Assim como em outras abordagens, os estudos sobre as relações de gênero também apresentam uma diversidade de discussões sobre o tema. Tal fato pode ser explicado pela evolução das definições propostas em relação ao conceito de gênero, de acordo com a influência de cada época e contexto na formação de cada perspectiva.
Para apresentar as abordagens sobre gênero, primeiramente, é necessário esclarecer as diferenças entre os conceitos de “sexo” e “gênero”. Izquierdo (1994) justifica a ocorrência da diferenciação entre sexo e gênero como uma maneira de distinguir as limitações e capacidades implicadas pelas características sexuais biológicas, dos padrões de identidade, modelos, posições e estereótipos moldados pelas características sociais, psíquicas e históricas. Tais padrões e modelos são construídos por uma dada sociedade em um determinado momento e ditam como a pessoa deve ser e agir. Para Marodin (1997), o papel de gênero é um conjunto de comportamentos sociais que se esperam das pessoas de determinado sexo. Assim, a diferença de sexo distingue biológica e anatomicamente homens e mulheres, e a diferença de gênero envolve aspectos psicológicos, sociais e culturais da feminilidade e da masculinidade.
Entretanto, Bourdieu (1999) acredita que não se deve desprezar o fato de a construção dos gêneros envolver o corpo, apesar da ênfase no caráter social das diferenças entre homens e mulheres. O autor defende a existência de um processo contínuo e histórico de reprodução, cujas práticas e estratégias determinam a construção social dos corpos. Esse trabalho coletivo de socialização do biológico simultâneo ao de biologização do social – perpetuado por indivíduos e instituições – resulta em aparências biológicas reais incutidas nos corpos e mentes que mascaram a arbitrária divisão dos gêneros nas sociedades.
Dessa forma, o conceito de relações sociais de gênero deve ser pensado de forma particular, mas, ao mesmo tempo, de forma não-fragmentada, pois tais relações existem em todos os lugares e em todos os níveis do social. Ao se relacionar o conceito de relações de gênero à noção de prática social, possibilita-se a periodização histórica dessas relações, a qual é capaz de evidenciar as formas que a interação social entre homens e mulheres adquire ao longo do tempo.
Essa postura denota também uma historicização do biológico, inserindo as modificações nos hábitos, condições de vida, inovações tecnológicas e desenvolvimento técnico-científico nas análises das relações de gênero, o que possibilita compreender como limitações anteriores vão sendo superadas e como são desenvolvidas, a cada momento, novas configurações e possibilidades de interação entre homens e mulheres. Nesse contexto, a própria polarização fixa entre masculino e feminino se rompe com a possibilidade atual de se desligar reprodução de sexo, possibilitada pelas novas tecnologias reprodutivas (LOURO, 1997a).
Pode-se inferir, contudo, que, apesar das transformações nos papéis das mulheres e dos homens, tanto no meio familiar e privado, quanto no meio de trabalho e público, ainda existem desequilíbrios entre o masculino e o feminino em vários aspectos. Esse fato constitui um ponto de análise em comum entre as perspectivas que discutem as relações de gênero (CÀLAS e SMIRCICH, 1996), incluindo-se, entre elas, as abordagens feministas organizacionais, as quais têm procurado analisar a maneira como o gênero é entendido pelos indivíduos e como a distinção de gênero é construída, reforçada e perpetuada nas organizações. Mais especificamente, trata-se da focalização dos processos de formação da feminilidade e da masculinidade, de sujeitos femininos e masculinos em espaços organizacionais distintos (LOURO, 1997a).
Nos tempos atuais, as possibilidades abertas ao estudo organizacional das relações de gênero têm se multiplicado e diversificado, visto que o trabalho feminino se insere em diversos tipos de organizações, sejam elas públicas, privadas, ou do terceiro setor (STEIL, 1997; BAHIA e FERRAZ, 1999; OLIVEIRA, et al., 2000). Essa diversidade de espaços de estudo acerca das relações de gênero tem produzido resultados cada dia mais abrangentes e mais peculiares, quando se relaciona o gênero às especificidades culturais, sociais, locais e organizacionais de cada caso.
