De modo geral, o termo metalinguístico é utilizado para designar a atividade linguística realizada sobre a própria linguagem. Conforme mencionamos, as capacidades metalinguísticas, inseridas no campo da metacognição, são atualmente estudadas levando- se em conta o desenvolvimento fonológico, morfológico, sintático, lexical ou pragmático da criança e são visualizadas, grosso modo, segundo dois pontos de vista principais: um, que investiga estas capacidades como forma de autoreferenciação da linguagem, bem como a sua descrição; outro, de caráter funcional, que a investiga considerando a atividade do locutor, na qual o significado torna-se altamente relevante na interação com a linguagem.
Centrados, seja em que eixo for, os estudos destas capacidades pelos sujeitos, manifestadas a partir de comportamentos espontâneos ou a partir de capacidades fundadas em conhecimentos mentalizados e intencionalmente aplicados, são geralmente descritos segundo tarefas de controle experimental, a fim de se avaliar o desempenho da consciência do sujeito em face de diversos aspectos linguísticos.
São, portanto, usualmente exploradas como atividades ou estratégias metalinguísticas na literatura as habilidades fonológicas, morfológicas e sintáticas do aprendiz em seu processo de reflexão e regulação da linguagem oral ou escrita, sendo
comum o uso dos termos consciência fonológica, consciência morfológica, consciência sintática, consciência morfossintática etc., para designar os estudos dessas atividades enquanto processos metacognitivos da aprendizagem, conforme vimos anteriormente. Gombert & Cole (2000), para designar algumas destas atividades, utilizam, por exemplo, os termos capacidades metafonológicas e capacidades metasintáticas.
Em linhas gerais, podemos definir a consciência fonológica como sendo a reflexão do sujeito em relação à estrutura fonológica da língua, em seus mais diversos aspectos; a consciência morfológica, por sua vez, como a atenção aos aspectos morfológicos da língua como flexões, desinências, processos de formação de palavras etc; e a consciência sintática como representando a atenção aos aspectos da estrutura sintática da língua, como concordância verbal, nominal, regência etc. Autores que se centram no estudo da consciência morfossintática defendem a idéia da reflexão interdisciplinar sobre os dois eixos, o morfológico e o sintático.
Baseados, pois, nas propriedades de cada um destes domínios linguísticos, as habilidades metalinguísticas da criança têm sido avaliadas, no percurso das investigações da linguagem, levando-se em conta diferentes tarefas de mensuração. As mais conhecidas, e consideradas clássicas, no exame da sensibilidade da criança em seu uso da língua oral ou escrita são as tarefas de julgamento de frases, de correção, de repetição e de localização.
Na tarefa de julgamento de frases, a criança é convidada a julgar a aceitabilidade de determinadas frases, ditas inaceitáveis gramaticalmente, meio a uma lista de frases gramaticalmente corretas. Nesta tarefa, as frases agramaticais são, por exemplo, caracterizadas pelo mau uso ou ausência de morfemas nos vocábulos: Os meninos brinca7.
A tarefa de correção consiste em pedir à criança que corrija frases, e a tarefa de
repetição, vista como uma possibilidade de a criança examinar o controle intencional da atividade linguística, consiste em a criança reproduzir a sentença sem qualquer alteração, mesmo que ela seja agramatical. Essa talvez seria uma maneira de ela refletir sobre os erros e corrigi-los, segundo Corrêa (2005).
A tarefa de localização, muito próxima à tarefa de julgamento, consiste em solicitar à criança que localize erros em frases.
Outras tarefas surgiram, em experiências recentes, a fim de se avaliar as capacidades morfossintáticas das crianças, deixando-se um pouco de lado as tarefas clássicas. Consideradas na literatura como tarefas de produção, elas incluem: tarefas de morfologia produtiva, de estrutura morfológica, de complemento de sentenças etc. De acordo com Corrêa (op. cit), as tarefas de produção constituem variações mais elaboradas, do ponto de vista linguístico, da tarefa de complemento, utilizada nas pesquisas já em 1970. Nela a criança deve enunciar palavras que completam apropriadamente uma frase ou uma história, ou deve completar o morfema final de uma palavra de uma frase.
Assim, por exemplo, na tarefa de morfologia produtiva, são apresentadas à criança pseudopalavras as quais devem ser modificadas pelo emprego de afixos e desinências. Uma figura é apresentada à criança, e nela consta um pequeno texto no qual a pseudopalavra é inserida. Ao final do texto segue uma frase que deve ser completada pela forma flexionada ou derivada da pseudopalavra, do tipo: Nesta figura tem um zéu. Aqui temos outra figura onde há dois deles. Logo nesta figura temos dois ______.
O teste de estrutura morfológica, também um tipo de tarefa de complemento, consiste em a criança ter habilidade em decompor palavras derivadas, pela retirada de seus sufixos, ou de produzir palavras derivadas a partir de sua forma primitiva: 1. Corajoso. O policial mostrou muita _____. / 2. Fama. O artista é _______.
criança finalizar uma frase com a forma derivada de uma palavra primitiva ou de uma pseudopalavra: 1. Uma mulher que faz faxina é uma _________. 2. Ele sabe zigar. Ele é um _________.
Além destas tarefas, outras alternativas de mensuração das habilidades metalinguísticas da criança têm surgido para tentar romper os paradigmas delineados por algumas destas tarefas consideradas, em alguns casos, ineficientes. É o caso, por exemplo, dos testes de relacionamento morfológico, de analogia sintática, de replicação e outros, que, no fundo, apresentam ainda certas semelhanças com as tarefas aqui discutidas, mas que, segundo Corrêa (2005), parecem melhor confirmar o caráter metalinguístico da atividade da criança com a linguagem.
A tarefa de relacionamento morfológico consiste em a criança julgar pares de palavras compostas por uma palavra primitiva e outra derivada, ou de palavras não relacionadas entre si, a fim de se verificar a relação entre elas: jogo-jogador/fome- faminto/porco-porção.
Na tarefa de analogia sintática a criança é convidada a produzir uma frase partindo de uma estrutura esquemática do tipo A está para B assim como C está para D, na qual ela utilize suas habilidades sintáticas: A: Marcos joga bola. B: Marcos jogou bola./C: Mamãe faz um bolo. D: __________________.
A tarefa de replicação consiste em solicitar à criança que localize e corrija erros gramaticais em uma frase, para, em seguida, reproduzi-la em duas sentenças corretas: O
menina é bonito: Maria é corajosa/O rapaz anda preocupado.
Na verdade, as tarefas ditas clássicas e as tarefas de complemento têm sido alvo de críticas por possuírem limitações quanto à real mensuração das habilidades metalinguísticas da criança, consequentemente, ao efetivo acesso ao nível de controle metacognitivo das atividades pela criança. Segundo Corrêa (2004), estas tarefas falham
pelo simples fato de distinguir o que seria produto do processamento linguístico e o que seria derivado da atividade metalinguística da criança. A seu ver, a criança está apta a lograr sucesso em sua atividade valendo-se apenas do conhecimento implícito que tem da língua.
Mas é preciso considerar que estudiosos como Gombert (1992) e Bryant, Nunes & Bindman (1997) consideram impossível o tratamento destas habilidades excluindo-se o interelacionamento entre os aspectos morfológicos, sintáticos e semânticos que lhes são inerentes do ponto de vista cognitivo e metacognitivo. Gombert (op.cit) nos mostrou como se dá este interelacionamento ao desenvolver um modelo de desenvolvimento metalinguístico da criança.
1.7. Atividades metalinguísticas de reelaboração textual segundo Fabre (1986,