3 Female as ’The deformed male’ -‐ early roots of western gendered ideals
6.10 Judith Butler’s performative gender theory and the urban as performativity
“O psicanalista é, ao mesmo tempo, clínico, pesquisador e pensador da psicanálise. Em seu trabalho ele sonha, pensa e manifesta ou publica seu pensamento, mesmo que essa publicação seja dirigida apenas a si mesmo e ao paciente.”
(Cassorla, 2012)
A discussão e problematização deste tema - a pesquisa em psicanálise - não são de agora. Porém, parece-nos, encontram-se longe de esgotadas. E talvez jamais o serão – e assim esperamos -, pela própria natureza da pesquisa assim como da psicanálise: corpos em movimento de expansão e especificidade concomitantes.
Em local privilegiado que é a academia para pensar estas questões, apresentamos aqui breves passagens acerca do assunto que tiveram papel importante não somente na construção desta pesquisa, assim como – e talvez prioritariamente – na construção da pesquisadora, neste processo.
Nunca é demais lembrar que a psicanálise – teoria, técnica e método - surgiu enquanto fruto do espírito fundamentalmente investigativo e curioso, no sentido epistemológico da palavra, de Freud. Sua insatisfação com as histéricas ‘que não se curavam’, levou-o longe, como sabemos. Mais precisamente, à sua obra de 23 volumes, inúmeras correspondências, conferências, e outros tantos ecos de sua busca, dos quais muitos não se quantificam. Pois, para além dos números, refletem, amiúde, transformação. Voltaremos a este tema num instante.
Esta pesquisa, que consideramos de tipo exploratório e de cunho clínico, diria também respeito a um campo analítico? Consideramos que sim. Não um campo do fazer
psicanalítico total, uma vez que nenhuma análise estava em curso com os sujeitos entrevistados desta pesquisa, como dissemos anteriormente – a lembrar, não havia uma relação transferencial instalada, tampouco um setting analítico completo. Porém, no campo que se configurou entre os sujeitos e a pesquisadora, a escuta era clínica, e o campo, ainda que parcial, analítico. Diz-nos Figueiredo, “Há psicanálise onde houver, em primeiro lugar, uma
escuta analítica” (2011, A Situação analisante e suas variedades, grifo nosso).
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43 Durante o ano acadêmico de 2012, ano que fez parte da realização desta pesquisa, as aulas na Pós-
Gradução em Psicologia Clínica, Núcleo Método Psicanalítico e Formações de Cultura, ministradas pelo prof. Luis Claudio Figueiredo, tiveram como tema, “A Pesquisa Clínica com o Método
De outra parte, ainda que não houvesse uma relação de transferência instaurada entre a pesquisadora e os sujeitos, a transferência sobre a linguagem como processo intrapsíquico (cf. Figueiredo cita Green, 2005) ou ‘a transferência com t minúsculo’ (cf. Figueiredo cita Bollas, 2007) 44, faz-se presente na fala de todo sujeito, e de nossos sujeitos (desta pesquisa), inclusive.
Apoiando-nos ainda em Laplanche (1987) para exploramos melhor esta ideia, citamos:
Nossa pergunta de início seria a seguinte: há uma relação inter- humana especificamente analítica? Como uma relação especificamente analítica se define em relação às situações, simplesmente, da vida quotidiana? E se nos perguntamos isto, nos damos conta que nada serve de enumerarmos nossa lista precedente, porque a relação da fala, as transferências, ou mesmo as interpretações, isso existe na vida cotidiana, isso existe historicamente antes da análise, isso existe fora da análise. E enquanto tal, nenhum desses elementos, sem mais precisão, não é específico da análise. (Laplanche, p.12-13, TDA)45.
O autor se refere ao fato de que vários dos elementos que compõem o campo analítico, precedem, na verdade, a situação analítica. Nossa situação não era ‘da vida quotidiana’ tal qual citada por Laplanche, porém, encontrava-se fora do processo da análise, que se dá no contexto do consultório. Sem, no entanto, deixar de implicar, no campo intersubjetivo que se criou entre a pesquisadora e os sujeitos, a relação da palavra, uma
relação de transferência, e mesmo, de interpretação e, poderíamos pensar, transformação. Certamente, com as reservas que o contexto apresentou.
