A hermenêutica de profundidade (HP) é um referencial metodológico geral, proposto por John B. Thompson (2009), em seu livro “Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa”, a qual tomou por base para a organização desta pesquisa. A proposta consiste em analisar, em contextos específicos, a articulação entre fenômenos simbólicos e dominação. A HP “é o estudo da construção significativa e da contextualização social das formas simbólicas” (THOMPSON, 2009, p. 363).
[...] o enfoque da HP deve aceitar e levar em consideração as maneiras em que as forma simbólicas são interpretadas pelos sujeitos que constituem o campo-sujeito-objeto. [...] a hermenêutica da vida cotidiana é um ponto de partida primordial e inevitável do enfoque da HP. [...] o enfoque da HP deve se basear, o quanto possível, sobre a elucidação das maneiras como as formas simbólicas são interpretadas e compreendidas pelas pessoas que as produzem e as recebem no decurso de suas vidas quotidianas [...]. Através de entrevistas, observação participante e outros tipos de pesquisa etnográfica, podemos reconstruir as maneiras como as formas simbólicas são interpretadas e compreendidas nos vários contextos da vida social (THOMPSON, 2009, p. 363).
Para Thompson (2009), as formas simbólicas são construções significativas, reconhecidas em contextos socialmente estruturados. Compreendem ações, expressões e falas, imagens e textos podendo ser, em sua natureza, linguísticas, não-linguísticas ou mistas. É preciso levar em consideração que tais construções são também estruturadas de maneiras definidas e estão inseridas em condições sociais e históricas específicas. Nesta pesquisa, consideramos como formas simbólicas que merecem descrição e interpretação, discursos sobre concepções de educação e cuidado de crianças de até 3 anos, proferidos por mulheres que se identificaram como negras/preta pertencentes às camadas médias urbanas, residentes no município de São Paulo, mães de bebês e que foram captados e transcritos em entrevistas semiestruturadas.
O método da HP tem por objetivo apoiar pesquisas que visam descrever e interpretar como as formas simbólicas são: produzidas, circulam e recebidas pelos
sujeitos. Thompson (2009) propõe a reconstrução desse processo por meio de entrevistas ou outros tipos de pesquisa etnográfica, como a de observação participante. O autor assinala que essa reconstrução já é um processo interpretativo do entendimento cotidiano, ou seja, “uma interpretação das opiniões, crenças e compreensões que são sustentadas e partilhadas pelas pessoas que constituem o mundo social” (THOMPSON, 2009, p. 364).
A metodologia da HP prevê três fases: análise sócio-histórica, análise formal ou discursiva e interpretação/reinterpretação (figura 1). Thompson (2009, p. 365) assinala que “essas fases devem ser vistas não tanto como estágios separados de um método sequencial, mas antes como dimensões analíticas distintas de um processo interpretativo complexo”.
Figura 1 - “Formas de investigação hermenêutica”.
Fonte: Thompson (2009, p. 365).
A primeira etapa da HP é a análise das condições sócio-históricas. Parte do princípio de que formas simbólicas “são produzidas, transmitidas e recebidas em condições sociais e históricas específicas”. O objetivo da análise do contexto sócio- histórico é reconstruir as condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção das formas simbólicas (THOMPSON, 2009, p. 366).
Referencial Metodológico da Hermenêutica de Profundidade • Situações espaço-temporais • Campos de interação • Instituições sociais • Estrutura social
• Meios técnicos de transmissão
• Análise semiótica • Análise da conversação • Análise sintática • Análise narrativa • Análise argumentativa Análise Formal ou Discursiva Interpretação/ Re-Interpretação Análise sócio-histórica
Hermenêutica da Vida Cotidiana Interpretação da doxa
Referencial Metodológico da Hermenêutica de Profundidade • Situações espaço-temporais • Campos de interação • Instituições sociais • Estrutura social
• Meios técnicos de transmissão
• Análise semiótica • Análise da conversação • Análise sintática • Análise narrativa • Análise argumentativa Análise Formal ou Discursiva Interpretação/ Re-Interpretação Análise sócio-histórica
Hermenêutica da Vida Cotidiana Interpretação da doxa Hermenêutica da Vida Cotidiana Interpretação da doxa
A tarefa da primeira fase do enfoque da HP é reconstruir as condições e contextos sócio-históricos de produção, circulação e recepção das formas simbólicas, examinar as regras e convenções, as relações sociais e instituições, e a distribuição de poder, recursos e oportunidades em virtude das quais esses contextos constroem campos diferenciados e socialmente estruturados (THOMPSON, 2009, p. 369).
