O Quadro 2 esquematiza a classificação do protocolo do método de Rorschach do Caso Carla:
Quadro 2: Resultado da cotação do protocolo do Caso Carla
Localização Determinante Conteúdo G = 4 G/ = 3 GS = 1 D = 12 Dd = 4 DdS = 1 F+ = 6 F- = 4 M = 5 FM = 2 m = 1 adicional C = 1 adicional CF = 2 / + 3 adicionais FC = 1 FC’ = 1 FK = 1 cF = 2 / + 1 adicional Fc = 1 / + 1 adicional A = 7 Ad = 1 H = 2 (H) = 3 Hd = 1 Anat. = 3 Sexo = 1 / + 1 adicional Pl. = 1 Geo. = 2 Obj. = 2 / + 1 adicional Vest. = 1 / + 1 adicional Arq. = 1 Névoa = 1 adicional
O exame de Carla sugere que a mesma apresenta uma disposição temperamental introversiva (5M : 2,5C), em conflito com tendências extratensivas (FM + Σm = 2 : Σc + ΣC’ = 4) que não podem ser operacionalizadas no momento ou não são aceitas. Pode-se, também, levantar a hipótese de um início de mudança vivencial decorrente do processo psicoterápico. Seu controle intelectivo é um pouco rebaixado (F% = 40), não sugerindo, contudo, desorganização de sua dinâmica. A vida interior é rica, com ênfase na criatividade e fantasia, o que permite controlar seus aspectos mais instintivos e impulsos (5M : 2FM + 0,5m). Porém, o controle na exteriorização de suas emoções é bastante fraco (1FC : 3,5CF +0,5C), caracterizado pela vulnerabilidade, irritabilidade, sugestibilidade e, eventualmente, explosões emocionais (em condições de estresse).
Seu tipo aperceptivo enfatiza aspectos abstrativos e de globalização da percepção, mas, também, a minuciosidade e a meticulosidade dos pequenos detalhes (G! D Dd!). Tudo isso sem prejuízo de uma adaptação satisfatória aos aspectos práticos da realidade, inclusive mantendo normal o senso comum (cinco respostas vulgares). A estrutura do ego, todavia, mostra-se fragilizada (F+% = 64), muito vulnerável, comprometendo, possivelmente, sua atenção e concentração, o julgamento crítico das coisas e a rotulação adequada de suas percepções. Seu potencial cognitivo é normal, com inteligência de tipo teórico-abstrativo e criativo, havendo, contudo, indícios de que não consegue utilizar atualmente esse seu potencial de forma plena.
3.1.3. A Representação de Si
3.1.3.1. A Imagem do Corpo e a Identificação Sexual
A imagem do corpo de Carla, segundo a perspectiva de Traubenberg & Sanglade (1984), apresenta-se com boa integração. Contudo, observam-se alguns elementos de fragilização. Com relação à figura humana, encontra-se, em três momentos, o fenômeno da desrealização: Prancha VII “... duas sílfedis...”; Prancha IX “... parte central lembra um
espírito materializando...” e “... aqui um monstrinho ... tipo desenho encantado...”.
Quanto às percepções de conteúdo animal, percebe-se, ainda sob a ótica de Traubenberg & Sanglade (1984), um sentimento disfórico na Prancha I “... uma borboleta
mais rústica ... não é muito agradável, agressiva, mais fúnebre por causa da cor...” e na
Prancha V “... uma borboleta ... não gosto de cores escuras, isso dificulta um pouco...”. Em relação à proposta de Fischer & Cleveland (1970) e Anzieu (1986), não há indícios de sobreinvestimento do envelope corporal ou de permeabilidade da superfície do corpo. Essa observação vem corroborar a boa integração da imagem corporal.
A análise proposta por Chabert (1999) também demonstra uma imagem do corpo bem integrada, mas com alguns elementos de fragilização. Nas pranchas compactas (I, IV e V), encontram-se figuras bem integradas, com exceção da Prancha IV, onde a percepção envolve uma forma pouco definida “... lembra aquelas cenas de desenhos, de um outro planeta,
formações geológicas de um outro planeta...”. Nas pranchas de configuração bilateral não se
observam aspectos de fragmentação e de dispersão. Os já citados sentimentos disfóricos presentes nas Pranchas I e V aliam-se à percepção da Prancha IV no sentido de indicar certa fragilidade na imagem corporal.
A fragilidade observada na imagem do corpo de Carla está, também, marcada pela presença de angústia (Hd + Anat + Sexo = 20%). Tais aspectos parecem estar associados à identificação sexual da paciente, em especial no que se refere às percepções dos órgãos sexuais femininos e masculinos.
Em relação ao genital feminino, observa-se a presença de respostas de cobertura “...
um lábio fazendo biquinho para um beijo...” na Prancha I e “... entrada de um portal, lá no fundo, entrada de um castelo, meio fantasiosa, meio mágica...” na Prancha VIII, chegando a
uma certa perseveração da percepção do conteúdo borboleta (Pranchas I, II, III e IV). Há uma única percepção de vagina “... bem agradável! Vejo uma vagina, clitóris, grandes lábios (risos) ...” na Prancha X, contudo, apesar da qualificação dada por Carla, não se trata de uma percepção positiva. O conjunto dessas respostas indica um nível alto de fantasia relacionada ao órgão sexual feminino, associada a certa repressão. Já o genital masculino é, primeiramente, impedido de ter sua percepção conscientizada “... gostei dessa parte, mas
estou tentando abstrair, bonitinho, gostei dessa parte de cima...” na parte superior da Prancha
VI, para depois surgir em uma resposta de cobertura, mal vista, na Prancha X “... um cetro,
assim a parte de cima, aqui o cabo do cetro...”. Tais percepções são indicativas de uma
resistência ao genital masculino.
3.1.3.2. A Identidade e a Identificação com as Figuras Parentais
O protocolo de teste de Carla indica um sentimento de identidade bem estabelecido, sem dificuldades na diferenciação eu-objeto, segundo as propostas de Traubenberg & Sanglade (1984) e Chabert (1999). Existem algumas percepções de duplo, como na Prancha III “... duas mulheres africanas ... mexendo um caldeirão...”, na Prancha VII “... duas sílfedis
... como se fossem se beijar...” e na Prancha VIII “... um felino ... dois, né?”. Contudo, essas
percepções não parecem advir de um processo de espelhamento ou de reflexo.
Por outro lado, embora Carla demonstre interesse humano (H% = 24), é possível que suas relações com as pessoas estejam um tanto despersonalizadas ou desrealizadas (3(H) : 2H). Tais condições parecem estar ligadas à identificação com as figuras parentais. Em relação à figura materna, observa-se que a introjeção da mesma foi marcada por angústia e frustração em oposição a um desejo de unidade biológica com a mesma. Tal fato se sustenta na ausência de figuras humanas na prancha I, onde aparece a percepção de osso da bacia, de acordo com as observações de Myrian Orr (1958, citada por Adrados, 1982), e na percepção de feto na Prancha IX que, segundo Chabert (1999), é a prancha que evoca respostas que remetem a um estado embrionário. Já a figura paterna parece ter sido introjetada com frieza, distanciamento e estranheza, como é revelado em uma resposta de conteúdo geográfico, indicando distanciamento e evasão, a única dada à Prancha IV “... não gostei dela não ...
lembra aquelas cenas de desenhos, de outro planeta, formações geológicas de outro planeta...”.