A 15 de Abril de 1917388, o ministro português em Washington dá conta, por telegrama, da
possibilidade de a esquadra norte-americana que irá policiar o Atlântico, na sequência da entrada dos EUA na guerra (6 de Abril de 1917), precisar de um ponto de apoio nas ilhas portuguesas. O ministro informa ter transmitido ao governo dos EUA, o que ocorreu a 13 de Abril de 1917389, que qualquer pedido nesse sentido seria comunicado ao governo português,
“…que o examinaria amigavelmente…”. O telegrama é enviado poucos dias depois de os EUA terem decidido entrar na guerra e na sequência de uma pergunta colocada pelo ministro de Portugal ao State Departament (SD) perscrutando se os navios dos EUA necessitariam utilizar portos portugueses e se para isso seria necessário algum arranjo especial. O Departamento de Estado, após consultar a Navy, replica a 19 de Abril, escrevendo que à altura era impossível responder à questão de forma definitiva, acrescentando que se chegasse o momento em que os navios dos EUA necessitassem de portos portugueses, a indicação do Ministro de Portugal seria tida em conta390. Significa isto que o ministro português em Washington antecipou-se à resposta
norte-americana na sua comunicação para Lisboa. Por esta altura as principais preocupações dos EUA estavam relacionadas com a montagem de um sistema de defesa da costa norte-americana
388 Telegrama do Ministro de Portugal em Washington para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, 15
de abril de 1917. Ministério dos Negócios Estrangeiros, Arquivo Histórico Diplomático, Pasta Base Naval nos Açores (Doravante: MNE-AHD-PBNA).
389 Cf. Livermore, S. W. (Setembro de 1948). Op. cit. 390 Cf. Idem, ibidem.
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e com a preparação de bases na Europa para receber as forças militares que seriam deslocadas através do Atlântico391.
Nas reuniões de estado-maior que em abril e maio de 1917 preparam a operação de transporte de tropas dos EUA para a Europa, a Inglaterra anota que se os EUA sentirem necessidade de estabelecer um ponto de apoio nos Açores, as ilhas ficarão sob a sua responsabilidade, dado a marinha inglesa não ter meios disponíveis. Segundo Telo392, tendo presentes os esforços
desenvolvidos pela Inglaterra desde 1898 para evitar que outra potência se instalasse nos Açores, esta posição “é irónica” e só explicável pelo facto de a Inglaterra sentir que está a perder a guerra face às perdas causadas pelos submarinos, sendo indispensável ter disponíveis escoltas dos comboios nas zonas vitais de acesso aos seus portos. Sendo assim, “…a ‘entrega’ dos Açores aos americanos surge como um sacrifício menor e reparável, numa altura em que a Inglaterra luta para evitar o impensável: ser derrotada no mar”393.
Telo anota que “A beligerância norte-americana vem alterar o papel dos Açores no controlo do Atlântico”394. Pela primeira vez, a Inglaterra deixa que os Açores desempenhem um papel ativo,
ficando sob a responsabilidade norte-americana. Os Açores, até então na periferia da guerra, transformam-se num ponto intermédio importante quando a Alemanha adquire a possibilidade de operar com regularidade na costa norte-americana. Com fraca proteção, as ilhas são um local ideal para reabastecimento em alto-mar, que pode até ser feito por outros submarinos. Os EUA estão mesmo convencidos que a Alemanha pensa criar bases secretas de submarinos em lugares remotos do Atlântico, para reabastecimento a partir de terra ou de outros submarinos, podendo
391 Cf. Keegan, J. (2014). Op. cit. 392 Telo, A. J. (1993). Op cit.
393 Idem, ibidem., p. 110. Em 1898, a Inglaterra, no âmbito de conversações para a obtenção de crédito
externo, requer a Lisboa direito de preferência sobre os Açores, o que significa que a Inglaterra poderá sempre opor-se a qualquer concessão na zona, além de ficar com o direito de tomar posse das ilhas caso Portugal por alguma razão as perca. Portugal começa por recusar o pedido inglês. Porém, a Inglaterra não pode permitir que a França (ou a Alemanha, que está a expandir a frota) se instale nos Açores ameaçando, por exemplo, a entrada e a saída da Royal Navy no Mediterrâneo. Ou seja, a Inglaterra precisa negar o acesso aos Açores. E Portugal oferece os rendimentos das alfândegas dos Açores a França ainda no âmbito da procura de crédito externo. As pressões inglesas, no âmbito das quais é posta em causa a própria Aliança secular, acabam por determinar a retirada de garantias sobre os Açores nas negociações com os franceses (o que está em causa é um empréstimo franco-alemão), isto numa altura em que Portugal parece já estar convencido, por influência do Rei D. Carlos, que terá que ceder a Inglaterra, pedindo em troca garantias contra qualquer pretensão norte-americana nos Açores. As negociações com França são rompidas quando as garantias sobre os Açores são retiradas das
contrapartidas. Portugal acaba por aceitar as condições inglesas, o que leva a Inglaterra a influenciar a obtenção de crédito independente em França, ficando o problema imediato das finanças portuguesas resolvido fora de um acordo anglo-alemão que iria conduzir à divisão do império colonial português entre Inglaterra e Alemanha. As garantias vão sendo ampliadas ao longo dos anos, conforme os novos interesses ingleses, e reassumidas por sucessivos governos portugueses. Portugal acaba por beneficiar desta aproximação a Inglaterra, por exemplo, com a assinatura do Tratado de Windsor, de 1899, que reafirma as obrigações da Aliança, com particular enfoque na defesa pela Inglaterra do Império português contra ameaças externas. Cf. Idem, ibidem.
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os Açores serem um desses pontos de encontro395. Com apoio nestas bases secretas os
submarinos poderiam atacar a costa dos EUA com mais facilidade396.
Quando, a quatro de julho de 1917, o cruzador-submarino U-155 ataca Ponta Delgada - episódio que abordaremos com algum pormenor - os EUA ficam convencidos que está provada a sua teoria (a possibilidade de os cruzadores-submarinos operarem na costa norte-americana contando com apoio intermédio na zona dos Açores), o que, segundo Telo397, é um erro. Os
grandes submarinos, operacionais desde meados de 1917, “…têm alvos em grande quantidade em águas mais próximas”398, tendo por missão atacar a navegação na costa de África e nos
acessos ao Mediterrâneo. No entanto, o pensamento norte-americano tem consequências práticas, designadamente para os Açores. Os EUA decidem defender o porto de Ponta Delgada, onde acabam de instalar um posto de abastecimento de carvão, com um navio-base e cinco destroyers movidos a carvão, chegando a força a 26 de julho de 1917 sem que Portugal seja informado. Na prática, está criada a primeira base naval norte-americana nos Açores399.