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47 BOURDIEU, Pierre. Ibid. p. 57.

48 WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Vol. 1. 3ª Ed.

A Reforma protestante iniciada no século XVI, na Alemanha, por meio de Martinho Lutero, contém os primeiros elementos para a mudança de paradigma no campo religioso cristão após o período do Renascimento. Isto porque, a Igreja cristã, oficializada como Igreja do Império pelo governo de Roma no século IV, assumiu a forma Católica Romana e dominou o cenário religioso no Ocidente por aproximadamente doze séculos. Essa Igreja tentou dessa maneira monopolizar em torno de si todas as atividades religiosas e políticas, por meio de ações que interferiam no funcionamento do Estado. Isso lhe possibilitou o controle total sobre todas as esferas da sociedade. Consequentemente, todas as outras opções religiosas surgidas naquela época eram perseguidas ou destruídas pela ação da Igreja e do Estado que, nesse período, agiam como um governo teocrático. A partir da Reforma protestante, o Ocidente passou, desde então, a contar com duas principais opções religiosas: Catolicismo e Protestantismo. O indivíduo, anteriormente obrigado por lei e tradição, desde o seu nascimento, a pertencer à religião oficial do Estado, ou seja, ao Catolicismo, passou a contar agora com mais uma opção de adesão religiosa. Desde então, o Protestantismo possibilitou o surgimento de várias outras denominações religiosas, tanto na Europa quanto nas colônias inglesas da América do Norte, disputando espaços que antes pertenciam à Igreja Católica.

O Protestantismo que surgiu da Reforma do século XVI, ao contrário do Catolicismo, não foi capaz de conservar-se unido, gerando uma variedade de tendências e instituições. Antonio Gouvêa Mendonça usa o termo “Protestantismos” (luterano, calvinista, metodista e outros) por causa da diversidade de correntes teológicas.49 Os Protestantismos europeus, ao emigrarem da América do Norte, passaram por uma série de transformações institucionais, teológicas e culturais que fizeram deles um fenômeno religioso distinto de suas origens históricas mais próximas. Todavia, segundo Mendonça, quando o Protestantismo chega ao Brasil, na metade do século XIX, encontra aqui uma religião já confortavelmente instalada.50 O Catolicismo, antes de ser a religião do Estado, era a religião do povo brasileiro. O Catolicismo levava vantagem de ter vindo

49 VELASQUES FILHO, Prócoro e MENDONÇA, Antônio Gouvêa. Introdução ao Protestantismo no

Brasil. São Paulo: Loyola, 1990. p. 11.

50 MENDONÇA, Antônio Gouvêa. O celeste porvir: a inserção do Protestantismo no Brasil. São Paulo:

com os colonizadores e de ser implantado desde o primeiro momento da colonização no Brasil.

O Protestantismo inseriu-se no Brasil no final da primeira metade do século XIX, após duas tentativas fracassadas anteriormente.51 Na primeira delas, quando os franceses se estabeleceram no Rio de Janeiro, entre os anos de 1555 e 1560; e na segunda, quando os holandeses invadiram o Nordeste brasileiro, no período de 1630 e 1654. O primeiro impulso para a inserção definitiva dos protestantes no Brasil se deu basicamente por causa do processo imigratório, logo após a abertura dos portos brasileiros ao comércio inglês, em 1810. Segundo Boanerges Ribeiro, o Tratado de Aliança e Amizade e o de Comércio e Navegação, firmados entre o Brasil e a Inglaterra, abriu a primeira brecha na estrutura montada pela Igreja Católica na hegemonia do sistema religioso brasileiro.52 Desde então os ingleses poderiam celebrar o culto protestante a bordo de seus navios que ancoravam o porto do Rio de Janeiro ou em residências particulares. Além dos ingleses favorecidos pelo Tratado, chegaram ao país cidadãos de outros países protestantes, entre eles: norte-americanos, suecos, dinamarqueses e escoceses. A maioria desses cidadãos ficaram na Corte e os demais foram para outras regiões à procura de trabalho.

Outro fator que contribuiu para a inserção protestante no Brasil foi o incentivo governamental à imigração européia, principalmente a alemã, alguns anos mais tarde. Como a Constituição brasileira de 1824 permitia uma certa tolerância a cultos de outras religiões que não fossem católicas, instalaram-se no país anglicanos, episcopais e luteranos. Ribeiro aponta que havia divergência quanto à concessão de liberdade de culto a brasileiros natos, pois somente estrangeiros protegidos pelo tratado de 1810 com a Inglaterra podiam realizar culto não-católico.53 Contudo o artigo 5º da Constituição brasileira de 1824 estabeleceu o seguinte: “A religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras religiões serão permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma

51 VELASQUES FILHO, Prócoro e MENDONÇA, Antônio Gouvêa. Ibid. p. 12.

52 RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo no Brasil monárquico, 1822-1888: aspectos culturais de

aceitação do Protestantismo no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1973. p. 16-17.

exterior de templo”.54 Apesar da limitação imposta por pressão da Igreja Católica Romana, os protestantes asseguraram seus direitos de expressão religiosa no Brasil.