O que isto significa? Que a escuta que lhes foi de encontro, por parte da pesquisadora, foi uma escuta clínica ou analítica, informada pela teoria psicanalítica para ferramenta de compreensão e eventual articulação.
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44 Comunicação verbal em aula, PUC-SP, Pós-Gradução em Psicologia Clínica, Núcleo Método
Psicanalítico e Formações da Cultura, 1º. semestre 2011 a 1º. Semestre 2013.
45 Notre question de départ serait la suivante : y a-t-il une relation interhumaine spécifiquement
analytique ? Comment une relation spécifiquement analytique se définit-elle par rapport aux situations et aux relations, tout sijmplement, de la vie quotidienne ? Et si l’on pose cette question, on s’aperçoit que rien ne sert de réénumérer notre liste précédente, parque la relation de parole, les transferts, ou même les interprétations, ça existe dans la vie quotidienne, ça a existé historiquement avant l’analyse, ça existe en dehors de l’analyse. Et tant que tel, aucun de ces éléments, sans plus de précision, n’est spécifique de l’analyse. (Laplanche, Problématiques V, Le Baquet – Transcendance du Transfert, 1987/1998, p.12-13).
Significa ainda que, o objeto de interesse – do foco desta escuta – não era a história factícia destes sujeitos, viajantes pelo mundo. Não que suas histórias não fossem interessantes – muito ao contrário. Mas não eram necessariamente o foco da escuta. Isto quer dizer, o foco era a busca do inconsciente, para além das palavras. Inconsciente enquanto instância; processos inconscientes, dinâmica inconsciente (intra e intersubjetiva) e transferência sobre a palavra.
Mas, poderíamos nos perguntar - uma vez que o enquadre não era o clínico, e o processo não era contínuo, como isto se deu afinal?
Encontramos, nas palavras de Roussillon que seguem, algo que vem de encontro à nossa experiência: diante destes sujeitos, fora do enquadre habitual do consultório, mas, ainda assim, escutando-os e buscando a riqueza do psíquico particular, tal qual uma escuta ‘ao pé do chevet’ (cabeceira) – como seria com o paciente deitado sobre o divã. Segue o autor:
Se quisermos preservar o referencial e a ideia de estarmos ‘à cabeceira’ do paciente é necessário então precisar que a prática clínica é uma prática ‘à cabeceira do funcionamento psíquico’, ou ainda, ‘à cabeceira da vida psíquica’ do sujeito humano, e é por isso que nós o nomearemos ‘o sujeito’, assim insistimos aqui também sobre o fato de que ele não é ‘passivo’, nem ‘paciente’. (...) Aquele que o clínico encontra não é um ‘doente’, é um ‘sujeito’, não é um outro, um estrangeiro, é um ‘semelhante’, e, isto, mesmo se ele é ‘outro sujeito’ (...). Estas formulações enfatizam uma ‘singularidade’ do sujeito encontrado, o caráter único e específico do encontro. (Roussillon, 2012, TDA, p.19-20, grifos nossos) 46.
Em nossa pesquisa, nossa experiência além do consultório parece ter se assemelhado muito às palavras de Roussillon acima descritas. Que fosse à mesa do restaurante (como no caso de Michel), ou em casa de terceiros (como no caso de Raul), o lugar da escuta, ‘ao pé do psiquismo’, pareceu não ter sido prejudicada. Em outras palavras, o lugar da escuta, deslocou-se - tão somente.