Nesse universo de estudos sobre as relações de gênero, Càlas e Smircich (1996) tentaram sistematizar a diversidade de perspectivas entre as abordagens feministas aos estudos organizacionais. As autoras procuram descrever como essas várias perspectivas interceptam outras teorias das organizações, e como cada uma delas enfatiza determinados elementos organizacionais, enquanto desprezam outros, ou seja, cada escola feminista fornece elementos alternativos para as assimetrias de gênero, trata do problema diferentemente e propõe diferentes formas para sua análise. Apesar disso, deve-se considerar que essas diversas perspectivas não apresentam uma fronteira de separação claramente definida, elas se cruzam e possuem pontos em comum, dando cada uma, uma importante contribuição para o tratamento das questões de gênero em épocas e contextos diversos.
Meyer (1996) comenta que o feminismo, ao se constituir como campo de estudos, busca articular modos de resistência ao questionamento de verdades estabelecidas que permeiam a produção e a reprodução das relações sociais entre homens e mulheres. Esses estudos têm se norteado por algumas questões básicas, tais como, a discussão das origens da hierarquia e da desigualdade configuradas nas relações entre os gêneros; ou a compreensão dos instrumentos e mecanismos sociais e culturais envolvidos na construção
social e histórica do sexo. Diante de questões tão amplas, há também diversas possibilidades de abordagem e análise, o que justifica o surgimento, a construção e a adaptação de diversas perspectivas teóricas acerca do gênero e das diferenças entre elas.
Càlas e Smircich (1996) procuram demonstrar as diferenças entre as abordagens feministas quanto ao conceito de gênero, relacionando-as aos contextos em que surgiram. As primeiras abordagens, por exemplo, consideravam as características biológicas de cada sexo como responsáveis pela desigualdade entre eles. Mais tarde, começa-se a entender gênero como um produto construído pela socialização e pelo acesso a experiências diferentes por homens e mulheres.
Por sua vez, Meyer (1996) identifica um outro eixo comum a todas as perspectivas feministas: a relação de dominação entre homens e mulheres, constituída por uma análise sobre e uma luta política pelo poder. Meyer (1996) utiliza, portanto, o poder como um conceito que permite mapear semelhanças, diferenças e limites no âmbito das correntes feministas, as quais serão apresentadas a seguir.
A primeira abordagem, segundo Càlas e Smircich (1996), é a Teoria Feminista Liberal, a qual se originou dos ideais políticos liberais de igualdade, liberdade e fraternidade, surgidos nos séculos XVII e XVIII, juntamente com a sociedade civil capitalista, e considera o sexo como uma variável binária, um dom biológico, e o gênero como a socialização do comportamento de seres humanos sexuados. Nessa abordagem, busca-se como ideal de sociedade aquela que permite aos indivíduos exercerem autonomia sobre seus direitos, e mantém uma objetividade positivista e neutra de gênero como posição epistemológica, baseada em metodologias da ciência social positivista, experimentos em laboratórios, e análises correlacionais, em sua maioria quantitativas. Suas limitações residem na aceitação da divisão hierárquica do trabalho e da desigualdade, em sua
orientação individualista, e na descrição do sexo e gênero como variáveis duais com características universais. Para Meyer (1996), essa abordagem adota uma concepção de poder associada ao Direito, com limites claramente definidos entre o lícito e o ilícito, permissão e proibição, deveres e direitos, etc.
Outra abordagem classificada por Càlas e Smircich (1996) é a Teoria Feminista Radical, surgida com a insatisfação das feministas com as políticas de direita e com o sexismo dos movimentos supostamente libertários do final da década de 60. A problemática fundamental dessa abordagem é a subordinação da mulher à dominação masculina, ditada pelo sistema de gênero construído socialmente (mas a partir de diferenças sexuais biológicas) para organizar a sociedade patriarcal. Nessa abordagem, busca-se a formação de uma sociedade que seja livre de gêneros ou sexos diferentes, defendendo um conhecimento holístico, centrado nos aspectos femininos, fora das estruturas patriarcais, e favorecendo metodologias de estudos de caso e de grupos de conscientização. Entre suas limitações estão: o caráter utópico da separação total entre homens e mulheres, mediante a criação de organizações feministas alternativas ao sistema capitalista; o fato de representarem apenas os interesses de mulheres brancas, de classe média e primeiro-mundistas; e o reforço ao estereótipo por celebrarem as características femininas sobre as masculinas. Meyer (1996) acredita que o poder, nessa abordagem, é visto como propriedade dos homens, exercido por eles sobre as mulheres e legitimado por diferenças inscritas em corpos sexuados universais e imutáveis, percebendo o feminino como desprovido de qualquer possibilidade de exercer o poder num mundo coabitado por homens.
