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A pessoa é dependente da sociedade: basta pensar na dimensão afetiva, mas também na dimensão material da vida - para vir ao mundo, para crescer, para nutrir-se, para educar-se, para programar-se a si mesma e para realizar seu próprio projeto de humanidade (MONDIN, 1995). O ser humano recebe a vida da sociedade, desenvolve os seus conhecimentos e as suas habilidades com a ajuda da sociedade, adquire critérios estéticos segundo a sociedade a qual pertence. Isto é, ao mesmo tempo em que a sociedade nasce da pessoa, é uma resultante dela, igualmente é verdade que, de fato, a pessoa existe e se realiza sempre em sociedade. A pessoa é inseparável da comunidade e incompreensível sem ela; não existe separadamente dela.

A essência da pessoa é ser relação, abertura ao outro. O ser humano é, a um tempo, consciência de ser colocado em uma determinada situação espaço-temporal, histórica, e é, ao mesmo tempo, consciência de que neste lugar não pode realizar em si e por meio de si tudo o que gostaria.

Segundo Sorge (1998), o ser humano é um ser em relação aos outros. Enquanto espírito encarnado e finito, o ser humano se encontra associado aos outros espíritos encarnados e finitos. Por isso, a sua existência e a sua autorrealização são essencialmente ligadas à existência e à realização dos outros espíritos encarnados que são o seu próximo. O ser humano é um ser ao mesmo tempo individual e social. “O homem é, com efeito, por sua natureza íntima, um ser social. Sem relações com os outros, não pode nem viver nem desenvolver seus dotes” (GS, nº 12).

Avelino (2005) chama a atenção de que já Aristóteles afirmava ser o homem “um animal cívico, mais social do que as abelhas e outros animais que vivem juntos” (p. 235). Segundo ele, a coesão e permanência da polis assentam na moral social, isto é, na virtude da amizade entre os cidadãos livres. Afirma Aristóteles:

As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as partes integrantes da cidade, todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes e funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mãos e aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a aparência, sem a realidade, como uma mão de pedra. O mesmo ocorre com os membros da cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto. Assim, a inclinação natural leva os homens a este gênero de sociedade (apud AVELINO, 2005, p. 236).

Aristóteles agrega uma finalidade à vida em coletividade ao enxergar na convivência coletiva uma forma de cada integrante do grupo social poder viver melhor.

A solidariedade ocupou importante espaço no pensamento de Durkheim (1999). Para ele, há dois tipos de solidariedade: a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica. A sociedade se encarregaria de produzir crenças e valores comuns a toda a coletividade. O indivíduo teria apenas um espaço ínfimo para as suas vontades. Entretanto, a forma como esses sentimentos gerais e particulares se relacionam muda segundo o tipo de solidariedade social.

O primeiro tipo de solidariedade é característico das sociedades que possuem maneiras de pensar mais homogêneas. Considerando que cada indivíduo possui duas consciências - uma individual, que é particular a cada um de nós, e outra coletiva, que representa os pensamentos compartilhados por um mesmo grupo - Durkheim afirma que na solidariedade mecânica a consciência coletiva é maior que a consciência individual. O indivíduo que vive nessas sociedades é mais propício a viver em comunhão com os outros e a ter os mesmos pensamentos que a coletividade. Sobre esse tipo de solidariedade, Durkheim (1999, p.107) acrescenta: “A solidariedade que deriva das semelhanças se encontra em seu apogeu quando a consciência coletiva recobre exatamente nossa consciência total e coincide em todos os pontos com ela. Mas, nesse momento, nossa individualidade é nula. Ela só pode nascer se a comunidade ocupar menos lugar em nós”.

Já na outra forma de solidariedade, a orgânica, ocorre o oposto. A consciência individual é maior que a consciência coletiva. O indivíduo tende a viver menos em grupo e a pensar mais a partir de seus próprios pensamentos. A força dos laços que o prendem à coletividade varia proporcionalmente ao desenvolvimento de suas potencialidades. Assim, a consciência coletiva, que representa os valores, crenças e desejos comuns ao grupo, se enfraquece diante do individualismo. Na solidariedade orgânica, o indivíduo é solidário ao grupo na medida em que se especializa. O todo, como num organismo, passa a depender cada vez mais da íntima conexão entre as várias partes que o formam. Cada parte possui uma função definida no seu interior. Na sociedade, as profissões se tornam interdependentes. Para Durkheim, esse processo atravessa todo o desenvolvimento do mundo moderno.