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46 Si l’on veut garder le repère premier et l’idée d’être « au chevet », il faut alors préciser que la
pratique clinique est une pratique « au chevet du fonctionnement psychique », ou encore « au chevet de la vie psychique » du sujet humain, c’est pourquoi nous le nommerons « le sujet », on insiste ici aussi ainsi sur le fait qu’il n’est pas « passif », pas « patient ». La clinique n’inscrit alors pas d’emblée son identité dans la rencontre avec la pathologie ni avec la psychopathologie, mais dans une attention portée aux processus psychiques du sujet humain, portée à sa réalité et à sa vie psychique. Celui que le clinicien rencontre n’est pas un « malade », c’est un « sujet », ce n’est pas un autre, un étranger, c’est un « semblable », et ceci même s’il est aussi « autre-sujet », potentiellement sujet autre. Ces formulations mettent l’accent sur une « singularité » du sujet rencontré, sur le caractère unique et spécifique de la rencontre. (Roussillon, 2012, p.19-20).
Por outro lado, diz-nos Figueiredo, a respeito do lugar ético – de ethos – e técnico que ocupa o pesquisador/analista, ao longo de seu trabalho.
Há nos escritos de Freud, uma importante e já antiga consideração: estas duas atitudes – clínico e pesquisador – não coincidem plenamente e podem mesmo entrar em choque, tal como se lê nos Conselhos de 1912 (...) a técnica que serve ao segundo se contrapõe até certo ponto à primeira. (Figueiredo cita Freud, 1912, p 114).
Ou seja, pode haver conflitos ou embates (técnicos ou éticos) ao longo do trabalho de pesquisa do psicanalista, que deverão sempre ser levados em conta. É o que tentaremos ilustrar adiante, com a experiência desta pesquisa. Consideramos igualmente interessante exemplificar, ainda em relação a esta pesquisa: 1) como se deu a construção do lugar da pesquisadora – concomitante ao da analista -, ao longo do processo, uma vez que não se encontravam estabelecidos a priori; 2) os momentos de dificuldade da pesquisadora-analista (embate técnico-ético citado acima), para que o campo analítico de sua pesquisa, tal qual propunha, se mantivesse.
Ressaltemos os momentos mais significativos correlacionados:
1. Quando se deparou na primeira entrevista (que se deu com o sujeito ‘Raul’), com um enquadre que não se assemelhava em nada ao habitual, pois transcendia o espaço do consultório em todos os sentidos: setting e/ou enquadre habituais; as pessoas neles inseridos; a falta de contrato entre analista e paciente. Além de fazer parte deste encontro entre pesquisadora e sujeito, diversos outros elementos: objetos e outras pessoas presentes, e suas subjetividades implicadas. Resultando em sentimentos/sensações em relação ao encontro com estes outros todos presentes, por parte da pesquisadora, que tiveram que ser pensados, ademais dos conteúdos do sujeito entrevistado.
Necessitou, assim, apoiar-se em seu setting analítico internalizado (ou ainda,
enquadre interno), para a manutenção do trabalho que buscou realizar: ou seja, ainda que aquele fosse outro local de trabalho, apoiou-se em sua escuta, seu lugar ético-analítico, a assimetria de posições (lugar interno daquele que se debruça - via a escuta - sobre o sujeito que fala de si), ferramentas estas de trabalho das quais dispõem o psicanalista, para que pudesse ocupar um lugar fora do consultório (em ocasiões necessárias, tal qual o desta pesquisa). Assim, apesar do desafio do ‘ambiente’ (interno e externo), a pesquisadora considera ter podido manter o lugar da escuta ao pé do chevet (cf. Roussillon, 2012); ou da
escuta analítica (cf. Figueiredo, 2011), nos diferentes locais de trabalho que ocupou ao longo desta pesquisa.
2. Quando, em contrapartida, de contato com o material provindo via questionário – do sujeito ‘Mauli’ – a pesquisadora se encontrou desprovida das manifestações típicas do sujeito no ambiente clínico: a voz, os gestos, o ritmo da fala, os silêncios – ou seja, a presença
do sujeito no enquadre, assim como de sua própria presença – da analista/pesquisadora - no enquadre, sendo retirado, assim, o jogo intersubjetivo (consciente e inconsciente), de campo, viu-se numa situação quase oposta à anterior. Neste caso, pôde contar somente com o que as palavras escritas lhe diziam e lhe causavam, no instante de contato com elas, e nas articulações possíveis entre elas e a teoria psicanalítica da qual dispunha, num momento posterior.
