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Ao entrar em contato com o questionário respondido por Mauli, num primeiro momento, tive uma impressão bastante diferente quando do contato com as respostas faladas pelos sujeitos das entrevistas. Devo dizer que, ‘estranhei’ alguns aspectos.

Primeiramente, tive a sensação de que o questionário escrito me revelava a distância entre nós: ela, sujeito, e eu, pesquisadora. Estranhei também um pouco, o que senti como sendo certo ‘automatismo’ das respostas. Pontuais, circunscritas.

Relendo algumas vezes, esta sensação foi se enfraquecendo um pouco... e, passei a sentir que, mesmo desta forma via questionário escrito, algo da subjetividade dela, se revelava sim de fato, ali, em suas palavras escritas. Até mesmo em algumas das respostas que me haviam soado primeiramente como fortes clichês.

Conclui que a escrita – a entrevista via questionário escrito - favorecia isso: uma certa impessoalidade. Como na pergunta que questiona se seu país de origem é onde ela gostaria de retornar um dia. Ela responde que não, pois ‘não é lá que está seu coração’, uma frase já bastante escutada antes. Num segundo momento, ‘escutei’ sua resposta, como ‘sendo sua’, de fato. Um clichê, sim talvez, mas do qual ela havia se apropriado, e que tinha um sentido particular, próprio.

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51 estranged = 1. hostilizado, não-empático, indiferente, alienado. 2. Removido/retirado de um lugar

acostumado ou ‘lugar de associações’. Os verbos - estrange, alienate, disaffect – referem-se à disrupção de um vínculo de amor, amizade, ou lealdade. Estrange e alienate são comumente usados com referência a vínculos ‘cuja relação harmoniosa foi substituída por uma de hostilidade e indiferença’ (Oxford Dictionary of The English Language, Oxford University Press, 1991).

Tive também a sensação, ainda do primeiro contato com as respostas de seu questionário, de que Mauli havia se enveredado numa direção que parecia dizer respeito às respostas de ‘um viajante’, de um turista.

Senti-me primeiramente um pouco contrariada. Pensei, “não era isto que eu

buscava”. Não buscava sua experiência enquanto ‘turista’. Sobretudo o tema clima, parecia se repetir – mas também as pessoas, e os lugares.

Mas, em seguida, entendendo melhor o que eu sentia, refleti que eu não havia de ‘querer alguma coisa’. “Não era o que eu buscava”!?! O que Mauli me ‘dava’, com suas respostas, era o que ela tinha a me oferecer, naquele momento, naquele meio. Não havia que ser de um jeito ou de outro. ‘Escutei-a’ novamente, relendo-a... E tive então outras impressões/sensações.

Entre outras, de que Mauli, sim, falava possivelmente em certa medida a partir ‘do lugar de um viajante/itinerante’. De sua experiência, de ‘turista’. Pois era este um lugar que parecia ocupar desde pequena, junto de sua família também itinerante. Talvez fosse esta mesmo a forma de Mauli se relacionar com sua condição de estrangeira, desde que tinha 6-7 anos. Em uma ‘esfera’, próxima à habitada por ‘um turista’. O que quer que isto signifique, para ela, inclui, possivelmente, um aspecto de distância, entre ela, e o ‘novo ambiente’. Como a distância que eu senti, do primeiro contato com seu questionário respondido.

Por outro lado, tive também a impressão que, de alguma forma, Mauli, ao ‘escolher’ (escolha inconsciente) responder seu questionário tal qual uma turista/viajante, de acordo com minha hipótese, tenha acreditado ‘se adaptar’ – palavra recorrente em suas respostas - ao que achou seria o que eu buscava, em minha pesquisa.

Assim, Mauli escreveu, em grande parte – vemos isto mais inteiramente em seu questionário na íntegra -, sobre hábitos culturais, climas, línguas.

Parece nos mostrar que há uma área de si mesma, ‘bem adaptada’ ao mundo – ou seja, em acordo, em consonância. Mas que, outra área, ela tenta desesperadamente preencher (como seria para todos): em seu caso e em minha hipótese, o vazio das raízes que perdeu – ou, que lhe foram arrancadas, contra sua vontade. Gerando assim um buraco inicial, por assim dizer, difícil de ser preenchido. Ainda que ela continue tentando – como em um vício, do qual fala: “(...) viajar e experimentar culturas diferentes e estilos de vida diferentes realmente se

Com estas palavras, a título de exercício reflexivo, chamou-me a atenção Mauli não mencionar ao longo de suas respostas, dados da realidade intrínsecos aos movimentos de ir e vir que se deram em sua vida: o por quê de ter saído da Itália; o por quê de ter saído do Brasil; depois de ter ido à França, posteriormente se instalado no Canadá... Não que devessem aparecer, mas o que me chama atenção, é que eles nunca aparecem. Os fatos por trás destes movimentos: são porque ela decidiu ir conhecer tal país ou cultura, ou porque foi junto de alguém: de sua família itinerante, primeiramente; depois, junto de seu companheiro, acompanhando-os?