Para a sociologia moderna, o indivíduo existe apenas enquanto integrante de uma espécie que precisa do outro para existir. Para Simmel e Elias, “indivíduo e sociedade são conceitos complementares não apenas logicamente, mas também em sua

realização. A pluralidade dos indivíduos produz, através de sãs relações mútuas, o que se denomina unidade do todo, isto é, a sociedade, mas aquela pluralidade não seria imaginável sem esta unidade” (apud WAIZBORT, 1999, p. 104). Isto é, o indivíduo existe enquanto em relação com os outros e com o mundo externo a ele. Não é fechado ao mundo exterior, isolado, solitário em seu mundo interior, como uma ilha. Ao contrário, Elias (2001) concebe o indivíduo como fundamentalmente em relação com um mundo que não é ele mesmo, com outros objetos e em particular com outros homens.

Ou seja, o indivíduo coexiste juntamente com outros indivíduos. Somente se pode pensar o indivíduo como parte de um tecido social mais ou menos coeso em que a interdependência e a abertura em direção ao outro é uma necessidade (LÉVINAS, 1993).

Já para o pensamento católico, o primeiro círculo da sociabilidade do ser humano é a família. Nenhum ser vivo é tão dependente dos outros, nos primeiros meses e anos da infância, como o ser humano que – ao contrário do animal – é desprovido da segurança do instinto. O animal é condicionado pelas disposições naturais e pelo meio ambiente, ao qual se acomoda com a segurança que lhe dá o instinto. A mesma situação repete-se a cada geração animal. O ser humano, porém, por vontade livre, transmite suas experiências e os seus conhecimentos de geração em geração, por meio da tradição, da educação e do aprendizado.

A partir daí, as pessoas se organizam na sociedade em grupos e movimentos dentro de um contexto de comunhão e afinidades, para responder às necessidades profundas e às exigências originárias de cada pessoa. Este é o fenômeno que se costuma chamar de comunidades intermediárias.

Dá-se, então, o segundo círculo - o da sociedade -, que se enraíza na pessoa, não menos do que a família. A sociedade não é externa à pessoa, nem lhe é superior; por sua vez, nem a pessoa pode existir fora ou acima da sociedade. De fato, a sociedade é “pessoal” e a pessoa é “social”. Por isso, o Concílio Vaticano II conclui:

A natureza social do homem torna claro que o processo da pessoa humana e o desenvolvimento da própria sociedade estão em mútua dependência. Com efeito, a pessoa humana, uma vez que por sua natureza, necessita absolutamente da vida social, e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais. Não sendo, portanto, a vida social algo de acrescentado ao homem, este cresce segundo todas as suas qualidades e torna-se capaz de responder à própria vocação, graças ao contato com os demais, o mútuo serviço e o diálogo com seus irmãos (nº 25; destaques nossos).

Neste trecho fala-se da primazia absoluta da pessoa, mas que não contrapõe o indivíduo à sociedade; ao contrário, vislumbra no indivíduo o próprio fundamento da sociabilidade.

Afirmar o primado da pessoa não significa, portanto, sobrescrever o princípio do individualismo (...) e considerar o homem sozinho como um absoluto que não precisa de nenhum outro. Ao contrário, o reconhecimento do primado da pessoa é intimamente ligado à admissão da transcendência: o homem é sempre mais do que aquilo que é, e é sempre menos daquilo que deve ser (MONDIN, 1980, p. 198).

Essa característica relacional do ser humano revela a dependência entre o progresso do ser humano e o desenvolvimento da própria sociedade. Portanto, toda pessoa tende, por natureza, à doação e à participação, de modo a estar, por sua essência, orientado para o “tu” e para a sociedade. Diz Bento XVI, em Caritas in veritate: “De natureza espiritual, a criatura humana realiza-se nas relações interpessoais: quanto mais as vive de forma autêntica, tanto mais amadurece a própria identidade pessoal. Não é isolando-se que o homem valoriza a si mesmo, mas relacionando-se com os outros e com Deus, pelo que estas relações são de importância fundamental” (nº 53).

