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Feminist contributions to concepts of postmodernity

3   Female  as  ’The  deformed  male’  -­‐  early  roots  of  western    gendered  ideals

6.1   Feminist contributions to concepts of postmodernity

Conforme vimos, com o fortuito da psicanálise, Freud partilhou com o mundo a compreensão de que algo ‘estranho’ nos habita. Ou seja, o inconsciente, de determinismo prevalente e determinante, superava o sujeito em sua própria ‘razão’. Em 1919, Freud escreveu O Estranho (ou o Inquietante, Cia. Das Letras, 2010), texto bastante conhecido dos psicanalistas, para falar de sentimentos causados no encontro com algo que nos parece

estranho, esquisito, bizarro. Aproximando nosso olhar deste texto (e conceito), podemos ressaltar alguns aspectos interessantes relativos ao tema. Freud, nos preâmbulos de seu artigo, diz tê-lo publicado em princípio para falar de algo que ‘pouco se falava’. A literatura da época, constatava o autor, “voltava-se mais para questões estéticas – da beleza e das qualidades do sentir”. (p. 275). Unheimlich vem então preencher esta lacuna importante na construção da psicanálise.

E assim discorre o autor:

O estranho é aquela categoria (...) que remete ao que é conhecido, velho, e há muito familiar. Como isso é possível, como o familiar pode tornar-se estranho e assustador, é o que mostrarei (...). (p. 277).

Freud entendia que poderia abordar o tema através de dois eixos principais: 1. Quais significados vieram ligar-se ao termo ‘estranho’ no discorrer da história; e 2. Identificando propriedades de pessoas, coisas, impressões sensórias, experiências e situações que despertariam em nós ‘o sentimento de estranheza’, e inferir, disse, “a natureza desconhecida do estranho a partir de tudo o que esses exemplos teriam em comum”. (ibid p. 277).

O autor não tardou a anunciar que ambos caminhos conduziam ao mesmo fim. O primeiro, semântico, revelou-lhe a riqueza do termo quando buscado em alguns outros idiomas, mas, sobretudo, no alemão. Inicia com a primeira acepção da palavra: “unheimlich é o oposto de heimlich (doméstico), heimisch (nativo) – o oposto do que é familiar, e somos tentados a concluir que aquilo que é ‘estranho’, é assustador precisamente porque não é conhecido e familiar”, diz-nos Freud.

Esclarece em tempo que “naturalmente, nem tudo o que é novo e não familiar é assustador; a relação não pode ser invertida”. Afirmou que só podemos dizer que aquilo que é novo pode tornar-se facilmente assustador e estranho; algumas novidades são assustadoras,

mas de modo algum todas elas. “Algo tem de ser acrescentado ao que é novo e não familiar, para torná-lo estranho”, disse-nos Freud.

Neste ponto o autor serviu-se de outro, Jentsch, um dos poucos que havia pesquisado a questão do ‘estranho’ segundo Freud – porém limitando seu estudo a esta relação citada: o estranho como o novo e não familiar. Acrescentando que o fator essencial na origem do sentimento de estranheza estaria vinculado “à incerteza intelectual; de maneira que o estranho seria sempre algo que não se saberia como abordar”.

Consequentemente, quanto ao seu oposto – heimlich – Freud encontrou entre as várias acepções da palavra, ‘o que pertence à casa; o não estranho, familiar, doméstico’ (item I p. 279). O radical heim-, nota-se, diz respeito à casa (home, em inglês). Mais adiante no texto (item I-b), o termo se refere ao que é ‘domesticado’, como um animal, capaz de fazer companhia ao homem, em oposição a selvagem: aquilo sobre o qual não se tem controle, ‘sem governo’ – que seria este, então, unheimlich.

Entre as inúmeras definições da palavra, Freud faz alusão ao estrangeiro: “Aquele que vem de longe... certamente não vive muito heimelig (heimalich) (em casa),

freundnachbarlich (de modo amistoso, em boa vizinhança) entre as pessoas. A cabana onde antes repousara tantas vezes entre os seus, tão heimelig, tão feliz.” (p. 280).

