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Kapittel 2.............................................................................................................................. 21

3.2 Islams politiske historie, og HTs idealiserte utgave

Em sua obra A ordem do discurso (1999 [2014]), Michel Foucault desenvolve um conceito de discurso a partir da imagem de uma rede de signos interconectada a muitas outras, em um sistema aberto e interativo que reproduz e perpetua valores de uma sociedade. Menciona também os chamados procedimentos de exclusão e os situa no campo do discurso, onde se configurariam como interdição. O filosófo francês prossegue, em sua conferência (aula inaugural no Collége de France

pronunciada em 02/12/1970), destacando que os temas da política e da sexualidade seriam os mais passíveis de interdição. Em suas palavras: “como se o discurso, longe de ser esse elemento transparente ou neutro no qual a sexualidade se desarma e a política se pacifica, fosse um dos lugares onde elas exercem, de modo privilegiado seus mais temíveis poderes” (FOUCAULT, 2014, p. 9). Foucault assinala que nos falta muito, ou que talvez jamais alcancemos construir um discurso uniforme sobre a sexualidade, submtetidos que estamos á pressão da interdição que varia em sua forma de ser e de interferir na prática discursiva.

Esse conceito é particularmente interessante para comentar os temas de escritura e erotismo em Juan sin Tierra, se considerarmos que contempla dois aspectos que Goytisolo entrelaça nessa obra – a apropriação do discurso como objeto de desejo, refletida em sua busca incessante de uma linguagem que alcance a expressão plena do significado, e o prazer da escrita relacionado ao prazer sexual. A proposta literária de Goytisolo colocou em xeque os alicerces da tradição literária espanhola, materializando-se em um processo de destruição e reconstrução da linguagem, que resultou em um discurso que confronta o que Foucault denomina como doutrinas. Nesse contexto a doutrina político-econômica da acumulação de capital pela espoliação da mão de obra escrava e a doutrina religiosa da negação do corpo, enquanto fonte de prazer, estariam contempladas na citação:

Raíces sexuales del poder político : o raíces políticas del poder sexual : ejercicio de dominio absoluto en cualquier caso sobre cuerpos insensibles y nulos, cómplices expresos o tácitos de arbitraria y omnímoda voluntad : manipulación desdeñosa de seres privados de todo vestigio de humanidad […]refuerzan la ilusión de un ceremonial que escenifica la renuncia a su propio destino : su mansa, aceptada condición de objetos […] (GOYTISOLO, 1977b, p. 119).

Juan sin Tierra (1977), em suas primeiras linhas, antecipa para o leitor a crítica de Goytisolo a escritores espanhóis pela omissão do tema do erotismo em suas obras. O doutrinamento da Igreja, que plasmou uma identidade religiosa mais preponderante do que a identidade nacional, causou impactos na tradição literária. Nas linhas que abrem a narrativa de Juan sin Tierra (1977b), nos diz o narrador:

según los gurús indostánicos, en la fase superior de la meditación, el cuerpo humano, purgado de apetitos y anhelos, se abandona con deleite a una

existencia etérea, horra de pasiones y achaques, atenta sólo al manso transcurrir de un tiempo sin fronteras […] (GOYTISOLO, 1977b, p. 11).

Essa estética de negação do corpo e elevação do espírito será abordada ironicamente por Goytisolo a partir de duas perspectivas. Por um lado, a burguesia branca que tenta reprimir sua sexualidade e suas funções excretoras sólidas ou tenta dar a elas um caráter de assepsia: “[...] antes prefiere morir que excretar! Muy bien! : ojalá persevere! : y los médicos? Le acaban de poner otro supositorio [...]” (GOYTISOLO, 1977b, p. 206). Por outro lado, a descrição das atividades dos escravos na senzala, ou fora dela, que vivem a sexualidade em sua plenitude sem que lhes cause vergonha o uso de suas funções corporais: “cuerpo real sin duda que no acata otra ley que el soberano disfrute [...] dando a entender que ella, la gorda, sólo aspira a dar placer y a recibirlo pues la vida es sabrosa y debe apurarse sin remilgos ni teorías [...]” (p. 13). O duplo sentido, anteriormente aludido, da palavra obra ressurge, dessa vez muito mais associada ao tema da defecação e das funções anais, sinalizando para um desejo de liberdade do corpo e da escrita. A associação entre escritura e sexualidade evidenciaria, por parte do autor, uma crítica a uma cultura que “zelaria” pela observância do respeito às normas sexuais e literárias. Obviamente será o discurso o suporte que dará substancialidade a essa realidade, e o ato da escritura será associado ao ato sexual. A palavra semeada na página em branco com poderes para gerar uma nova ordem de discurso, uma maneira nova de ver o mundo: “[...] la página virgen te brinda posibilidades de redención exquisitas junto al gozo de profanar su blancura : basta un simple trazo de pluma : volverás a tentar la suerte” ( GOYTISOLO, 1977b, p. 51). E por isso a interdição e a censura. E pelo risco da interdição e da censura, a subversão.