Baseada na correção da crítica marxista à sociedade capitalista emerge a Teoria Feminista Marxista, pela qual se considera o gênero como um componente das relações históricas de opressão capitalista das classes sociais, ou seja, as mulheres são vistas como
uma das classes oprimidas por esse sistema. Essa abordagem dá origem à Teoria Feminista Socialista, na qual o gênero é constituído processualmente e socialmente mediante intersecções de sexo, raça, ideologia e opressão sob os sistemas capitalista e patriarcal. Portanto, o fim da segregação se daria apenas com a eliminação das classes e a transformação das relações sociais. Nessas duas abordagens, utilizam-se estudos de caso, etnografias, econometria, e análises históricas como metodologias de estudo e são limitadas por seu enfoque excessivo nas diferenças ideológicas, em detrimento da sua aplicação prática (CALÀS E SMIRCICH, 1996). Meyer (1996) considera o feminismo marxista importante, no sentido de ter introduzido aspectos contextuais, históricos, culturais e sociais na análise das relações de gênero, mesmo que sejam a partir das relações econômicas de produção vigentes. Nesse caso, o poder masculino exercido sobre as mulheres é justificado em decorrência da maior inserção dos homens na esfera produtiva.
Sob a forma de crítica e complemento à Psicanálise freudiana, surgem as abordagens clínicas da Teoria Feminista Psicanalítica que conectam o mundo mental dos indivíduos a suas experiências de desenvolvimento, por meio de metodologias, como estudos de caso clínicos e histórias de vida (CALÀS e SMIRCICH, 1996). De acordo com essas abordagens, a natureza humana se desenvolve biologicamente e psicossexualmente, e a identificação sexual dos indivíduos é parte de seu desenvolvimento psicossexual, influenciado pelo sistema social de dominação masculina. Nas posições teóricas dessas abordagens, defende-se que o conhecimento das mulheres difere do dos homens devido a seu desenvolvimento psicossexual distinto.
Uma outra teoria trazida à discussão por Càlas e Smircich (1996) é a Terceiro- Mundista ou Pós-Colonial, na qual se critica a universalidade das questões de gênero levantada pelas feministas do primeiro mundo, cujo caráter totalitário considera as outras
mulheres como seres invisíveis ou quase humanos. Nessa abordagem, criticam-se as relações de dominação do primeiro mundo sobre os demais países, permitidas pela difusão de um conhecimento tido como supremo e inquestionável do centro para a periferia.
Meyer (1996) acredita que essas últimas abordagens (a Psicanalítica e a Terceiro- Mundista), por introduzirem em suas análises aportes da Psicanálise e da articulação com outras categorias sociais, como classe, raça/etnia, religião, etc, aproximam-se teoricamente com o Pós-Estruturalismo. Nesse caso, Càlas e Smircich (1996) apresentam uma subdivisão mais específica dos estudos sobre gênero que envolve a Teoria Feminista Pós-estruturalista ou Pósmoderna. Essa teoria se baseia nas críticas pós-estruturalistas ao conhecimento e à identidade, centrando-se no papel dos discursos e linguagens perante a subjetividade. As relações de gênero/sexo são, então, consideradas como práticas discursivas que distribuem manifestações de poder e resistência entre as pessoas. Procura-se, portanto, analisar o gênero com referência à localidade e especificidade de cada discurso, desconstruindo e reformulando verdades universais, o que favorece metodologias como análises textuais e genealogias foucaultianas. Nessas abordagens, lida-se com a idéia de múltiplas dominações que atravessam, reforçam ou fragilizam um poder mais plural e menos centralizado.
De acordo com Meyer (1996), ao se considerar o poder como um eixo comum para a análise das relações de gênero, deve-se diferenciar as relações de poder das relações de dominação. Deve-se, portanto, considerar o poder como capacidade de agir sobre a ação do outro (como em Foucault, 1995), diferenciando-o das relações fixas e assimétricas que caracterizam a dominação, no qual a estratégia concreta de reação deixa de existir.
a instância em que e por meio da qual os seres humanos aprendem a se converter em e a se reconhecerem como homens e mulheres, nos diferentes contextos históricos, culturais e sociais. Porque referida a um corpo físico, portanto natural, a diferença sexual assume um estatuto de fixidez e universalidade, que oculta as clivagens, reagrupamentos e ressignificações produzidas na dinâmica de relações de poder e resistência, específicas e particulares, que constroem e reconstroem o sujeito sexuado. (MEYER, 1996, p.48-49)
O poder, portanto, pode ser utilizado como um conceito pelo qual permite mapear semelhanças, diferenças, limites e transformações no âmbito das relações de gênero.