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Feminism as a way of looking and women a category of analysis

3   Female  as  ’The  deformed  male’  -­‐  early  roots  of  western    gendered  ideals

7.1   Feminism as a way of looking and women a category of analysis

Lino parece nos contar a intensa e rica odisseia (aludindo ao título de sua leitura da adolescência, cf. entrevista integral), de sua ‘busca de identidade’. Deste seu percurso por estes dois países (França e Argentina), com o Brasil entre eles, e, psicanaliticamente, poderíamos pensar em seus movimentos psíquicos subjacentes a este processo: idealizações, projeções, identificações (cf. Klein, 1991).

Diz ter-se ‘espelhado’ no irmão mais velho: “aventureiro, viajante”. Parece ter tido nele um ‘gatilho’, para sua saída do país, que parecia anunciada desde muito antes.

“Memórias da França”, dizia ele. Memórias de sua infância. De seus pais, hippies. Num processo de análise, poderíamos talvez lidar com a possibilidade (hipótese) de objetos internos reais que lhe eram frustrantes em alguma medida, enquanto Lino partia em busca dos idealizados. Desta forma, suas viagens – a ida à França e posteriormente à Argentina - parecem ter sido bastante permeadas por estes movimentos. Que ele descreve tão bem:

“(...) quer dizer, na verdade assim, era uma mistura, o que eu via, o que eu assimilava ali do quotidiano, e a minha idealização de França romântica, boêmia... A França do meu sonho... assim, eu idealizava muito. Usava bicicleta,

comprava pão punha debaixo do braço, comprava flores, na bicicleta, com pão e andava... sabe coisas assim?(...) Meio que um personagem."

Desta forma, também – em nossa hipótese, numa espécie de ganho secundário – se protegendo, em certa medida, do encontro com o real diferente: com o estranho/estrangeiro. Dentro e fora dele. O francês não de ‘seus sonhos’, mas um francês que ele ainda não conhecia. Ou, o estrangeiro, de fato (dentro, e fora de si).

Tentando tornar ‘conhecido’, o que lhe era até então, desconhecido: o outro, francês, e ele mesmo, de encontro com este outro lugar. O que, neste momento, Lino não pôde realizar: necessitou uma espécie de personagem. Mesmo porquê, “ele mesmo”, não era algo ainda claro nem muito sedimentado (vale lembrar, ninguém nunca é – tal qual a epígrafe no início deste relato. Mas talvez menos ainda, um jovem de sua idade).

No conto “If I were you” (Se eu fosse você)50, que encontramos em Inveja e

Gratidão e outros trabalhos, de M. Klein (1991), Fabian, o protagonista, se introjeta (“entra”) nas pessoas que, de alguma maneira, considera ‘felizes’ ou ‘bem-sucedidas’, ou possuidoras de algo que ele não tem. Ele “vira elas”.

Neste mesmo conto, Fabian faz um pacto com o diabo, adquirindo assim esta capacidade: de entrar e possuir o corpo e a mente das pessoas, transformando-se nelas. Obviamente, escolhe as pessoas que quer se tornar. Diz-nos Klein (1991), em sua interpretação do conto:

Fabian havia ido dormir muito deprimido com sua pobreza, sua inadequação, e cheio de medo de que não pudesse ser capaz de se transformar em outra pessoa. Ao acordar, vê que é uma manhã ensolarada e luminosa. Veste- com mais cuidado do que o habitual, sai e, sentado ao solo, torna-se eufórico. Todos os rostos à sua volta parecem ser lindos (...). (Klein, p. 184).

Talvez Lino – nosso personagem – também tenha ‘acordado descontente’, desde lá de sua infância... e com medo de que não pudesse ser outra coisa.

“Podemos assumir”, diz-nos ainda Klein, “que essas emoções – e as identificações vorazes por introjeção e projeção – foram vivenciadas, inicialmente, nas relações de Fabian com seus objetos originários, mãe e pai.” (ibid, p. 184). A lembrar, para a autora, os processos de identificação com o outro (objeto), fazem-se a partir de mecanismos introjetivos e

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projetivos. Quando o sujeito se identifica com aspectos do outro, por via da projeção, introjeta-os em seu psiquismo.

Em alguns momentos, Lino, diz mimetizar certos aspectos que considera ‘franceses’. Adere sobre si, quase como uma segunda pele, ‘um cidadão francês’. Mas neste caso, Lino não mimetiza um cidadão francês que ele encontra na França. Mas o cidadão francês, que ele já carrega dentro de si, em sua mente, a caminho da França.

Em relação à idealização, Klein, a partir de Freud, diz:

Freud, em vários contextos, descreveu esse processo e algumas de suas implicações: por exemplo, referindo-se à idealização numa relação de amor, ele afirma que o objeto está sendo tratado da mesma forma que nosso próprio ego, de maneira que, quando estamos apaixonados, uma quantidade considerável de libido narcísica transborda sobre o objeto. Nós o amamos devido às perfeições que nós nos empenhamos tanto em alcançar para nosso próprio ego. (Klein, p. 174).

Talvez Lino se encontrasse apaixonado pela ‘identidade francesa’. “(...) desse

modo, o objeto se torna uma extensão do self” (ibid). Além do que, ‘transformando-se em um francês’, provavelmente sentia-se ‘mais aceito pelos franceses’. Eles, que ‘já têm uma

identidade’.

