TROMMESLAGEREN I AKADEMIA
5.4 H IP HUG - HER (1967)
Uma consideração preliminar em relação ao uso da correlação no presente estudo é contextualizar sua aplicabilidade em grupos homogêneos. A lógica de uma análise de correlação pressupõe ao menos uma faixa razoável de variação dos indicadores a serem correlacionados, caso contrário não há como identificar padrões de comportamento quando os valores medidos são todos muito próximos. Apenas para ilustrar, entende-se que não há sentido funcional em procurar correlação entre a altura e peso corporal, se a amostra for constituída apenas por indivíduos muito altos. No caso do presente estudo, pela opção metodológica de constituir uma amostra homogênea, houve impedimento para a busca de determinadas correlações usuais na literatura quando se analisa perfis de passos diários, como a consistente correlação já descrita em relação ao número de passos/dia e o índice de massa corporal (McCORMACK et al., 2006; WYATT et al., 2005; TUDOR-LOCKE et al., 2004c). A despeito dessa consideração, buscou-se correlação em algumas variáveis onde, mesmo em um grupo homogêneo quanto ao nível de atividade física, composição corporal (todos na faixa de normalidade) e condição clínica, havia faixas de variação razoável, como para os índices de função autonômica cardíaca (FAC), onde se percebeu grande dispersão de comportamentos individuais.
Das correlações calculadas entre a variação relativa no número de passos diários e índices da FAC, merecem destaque as associações positivas com o pNN50 e a área espectral de baixa freqüência, no repouso supino e o pNN50 e a rMSSD na postura
ortostática, todas na faixa de tendência estatística. Nesses casos os coeficientes de Spearman oscilaram entre 0,39 e 0,44, com nível de significância entre 0,06 e 0,09. Esta observação indica tendência de correlação positiva moderada no sentido de que quando maior o incremento no número de passos diários na segunda fase, maiores foram os valores desses índices na avaliação da FAC pós intervenção. Como pNN50 e a rMSSD são indicadores da modulação parassimpática e o efeito foi mais marcante na postura ortostática, reforça-se a interpretação que o aumento no número de passos, portanto no nível de atividade física de forma leve a moderada, provocou tendência à modificação da modulação autonômica vagal, especialmente na situação onde há depressão absoluta e/ou relativa de sua ação, qual seja, na postura ortostática. Nesse sentido, entende-se que esses dados indicam que o período de acompanhamento instituído na nesta pesquisa constituiu, provavelmente, uma fase intermediária de adaptação fisiológica.
Nas correlações entre os índices de VFC e as variáveis de desempenho físico submáximo, a hipótese inicial não se confirmou, ou seja, não houve associação no comportamento dessas variáveis. Nesse ponto, a homogeneidade no nível inicial de atividade física do grupo e o tamanho da amostra podem ter influenciado. O mesmo raciocínio pode ser aplicado à falta de correlação entre o número de passos/diários e os indicadores ergoespirométricos de desempenho.