A partir de 1850, começaram a chegar no Brasil os primeiros missionários protestantes com a finalidade de propagar sua fé. Segundo Mendonça, esse impulso corresponde ao que ele denomina de “Protestantismo missionário”.55 Por meio dele instalaram-se no Brasil a Igreja Congregacional, a Presbiteriana, a Metodista, a Batista e a Episcopal. Para uma melhor compreensão do Protestantismo, faremos um breve histórico a respeito de cada uma delas.

O missionário escocês chamado Robert Reid Kalley, juntamente com sua esposa, Sarah Poulon Kalley, deu início à Igreja Congregacional do Brasil. Robert Kalley trouxe para o Brasil o congregacionalismo, ramo calvinista das Igrejas livres da Inglaterra, praticando a democracia direta ao afirmar a autonomia das igrejas locais. O estabelecimento no Brasil se deu em 1855, no Rio de Janeiro. Robert Kalley introduziu a teologia conversionista simples, semelhante à dos avivamentos, e Sarah Kalley produziu um livro de hinos – Salmos e hinos – composto de uma miscelânea teológica em que prepondera a teologia do pietismo.56 Os hinários, posteriores e atuais, em uso em diversas denominações, têm como inspiração o hinário dos Kalley.

Segundo Douglas Nassif Cardoso, em 5 de outubro de 1856, Kalley já começava a utilizar a propaganda em jornais, publicando a tradução da obra de John Bunyan O Peregrino no jornal Correio Mercantil.57 Essa obra foi publicada em 35 capítulos, causando boa impressão junto aos leitores. Esta iniciativa foi um importante agente para propagar, durante esse período, suas idéias religiosas e liberais na sociedade e na corte. Kalley tinha por objetivo aproximar-se de vários segmentos da sociedade, por meio de sua atuação médica, artigos em jornais, contatos políticos e sociais, e, principalmente, o serviço de colportagem junto à população mais simples. De acordo com Émile G. Leonard, no período de 1855 a 1860 foram distribuídos 20 mil exemplares de Bíblias e

54 RIBEIRO, Boanerges. Ibid. p. 32.

55 VELASQUES FILHO, Prócoro e MENDONÇA, Antônio Gouvêa. Ibid. p. 31.

56 CARDOSO, Douglas Nassif. Sarah Kalley: missionária pioneira na evangelização do Brasil. São

Bernardo do Campo: Editora do Autor, 2005.

57 CARDOSO, Douglas Nassif. Robert Reid Kalley: médico, missionário e profeta. Universidade

Metodista de São Paulo, Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião, São Bernardo do Campo, 2000. p. 131.

Novos Testamentos no Brasil, realizado por meio de um intenso trabalho de colportagem, com a ajuda direta de seus colaboradores mais próximos.58

No dia 11 de junho de 1858, Kalley realizou o primeiro batismo de um brasileiro, em um culto doméstico no Rio de Janeiro.59 Kalley considerou este fato como um marco, a tal ponto de estabelecer nesta mesma data a fundação da primeira igreja, que recebeu o nome de Igreja Evangélica Fluminense, considerada a primeira comunidade protestante do Brasil. Com o estabelecimento da Igreja Evangélica, Kalley continuou com seus projetos evangelísticos por meio da utilização da mídia em jornais e revistas, da colportagem, dos cultos domésticos e da escola dominical. Porém, a denominação não se expandiu muito. Atualmente, as Igrejas congregacionais representam-se nacionalmente pela União de Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (UIECB). A UIECB possui um seminário teológico no Rio de Janeiro e outros isolados ou ligados ao trabalho denominacional em vários estados. Segundo o último censo demográfico realizado pelo IBGE em 2000, a denominação tinha naquela época em torno de 148.836 membros.

Em 1859, a Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América do Norte, conhecida como Igreja Presbiteriana do norte, enviou seu primeiro missionário ao Brasil, Ashbel Green Simonton, que chegou ao Rio de Janeiro em 12 de agosto do mesmo ano.60 Durante os oito anos de seu trabalho no Brasil, Simonton e seus auxiliares realizaram os seguintes feitos: a fundação de uma igreja no Rio de Janeiro, em 12 de janeiro de 1862; a fundação do primeiro jornal evangélico no Brasil, a Imprensa Evangélica em 05 de novembro de 1864; a organização do primeiro presbitério, do Rio de Janeiro, em 16 de dezembro de 1865; e a fundação do primeiro seminário teológico, no Rio de Janeiro em 14 de maio de 1867.

Os presbiterianos do sul, representados pela Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos, também enviaram um grupo de missionários ao Brasil, entre eles George Nash Morton e Edward Lane. Esses missionários estabeleceram colônias em diversas regiões do Brasil. Dentre elas, a colônia de Santa Bárbara do Oeste, na província de São Paulo,

58 LEONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 3ª Ed. São

Paulo: ASTE, 2002. p. 55.

foi a que mais prosperou. Seguindo a trilha do café, José Manuel da Conceição, ex-padre convertido ao Protestantismo, foi o responsável pela expansão do Presbiterianismo no país. Devido à influência de Conceição, a maior congregação presbiteriana foi a de Brotas, na província de São Paulo, por vários anos. A igreja em Brotas, em razão de sua posição, foi considerada de grande importância devido à evangelização do interior paulista.

