Furtado (2006, p. 47) aponta fatos históricos da composição do Brasil que podem nortear o entendimento da desigualdade a que está submetida a população rural:
A estrutura fundiária do Brasil nasceu sob o signo da grande propriedade rural, o latifúndio, a primeira das formas de organização rural que produziu desigualdades que se acumularam e persistem até hoje. O tipo de relação colonial, e as contingências do mercado mundial favoreceram o predomínio da monocultura, que se desenvolveu com base na exploração da mão de obra escrava vinda da África. Durante três séculos predominaram além da monocultura, a grande propriedade e o regime escravocrata que a sustentava. Produziram-se a concentração da terra, a exclusão dos trabalhadores rurais do acesso às condições mínimas de sobrevivência, mesmo depois do término formal da escravidão
A Lei da Terra, promulgada em 1850, impediu o acesso aos brancos pobres, aos negros e aos imigrantes europeus que começavam a chegar, pois as elites escravocratas exigiam uma grande quantia pela compra das terras públicas. Já os imigrantes que chegaram um pouco antes, desfrutaram da posse de lotes médios, para o povoamento do sul, o que lhes deu uma certa estabilidade e garantia do trabalho numa terra que lhes era própria.
Isso culminou no esquecimento da formulação de políticas públicas para o setor, a monocultura e a mecanização foram estimuladas como modelo de agricultura
moderna e racional, resultando no enorme êxodo rural a partir da década de 1960.
Com o processo de industrialização, as necessidades da população do campo foram mais uma vez renegadas, prevalecendo a produção em larga escala de grãos para exportação e consumo, gerando concentração de renda nas mãos de poucos. Acrescenta Furtado (2006) que uma série de elementos recentes da financeirização da economia que marcam essa construção histórica, como “as desigualdades produzidas pela globalização, o avanço tecnológico e a abertura dos mercados com a financeirização da economia, fundada em taxas de juros mais altas do mundo, fez com que voltasse a exclusão dos trabalhadores” (FURTADO, 2006, p. 47-8).
Juntos, esses elementos determinaram uma construção histórica assentada na exploração dos trabalhadores, que durante séculos fortaleceu a classe dominante do país, facilitando e favorecendo a apropriação dos bens estruturais e simbólicos, estando a educação, na maioria das vezes, a serviço dessa estrutura de dominação.
O golpe militar de 1964 extinguiu quase totalmente os projetos educativos que vinham sendo realizados, desarticulou os movimentos sociais e tentou a todo custo despolitizar a questão agrária, foram fechados os canais de participação e representação, o governo ditatorial impôs limites e controle aos segmentos populares. Educadores envolvidos com a educação popular e lideranças foram perseguidos e exilados, as universidades sofreram intervenções. O fundo político dessas questões estava ligado à tentativa do governo militar de fazer uma reforma agrária voltada para a modernização econômica e não visando à transformação social:
[...] para os pobres do campo, camponeses que antes sonhavam com a reforma agrária e um pedaço de terra, os governos militares apresentaram apenas duas saídas sociais: a migração para as cidades, para servir de mão de obra barata às industrias, ou para a regiões ainda mais longínquas do norte do país, induzidos a isso pela falsa propaganda e pela construção de grandes estradas que cortavam a selva amazônica, como a transamazônica, a Cuiabá-Santarém e a Cuiabá-Porto Velho [...] Em relação aos movimentos sociais dos camponeses e a luta ela terra, os regimes militares introduziram a paz os cemitérios. As principais organizações de camponeses foram proibidas, e seus líderes, foram presos ou assassinados. Centenas de lideranças camponesas foram duramente perseguidas pelos militares, pelos latifundiários e pelas oligarquias do campo, que passaram a atuar livremente. O debate político, cientifico e acadêmico também foi silenciado pelo peso dos coturnos (STÉDILE, 1997, p. 16 apud NASCIMENTO 2009).