Finalmente, destacam-se as correlações significativas encontradas entre a FC de repouso na postura ortostática e o percentual de incremento de FC até o ponto do LA, ilustradas nas Figuras 52 e 53. Os coeficientes de Spearman foram de -0,69 no TE 1 e de -0,67 no TE 2, com altos nível de significância (p = 0,001 e 0,002, respectivamente). Apesar de numericamente as correlações encontrarem-se em uma faixa de intensidade moderada, entende-se que pelo tamanho da amostra e pela natureza das variáveis, as correlações encontradas são funcionalmente bastante importantes. Entende-se como comportamento merecedor de destaque o fato de que, em uma faixa de normalidade de FC de repouso, portanto relativamente estreita, quanto maior o valor da FC, menor foi o incremento necessário para se atingir o limiar anaeróbico. As conseqüências dessa associação são basicamente duas. Primeiro que a FC de repouso no ortostatismo, nesses indivíduos saudáveis, jovens e sedentários, foi um indicador indireto de aptidão física submáxima, no sentido de que quanto maior a FC no repouso ortostático, mais precocemente ocorreu o LA. Em segundo lugar a consideração de que, quando da análise da intensidade individual de uma sobrecarga de esforço, um mesmo incremento percentual de FC em relação ao repouso, pode significar diferentes
demandas fisiológicas. Essa é uma interpretação que difere da correção que usualmente se procede quando se busca uniformizar as sobrecargas fisiológicas relacionadas ao esforço em diferentes indivíduos. É habitual pensar em corrigir a sobrecarga padronizando-se o percentual de incremento da FC ao invés de usar valores absolutos de FC. Certo é que um indivíduo com FC de repouso de 50 bpm deverá dobrar seu valor inicial para chegar a 100 bpm, ao passo que outro que inicia a atividade com 75 bpm necessitará provavelmente de menor incremento de esforço para chegar nos mesmos 100 bpm. O que se postula aqui não é contraditório a esse princípio de relatividade do incremento, mas a informação complementar de que o menor incremento percentual no indivíduo inicialmente mais taquicárdico talvez represente maior desgaste fisiológico submáximo, uma vez que sua “reserva” de FC antes do ponto do limiar anaeróbico foi proporcionalmente mais utilizada. Em resumo, para avaliar sobrecarga fisiológica provocada pelo estresse do exercício, no grupo em questão, mostrou boa correlação com sua eficiência física submáxima (manifestada na própria FC de repouso). Isto porque, no grupo avaliado, as freqüências cardíacas de repouso mostraram correlação com a reserva de FC antes do ponto de LA, ou seja, um mesmo incremento percentual de FC em relação ao repouso pode implicar em demandas fisiológicas drasticamente diferentes. Caso um indivíduo realize todo incremento da FC abaixo do LA e outro, inicialmente mais taquicárdico, necessite ultrapassar o ponto de consumo de oxigênio onde a oferta aeróbica já não supre todas as demandas, este último sofrerá maior desgaste fisiológico.
A bradicardia acentuada no atleta ou no indivíduo muito ativo é manifestação comum. Nesses indivíduos há que se imaginar maior reserva cronotrópica antes do LA, uma vez que a FC de repouso guarda relação com a própria aptidão aeróbica. O que chama a atenção é que não se esperava a mesma associação no grupo com as características do que aqui foi estudado.
Terminadas as interpretações dos principais fenômenos observados na presente pesquisa, passar-se-á às conclusões e considerações finais.
CONCLUSÕES
Nesta pesquisa desenvolvida em um grupo de adultos jovens, do sexo masculino, saudáveis e insuficientemente ativos, observou-se que:
I. o grupo estudado apresentou padrão usual de passos diários inferior a 10.000 passos por dia e houve presença significativa do “efeito final de semana” nesse padrão, confirmando-se assim a hipótese inicial;
II. a intervenção baseada na meta de aumento de 3500 passos/dia, por um período de aproximadamente três semanas, foi efetiva tantos nos dias úteis quanto nos finais de semana/feriados e não teve efeitos sobre o controle do peso, do índice de massa corporal, na freqüência cardíaca e pressão arterial de repouso;
III. a variabilidade da freqüência cardíaca, em todas as avaliações, caracterizou-se por ampla faixa de variação de seus índices, tanto temporais quanto espectrais, expressa por enormes dispersões em torno de valores centrais. Este fato está provavelmente associado às características da faixa etária e normalidade clínica da amostra, o que dificulta a observação de eventuais modificações relacionadas a intervenções de pequena magnitude;
