Se trabalhos como Taken mostram aspectos ameaçadores, por outro lado, também levantam questões poéticas, estéticas e conceituais sobre as estratégias de cooptação do sujeito pela imagem. Ao lado da tela que exibe a coleção construída ao longo da participação do público, existe outra imagem que grava e sobrepõe o percurso de cada um no espaço expositivo, criando uma imagem caótica que comprime o tempo em um único instante, em que todos estão simultaneamente ocupando o mesmo espaço.
Sorting Daemon, de Rokeby
! Uma vez destacado do seu entorno e analisado separadamente, o sujeito passa a poder ser tomado, de modo que a sua imagem se torna objeto do dispositivo. Sobre esta imagem passa a ser possível então toda sorte de operações, manipulações, deslocamentos e re-significações. Em instalações como Watch (1995), Watch and
Measured (2000) e Seen (2002), Rokeby vem experimentando diversas estratégias de
manipulação do tempo e do espaço a partir das imagens de pessoas analisadas pelo seus sistemas. Em Sorting Daemon (2003), por exemplo, ele cria uma obra site specific instalada no Instituto Goethe, em Toronto. O dispositivo analisa, cataloga e armazena a imagem das pessoas que passam pelas ruas em torno do lugar. Para isso, a captação de imagens é feita com uma câmera que tem seus movimentos de pan, tilt e zoom controlados pelo sistema, de acordo com o movimento dos passantes. Quanto o sistema encontra na imagem uma forma que se assemelhe com a de uma pessoa, ele a recorta do restante da imagem e a armazena no seu banco de dados. As imagens guardadas pelo sistema são então repartidas de acordo com suas cores. O resultado desta
amostragem colorida é então recontextualizado em uma composição projetada numa galeria no interior do prédio.
! Em Sorting Daemon, Rokeby retoma sua crítica aos sistemas de vigilância automatizados criando um tipo de datavisualization baseado na fisicalidade do corpo, a partir na análise das pessoas que passam nas ruas. O sistema reconhece, recorta, armazena e mistura a imagem das pessoas de forma a montar um mosaico multi-facetado de cores com grande impacto visual.
! Tanto Taken quanto Sorting Daemon estão vinculados à questão da criação de sistemas pervasivos de vigilância, especialmente aqueles que visam a criação de banco de imagens não autorizados, armazenando a gravações de pessoas sem questioná-las a respeito. É possível relacionar estes trabalhos com algumas das primeiras instalações em circuito-fechado a criarem sistemas capazes de guardar a imagem do público, ainda que apenas por alguns instantes. Uma das primeiras experimentações neste sentido foi a precoce instalação Wipe Cycle (1969), de Frank Gillette, uma instalação formada por nove monitores organizados em três fileiras de três colunas. Dois deles exibiam de programas gravados de TV, outros dois programas que estavam sendo transmitidos ao vivo por alguma emissora, um deles (o central) dividia-se entre imagens captadas do público da exposição por uma câmera e o programa de TV que estava sendo transmitido via
broadcast. Os outros quatro monitores mostravam, atrasadas, as imagens da câmera em
circuito fechado, sendo dois deles em oito segundos e os outros dois em dezesseis segundos de atraso.
! Ao se aproximar da instalação, cada visitante era então confrontado imediatamente com a sua própria imagem, ao mesmo tempo em que podia ver a imagem captada pela câmera com um atraso temporal, ou seja, ao chegar na instalação, o participante tinha contato com uma imagem que temporariamente mostrava quem havia acabado de deixar a instalação. Após deixar a instalação, o sujeito permanece com sua imagem momentaneamente circulando no interior do dispositivo, de modo que ele será visto pelas próximas pessoas a passarem pela obra.
! Visando explorar de maneira criativa este aspecto das atuais tecnologias de visão computacional e de armazenamento automático de imagens, durante esta pesquisa, criei a instalação My other My self (2008). Trata-se de uma instalação montada como um corredor no qual a circulação se dá somente em uma única direção. Neste, é possível ver do outro lado uma cortina em que é projetada uma imagem do corredor tal como em um circuito-fechado de vídeo. Mas, embora o ambiente do corredor seja mostrado claramente, a imagem do participante aparece de forma precária, como uma sombra sem
definição. O participante somente pode se reconhecer na imagem por meio dos movimentos de seu vulto na imagem. Ao caminhar pelo corredor em direção à tela, ele percebe que a imagem ganha cada vez mais nitidez. No entanto, ao final do percurso, ao invés de se ver completamente nítido, o participante tem um encontro inesperado com a imagem de outra pessoa (uma das pessoas que passou anteriormente pela instalação) e tem sua imagem tomada inadvertidamente e armazenada pelo dispositivo. Deste modo, o dispositivo visa promover um encontro entre o sujeito e um outro, embaralhando o espaço, fazendo sobrepor diferentes camadas de tempo e, sobretudo, frustrando o desejo narcísistico de se ver refletido na imagem.
My other My self, de Cesar Baio
! My other My self busca confrontar o participante da instalação com uma situação que geralmente se mantém velada ou esquecida, que é a ação dos mecanismos de vigilância, considerados a partir da das tecnologias atuais de identificação pessoa, criação e gerenciamento automatizados de banco de imagens. Jogando entre o visível e o invisível, o dispositivo mostra e esconde simultaneamente, despertando o desejo de auto- exposição para, em seguida, frustrá-lo como que ironizando as inscrições do tipo “Sorria você está sendo filmado”, que tantos tomam em seu sentido literal. Por outro lado, ao negar ao sujeito o acesso a sua própria imagem e ao fazê-lo confrontar-se com a imagem de outra pessoa, a My other My self busca colocar em questão a identificação que as pessoas estabelecem com as imagens. Esta questão deixa ver outra dimensão da instalação: sua relação com os modos de representação da imagem técnica; especialmente com o efeito da “ilusão especular” (MACHADO) que se estabelece quanto a pessoa vê a si mesma na imagem. Esta situação de expectativa e frustração de
reconhecer a si na imagem técnica representa metaforicamente a construção do sujeito perante dispositivos técnicos contemporâneos.