Freud, mais adiante em seu relato (1919/1976), expõe que o que mais lhe chamou a atenção ao longo de sua pesquisa, foi a descoberta de que uma das inúmeras acepções da palavra heimlich, coincidia com seu exato oposto: unheimlich. Citando Gutzkow, Freud diz: “Nós os chamamos unheimlich, vocês os chamam heimlich”, referindo-se ‘aos aspectos secretos e suspeitosos’ de uma determinada família. (ibid)

“Dessa forma”, conclui Freud em seu artigo, “heimlich é uma palavra cujo significado se desenvolve na direção da ambivalência, até que finalmente coincide com o seu oposto, unheimlich. Unheimlich é, de um modo ou de outro, uma subespécie de heimlich. Tenhamos em mente essa descoberta, embora não possamos ainda compreendê-la corretamente”, diz o autor (ibid, p. 283).

Freud parte ainda pelo segundo caminho, para a compreensão do sentido de

heimlich citado no início, qual seja, por exemplos de coisas, pessoas, impressões, eventos e situações “que conseguem despertar em nós um sentimento de estranheza, de forma particularmente poderosa e definida”, diz o autor (1919/1976).

Menciona logo de início, emprestando a pesquisa de Jentsch citada anteriormente, “dúvidas quanto a saber se um ser aparentemente animado está realmente vivo; ou de modo

inverso, se um objeto sem vida não pode ser na verdade animado”. Como exemplo cita figuras de cera, bonecos e autômatos ‘engenhosamente construídos’.

Em relação a ‘saber se um ser aparentemente animado está realmente vivo’, talvez possamos reconhecer situações assim em nosso quotidiano. Uma delas é o corpo sem vida, que geralmente causa-nos grande estranheza inicial. Observamo-lo como que buscando uma compreensão, ou antes ainda, uma familiarização. Do corpo sem vida e, talvez em última análise, da morte propriamente dita - aquela sem registro em nosso psiquismo, tal qual postulado por Freud. Afinal, nunca morremos antes. Quantos não circundam um acidente, em busca, ao fim das contas, de um olhar sobre os humanos que ali possam estar?

Ao longo desta segunda parte, ainda, Freud discorre sobre o interessante conto de E.T.A. Hoffman, O Homem de Areia – como representante desta modalidade do estranho via impressões causadas. Neste conto, segundo Freud, Hoffman emprega o artifício psicológico de “deixar o leitor na incerteza de determinado personagem é um humano, ou um autômato” (p. 284).

Afora o inanimado/animado, o vivo e o desprovido de vida, Freud cita ainda os ataques epilépticos, e a loucura (manifestações de insanidade, diz o autor) enquanto causadores de estranhamento, assim como outras manifestações mentais e físicas (de corpos de pessoas ou animais) que diferem do que normalmente se tem como padrão: acredito se referir a deformações, movimentos inesperados, neoplastias físicas.

Ainda mais adiante no artigo, Freud fala do estranho efeito causado por uma inesperada visualização de uma imagem ‘dupla’ de nós mesmos (como ocorreu em sua própria experiência, ao se deparar com sua imagem no espelho quando de uma viagem de trem); e ainda, de exemplos que estariam ligados à onipotência de pensamentos – à pronta realização de desejos, a maléficos poderes secretos e ao retorno dos mortos. Freud os entende, apesar do estranhamento do próprio sujeito, enquanto ‘mistificações’ criadas pela mente; crenças residuais do que um dia se acreditou. Postula que, mesmo que um indivíduo seja cético, tão logo algum desses fatos se concretize em sua vida, este tenderá a retornar ao modo anterior, acreditando na suposta veracidade de poderes ocultos.

Ainda neste artigo, Freud destaca que o prefixo un-, ou seja, o que dá o aspecto contrário à palavra heimlich, é justamente, o representante linguístico do inconsciente: aquilo que era familiar, e tornou-se reprimido.

Koltai (2000) esclarece que o termo se encontra tanto nos escritos clínicos, quanto nos chamados textos culturais. A autora encontrou também menções a “der fremde” (o estrangeiro), “das fremde” (o estranho), “die enffremdung” (o afastamento), “die fremdem” (os desconhecidos estrangeiros).