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A atual diretora encontrou a escola em condições desfavoráveis de funcionamento e buscou implantar uma série de mudanças a partir de sua vontade íntima e desencadeadora. Seu papel na transformação da escola como incentivadora de mudanças foi um item recorrente, que vem ao encontro do que Brunet afirma sobre o clima organizacional escolar: “a resposta dos responsáveis

face a uma determinada situação tem efeitos no clima.” (idem, p. 128).

Podemos afirmar que a chegada da diretora foi um marco de mudança nas características do clima organizacional e nas concepções da equipe educacional sobre as próprias potencialidades, reformulando a própria identidade institucional. Nota-se aqui que o momento de troca de direção da escola proporcionou essa ruptura, alterando significativamente o clima organizacional escolar. Esse novo ambiente é percebido pelas professoras, como no relato da professora Maria Clara:

Acho que o apoio maior, como essa é uma escola, é da parte da direção, né, e a diretora... ela é ótima, ela te compreende, ela tem assim, o dom da palavra com os funcionários, com os alunos, que eu admiro muito, sabe esse... o jeito de falar com as pessoas? Não precisa ser autoritária para você querer as coisas. Então, ela, com jeitinho, ela consegue muita coisa da gente, né. (...) Acho que tanto a diretora que é acima de nós, eu acho que a gente toma isso como exemplo. Então a gente passa isso também para os alunos, né, que nós somos unidos, que... e ela também transmite muito isso pra gente, essa alegria, essa espiritualidade, esse carinho, né, que ela tem. (...) Porque eu acho que... sem uma pessoa assim... que eu já trabalhei em outras escolas e por mais que o grupo tentasse se unir, e tudo, a pessoa que seria a parte administrativa, né, que seria uma direção, coordenação, desmanchava aquele grupo. (...) Então assim, é um respeito mútuo, eu dou bastante valor para isso. (Profa. Maria Clara)

Aqui vale ressaltar mais uma característica que pontua a favor de uma postura corajosa frente às ameaças. Aprender com os próprios erros e de sua equipe, se preciso for, voltar a estudar para melhor enfrentar os desafios:

Nós estamos juntos, se a gente errar, nós vamos errar junto, mas errar por uma boa intenção. A nossa intenção é acertar, sempre, e a gente vai procurar respaldo, nós não estamos fazendo por ouvir dizer. Nós vamos primeiro pesquisar, nós vamos estudar, nós vamos voltar pra Universidade, vamos fazer as coisas com paixão. (Diretora Celina)

Neste sentido a diretora da escola tem um papel importante na implantação de uma dinâmica de constante aprendizagem, adaptando-se às variáveis do cotidiano sempre buscando inovar, criando a cada dia uma “nova instituição”. Como diz Morin: “(...) para se reformar a instituição, temos de reformar as mentes, mas não

se pode reformar as mentes sem uma prévia reforma das instituições.” (apud

MANTOAN, 2003, p. 20)

Esta realidade do papel da diretora constatada na entrevista e nas observações, pôde também ser comprovada nas entrevistas com as professoras:

A diretora falou: Edinéia, nós vamos fazer até acertar. Resolvemos o problema... Agora, nós pedimos o tanque de areia, fizemos uma piscina de tanque de areia, ela tá fazendo o tanque de areia lá embaixo, já tá sendo construído. Então é uma pessoa que ela também acredita no nosso trabalho. E ela dá essa liberdade. Você fala: “Hoje eu vou fazer isso”... mas você não faça sem falar. Tudo é comunicado, e tudo pode se fazer. Claro que ela avisa, o sucesso não se ganha sozinha, é tudo coletivo. Às vezes eu não tenho uma visão, mas a outra tem. Então, o trabalho é de grupo, sempre nós trabalhamos em equipe, uma ajuda à outra, uma colabora com a outra... (Professora

Edinéia)

Há aqui o apoio por meio de recursos materiais e também o apoio pedagógico, no sentido da confiança no trabalho das professoras, que percebem isso na troca de informações e na valorização da coesão da equipe docente por parte da direção da escola. E esse relato reforça novamente a contribuição do papel da direção na constituição do clima organizacional escolar, como expôs Brunet (1992).

No contato com experiências bem sucedidas de integração/inclusão de alunos com deficiência na escola regular, Amaral (2002) aponta para um fator imprescindível: a “flexibilização da hierarquia rígida de saberes e fazeres”:

(...) hierarquia essa, muitas vezes, apoiada em “especialidades” que se opõem a diferentes formas de conhecimento da realidade ou, em outras, em degraus institucionais de caráter funcional – ambos apoios impedindo a livre circulação de aspetos comuns. (...) desejo apenas enfatizar que ela pode invadir espaços em que não seria necessária sua cristalização e, sim, seria imprescindível sua flexibilização. Quantas vezes a observação de uma merendeira, por exemplo, pode ser preciosa contribuição para a ação pedagógica e vice-versa! (p. 246)

Um exemplo da ocorrência dessa flexibilização é apontado pela própria diretora:

Todos nós temos alguma coisa para contribuir, isso eu valorizo muito e tenho conversado muito com a equipe, faço reuniões com a equipe de apoio, inspetores de alunos, pessoal de limpeza, merenda... de valorizá-los, de dizer: “Olha, aqui não existe ninguém mais do que o outro, né, nós somos seres imprescindíveis nesse trabalho”. Tudo que nós falamos em termos pedagógicos e técnicos, a gente fala com eles: como tratamos os autistas, porque tratamos, porque às vezes temos que contê-los, tudo, tudo, a gente fala, na medida do possível, tem coisas que são sigilosas, mas tudo o que é pra que as vidas aqui dentro sejam valorizadas, nós tratamos. Porque senão fica uma coisa de hierarquia e parece que a coisa não flui, porque aquilo “não é a minha obrigação, é obrigação do outro, então eu não vou, o meu limite é aqui, mas o do outro começa ali...” Então eu costumo falar pra elas, eu uso a metáfora da corrente, então eu digo: “nós somos elos de uma só corrente, quando um elo se quebra, pra que serve a corrente?”, né. Então toda pessoa que se propõe a trabalhar numa unidade escolar, é um educador (...) Com carinho, com respeito, mas deve ser, né. Então eu gosto disso e os funcionários também, eles contribuem muito à essa valorização, não é, que eu sei que aqui nós temos, que precisa de uma... não é perfeita, não, precisa ser aprimorada, mas valorizar a vida de todos os envolvidos, é pra mim isso é o mais importante. (Diretora Celina)

A inexistência de barreiras entre os colegas da escola, e o sentimento de valorização advindo do resultado do trabalho, parecem ser uma extensão da personalidade da diretora.

Às vezes a gente vai, nós vamos, uma só da equipe; que vai e busca informação e vem como reprodutor, né, como um semeador do que aprendeu, na medida que isso for possível... é... acabou... até

trocando, porque a medida que a gente passa o que recebeu, também tem essa troca, né.

Finalmente, de acordo com as observações e as entrevistas entre as professoras, podemos enumerar algumas características designadas à diretora, tais como:

1. O “dom de lidar com as pessoas” 2. Flexibilização da hierarquia 3. Dedicação ao trabalho

4. Expressão de sentimentos incentivadores (alegria, espiritualidade, carinho)

5. Incentivo à troca de aprendizados e colaboração entre a equipe 6. Valorização da equipe escolar

7. Facilitação da coesão na equipe

8. Incentivo ao aprendizado com os erros 9. Incentivo à formação em serviço

10. Gestão participativa 11. Respeito mútuo

12. Criação e aplicação de novas metodologias.