A narrativa de Juan sin Tierra propõe, reiteramos, uma teoria do romance a partir da crítica que dirige à tradição espanhola em geral e à estética realista em particular e - outra singularidade do autor- se apropria da crítica que lhe dirigiu a Crítica. Nesse contexto, nos parece possível uma leitura dessa obra como uma narrativa onde a pulsão sexual confronta, pela pulsão da escrita, uma situação que por muitos séculos foi dogmática dentro de uma sociedade que se acreditou diferente - a separação corpo e espírito: “La abstración y la insipidez de las descripciones del

fastidiosísimo reino de los bienaventurados establece una neta separación entre la religión que rehúsa el cuerpo y otra que lo prolonga y perpetúa [...]” (GOYTISOLO, 1977b, p. 121). Haja vista o empenho do autor em demonstrar a importância de obras que permanceram marginalizadas na literatura espanhola, como La Celestina de Fernando de Rojas, La Lozana Andaluza de Francisco Delicado e também, de época muito anterior, o Libro del Buen Amor de Arcipreste de Hita. Nessas obras o tema do erotismo, claramente abordado, foi motivo bastante para que a sociedade espanhola da época as condenasse ao ostracismo cultural. Em que pese o distanciamento temporal entre a publicação dessas obras e a observação de Roland Barthes, essa nos parece adequada para ilustrar a crítica de Goytisolo à negação do corpo: “Os livros ditos „eróticos‟ [...] representam menos a cena erótica do que sua expectativa, sua preparação, sua escalada; é nisso que são „excitantes‟; e, quando a cena chega, há naturalmente decepção, deflação” (BARTHES, 1987, p. 74).

Essa negação do corpo como fonte de prazer constituiria, na escrita de Goytisolo, uma possibilidade de, não só desconstruir algo que considera falacioso no caráter espanhol, mas também transgredir o cânone, associando o prazer da escrita ao prazer sexual. Afirma que: “Hay un paralelo entre el paseo, el vagabundeo en busca de placer en la calle y en el espacio blanco de la página” (GOYTISOLO, 1977c, p.15). Barthes (1987) afirma que o texto é um corpo erótico e sugere que os ritmos literários estariam em consonância com os ritmos corporais, o que faz lembrar o trabalho dos rapsodos e a proposta de Goytisolo de uma literatura oral: “Creo que sería una experiencia interesante y reveladora invitar a algunos de nuestros más celebrados narradores a una lectura pública de sus obras y descubrir [...]” (GOYTSOLO, 1985b, p. 23).

O tema da escatologia associada às funções excretoras, principalmente a de defecação, presentes em Juan sin Tierra (1977b), poderia sinalizar para a influência de Sade e de Jean Genet na formação literária de Goytisolo. Corpo e linguagem formariam uma equação a partir da qual escritura e erotismo se entrelaçam e o ato da escrita, dentro de uma moldura erotizada, assume o aspecto da prática sexual e da busca do prazer:

iniciando tantálico, tu propio y personal proceso al canon novelesco y la radiografía de sus orondos comparsas : mientras buscas a tientas la

secreta, guadianesca ecuación que soterradamente aúna sexualidad y escritura : tu empedernido gesto de empuñar la pluma y dejar escurrir su licor filiforme, prolongando indefinidamente el orgasmo [...] (GOYTISOLO, 1977b, p. 239).

E com essa citação trazemos ao nosso estudo um indicativo, que já se anuncia, do cânone goytisoleano, bem como a alusão à escrita como um desafio que Goytisolo entende como um corpo-a-corpo com a linguagem e seu ideal de escritura. Dessa forma o texto seria uma ferramenta erótica que proporciona um duplo prazer: “paraíso, el tuyo, con culo y con falo, donde un lenguaje-metáfora subyugue el objeto al verbo […] las palabras al fin, las traidoras, esquivas palabras, vibren, dancen, copulen, se encueren y cobren cuerpo" (GOYTISOLO, 1977b, p. 218).