O governo militar sancionou a Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, que “Regula os direitos e obrigações concernentes aos bens imóveis rurais, para os fins de execução da Reforma Agrária e promoção da Política Agrícola”, que ficou conhecida como Estatuto da Terra, assim os imóveis rurais passaram a ser caracterizado da seguinte forma: minifúndios, latifúndios para exploração, latifúndios por extensão e empresas (BRASIL, 1964):
Com o estatuto da terra, o Estado absorvia grande parte das reivindicações que afloraram na década anterior e disciplinava-as, de forma a trazer a demanda por terra para os parâmetros de uma agricultura modernizadora, produtiva e capaz de atender as exigências do que então era o padrão idealizado e desejado de desenvolvimento. Amo mesmo tempo, a legislação transformava a noção de direito à terra em conjunto de normas que previa em que circunstancias esse direito poderia se valer, constituindo não só uma base legal para a demandas como também um sistema de definições e enquadramentos. Em suas ambiguidades, ele instaurou as bases para uma disputa que se estende até os dias de hoje sobre condições de obtenção de
terras para a reforma agraria, propriedades que podem ser desapropriadas e em que circunstâncias se constitui o direito da terra (MEDEIROS, 2003, p. 24 apud NASCIMENTO2009).
Na prática, o Estatuto da Terra (Lei nº 4.504) privilegiou as grandes empresas rurais, e o latifúndio não foi eliminado. Por consequência, a concentração fundiária, a grilagem, a violência no campo, a miséria e a fome, a consequente degradação das condições de vida dos trabalhadores rurais foram fatores que vieram acompanhados de um crescente êxodo rural.
Segundo Furtado (2006, p. 49), “em 1940, a população brasileira era de 41 milhões de habitantes, 70% vivendo na área rural e 30%, nas áreas urbanas”, hoje, o Brasil tem mais de 190 milhões de habitantes, 84% nas áreas urbanas e 16%, nas áreas rurais, ou seja, em 7 décadas a proporção inverteu-se drasticamente, acarretando a isso um esquecimento do mundo rural, consequentemente das políticas públicas e dentro delas a educação em área rural (IBGE, 2010).
Segundo Wanderley (1977, p. 92, apud FURTADO, 2006, p. 48) “muitos estudiosos se desinteressaram pelo rural, como se ele tivesse perdido toda consistência histórica e social, como se o fim do rural fosse um resultado normal, previsível e mesmo desejável da modernização da sociedade”. Tudo “parecia indicar que esses problemas não existiam, porque o próprio conceito de população rural estava fadado a desaparecer” (SAMPAIOet. al., 2006, p. 13).
Foi tão forte a ideologia desenvolvimentista da época que remete à idéia de que o sujeito da roça não precisa estudar. Segundo Passador (2006) (BARUFFI; CIMADON, 1989; BRANDÃO, 1984, pp. 95-6):
[...] a maior parte dos lavradores não chegou a completar o primário e o aprendizado da profissão realizou-se com os pais e com os adultos em geral ou “por conta própria”, na maioria dos casos, o que significa que aprenderam observando os adultos trabalharem e repetindo seus gestos, desde a infância. Tal fato se justifica porque a escola é compreendida como o lugar da contra educação rural, onde o jovem aprende a deixar de “lidar com a terra”; ou melhor, entre os trabalhadores em geral, a escola não é compreendida como um agente de formação profissional, mas de informação instrumental daquilo que é necessário adquirir para aprender uma profissão: ler, escrever e contar.
Somente a partir dos anos 1980, em um contexto de crise econômica de hiperinflação vivida desde meados da década de 1970, retoma-se com vigor o debate sobre a questão agrária no país, novos personagens entram em cena na luta pela terra. Dentre ele destacam-se: Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB),
Movimento dos Seringueiros, Movimento dos Pequenos Produtores, Movimento dos Assalariados do Campo, as ONGs Abra, Cedi, Fase, Getat e Gebam. Nesse contexto, entre 20 e 22 de janeiro de 1984, foi realizado o 1º Encontro Nacional dos Sem Terra, em Cascavel, no Paraná, que marca o ponto de partida da fundação do MST. (NASCIMENTO, 2009).