IV. existiu adequada reprodutibilidade, ou equivalência funcional, dos diversos índices temporais e espectrais da variabilidade da freqüência cardíaca, confirmando a hipótese inicial. A tendência de sutis modificações na reavaliação, após aproximadamente duas semanas sem qualquer intervenção, sugere possível “efeito de aprendizagem do teste”, que merece consideração em estudos futuros, especialmente naqueles de desenho transversal;
V. o aumento do nível de atividade física com base na meta de incremento de 3500 passos/dia, durante cerca de três semanas, gerou tendência estatística a aumento na modulação autonômica global, expressa pelos índices temporais da variabilidade da freqüência cardíaca, especialmente na postura ortostática. No
entanto não houve qualquer modificação no padrão do equilíbrio vago-simpático da modulação autonômica. Esses achados refutam a hipótese inicial;
VI. existiu grande dispersão no padrão do equilíbrio vago-simpático no repouso supino e o emprego da manobra de adoção da postura ortostática ativa mostrou-se eficiente como opção de verificação da integridade funcional da regulação autonômica sobre o coração. A magnitude das respostas fisiológicas ao ortostatismo, em favor do predomínio simpático, não sofreu influência da intervenção instituída;
VII. houve tendência estatística para uma correlação positiva entre alguns índices da FAC, especialmente o pNN50 e a rMSSD na postura ortostática, com o incremento percentual no número de passos diários além do padrão usual, sugerindo concomitância entre maiores aumentos relativos no número de passos/dia e a maior modulação parassimpática nessa postura. Quanto à variação absoluta no incremento dos passos diários, não se confirmou a hipótese inicial de correlação significativa;
VIII. não foram observadas correlações significativas entre os diversos índices de avaliação da função autonômica cardíaca com as variáveis cardiorrespiratórias e de desempenho ao nível do limiar anaeróbico;
IX. o conjunto dos dados reforçam que a variabilidade da freqüência cardíaca pode ser utilizada como método de análise seriada da função autonômica cardíaca para se avaliar intervenções a curto prazo (aproximadamente 40 dias), mesmo na presença de oscilações de pequena magnitude no nível de atividade física ao longo do período de acompanhamento;
X. o aumento no número de passos/dia, baseado na meta de incremento de 3500 passos diários, foi eficiente no sentido de aumentar a tolerância ao esforço submáximo (tempo de teste e a distância percorrida), independentemente de incremento no consumo de oxigênio no limiar anaeróbico e de redução da freqüência cardíaca de repouso, sugerindo assim que ocorreram modificações nos
mecanismos periféricos de produção de energia para o esforço físico;
XI. o Polar Fitness Test teve adequada reprodutibilidade e foi capaz de, no curto prazo da pesquisa, expressar níveis de atividade física semelhantes na fase sem intervenção, e pequenos incrementos nesse nível, baseados no aumento do número de passos/dia, confirmando- se a hipótese inicial;
XII. houve correlação negativa moderada entre os valores de freqüência cardíaca de repouso na postura ortostática e seu incremento percentual até o ponto do liminar anaeróbico, indicando que, no grupo avaliado, esse valor de freqüência cardíaca de repouso, mesmo em um grupo jovem, insuficientemente ativo e saudável, foi um bom indicador indireto do desempenho aeróbico submáximo; XIII. existiu alto nível de adesão, no curto prazo, ao incremento de 3500
passos diários em relação à média usualmente acumulada pelos voluntários, aceitando-se a hipótese inicial.
Como conclusão mais genérica relativa ao principal objetivo da presente pesquisa, podemos afirmar que:
O incremento de aproximadamente 3500 passos diários pareceu induzir aumento da modulação parassimpática no curto prazo, especialmente na postura ortostática, porém sem modificar o balanço vago-simpático. O treinamento físico instituído, baseado na atividade mais natural do ser humano – a caminhada, mostrou-se eficiente para melhorar o rendimento físico submáximo ao nível do liminar anaeróbico, sem alterar o VO2-LA e a FC de repouso, indicando provável mecanismo periférico de adaptação. As sutis modificações observadas adquirem especial relevância quando consideradas as características da amostra o do tipo de intervenção instituída, indicando que o tempo de acompanhamento provavelmente restringiu-se à uma fase inicial de modificação funcional
Finalmente, destacam-se os possíveis desdobramentos que os dados aqui observados e as análises instituídas poderão gerar, subsidiando novas pesquisas nos campos da fisiologia cardiovascular, do desempenho físico e de políticas públicas de intervenção na promoção da atividade física e da saúde.