Quase como o ‘negativo’ da foto, do qual ela não fala. Este negativo que não se vê, como na foto... e a realidade, se torna a foto contada: a imagem revelada.

De outra parte, Mauli respondeu, em vários momentos, como ‘nós’. Penso ser este um ponto importante de sua experiência. Tenho impressão que este ‘lugar’ que Mauli ocupa, de ‘viajante no mundo’, ela tenha ocupado, como disse antes, primeiramente com sua família missionária (pais e irmãos), e agora, ao lado de seu companheiro. Como se, de certa forma, Mauli fosse levada – em primeiro momento, ‘contra sua vontade’. Mas agora não mais.

O termo raízes passa a ser algo recorrente, em sua narrativa – as raízes de onde ela veio, e depois, perdeu. Talvez Mauli busque de alguma forma, estas ‘raízes’. Mas não as encontra no mundo externo, porque as encontra, novamente em nossa hipótese, em alguma medida confusas em seu mundo interno. Nos fala de lugares e de coisas (clima, beleza), e pouco das relações afetivas. Parece ser difícil se ligar.

Lembro-me de uma passagem:

No que consiste, para o humano, essa primeira face do real que ele é condenado a encarar, e a representar, ainda que não lhe agrade nem um pouco? Não é o mesmo que o meio ambiente que se oferece, sem mistérios, ao instinto da cria animal; no caso humano, esse real é o outro, primeira encarnação todo-poderosa do outro – a mãe, de cujos cuidados depende toda satisfação pulsional. (Kehl, p. 92)

‘Seu coração’, é ela. E ela está onde está, numa hipótese livre e interpretativa, seu

companheiro-mãe. Isto quer dizer, uma relação afetiva significativa. Essa relação que criou/ocupou junto dele. Não está mais na Itália... não está mais, em lugar nenhum talvez. A não ser junto desta relação que parece reinscrever a relação primária (assim como os encontros amorosos de forma geral).

Assim, o ‘colorido’ de seu relato, apesar de falar de muitos lugares – países, cidades -, pareceu passar-me, a mim, à ‘minha escuta’ – algo de uma tristeza, de uma dor -

novamente, num livre-sonhar Mauli. Algo relativo à perda. “Tantos países habitados, fora os

visitados”, pareceu revelar, por trás da ‘conquista’, a dor que se repete.

O clima que tanto idealiza lá fora, parece remeter-se ao clima que perdeu, em si: as relações afetivas iniciais, das quais fora arrancada. Ficando suas raízes, num lugar que não encontra mais.

Mas ela parece procurá-las, de alguma certa forma. Tornando isso, uma “forma de

viver”. Quanto mais lugares conhecer, e passar pela prova de se sentir à vontade – de nele se

adaptar: a fórmula (“o trauma”, de certa forma) que se repete. (Isto certamente não quer dizer que não conheça lugares bonitos, e, em alguma camada, viva experiências interessantes de viagens. Falamos, com nossos pensamentos hipotéticos, de um nível mais profundo da experiência).

“(...) experimentar novas culturas e viajar, o que veio a ser algo bastante viciante”. É interessante aqui, o termo viciante de Mauli. O vício parece se remeter à busca de um prazer que nunca se saciaria – tal qual o vício de uma droga. A busca do prazer perfeito – e portanto, inexistente.

Talvez, porque de fato, no fundo, ela – nossa personagem Mauli - não se adapte. Olhando pelo outro lado da moeda, quase como ‘se a cultura precisasse se adaptar a ela’. Se a cultura for quente, tiver uma língua que ela transpasse (enquanto barreira)... ela se adapta. Mas um adaptar-se que não é necessariamente o de criar raízes.

‘A língua materna’. Diante da pergunta qual seria a sua, ela responde com uma dúvida: “é a de origem... ou a que um se sente mais confortável?”. A dúvida não é de ordem linguística, e sim afetiva. Ela já ‘não sabe mais’, qual é a língua materna...

(...) as origens da linguagem estão estreitamente vinculadas às primeiras experiências sensoriais, na dimensão da relação primária com a mãe (...) “Madre língua”, “Mother tongue”, “alma mater” são algumas entre tantas imagens verbais que exprimem sugestivamente esta ideia de que a função da linguagem é “retirada” do seio materno, junto com o leite. (Amati-Mehler et al., 2005, p. 97-98)

“Portanto”, diz-nos Kacelnik (2008), “a língua materna regula a lembrança

daquela que nos introduziu a fala.” (p. 103). Uma lembrança que, para Mauli, parece apagar- se aos poucos, como uma fotografia, exposta ao sol, ao vento, à chuva – ao clima.