Thompson (2009) afirma que as condições e contextos podem ser examinados diferentemente, dependendo das circunstâncias e dos objetos de cada pesquisa, mas sugere quatro aspectos típicos dos contextos que atingem cada nível de análise: as situações espaço temporais; os campos de interação; as instituições sociais; a estrutura social; os meios técnicos de transmissão.
No NEGRI temos realizado a análise do contexto sócio-histórico com o objetivo de atingir esses níveis de análise, por meio da revisão de literatura sobre temas específicos selecionados de acordo com o objeto estabelecido para cada pesquisa. Nesta dissertação, analisamos esse contexto por meio de revisão da literatura que aborda a educação e o cuidado de bebês, no contexto da creche e das relações raciais. Neste caso, entendemos que a literatura sobre a Educação Infantil brasileira, incluindo os temas sobre Educação Infantil, creche e relações raciais, nos auxilia no desenho do trabalho de campo, isto é, nos cuidados éticos e na formulação de questões para as entrevistas, bem como para suas análises.
A análise formal ou discursiva, segunda fase da HP, propõe o estudo das formas simbólicas que são produzidas, recebidas e que circulam nos campos sociais. Nesta pesquisa, essas formas simbólicas se configuram como a transcrição textual dos discursos proferidos por mães negras/preta, ou seja, a análise da transcrição das entrevistas efetuadas junto a essas mulheres. As formas simbólicas, por serem construções complexas, apresentam uma estrutura articulada que necessita de análise própria (THOMPSON, 2009).
Temos adotado a análise de conteúdo proposto por Bardin (2011) e Rosemberg (1981). O corpus, de acordo com Bardin (2011, p. 96-97), “é o conjunto dos documentos tidos em conta para serem submetidos aos procedimentos analíticos. Nesta pesquisa, o corpus de análise é composto pelas entrevistas transcritas, ou seja, as entrevistas foram transcritas e então analisadas a partir do referencial teórico e da análise do contexto sócio-histórico.
A última etapa da HP, interpretação/reinterpretação, mediada pelas duas anteriores, busca sintetizar e explicitar, criativamente, o que foi dito nos discursos
para chegar a possíveis significados. Trata-se de interpretar e reinterpretar com o objetivo de obter uma síntese criativa apoiada nas fases anteriores, no objeto e no referencial teórico (THOMPSON, 2009).
A fase de interpretação é facilitada pelos métodos da análise formal ou discursiva, mas é distinta dela. Os métodos da análise discursiva procedem através da análise, eles quebram, dividem, desconstroem, procuram desvelar os padrões e efeitos que constituem e que operam dentro de uma forma simbólica ou discursiva. A interpretação constrói sobre esta análise, como também sobre os resultados da análise sócio-histórica. [...] Por mais rigorosos e sistemáticos que os métodos da análise formal ou discursiva possam ser, eles não podem abolir a necessidade de uma construção criativa de significado, isto é, de uma explicação interpretativa do que está representado ou do que é dito (THOMPSON, 2009, p. 375).
A fase de interpretação é uma tarefa de complexa execução. Trata-se de reinterpretar os discursos e isto inclui conflitos e riscos de discussão, pois o campo já é pré-interpretado pelos sujeitos que podem discordar das interpretações. Nesta última etapa deve-se chegar a uma construção criativa de significados, esclarecimentos sobre o que as formas simbólicas representam e o que elas dizem a respeito do conteúdo apresentado (THOMPSON, 2009). Tal etapa de interpretação/reinterpretação ocorre, nesta dissertação, nas considerações finais.
Adotando a organização sugerida por Thompson (2009) na HP, seguimos, no próximo capítulo, com a descrição do contexto sócio-histórico de produção, circulação e recepção das formas simbólicas.
2 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO: CRECHES, CRIANÇA PEQUENA,