportunidades para o nosso aluno que tem a mesmo capacidade que o aluno da cidade. Aluno da zona urbana tem mais possibilidades, o leque é maior e na zona rural o leque já é bem maior, e não digo quanto aos conhecimentos mas quanto as oportunidades. Antes de entrar aqui eu tinha uma visão de zona rural, como zona rural, que é aquela escola atrasada que tem dificuldades, que na verdade tem mesmo. Nós temos essas dificuldades, mas quanto ‘direção dos alunos não. Se a escola tivesse um bom desempenho para trazer para os alunos o conhecimento que eles merecem e fosse acessível a tudo igual a zona urbana, seria diferente, mas a concepção ainda fica um pouco travada por quanto a alcance da zona rural, que nós temos essa visão de que é mais atrasada.
(Gestor da Escola Vermelha)
O conceito de Educação do Campo do gestor da Escola Vermelha é construído em cima de uma concepção de atraso da zona rural para a urbana, sendo que o educando oriundo desta realidade estaria inserido naquele modelo bucólico e arcaico de camponês ingênuo e inocente, que necessita do auxilio de alguém bem instruído da cidade para orientar seus passos e possibilitar sua evolução pessoal, cultural e intelectual.
Como gestor, para a zona rural, orientação é o mais importante quanto aos alunos. Nós podemos perceber como a orientação é importante. Nós não temos aqui problemas de comportamentos. Nós seguimos aqui outro padrão que é diferente do da cidade, outra socialização e outra convivência é que não tem como comparar com os alunos da cidade, é mais fácil de agente lhe dar. Agente trabalha praticamente como orientador e os alunos acabam seguindo, sem dificuldade mesmo.(Gestor da escola Vermelha)
As palavras dos gestores remetem inicialmente a uma questão explicitamente ligada à própria origem do termo Educação do campo, frente ao fato de que a expressão foi pensada em referência a que esta educação que se busca é “do” campo, no momento em que é pensada e atua em função do povo, bem como de seus ideais, diferentemente de uma possível educação “no”, que aparece como aquela que somente acontece no espaço, mas não valoriza nem respeita este contexto, nem aqueles que ali e dali vivem, exigindo um possível antagonismo entre os espaços rural e urbano.
O que se percebe é a perpetuação do antigo paradigma de que a educação que acontece nos meios rurais do Brasil, só se diferencia daquela que acontece na cidade em virtude dos espaços, mas repetindo o paradigma urbano como um modelo a ser seguido, trazendo uma compreensão de que o local onde o educando vive não interfere em seus objetivos e ideais, modos de vida, costumes e opiniões. Vale ressaltar que fica evidenciada assim uma visão descontextualizada do fazer educacional, exercendo este como reflexo de outro cenário, outra cultura e interesses, que não aqueles de quem irá vivenciar aquela educação.
A compreensão de que o educando residente na região do campo não possui almejo de ascensão e não vê este almejo simbolizado na escola é desmerecer a necessidade e os interesses que a população campesina veem na escola. Acreditar que o educando está de certa forma “preso” à zona rural intrinsecamente, não possuindo qualquer ambição de vida, seja para a melhoria de sua realidade atual de ou de completa mudança, remete minimamente a um universo de educadores possuidores de total desconhecimento das motivações de seus educandos para com a educação.
Com isso, através da fala destes gestores surge dúvida se a educação realizada nas instituições que eles dirigem está se constituindo como uma ação crítica, possuidora da capacidade de desenvolvimento e emancipação intelectual e social. Tendo a realidade da educação do campo, entende-se que esta deva exercer esta potencialidade por meio da compreensão e reconhecimento da diversidade e extensão do campo, sua singularidade de organização através do trabalho da família que nele vive, enxergando e reconhecendo a população camponesa como personagem principal da proposição e ação de políticas e não somente como beneficiados por estas.
A partir do momento que se visualiza uma cena educacional encabeçada por profissionais inseridos em um paradigma que desmerece os interesses, a história e a cultura de quem irá vivenciar esta educação, surge a dúvida acerca da qualidade e eficácia das ações pedagógicas deste educadores, bem como destas instituições. Fica no
ar a dúvida se seria possível construir um fazer verdadeiramente emancipador e crítico, desconhecendo e desmerecendo as ambições da comunidade que circunda a escola. Ou seja, como alcançar objetivos quando se acredita que aqueles a quem se direciona o fazer pedagógico sequer possuem objetivos? São questões que serão respondidas com as falas dos docentes das instituições onde estes gestores atuam, buscando, assim, perceber de que forma ocorre na prática da gestão, o compromisso destes diretores com os princípios da educação do campo.