Neste ponto, nos vemos obrigados a discordar de Kristeva, quando a autora nos diz:

Queremos mudar de língua, mas queremos guardar a música da outra. Por quê? Temos a impressão de conservar nossa identidade, pois parece evidente que falar uma língua estrangeira é despersonalizante (Kristeva apud Kacelnik, 1994, p. 23).

Parece não ter sido o caso de Lino, naquele momento. Que parece ter buscado, justamente, despersonalizar-se. Contudo, sente-se confuso: teme ‘fundir-se’ à identidade francesa, ‘tornar-se francês’. E assim, indiferenciar-se para sempre.

Até que, em certo momento, depara-se, finalmente, com o estrangeiro dentro de si: “Senti-me um pouco estrangeiro... totalmente”. Não surpreende, sentiu-se decepcionado. A realidade não era exatamente como ele ‘a havia sonhado’.

Momento este em que, agora, aproximando-se de suas próprias fronteiras de identidade, teme sedimentar-se neste personagem. O que o impediria então, segundo seu medo/fantasia – ou intuição - ‘de ser outra coisa’.

Ser um personagem, diz-nos Bollas (1998),

É obter uma história de objetos internos, de presenças interiores que são a marca dos nossos encontros, embora incompreensíveis ou menos levemente

conhecidos: são unicamente poderosos fantasmas que não povoam a trama, mas habitam a mente humana (p. 44).

Lino fala de ciclos – “fechar ciclos”. O termo, muito usado no jargão popular, parece, no entanto, se remeter a algo ‘que gira em torno de si’. E, já que circular, trata de um sistema fechado. Diz mais de uma vez ter ‘fechado um ciclo’. Algo que gira, e se repete. O que pode ser feito sem elaboração: como pode ser a dinâmica psíquica.

Apesar de sua experiência na Argentina ter sido em parte diferente de sua experiência na França – a maior proximidade geográfica parece coincidir com alguma proximidade de Lino, consigo mesmo: na Argentina parece ter construído algumas relações de forma diferente que as construídas na França, até onde nos conta; e não diz ter querido se transformar num portenho. Parece ter tido ali – na Argentina -, segundo nos conta e segundo nossa hipótese, uma experiência um pouco mais coesa psiquicamente, ou seja, menos dissociada.

Apesar disto, algo se repetiu: os aspectos de identificação maciça, dos objetos projetados, dele mesmo. A boemia, os artistas, os atores, a menina que era para casar. O ciclo repleto de movimentos dentro dele, da ‘construção’ de sua própria identidade.

“Finalmente toda essa... ainda não vem a palavra que eu queria falar mas tudo bem. Toda essa... divagação, toda essa viagem tinha sido meio ... não às cegas mas eu tava procurando uma coisa que eu não tinha encontrado ainda.”

Talvez a sua própria imagem. A imagem de “Lino”, tal qual um francês segundo ele – boêmio, romântico, e com a baguette embaixo do braço – parece ter se esquivado do espelho, após os dois anos. E ele, parece então ter-se visto, “totalmente estrangeiro”.

“Vai fazer um ano que eu to aqui de volta... ainda não sei se eu quero ficar aqui pra sempre. Mas eu quero tentar (...). Antes de ir pra outro lugar. Não dá pra continuar essa vida nômade...”

Talvez um pouco como Édipo, poderíamos pensar livremente: em busca de sua identidade – há que se chegar em algum lugar... um lugar em si: quem sou eu?, Édipo teria se perguntado.

Quem é Lino?, afinal. Além daquele menino que tentou ser francês, na França das memórias de sua infância... e, não conseguindo, já na terra dos hermanos, como disse, onde ‘perde um irmão’, e depois, casa-se com uma francesa.

Estas são coisas que somente Lino poderia nos dizer. Aqui, sabemos, nossas articulações não passam de conjecturas que fazemos, na ausência de Lino. Que nos brindou com material tão rico. Brindo-o, em retorno, com um pensamento de Cintra (2001):

Melanie Klein diria que ao atravessar a posição depressiva dá-se um remanejamento de todos os ídolos: mãe e pai todo-poderosos e a criança magnífica e despótica. Há perda de brilho e grandiosidade, e ganho de um sentimento de consideração para com o outro, estrangeiro para mim.(...) E que exige deixar morrer deuses e demônios e abandonar crenças infantis de que há um bem e um mal absolutos que podem ser perfeitamente localizados (...). Só há verdadeiro crescimento à medida que os ídolos declinam e desaparecem juntamente com a ideia de um pensamento mágico e imediatista. No lugar deste último será preciso desenvolver um verdadeiro trabalho de pensar, sentir e elaborar conflitos. E ainda criar uma grande capacidade de conviver com o estrangeiro, tolerar dor e frustração e aceitar a condição humana de desamparo, transitoriedade e finitude. (p. 79).

Ao final do conto, Fabian, em busca de ‘si mesmo’, chama seu próprio nome, e diz: “Eu quero ser eu mesmo novamente”. E Klein completa: “andando pelas ruas, vai clamando esse nome, que personifica seu maior anseio, e espera ter uma resposta”.

Anseio é um termo recorrente na fala de Lino. Talvez porque anseie, de fato, pela busca de si.