Para Mounier (2004), as coletividades naturais são reconhecidas na sua realidade e finalidade própria, diferente da simples soma dos interesses individuais. Elas têm por fim último, pôr cada pessoa em estado de poder viver como pessoa, quer dizer, em estado de poder atingir um máximo de iniciativa, de responsabilidade, de vida espiritual. A sociabilidade é um recurso natural de que o ser humano pode e deve servir-se para alcançar sua satisfação, sua felicidade; porquanto a sociedade humana existe para ele, e não o contrário.

Mas esta é somente uma face da moeda. Se olharmos a outra face, parece claro que a sociedade não constitui uma realidade superior em relação aos indivíduos, que seriam subordinados como partes de um todo. A sociedade é, pelo contrário, um organismo essencialmente ao serviço dos indivíduos, por permitir a cada um deles de realizar plenamente a si mesmos (MONDIN, 1980, p. 196).

Além disso, como explica Mounier (2004), a identidade humana é situada, ou seja, está constitutivamente inserida no sistema estruturado e solidário das relações sociais, interagindo com um ethos que precede o indivíduo e socializa-o. Portanto, o homem, todo homem, é um ser estruturalmente carente e aberto à relação com o diferente de si.

Pertencer a uma comunidade é constitutivo e estrutural da identidade humana, não um dado acessório ou opção eventual, voluntarista. O fraco, o carente, não representa um homem menor, mas constitui o ícone do homem em si, por manifestar plenamente a abertura estrutural que todo homem tem à relação com os outros, dos quais tem necessidade a fim de formar uma identidade para si e a fim de viver. Nem mesmo o indivíduo aparentemente mais forte e mais independente pode deixar de reconhecer uma dívida para com a comunidade (em suas várias articulações, a começar da família), na qual pôde desenvolver sua personalidade (MOUNIER, 2004).

Podemos assim pensar numa espécie de dívida antropológica (cf. CDSI, nº 195) do indivíduo para com a comunidade que – e este é o ponto crítico – se reflete nas formas de reconhecimento e garantia da liberdade individual. Portanto, antes do indivíduo existe necessariamente uma comunidade, entendida como rede de relacionamentos, tecido de relações que sustenta o próprio indivíduo e permite seu desenvolvimento.

Já para Maritain (1963), asseverar que o homem é pessoa quer dizer que no fundo do seu ser ele é um todo mais do que uma parte, e mais independente que servo: “a pessoa como tal é um todo. Dizer que a sociedade é um todo composto de pessoas é portanto dizer que a sociedade é um todo composto de tantos todos” (pp. 34-35; destaque no original).

É um ser absoluto, indivisível, uma totalidade, não pode ser considerada parte de um todo, ou seja, a pessoa não é parte da família, do Estado, da comunidade, da nação. Cada homem é um universo, um “microcosmo”, um vasto centro de qualidades e de valores.

As pessoas têm a substância. A sociedade não tem a substância. A sociedade não é fruto das livres autotranscendências das pessoas, de suas livres autorrealizações, de seus livres autodesenvolvimentos, de suas expansões em direção aos outros, de suas comunicações, de seus associar-se. “Toda a vida social é expressão do seu inconfundível protagonista: a pessoa humana” (CDSI, nº106).

Escreve Sofia Vanni Rovighi,

Recordamos a definição habitual de sociedade como união moral e estável de

mais indivíduos que tendem a um mesmo fim. A sociedade civil nasce da necessidade do homem de conseguir seus fins, ligados com bem essencial da sua natureza, que não poderia conseguir se vivesse isolado. O fim da sociedade é o

bem comum de seus membros. O fim da sociedade é o bem comum na ordem temporal (...). A sociedade civil não é um ente físico, ou seja, não é uma substância existente por conta própria, independentemente dos indivíduos que a

compõem: quem existe e quem opera é sempre e somente o indivíduo (...). O que é a sociedade? É uma unidade de relação; é um complexo de relações entre os indivíduos que a compõe (...). Ora, a relação em virtude da qual o indivíduo humano faz parte da sociedade é uma relação real, pois o ser em sociedade põe no indivíduo qualquer coisa a mais, algo de novo em relação ao que seria se vivesse isolado. O individuo que vive em sociedade é enriquecido de muitas qualidades, de muitos bens que o indivíduo isolado não tem; então a relação entre os indivíduos que constituem a sociedade são relações reais (pp. 237-238; destaque no original).