Os presbiterianos organizam-se a partir da relativa autonomia da congregação local um sistema federativo e piramidal de concílios. Cada congregação local tem um conselho de presbíteros leigos eleitos por ela. Um grupo de congregações locais forma um presbitério. Um grupo de presbitérios forma um sínodo, e todos os presbitérios formam o supremo concílio ou assembléia geral. Devido aos sucessivos cismas, os presbiterianos brasileiros constituem atualmente nos seguintes grupos: Igreja Presbiteriana do Brasil, Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, Igreja Presbiteriana Conservadora e Igreja Presbiteriana Renovada. Os presbiterianos possuem uma significativa rede educacional no Brasil e também uma universidade, a Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

Os metodistas, após tentativa frustada em 1836, no Rio de Janeiro, estabeleceram-se de forma definitiva no Brasil em 1886, com os missionários Junius E. Newman, John J. Ransom, J. W. Koger e James L. Kennedy.61 O crescimento dos metodistas se deu quando a influência de seus colégios e o crescimento das cidades abriram as portas da burguesia em ascensão. Os metodistas se beneficiaram porque deram prioridade à educação, abrindo colégios por toda parte. Entre eles podemos citar a Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo, a Universidade Metodista de Piracicaba, no interior de São Paulo, o Instituto Bennett, no Rio de Janeiro e o Izabela Hendrix, em Belo Horizonte. A Igreja Metodista também produziu algumas dissidências e constituíram outras denominações no Brasil: Igreja Metodista Livre, Igreja Metodista Wesleyana e Igreja Avivamento Bíblico.

60 DUNCAN, Alexander Reily. História documental do Protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE,

1984. p. 110.

Os batistas tiveram seu início histórico no Brasil com a vinda dos missionários William Buck Bagby (1855-1939) e Zachary Clay Taylor (1851-1919), em 1881.62 Os missionários iniciaram suas atividades na Bahia e no dia 15 de outubro de 1882 ali fundaram a Primeira Igreja Batista. Logo de início atingiram alguns estados do Nordeste e depois o Rio de Janeiro. Após sete anos em atividade no Brasil, os batistas já possuíam oito igrejas organizadas nos estados da Alagoas, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro.63 Semelhantemente aos metodistas, os batistas atua ram nas áreas urbanas, onde a presença física da Igreja Católica constituía um grande obstáculo aos protestantes. Por esse motivo o crescimento inicial foi lento e difícil.

Os batistas também se dedicaram à educação, como os presbiterianos e metodistas, mas não fundaram tantos colégios como estes. Os batistas canalizaram seus recursos para a expansão de suas congregações e por esse motivo não se interessaram tanto pelo ensino superior. Porém, fundaram os colégios batistas em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. As igrejas batistas são autônomas, organizam-se em convenções regionais e estão espalhadas por todo o território nacional. Sua entidade máxima é a Convenção Batista Brasileira, mas há outras convenções concorrentes, como a Convenção Batista Nacional, que reúne os dissidentes de linha pentecostal.

A Igreja Episcopal do Brasil surgiu em 1898, no Rio Grande do Sul, expandindo- se para o Rio de Janeiro em 1908 e para São Paulo e Santa Catarina em 1920.64 O crescimento da Igreja Episcopal do Brasil tem sido lento, pois seu culto é muito semelhante ao da Igreja Católica, o que lhe traz problemas de identidade. Os missionários episcopais Lucien L. Kinsolving e James W. Morris chegaram ao Brasil em 1889, enviados pela Igreja Episcopal Protestante dos Estados Unidos. As Igrejas episcopais se formaram sob dupla orientação: de um lado, o conversionismo das Igrejas norte-americanas e, de outro, o rigoroso ritualismo do Livro de Oração Comum dos anglicanos.

Émile G. Leonard destaca que a instalação simultânea ou sucessiva no Brasil entre as igrejas congregacionalistas, presbiterianas, metodistas e batistas, além de outras

62 PEREIRA, José dos Reis (da Silva). História dos Batistas no Brasil (1882-1982). 2ª Ed. Rio de Janeiro:

Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1985. p. 15-25.

63 Idem. Ibid. p. 65.

denominações, provocaram uma forte concorrência entre elas, principalmente em relação ao trânsito de fiéis de uma para outra denominação.65 Os convertidos provindos do Catolicismo, ao deixaram a religião de origem, buscavam outra que respondessem melhor às suas necessidades espirituais. Estas concorrências entre as denominações ocorreram com protestos e discussões. Leonard cita um caso em que houve um acordo de delimitação de zonas, celebrado na Bahia, entre os missionários presbiterianos, de um lado e os batistas, de outro, posteriormente violado pelos presbiterianos.66 Além da concorrência entre a Igreja Católica e as igrejas protestantes, durante o século XIX, no campo religioso brasileiro, veremos que a disputa será mais intensa com o surgimento de um novo concorrente no início do século seguinte: o Pentecostalismo.