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2  Results for post‐combustion capture from refineries

2.5  Discussions and overall comparison

! Se Taken faz refletir sobre nossa assimilação nos bancos de imagem, ele revela ainda outro aspecto importante das máquinas de simulação de percepção, que é o fato de que em toda análise, seja ela realizada por um computador ou por uma pessoa, está implicado necessariamente um processo interpretativo. Um fator inerente ao processo de análise é que é preciso que o analista lance no objeto analisado seus próprios valores e nestes enquadrem seu objeto. Ainda que de maneira mais ou menos consciente e explícita, por implicar o uso de uma metodologia, a análise sempre parte de valores, sejam estes de caráter intersubjetivo ou subjetivo. No caso de dispositivos capazes de reconhecer objetos, faces e movimentos, como os analisados até aqui, estes valores são deduzidos a partir da física e da matemática, que fornecem os modelos para que se encontrem as formas dos objetos em questão, o que atribui uma idéia de maior objetividade ao processo (objetividade esta que também pode ser questionada). Mas, quando Rokeby adiciona um adjetivo a cada face encontrada, ele está elevando de sobremaneira o caráter subjetivo do seu dispositivo e diluindo de vez a objetividade que muitos esperam da máquina.

! Do ponto de vista crítico, este aspecto revela o quanto perigosos podem ser estes dispositivos, na medida em que podem ser programados para identificar alguém que

pareça um terrorista ou outro tipo de inimigo público. No entanto, perceber este caráter

subjetivo da percepção simulada permite também explorar esta tecnologia para a programação de subjetividades em obras-dispositivos que sejam capazes de interpretar propriamente o sujeito à sua frente, atribuindo valores simbólicos às suas expressões. Com maior ou menor intensidade, este aspecto interpretativo está presente em todas as interfaces interativas, no entanto, apenas em alguns casos esta característica é valorizada a ponto de se tornar ela mesma o motor da obra. Tais obras passam então a tomar os movimentos e a presença por seu valor significante os transformando em gestos, segundo a concepção que Flusser deu ao termo. Isso tudo a partir de uma sensibilidade previamente inscrita nos seus algoritmos, como acontece, por exemplo, nos dispositivos

baseados em performance. Esta programação de sensibilidade encontra precedentes já

! Como umas das suas primeiras obras, Rokeby criou a instalação Very Nervous

System (1986-1990). Sem exibir imagem alguma, esta obra consiste em uma instalação /

intervenção urbana34 sonora na qual os movimentos do corpo, uma vez captados por uma

câmera e analisados pelo sistema, desencadeiam uma composição de som e música. Conforme a pessoa desloca o seu corpo, movimenta os seus braços e pernas o som vai sendo criado. Very Nervous System inverte assim a lógica da relação entre corpo e som, fazendo a música tocar conforme a dança. No entanto, não se trata necessariamente de uma relação de controle do corpo sobre o som, como em um instrumento musical, por exemplo. A relação tem muito mais nuances do que pode ser permitido em uma interface interativa mais usual.

! Apesar do sistema ser baseado inicialmente em um controle do som gerado pelos sintetizadores através do movimento corporal, trata-se de um tipo de controle que beira o intangível, devido ao aspecto difuso, invisível e amplo da interface. Definida pelo artista como uma área de encontro multi-dimensional (Rokeby: 2011), a interface de Rokeby é capaz de promover um encontro sensível entre o sujeito e o dispositivo, no qual, a relação se dá de uma maneira ambígua, potencialmente instintiva, se tornando mais um espaço sonoro a ser explorado do que controlado pelo sujeito. Como assinalou Schwarz (1997: 79), a espacialidade acústica depende de uma maneira muito específica dos movimentos físicos da pessoa no espaço, e Rokeby explora muito bem. De fato, Very Nervous System está baseada no corpo e na materialidade do som para propor uma situação de intimidade entre o sujeito, a obra e o espaço instalativo.

! Em casos como o de Very Nervous System, o dispositivo é criado a partir de informações previamente inscritas e que adicionam valor ao que é visto pelo dispositivo, atribuindo assim um significado específico ao comportamento do sujeito que interage com a obra. Com isso, uma análise das obras-dispositivos deixa evidente uma série de passagens paradigmáticas nos modos de visibilidade, ou seja, passa-se da representação do olhar, na pintura de Velásquez, para a visualização das imagens dos primeiros artistas do vídeo; daí, chega-se a algoritmos capazes de analisar e detectar objetos por uma análise formal da imagem, para, por fim, chegar aos dispositivos fundados em valores subjetivos de ordens diversas que acabam por instituir processos automatizados de interpretação do sujeito, em sua sensibilidade humana. Ao nos aproximarmos de uma obra-dispositivo, já não mais somos transformados apenas em imagem; agora, nossa

presença, nossos movimentos, nosso caminhar passam a serem interpretados automaticamente, segundo uma subjetividade previamente inscrita no dispositivo.

! Uma análise do ponto de vista político e, sobretudo, ético de tal situação leva-nos ao seguinte questionamento: “Existem valores universais em qualquer sociedade que possam ser impostos de modo automático e de maneira homogênea sobre todos, como nos casos dos dispositivos de controle?”. Entretanto, é possível também refletir sobre as relações entre o sujeito e o dispositivo, questionando-se sobre até que ponto as relações de afetividade podem estar circunscritas, apenas, no âmbito dos seres humanos. Em termos menos filosóficos, a partir de uma abordagem estética seria possível pensar ainda sobre como o artista poderia explorar criativamente esta possibilidade de programar subjetividades em obras-dispositivos, de modo a engajar de maneira cada vez mais profunda o sujeito em um jogo baseado na sensibilidade. Neste caso, é possível perguntar: “Qual é o limite para esse diálogo?”; “O quanto íntima pode ser esta relação?”; “Quais as melhores estratégias para estreitar essa relação?”. Achar as respostas para tais perguntas, certamente, conduzirá à delimitação de um conjunto de práticas que pode ser tomado como o repertório inicial daquilo que poderá estar sendo desenhado como uma estética específica. Esta que parece marcar profundamente uma parte significativa dos regimes de sentido atuais e que se encontra mais bem-representada por um conjunto de obras artísticas que aqui concebemos sob o domínio dos regimes de sentido fundados na

performatividade da imagem e do sujeito.

Capítulo 5 - A imagem performativa