Nesse sentido parece válido destacar um outro aspecto de singularidade de Juan sin Tierra (1977b) – no mesmo tecido narrativo uma proposta de teoria do romance se coaduna à crítica ao cânone e à critica a um tema tabu na cultura espanhola, em forma de uma transgressão que abrange corpo e corpus. O tratamento da linguagem perverte, ao mesmo tempo, signo, significado e significante:

[...] completando las funciones de representación, expresión y llamada inherentes a una comunicación oral cuyos elementos ( emisor, receptor, contexto, contacto) operan también (aunque de modo diverso) en el instante de la lectura como una cuarta función (erógena?) que centrará exclusivamente su atención en el signo linguístico : descargando, gracias a ella, al lenguage de su simoníaca finalidad ancillar : conmutando la anomalía semántica en núcleo generador de poesía […] ( GOYTISOLO, 1977b, p. 296-297).

Retomamos Barthes (1987) para exemplificar essa luta entre o escritor e os signos de que nos fala Goytisolo. Segundo o teórico francês, o escritor, enquanto sujeito de linguagem, se encontra em meio a uma guerra de ficções (que ele denomina “falares”), mas seria como um joguete da mesma linguagem. Isso porque: “a linguagem que o constitui (a escritura) está sempre fora de lugar (atópica), pelo simples efeito da polissemia (estádio rudimentar da escritura), o engajamento guerreiro de uma fala literária é duvidoso desde a origem” (BARTHES, 1987, p. 46). Essa afirmação referenda o que diz o protagonista de Juan sin Tierra: “[...] sin disfrazar en lo futuro la obligada ambigüedad del lenguaje y el ubicuo, infeccioso proceso de enunciación : conmutando desvío rebelde en poder inventivo [...]” (GOYTISOLO, 1977b, p. 120). Entendemos que a aclaração de Barthes delineia

uma ideia do que significa para o escritor essa luta. Um desafio que Goytisolo se impôs e que resultou nas obras da Trilogia Álvaro Mendiola - escrever para sí: "el omnímodo poder de tu minúscula actividad artesanal te deslumbra : el soliloquio fantasmal de las locas vengará la memoria del rey : bruscamente, anularás centurias de infamia de un simple trazo de pluma” (p. 85); para a Crítica: “ha llegado el momento de regenerarte y tañer armoniosamente la lira! : los adjetivos más luminosos del idioma acudirán en tropel a tu pluma y te convertirán en un novel, […] los críticos te aplaudirán […]” (p. 70-71); para um leitor ideal: “[...] tus lectores suspirarán tranquilamente [...]” (p. 71) ou idealizado: “renunciando a las reglas del juego inane para imponer al lector tu propio y aleatorio modelo en lucha con el clisé común […]” (p. 120).

O corpo-a-corpo com as palavras insinua um ardente contato sexual cuja busca de prazer levaria necessariamente à busca de conhecimento:

[...] imponiendo su existencia física en el papel gracias […] echando mano de todos los ardides de la retórica […] enzarzándote con ella en implicante cópula, luchando a brazo partido con las escurridizas palabras : rigurosa trabazón de nudosos y ceñidos sarmientos que dulcemente seguirás de reojo con la misma sumisión consentida con que el complemento escolta al verbo! : tronco arriba, pasada la carnosa floración de los labios […] empuñado con fuerza el bolígrafo, obligándole a escurrir su seminal fluido, manteniendólo erecto sobre la página en blanco : en brusco, sincopado movimiento : plenitud genésica entre tus manos […] (GOYTISOLO, 1977b, p. 97).

Encontramos em Fragmentos de um discurso amoroso (Barthes, 1997 [2003]) uma espécie de ancoragem teórica, algo metafórica, para o binômio goytisoleano erotismo e escritura na seguinte citação: “A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras” (BARTHES, 2003, p. 64). Desse modo Goytisolo equipara a importância de se dar voz ao corpo libertando-o dos dogmas religiosos que o negaram com a importância de libertar-se dos dogmas da escritura canonizada, e o faz pela estética da transgressão, reafirmando o projeto de destruição e criação, objeto de desejo e de obsessão do protagonista da Trilogia Álvaro Mendiola. E não causaria surpresa identificar no narrador a necessidade de construir para si uma outra paternidade, como se verá no próximo e último item deste capítulo.