3. No caso de ‘Michel’, ao acreditar esquecer o gravador, a pesquisadora compreendeu-se em conflito de lugares. Incômodo este que acreditou primeiramente ter ocorrido devido à suposta hiper-racionalização de seu sujeito, mas que se revelou, posteriormente, enquanto sua própria dificuldade em escutá-lo, com um gravador ao lado e nos parâmetros oferecidos.
‘Michel’, por outro lado, foi a última entrevista realizada. Este momento do percurso lhe possibilitou pensar sobre o que se passava e dar-se conta que se encontrava ocupando um lugar diferente do que ocupara no início, antes de realizar as entrevistas anteriores. Algum caminho havia percorrido enquanto pesquisadora e enquanto analista-
pesquisadora. Ou seja, neste momento um pouco mais avançado do percurso, parece ter ocupado este lugar da analista-pesquisadora de forma mais coesa: sobre essa poltrona
estendida mas também, estrangeira, em cada uma das entrevistas (uma vez que a cada vez, eram os primeiros contatos com o sujeito). Havia que construir o seu novo lugar de escuta, como das outras vezes. Mas o que parece ter sido diferente desta vez, foi que, ao sentir-se encontrando ‘melhor’ seu lugar nesta poltrona estendida para fora do consultório, pôde sentir- se mais livre do aparato técnico para a pesquisa, o gravador.
A ‘poltrona’ havia tomado, pareceu, um pouco mais a sua forma: como a poltrona própria do consultório. Um registro mais familiar, mais conhecido – ou, menos estrangeiro.
Com o preço, claro, que teve que ser pago pela ‘porção pesquisadora’ (que não pôde gravar o relato).
Falávamos antes, de transformação – termo que nos remete a outro aspecto importante da pesquisa nesta disciplina. Conforme as aulas ministradas, e, apoiado em Habermas (1965), Figueiredo nos disse47:
(...) produzem-se efeitos, mas não no sentido da aplicação da ciência com finalidades de previsão e controle, ou pela mediação de uma tecnologia (...). Usam-se também interpretações, mas não reduzidas à sua função comunicacional (...). Seriam práticas teóricas sui generis e os saberes que elas formam são intrinsecamente fundados e endereçados aos processos de transformação.
Voltando ainda nosso olhar a esta pesquisa, propomos vislumbrar algo da ordem da transformação, vivido por Michel. Do lugar de nômade, daquele que coleta experiências e pensa no próximo lugar a habitar, ao que – nos pareceu - volta este movimento, para dentro de si. O próximo lugar a habitar, seria aquele próprio, deixado lá atrás. A construção da possibilidade de retorno àquele lugar irretornável: a própria casa. O contato novamente com a origem, em suas palavras, ‘onde tudo começou’.
Certamente a base - o solo para o emergir deste movimento – é dele próprio. Já encontrava-se nele, em terreno fecundo. Talvez o contato com uma escuta que manteve-se
reservada diante de sua fala, pôde fazê-lo revolver a terra deste lugar. Fazendo brotar em si,
uma outra escolha. Possivelmente outro fator poderia tê-lo feito desencadear o mesmo processo. Mas neste caso, o fator parece ter sido o encontro para a entrevista, conforme veremos melhor no capítulo Os Sujeitos Estrangeiros desta pesquisa, a seguir.
A menção ao sujeito Michel acima vem neste momento ilustrar que, apesar da restrição da técnica neste contexto de pesquisa com o método psicanalítico, algo significativo, em nosso ponto de vista, parece ter se comprovado possível de ser realizado.
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Comunicação verbal em aula, PUC-SP, Pós-Gradução em Psicologia Clínica, Núcleo Método Psicanalítico e Formações da Cultura, 1º. semestre 2011 a 1º. Semestre 2013.