Desse modo, diz Höffner (1986), no pensamento católico são rejeitados como princípios de ordem social, tanto o individualismo que nega a natureza social do homem e vê na sociedade um mero conglomerado utilitarista, pretendendo um nivelamento mecânico dos interesses individuais, como também o coletivismo que despoja o ser humano de sua dignidade pessoal, rebaixando-o a mero objeto de processos sociais, principalmente econômicos.

Há um passo a mais. A vida social remete à ideia de outro que não sou eu nem meu grupo social, mas o diferente diante do qual tenho deveres e responsabilidades, e não somente direitos a opor. Ocorre aqui o que Tosi (2009) identifica como a superação de uma lógica meramente identitária, em direção a um reconhecimento efetivo da alteridade, da diversidade e da reciprocidade. É nossa condição humana, enquanto seres não totalmente predeterminados pela natureza, que se constrói necessariamente em um confronto intersubjetivo entre um eu e outro, e entre nós e os outros.

De acordo com Tosi (2009), a identidade é construída na relação dialética entre subjetividade e alteridade. Essa relação pode ser meramente negativa: o outro é visto como um não-eu, o diferente de mim. Se a alteridade permanecer nesse nível, o outro se tornará o inimigo, o adversário, aquele que é hostil e do qual se deve desconfiar. A dialética entre subjetividade e alteridade não pode ser suprimida, porque é parte constitutiva da construção da nossa identidade; mas tal dialética não significa que o outro deva ser visto necessariamente como inimigo, desconhecendo a condição humana comum em que todos estamos. Essa dialética, para Tosi, é parte integrante do processo de reconhecimento social e valem tanto nas nossas relações individuais no cotidiano, quanto nas relações entre grupos, classes, povos, Estados e civilizações.

A violência nasce com a desqualificação do outro, a retirada do outro de suas características humanas, para colocar em evidência os aspectos negativos e, assim, desumanizá-lo. Esse procedimento pode levar até ao aniquilamento do outro, quando este é visto como inimigo absoluto, como no caso extremo do nazismo e da solução

final para o povo judeu e outros indivíduos e grupos sociais considerados inferiores (TOSI, 2009).

Como superar essa dialética negativa da alteridade? Promovendo uma dialética da intersubjetividade, na qual o outro não seja reconhecido como um inimigo, ou seja, simplesmente como um não-eu, mas como outro eu: “eu mesmo como outro”. Reconhecer o outro como a mim mesmo significa superar uma dialética puramente negativa da alteridade, para alcançar o reconhecimento comum de pertença, que é parte da nossa condição humana. Por isso precisamos reconhecer no outro o que há em comum com a nossa condição humana: todos sofremos as mesmas dores, todos temos o mesmo corpo, todos sentimos os mesmos sentimentos, todos precisamos de reconhecimento social e afetivo, ser reconhecidos em nossa identidade e diversidade.

É por meio do reconhecimento do outro que nos identificamos, é por meio da solidariedade que nos responsabilizamos. “Ninguém deve permanecer em si: a humanidade do homem, a subjetividade, é uma responsabilidade pelos outros, uma vulnerabilidade extrema” (LÉVINAS, 1993, p. 124).

Por isso, o outro interessa porque a pessoa não pode se realizar sem ele. Por seu caráter relacional, o ser humano precisa manter-se em relação, precisa encontrar o outro. A pessoa é sempre busca por outro que a complete: é a consciência do eu que, intencionalmente, pede o tu, para viver como nós.

Além disso, o ensinamento social católico igualmente acentua a subjetividade do caráter relacional da pessoa e, em consequência, a necessidade de entender que a sociedade, longe de ser resultante automática ou mecânica do ser humano, animal social, deve ser construída pelo caminho da consciência, da liberdade e da virtude das pessoas que a compõe. Isso explica o fato de que as sociedades são tão diferentes quanto as próprias pessoas, o que requer a aceitação e até a valorização de um pluralismo sadio (cf. CDSI, nº 151).

De toda forma, a vida social é o lugar no qual a pessoa pode obter aperfeiçoamento, seja pela comunicação que estabelece entre as pessoas, seja pela natural interdependência que se institui quase como que impondo a todos o diálogo e a ajuda.

Assim, identificamos a primeira manifestação da solidariedade: não podemos nos desprender dela, pois é parte intrínseca do nosso ser no mundo, o que nos faz nos relacionar com os outros. Porém a solidariedade deve ser entendida além.

2. ... à solidariedade como virtude moral

Se conseguimos olhar o outro como outro eu, diz Giussani (2001), toda pessoa de boa vontade, diante da dor e da necessidade, começa imediatamente a agir, mostra-se capaz de generosidade. Essa generosidade é estar junto do outro em suas necessidades, oferecendo companhia, afeto, compartilhando os bens, renunciando ao que legitimamente temos alcançado ou ao que possuímos, a fim de que o outro possa ter um mínimo necessário; é estar junto ao outro também para compartilhar com ele suas alegrias, seus triunfos, suas realizações. De fato, exemplifica o autor, quando há algo de grande e belo em nós, nos sentimos impulsionados a comunicá-lo aos outros. Ou quando vemos outras pessoas que estão em uma situação pior do que a nossa, sentimo- nos impelidos a ajudá-las, compartilhando algo que é nosso. Nos capítulos finais, veremos como esse fator foi importante para o início da ATST, principalmente na experiência de seus fundadores.

A meta é o mútuo compartilhar e participar dos valores pessoais. A pessoa é essencialmente abertura e comunicação.

A pessoa é constitutivamente um ser social (GS, nº12) porque assim quis Deus

que a criou. A natureza do homem se patenteia, destarte, como natureza de um ser que responde às próprias necessidades com base numa subjetividade

relacional, ou seja, à maneira de um ser livre e responsável, o qual reconhece a necessidade de integrar-se e de colaborar com os próprios semelhantes e é capaz

de comunhão com eles na ordem do conhecimento e do amor (...). A vida social, portanto, não é algo de exterior ao homem: este não pode crescer e realizar a sua vocação senão em relação com os outros (CDSI, nº 149; destaques no original).

Para Mondin (1995), a capacidade de abertura e comunicação confere à pessoa a possibilidade de viver a própria coexistência na forma de proexistência: de transformar o viver com os outros em um viver para os outros, em um ser para os outros.

(...) a sociabilidade humana não desemboca automaticamente na comunhão das

pessoas, no dom de si (...). Toda sociedade digna desse nome pode considerar estar na verdade quando cada membro seu, graças à própria capacidade de conhecer o bem, persegue-o para si e para os outros. É por amor do bem próprio e de outrem que se dá a união em grupos estáveis, tendo como fim a conquista do bem comum. Também as várias sociedades devem entrar em relações de solidariedade, de comunicação e de colaboração, a serviço do homem e do bem comum (CDSI, nº 150; destaque no original).

A proexistência é a generosidade e a dedicação. É preocupar-se pelo outro mais do que por si mesmo. Para que a proexistência possa se tornar um traço dominante da pessoa é necessário um forte empenho da vontade e o exercício do cotidiano. A

proexistência que ajuda a realização dos outros faz bem para o próprio proexistente: consolida, enriquece, torna maior, mais nobre, mais feliz a sua vida; constitui também o caminho principal da própria autorrealização. Por isso, continua Mondin (1995), quanto mais a pessoa se empenha em dar espaço à humanidade do outro, tanto mais cresce na própria humanidade.

Assim, por exemplo, mediante essas relações a pessoa se conhece e conhece o outro. As relações entre pessoas podem se reduzir a um simples encontro ocasional e passageiro, ou então criar elos duradouros que se convertem e fundamento da vida em